Capitulo 30
Por Daniela
Puta que pariu! Eu mal conseguia acreditar que tinha perdido a hora de ir buscar a tal fodona das galáxias. Minha sorte é que o voo tinha atrasado um pouco. O relógio marcava exatamente 3:30hrs da manhã naquela madrugada de domingo para segunda, e por incrível que pudesse parecer, especialmente naquela madrugada estava fazendo um frio incomum para uma cidade como Fortaleza. Fiquei me perguntando se aquilo fazia parte do meu castigo, afinal de contas, fala sério, quem estaria feliz em sair da sua caminha quentinha para estar em um aeroporto com pessoas transitando a todo o momento e um barulho infernal na sua cabeça em plena madrugada? Pois é, acho que ninguém! Mas o que não fazemos para ver amigas felizes?
O voo da tal amiga da Marcela, tinha aterrizado há alguns minutos e eu estava agora em uma cena patética: Vestida com um moletom cinza, calça preta, chinelo havaianas e provavelmente toda descabelada, graças a minha pressa em sair de casa. Nas mãos eu segurava uma plaquinha com o nome “Bárbara De Veiga”. Eu nem precisava me olhar no espelho para saber que estava parecendo uma maluca, e eu tive certeza disso quando vi os olhos espantados de uma menininha que estava ao meu lado me olhando dos pés a cabeça sem esconder o julgamento. E ela nem parecia sentir constrangimento algum em fazer isso.
– Olá, garotinha. Sabe esses trajes nada comum para se estar em um aeroporto? – Ela continuou fitando meus olhos como se perguntasse que doida era aquela à sua frente. – Pois é! Isso é o que acontece quando se tem amigas folgadas. Portanto, reveja sempre reveja suas amizades enquanto tô for tempo.
Fiz um carinho na sua cabeça e a vi começar a sorrir junto com sua mãe. As duas pareciam se divertir com aquilo que eu dizia.
Quando percebi pessoas saindo pela porta de desembarque voltei a prestar atenção e posicionar aquela plaquinha, ou melhor, aquela folha de A4. Eu tinha improvisado de última hora ali mesmo no aeroporto.
Eu estava procurando pela mulher que a Marcela me descreveu enquanto pensava comigo mesma que ela bem que poderia ter facilitado minha vida e ter me dado uma foto da tal mulher.
Tentei focar no que Marcela tinha me falado: “ela é alta, seus cabelos são castanho escuro e comprido. O é rosto fino, dona de um nariz empinado. Não tem erro Daniela, confio em você.” Bufei de raiva quando lembrei das suas palavras… Olha o tanto de gente que está desembarcando e tinha as mesmas características. “Eu te mato, Marcela!” Mentalizei bem para lembrar de fazer isso depois.
As pessoas começaram a passar aos montes pela porta de desembarque, mas nenhuma delas vinha em minha direção, e eu já me perguntava se a mulher tinha se perdido. Se algo acontecesse com essa mulher, Marcela comeria meu fígado sem cebolas.
– CRUZES! – Fiz uma cara de nojo quando pensei na comparação idiota que fiz. Pobre do meu fígado!
Eu já estava ficando sem esperanças e começava visualizar as mil e uma formas possíveis que Marcela me mataria. Dava até um frio na barriga quando as imagens que vinham na minha cabeça. Tentei pensar positivo… Não era possível que ela não estivesse no voo. Ela tinha confirmado com Marcela sobre sua vinda poucos minutos antes de embarcar, e se algo tivesse dado errado, ela provavelmente já teria avisado.
– Droga! Essa mulher está me dando trabalho antes mesmo de dizer “Olá Brasil!” – Comecei a andar de um lado para o outro como reflexo do meu desespero.
