Capitulo 39
Por Marcela
Eu praticamente não dormiu nada na noite anterior, pois além de toda a preocupação que estava com o estado de saúde de Hanna, o sono da Gabriela foi agitado. Ela acordou mais de uma vez, em uma dessas foi chorando devido a um pesadelo que teve com o “homem mau”. Foi muito difícil conseguir fazê-la dormir. Para ser bem mais exata, ela só dormiu quando a levei para minha cama, onde adormeceu agarrada ao meu corpo.
Acordei logo cedo sentindo o corpinho pesado praticamente em cima de mim, de tão agarrada que ela estava com aqueles bracinhos curtinhos. Eu não conseguia definir com palavras a sensação que era ter Gabriela comigo daquela forma, era como se ela sentisse que aquela era a única maneira que a deixava segura, e confesso que meu coração disparava de alegria com isso. A sensação de ser o seu Porto Seguro era realmente indescritível.
me afastei lentamente para não acordar a criança que dormia profundamente, e fui para o banheiro fazer minha higiene matinal para depois acordá-la com calma. Me ajeitei e fui preparar um café forte para conseguir me manter acordada, pois novamente o dia hoje não seria tão calmo, já que além de ir para o hospital ver Hanna, eu precisaria ir à delegacia depor sobre como foi finalizado aquele sequestro que resultou em minha namorada baleada.
Voltei ao quarto para acordar Gabriela, mesmo achando que isso era a maior judiação com a pequena, que dormia tão tranquila entre meus lençóis.
– Gabi, minha princesa, acorda. – Chamei baixinho fazendo um carinho em sua cabecinha para não assustá-la.
Depois de algumas tentativas finalmente Gabriela acordou e me olhava com dificuldade como se tentasse a todo custo permanecer de olhos abertos.
– Bom dia, minha princesinha. Como você está se sentindo?
– Bom dia, mãe. Eu estou bem, mas com soninho.
Gabriela era o ser mais encantador que eu já havia conhecido.
– Eu sei, meu amor. Mas você precisa se ajeitar e ficar bem bonita para irmos visitar a mamãe no hospital.
Não foi mais preciso insistir para Gabriela levantar, logo ela estava pulando alegremente em cima da cama quando soube que iria ver a mãe. Foi como se eu tivesse dito palavras mágicas que a fez despertar. Eu sorri quando vi que a energia que outra hora era inexistente devido o sono, agora estava ligada no 220w
– Nós vamos ver a mamãe, e vamos poder falar com ela? Ela vai responder dessa vez?
– Sim, meu amor. Você vai poder conversar com ela, mas lembre-se que ela está dodói, então você precisa ter cuidado quando for abraçá-la. E não pode ficar gritando no quarto para ela não sentir dores de cabeça, combinado?
– Combinado, mãe. Eu não gosto de ver ela dodói, mas o homem mau fez isso com ela.
Gabriela baixou a cabecinha adotando uma expressão triste que fez meu coração partir em mil pedaços. Eu esperava que não demorasse muito para que a pequena superasse aquele trauma. Na verdade, eu sei que algo assim talvez nunca fosse realmente superado, mas pedi para que Deus me desse sabedoria para amenizar o máximo possível os danos emocionais no coração de Gabriela.
– Ei, meu anjinho. Não fica tristinha, ok? Logo sua mamãe vai estar conosco novamente e vamos poder brincar muito as três juntas
– Eu tô com medo. Eu quero perguntar um negócio, mas num queria saber a resposta.
Sorri do jeito confuso que ela falou, mas fiquei curiosa com o que ela queria perguntar.
– Pode perguntar o que quiser para a mamãe que eu respondo. Gabi, você sempre pode conversar comigo sobre qualquer coisa, entendeu bem? Sua mãe e eu, sempre seremos suas melhores amigas.
– Então tá bom, eu vou perguntar. É verdade o que aquele homem disse? Eu não posso chamar a senhora de mamãe?
Meu coração pareceu falhar por um momento. Então ela lembrava de tudo o que foi falado naquele lugar? Pior, ela estava mesmo confusa com tudo aquilo.
Segurei delicadamente na mão de Gabi, e a trouxe para sentar em meu colo atraindo toda atenção dela para mim.
– Escuta o que eu vou te falar. Você sabe que eu namoro sua mãe, e que nós três juntas vamos ser uma família. Na verdade, nós já somos uma família. Você nasceu da barriga da sua mãe Hanna, mas eu te amo e te tenho como filha tanto quanto ela. Lembra quando você me chamou de mãe pela primeira vez e eu te disse que poderia me chamar assim sempre que quisesse? – Gabriela concordou enquanto me olhava com atenção, e então eu continuei… – Pois então, aquilo continua valendo. Você pode me chamar de mãe para sempre na sua vida, porque você é minha filha daqui ó. – Trouxe a mãozinha de Gabriela colocando no meu coração. – Você quer ser minha filha?