Estava indo em direção aos seguranças para me informar se ainda tinha alguém para desembarcar, mas parei no instante que a vi cruzando a porta. Só poderia ser ela, tinha que ser ela. Fiquei tão desconcertada com aquela deusa... quer dizer, aquela cena, que até abaixei a plaquinha e pude sentir minha boca secando no mesmo instante que abria em um perfeito “O”. Parece até que eu sou dramática, mas era impossível não reagir assim. Ela era um mulherão, dona de um corpo extremamente definido, cheio de curvas e músculos. O cabelo era tão liso, que balançava em câmera lenta com o vento que nem sequer existia. Ela parecia fogo flamejante, uma combinação perfeita de deusa grega. A mulher era a própria Afrodite. “Meu Deus, estou viajando demais. Mas preciso de um desconto, não é todo dia que a gente vê uma mulher dessa pisar na terra.” Pensei comigo mesma.
Eu sentia que minha baba estava escorrendo em câmera lenta também, o que era ridiculamente vergonhoso que eu estivesse naquela posição diante de uma mulher que eu nem conhecia. Mas eu não podia negar que Marcela tinha razão quando disse que assim que eu a visse iria reconhecê-la pelas descrições que ela me fez.
O tempo parecia ter parado por um instante enquanto agora estávamos frente a frente. Eu não saberia bem como descrever a maneira como estava sendo analisada pela mulher, mas definitivamente ela não parecia constrangida em demonstrar o desprezo com a qual me olhava. Sua expressão estranha denunciava que ela provavelmente achava que estava vendo um extraterrestre em sua frente. Mas como eu poderia julgá-la? A maneira como eu estava vestida e como meu cabelo estava bagunçado, não ajudava em nada.
“Vamos lá Dani, volta para realidade, respira mulher, encontra o ar que faltou lá atrás.” Conversei comigo mesma tentando reunir o resto da minha dignidade.
– Olá! Você deve ser a amiga da Marcela que veio me esperar. – Minha alma quis pular para fora do meu corpo no mesmo instante que ela abriu a boca. Aquele sotaque… Que perdição! – Desculpe-me pela demora em desembarcar, mas tive alguns problemas com a bagagem.
Definitivamente me perdi por um momento diante daquele sotaque português que impregnava em meus ouvidos. Só me dei conta do quanto estava feito boba, quando a beldade estalava os dedos chamando minha atenção.
– Ei, está tudo bem com você? – Fitei seus olhos pela primeira vez e, puta que pariu, me perdi novamente, mas procurei juntar os cacos da minha dignidade e me recompor. – Daniela, não é? – Ela me perguntou, mas como ela sabia meu nome? – Jesus! Marcela me avisou que você é palhaça, mas não lembro de ter mencionado que você tivesse problemas de audição. Se esse for o caso, eu sinto informar, mas pulei a aula de libras na faculdade.
– Ei, eu não sou surda e nem muda. É claro que eu sei falar! Olha eu aqui falando com você. – A mulher ergueu uma sobrancelha com uma expressão séria. – Me desculpa, eu só... Bom, esquece. Sou eu sim, Daniela Gaspar, a sua total disposição.
Juro que tentei não falar a linguagem “cafagestai”, mas às vezes eu não consigo me controlar, então talvez tenha acabado soando como algo cheio de segundas, terceiras, quartas intenções… Um pouco mais, um pouco menos… Como vou saber?
– Se isso foi uma cantada, devo dizer que você foi péssima na tentativa. - Ela respondeu cheia de si. – Bom, Marcela me mandou uma foto sua para que eu pudesse reconhecê-la, e também me disse seu nome para facilitar a comunicação entre nós em um primeiro momento.
“Caraca mano, Afrodite também lê mentes.” Pensei! Ela adivinhou aquilo que eu estava me questionando. Mas logo também pensei “Que injustiça é essa? Por que ela ganhou uma foto para facilitar as coisas, e eu não? Aquela sapa patroa deve ter feito de propósito apenas para me ver passar vergonha. Aposto que deve estar rindo da minha cara, agora. Bom, pelo menos estou com sorte, ela não deu a mínima para meu lado galanteador... Ei, espera ai, ela realmente não deu a mínima… Que mulherzinha abusada!”
– Você entende bem o nosso português?
“Puta que pariu, Daniela! Como você faz uma pergunta dessas? Primeiro que não é uma língua tão diferente da sua, e segundo que ela conviveu com Marcela durante anos, portanto, é claro que ela entendia bem o idioma.” Voltei a pensar comigo mesma.
Eu não sabia que merd* estava acontecendo comigo, mas eu estava claramente me comportando como uma idiota, e óbvio que guardaria todos esses pensamentos para mim. Seria vergonhoso admitir algo assim para Marcela.
– Não se preocupe! Eu entendo perfeitamente o idioma de vocês. Até porque, não é muito diferente do meu. Sem contar que tive uma ótima professora durante muito tempo. – Ela disse exatamente aquilo que eu já havia deduzido.
“Toma sua distraída! Isso é para você deixar de ser tonta.” Pensei!
– Ok, Então vamos logo. Vou te levar para o seu apartamento.
Seguimos lado a lado, porém em silêncio em direção ao estacionamento.
Ajudei colocar sua bagagem na mala do carro, bagagem essa que, diga-se de passagem, não era pouca. Fiquei me perguntando porque ela tinha que ter trazido tantas malas. Eram tantas, que algumas precisaram ficar no banco de trás do carro, e nesse momento agradeci aos céus por ter retirado toda a bagunça que costumava ficar impregnada no meu carro. Não que não fossem coisas necessárias, já que eu sempre deixava sapatos, roupas, bolsas e até algumas comidinhas de bobeira, mas isso é uma questão de sobrevivência, não é mesmo? Nunca sabemos os imprevistos que podemos enfrentar.
– Você deve estar cansada da viagem. – Tentei puxar assunto enquanto o carro começava a se movimentar em direção a saída do aeroporto.
– Já estou bastante acostumada com viagens longas. Você disse que iremos para meu apartamento?
Eu estava começando me incomodar como estava me sentindo completamente perdida naquele sotaque. Por que diabos, tinha que soar como algo tão provocativo saindo da boca carnuda dela?
– Ah, sim! Marcela me mandou alugar um apartamento para que você pudesse se sentir mais em casa e ter sua privacidade garantida. Ela disse que você é do tipo que gosta das coisas do seu jeito. – Tentei parecer indiferente.
– Realmente! Gosto de me sentir uma loba solitária. Quando eu vou poder vê-la?
Ela adotou um tom de voz sério, mas ao mesmo tempo era naturalmente sensual, rouca e gostosa... “Espera, eu disse o quê? Para com isso Daniela, foca no problema!”
– Amanhã de tarde eu te busco para te levar até a empresa. Marcela tem uma reunião pela manhã, e também achou que seria bom você descansar.
– Tudo bem! – Respondeu simplesmente de forma séria e virou-se para a janela observando os lugares por onde passávamos.
Não demorou muito para que chegássemos ao condomínio que eu havia alugado um apartamento para a portuguesa que parecia ser bem abusada. Quando chegamos no local, ela avaliou cada detalhe, desde a rua ao redor até o estacionamento. Ali logo percebi que ela era uma mulher muito séria, bastante observadora e fodidamente misteriosa. Dei de ombros, já que a profissão dela exigia isso.
Agradeci aos céus por ter bastante espaço no elevador e caber todas aquelas malas de uma só vez. Entramos no apartamento e não foi diferente… O seu olhar avaliativo era quase como o de uma águia que perseguia uma presa. Será que ela iria implicar com o lugar? Tá certo que ela parece com a Afrodite, mas qual é? Ela não pode se comportar como alguém da realeza esperando por palácio. Sem falar que o apartamento era perfeito e bastante confortável, exatamente como Marcela me pediu que fosse.
– Espero que esteja do seu agrado. – Falei enquanto ela andava pelo espaço olhando tudo a sua volta.
– Está perfeito! Não sou alguém superficial, logo não tenho problema com essas coisas. Eu só estou avaliando o espaço e a localização pensando no trabalho. Preciso de tudo muito bem arquitetado para o que vir fazer aqui.
Fiquei olhando com curiosidade para ela, sem fazer ideia do que ela queria dizer com aquilo tudo. Eu também não conseguia deduzir como ela ia conseguir ajudar a pegar aquele desgraçado que estava disposto a perturbar a paz de Hanna. De qualquer maneira, eu confiava em Marcela, e se ela achava que essa deusa iria conseguir, então eu também acreditava nisso.
– Bom, está entregue. Fiz compras para você, hoje cedo. Seus armários e geladeira estão abastecidos. No seu quarto você vai encontrar roupas de cama novas e no seu banheiro todos os produtos de higiene pessoal. – Eu disse e pela primeira vez ela me olhou adotando um olhar curioso.
– Você fez tudo isso? Como sabe o que eu gosto de comer?
– Eu não sei! Apenas segui minha intuição. – Pisquei para ela que como uma lua de fases, logo voltou a manter sua postura séria novamente.
– Ok! Veremos então se sua intuição é confiável. Depois te conto o que achei do seu improviso.
Revirei os olhos enquanto ela estava de costas, mas o destino costuma ser um filho da puta comigo, então é claro que ela tinha que virar no exato momento em que eu fazia aquilo. A mulher me fitou com mistério transbordando nos olhos, como se pudesse ler minha mente, ou pior, como se estivesse naquele exato momento lançando um desafio de linhas invisíveis entre nós, e aquilo me deixou incomodada, como se ela estivesse invadindo um espaço que era só meu, que ninguém além de mim podia conhecer. Isso era uma sensação estranha, mas que estava ali presente e eu me desesperei.
– Bom, agora que está bem instalada eu vou indo, porque já já amanhece o dia e preciso trabalhar. Espero que descanse bem. Às 13hr, venho buscá-la para levá-la até a Marcela. Por favor, não atrase. – Ela deu uma breve risada e eu não entendi o motivo. – O que tem de engraçado?
– Você! Na verdade, você tá tentando ser engraçada, não é?
– Eu realmente não entendi. – Não menti! Era madrugada e eu não estava mesmo conseguindo acompanhar o raciocínio dela.
– Vejamos… – Seus olhos percorreram meu corpo de baixo a cima, e quando seu olhar encontrou com meu, existia um deboche palpável. – Você não me parece ser o tipo de pessoa que não se atrasa. – A portuguesa disse com um sotaque carregado de ironia.
Só então entendi que ela estava mesmo era zombando da minha cara.
– Logo se ver que não me conhece direito. – Cruzei os braços a altura do peito adotando uma postura desafiadora.
Tá certo que eu não era exatamente a pessoa mais pontual do mundo, mas ela não poderia agir como se me conhecesse. Era inadmissível um julgamento tão acertivo quanto aquele.
– Veremos, cara Daniela. Veremos!
Porr* aquele maldito sotaque português era a coisa mais embriagante que já vi na vida, mas também estava se tornando irritante aquele soar desafiador da voz daquela mulherzinha chata.
Sem dizer mais nenhuma palavra, bufei de raiva e sai do apartamento já imaginando que aquela mulher iria me causar sérios problemas.
Por Bárbara
Já passava dás 13:30hrs, e nada daquela baixinha metida a engraçada chegar. Não que isso fosse uma surpresa para mim, afinal de contas, sei reconhecer as pessoas assim que meus olhos caem sobre elas, mas também não é muito do meu agrado ficar esperando. O lado bom daquela espera, era saber que eu ia adorar jogar o atraso na cara dela.
Eu já estava ficando realmente aborrecida quando finalmente ouvi a campainha tocar. Fui em direção à porta e dei de cara com ela, parada diante de mim mantendo aquela expressão desconfiada típica de quem sabia que tinha perdido o primeiro desafio.
– Ora, vejam só se não é a senhora pontualidade em pessoa. Pensei que você tinha falado 13hrs. – Murmurei calmamente.
– Nem começa, Afrodite. Não é porque você parece uma deusa, que vou permitir me encher a paciência. Eu tive apenas um pequeno atraso graças ao trânsito dessa cidade que é caótico.
Olhei para ela tentando lembrar desde quando dei liberdade para tamanha ousadia de me apelidar. Não era um apelido ofensivo, mas ultrapassava limites que nem de longe eu gostaria que fossem ultrapassados. Minhas barreiras deveriam ser inalcançáveis.
– Primeiro, posso saber que apelido horrendo é esse? Segundo, posso saber desde quando te dei liberdade para falar comigo com essa intimidade? Terceiro, seu atraso não me surpreendeu, afinal, como eu já tinha dito antes, você não tem cara de cumprir horários.
Pude ver uma veia da sua testa latejar enquanto seu olhar mortal pousava sobre mim.
– Primeiro, quanto ao apelido, pensei que fosse mais inteligente para saber o que é Afrodite. Segundo, não preciso da sua liberdade para fazer o que quero. A boca é minha e falo como quiser. Terceiro, vá se ferrar!
Definitivamente aquela baixinha me traria problemas. Eram raras as pessoas que tinha coragem de ser tão ousadas comigo. Alias, se fosse qualquer outra pessoa falando daquele jeito comigo, provavelmente estaria muito arrependida agora, mas aquela baixinha... Não sei porque, mas era realmente muito bom vê-la irritada e só por isso eu fechei os olhos para sua afronta.
– Você é sempre muito adulta assim? – Perguntei séria, mas por dentro eu gargalhava em ver sua cara ficando cada vez mais vermelha de raiva.
– Olha só, portuguesinha. Vou me reservar ao direito de te ignorar, ok? Vamos logo para a empresa? Não sei se percebeu, mas estamos perdendo tempo nessa discussão idiota.
– Ok, sua baixinha enfezada. Vamos logo!
Saímos do apartamento e seguíamos em direção ao estacionamento quando surpreendi com o que ela falou em seguida:
– Toma aqui! – Ela me jogou a chave de um carro, e se eu não tivesse um reflexo tão bom, estaria com uma marca bem no meio da testa. – Aquele carro é seu. – Ela apontou para um Evoque preto estacionado na vaga com o número do meu apartamento. – Ele já está todo equipado com GPS, e também é blindado. Foi Marcela que mandou locar para você durante o período da sua estadia.
Parei diante do carro que era simplesmente magnífico. Foi amor à primeira vista. Marcela sabia da minha paixão por carros, mas jamais imaginei que ela acertaria um dos meus modelos preferidos.
– Foi a Marcela que escolheu o modelo? Uau! Ela definitivamente acertou o meu gosto.
Um sorriso cínico foi desenhado pelos lábios da baixinha, que se aproximou de mim esbanjando uma sensualidade vitoriosa.
– Então Afrodite, sinto muito te decepcionar, mas quem escolheu o carro foi eu. Aparentemente tenho um bom gosto, não é?
Ela piscou o olho enquanto deslizou um dedo ao redor do meu rosto me deixando quase de queixo caído, não apenas pela ousadia, mas por sempre acertar minhas preferências. Percebi isso em relação às comidas, e agora no carro. Que diaba de mulher vidente era essa?
– Não fica se achando, não. Você apenas deu sorte. – Eu disse e ela revirou os olhos. Em seguida se afastou de mim.
– Olha só! Você vai no seu carro, seguindo o meu. É para você começar a se familiarizar com o caminho. Acredito que você vai precisar fazer muito esse percurso.
Eu não gostava de receber ordens, mas não podia negar que ela tinha razão. Então, mesmo contra vontade, fizemos como ela disse. Durante o caminho fui observando o máximo de coisas possível, assim como tentei memorizar o caminho que fazia, já que realmente iria precisar ir mais vezes ao local.
Logo chegamos na empresa de Marcela e fiquei admirada com o tamanho do lugar. Lembro que ela sempre me falava sobre quando resolveu abrir a empresa em sociedade com uma de suas amigas, ela sempre disse que começaram do zero, mas que logo estavam crescendo e expandido os serviços, mas jamais imaginei que era algo tão grande.
Desci do carro vendo a outra fazer o mesmo e me esperar do lado do seu carro. Entramos no local e Daniela parou me apresentando a um dos muitos seguranças que estavam ali logo na entrada, pelo o que pude entender ele era o responsável pela equipe de segurança de Marcela. Daniela autorizou minha entrada e pediu para que o homem se certificasse de garantir que não fosse necessário que eu passasse por identificação nas próximas vezes que eu fosse ao local.
– Suponho que toda essa segurança na entrada seja pelo problema que Marcela está enfrentando com a namorada. – Disse quando entramos no elevador.
– Exatamente! Marcela mandou reforçar a segurança da empresa e também estão andando com seguranças particulares.
– Então o caso é mais sério do que pude prever.
– E você está aqui para ajudar a resolver, já que pelo visto Marcela não confia apenas na polícia local.
– Tenha certeza que darei o melhor de mim. Talvez eu vá além do meu limite se for preciso. – Garanti adotando uma postura séria enquanto a porta do elevador abria.
Logo surgiu a imagem de uma loira, até que bonita, mas muito metida.
– Danizinha, quanto tempo que não nos esbarramos nesse elevador. – A cara da mulher era de pura malicia, enquanto a outra idiota mal conseguia disfarçar que tipo de encontros tiveram naquele lugar.
– Lamentável não é mesmo? Mas podemos resolver isso qualquer dia desses, meu bem. – Daniela falou e eu quase peguei um babador para ela.
– Só dizer quando e onde que estarei a sua disposição – A loira passou as unhas contornando seu queixo, o que me fez revirar os olhos para aquela cena patética.
– Não faz assim que não aguento. É como se um cupido acertasse em cheio a flecha em meu coração.
Ouvir aquilo quase me fez vomitar. Meu Deus, alguém precisava urgentemente ensinar essa mulher a usar uma cantada que preste. Que tipo de mulher cai em uma lábia como aquela?
Fiquei tão horrorizada com a falta de talento da baixinha para cantadas que tossi propositalmente me fazendo ser notada, e claro, acabar com aquela palhaçada. Eu não era obrigada ser submetida assistir um show de horrores.
– Desculpa não poder te dar atenção agora, Daisy. Prometo resolver nossos desencontros muito em breve.
Que idiota, ela sequer teve a educação de me apresentar.
Seguimos pelo espaço depois que a loira saiu da nossa frente, e eu não pude ser indiferente à cena que tinha acabado de ser obrigada presenciar.
– Você se esforça muito para ser cafajeste assim, ou é algo que sai naturalmente? – Olhei para ela que parecia pouco se importar com o que eu falava.
– É talento que chama, Afrodite. Cuidado para não se apaixonar, eu não quero magoar seu pobre coração. Sabe como é, né? Tenho muitas fãs e preciso dar atenção a todas.
Agora sim ela tinha conseguido me atingir. Gente, eu ia matar essa mulher! Que tipo de mulher ela pensava que eu era? Eu jamais me apaixonaria, ainda mais por alguém como ela, afinal de contas, aquelas armas que ela usava eu as manuseava muito bem.
– Que gracinha! Não precisa se preocupar comigo, meu bem. Eu não costumo andar por galinheiros. Além disso, eu já disse que você é péssima em cantadas? Não bate tesão aqui, sabe como é? – Disse apontando para nós duas.
A baixinha me olhou sem conseguir esconder como estava incrédula. Era como se por um momento ela tivesse ficado sem palavras para responder minha provocação. É isso ai Bárbara, ponto para você.
Daniela parou na frente de uma senhora muito simpática e repetiu o mesmo gesto que teve anteriormente com o segurança, se certificando em me fazer apresentada e ter livre acesso ali. Em seguida, ainda contrariada, ela me conduziu para o que pude reconhecer facilmente como sendo a sala da presidência da empresa.
– Finalmente vocês chegaram. Minha amiga, que saudades de você!. – Marcela me abraçou forte e retribui com a mesma intensidade.
Quando desfizemos aquele abraço, eu respondi:
– Culpa dessa sua amiga maluca ai – Apontei para a baixinha que me olhava com uma expressão enfurecida. – Ela me fez esperar quase uma hora, acredita nisso? Sem falar na falta de talento que ela tem para cantar mulheres em elevador. Aliás, você permite que suas funcionárias se agarram nos elevadores? Você ficará chorada de souber o que eu descobri.
Marcela olhou para a amiga com cara de poucos amigos, quando falei a última parte. Se eu bem conhecia Marcela, ela levava o trabalho muito a sério, e uma das suas regras era sempre manter a ética profissional.
– Que foi? Não me olha assim. Eu não tenho culpa se sou gostosa demais e todas me param pelo caminho. – Daniela respondeu sem parecer realmente estar preocupada por ser depurada. Ela era mesmo ainda mais cara de pau do que pude imaginar.
Marcela voltou sua atenção para mim novamente, e logo se apressou em falar:
– Não me surpreende em nada isso tudo. Daniela é um caso perdido, mas devo te alertar que você ainda não viu nem a metade.
– Ei, vocês duas... – Olhamos em direção à Daniela, que parecia ainda mais brava que antes. – Eu ainda estou aqui, sabiam disso? E você… – Ela apontou o dedo para mim. – É uma ingrata. Eu deveria ter te deixado no aeroporto em plena madrugada.
– DANIELA! – Ouvi vozes em coro repreendendo a outra, que deu de ombros e se sentou em um sofá mantendo cara fechada.
– Não dê atenção a ela. Dani está de TMP, aí fica temperamental. – Marcela falou como se já fosse normal aquele tratamento entre elas. – Venha, quero que conheça todas.
Vi três mulheres presentes ali, do qual já tinha visto por fotos, mas pessoalmente eram ainda mais bonitas e simpáticas.
– Essa é a Renata. – Cumprimentei uma mulher muito simpática, mas também muito séria. – Essa é a Micaela, mas fique à vontade para chamar de Mica. Bom, e essa é a Hanna, minha namorada, e também o motivo pelo o qual preciso de você nesse momento.
– Então você é a famosa Hanna Prado. – Cumprimentei a loira com um abraço. Ela parecia meio tímida e desconfiada, mas retribuiu o gesto com elegância.
– Famosa? – Ela perguntou parecendo perdida.
– Passei longos anos da minha vida ouvindo seu nome. – Vi os olhos da mulher brilharem intensamente em uma combinação perfeita com o sorriso direcionado à Marcela.
– Isso é um absurdo! – Todas olhamos para a dona da voz grave. – Por que quando nos conhecemos, você não foi tão simpática assim comigo?
Precisei segurar o riso que se prendeu na minha garganta, e manter minha postura séria quando percebi a cara indignada que a baixinha fazia enquanto cruzou os braços a altura do peito. Geralmente eu costumava ser séria com quem não conhecia, mas sempre fui muito educada, porém com aquela mulher em particular, usei minha seriedade mais como uma defesa pessoal, já que algo dentro de mim entrou em alerta diante da sua presença. Não que eu estivesse sentindo qualquer coisa por ela, mas era estranho a forma como me sentia na presença dela… Era como se estivesse indefesa e vulnerável a algo desconhecido, e isso me incomodava.
– Porque particularmente não tenho vocação para circo, e muito menos falo galinhez. – Respondi calmamente.
Vi uma expressão de tristeza se formar em seus olhos, mas logo reconheci a força que ela fez para se manter aparentemente intocável. Por alguma razão desconhecida, me praguejei por pensar que tinha sido rude demais com ela. Eu não podo negar que de fato ela estava sendo muito gentil comigo, tirando os momentos que se fazia de engraçadinha, mas que culpa eu tinha se sentia que precisava me defender dela?
As amigas começaram uma zoação com a baixinha, que logo ficou ganhou uma tonalidade vermelha nas bochechas. Aquela convivência parecia mais comum entre elas do que eu pudesse imaginar.
Contudo, eu me arrependi de ter me praguejado quando com uma rapidez incrível, vi sua expressão de tristeza ser substituída por um deboche venenoso que me pegou totalmente desprevenida, já que eu não esperava pelo o que ouviria em seguida.
– Tem razão! Faz todo sentindo agora o motivo pelo qual eu não consegui falar com facilidade quando nos encontramos. É que pessoalmente não tenho estômago para suportar essa sua cara de limão azedo.
– DANIELA! – Todas voltaram repreendê-la, enquanto apenas nos encarávamos com fúria nos olhos.
Era como se Daniela e eu, estivéssemos determinadas em manter uma guerra silenciosa.
Fim do capítulo
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