– Eu quero sim mãe. Eu quero muito, mas eu não quero que ele seja meu papai. Ele é um homem ruim e machucou a mamãe.
Os olhos da criança lagrimejaram e pela primeira vez desde o acontecido Gabriela mencionou aquela palavra e meu coração pareceu falhar por um momento. Eu queria dizer a ela que ele nunca seria pai dela, mas eu não sabia o que Hanna queria falar para ela. Eu não sabia se eu tinha direito de falar coisas assim, por mais que eu a tivesse como filha, então apenas abracei a pequena e esperei que no momento dela ela se acalmasse. Percebi o quanto seu psicológico estava esgotado por tudo que ela viu e ouviu, sua cabecinha estava uma bagunça e isso talvez levasse um tempo para a gente conseguir fazer tudo se organizar.
– Escuta o que vou te falar. Ele não vai mais aparecer, e você e sua mamãe estão bem e salvas agora. Ele não tem mais como fazer nenhum mal a vocês duas, então não precisa ter medo dele, ok? – Ela acenou em confirmação, mas voltou a repetir.
– Mas eu não quero que ele seja meu papai. Eu já tenho duas mamães, e não preciso dele. Tenho o vovô, o tio Rob. Eu posso escolher ele não ser nada meu?
– Você pode escolher sim, minha princesa. Mas vamos fazer assim… Quando sua mamãe voltar para casa você conversa sobre isso com ela, pode ser?
– Pode ser sim.
– Boa garota! Agora me dá um abraço bem apertado?
Não precisei pedir duas vezes, logo os bracinhos de Gabriela estavam em volta do meu pescoço em um abraço aconchegante.
– Eu te amo, minha filha!
– Eu também te amo, mamãe!
Horas depois
Passei em uma padaria para tomar café da manhã com Gabriela, com direito a tudo que ela mais gostava. Aos poucos ela estava voltando a ser aquela criança alegre que sempre me encantou, e isso deixava meu coração feliz. Em seguida, fomos em uma floricultura e escolhemos o buquê de flores mais lindo que tinha por lá. Gabriela escolheu lírios branco e eu achei de muito bom gosto. Eu tinha certeza que Hanna iria adorar.
Cheguei com Gabriela ao hospital e não fiquei surpresa em ver que meus sogros e minha cunhada já estavam lá. Gabriela correu para os braços do avô que parecia segurar as lágrimas quando suspendeu a menina no ar.
– Bom dia a todos!
– Bom dia, minha nora. Pensei que só iria chegar mais tarde, considerando a hipótese da Gabriela dar trabalho para acordar. – Minha sogra falou enquanto me abraçava.
– Só em falar no nome de Hanna, ela levantou com uma energia de dar inveja. – A mais velha das Prado sorriu olhando para a neta. – Já tem noticias dela?
– O médico disse que ela está respondendo bem as primeiras horas após a cirurgia, mas até agora ainda não tinha acordado. – Micaela falou ao lado da mãe.
– Mas isso é algo com que a gente precise se preocupar?
– Não! Fique calma. Acredito que não vai demorar para ela acordar. Renata ficou de passar aqui mais tarde, disse que iria para a empresa e a tarde vem aqui, para você não precisar se preocupar com trabalho.
– E Daniela?
– É uma boa pergunta, já que essa daí nem o celular atendeu. – Micaela falou com malicia e pude entender o que ela estava imaginando.
– Em outras circunstâncias eu iria zoar muito com a cara dela, mas não nos faltará oportunidade.
Fiquei ali conversando com meus sogros e minha cunhada enquanto Gabriela parecia pensativa no colo do avô.
– O que foi minha querida, algum problema? – Meu sogro perguntou para a pequena e todos nós ficamos em silêncio observando a cena.
– Não, vovô. Eu só tô pensando em uma coisa.
– E no que está pensando?
– Hoje eu falei com a mãe Marcela que eu não quero o homem mau que feriu a mamãe como meu papai. Eu preciso ter um papai como toda criança?
O rosto do pai de Hanna adotou um tom sério, e seus olhos buscaram os meus como se me questionasse algo, mas eu não sabia o quê.
– Escuta o vovô, minha princesa. Não é toda criança que tem um papai e uma mamãe. Existem diversos tipos de família. Às vezes tem famílias compostas por papai e mamãe, outras por só uma mãe ou papai, e existe aqueles que são dois papais ou duas mamães. – Busquei os olhos de Micaela e ela sorriu quando nossos olhos se encontraram. – No seu caso, você já tem duas mamães maravilhosas e não precisa de um pai. Além disso, você já tem a mim e a seu tio Robson. Não é legal?
– É sim vovô, é muito legal. Eu gosto das minhas mães e não quero nenhuma outra. Eu vou falar isso pra mãe Hanna quando ela acordar.
Meus olhos encheram d’água com aquelas palavras da pequena. Gabriela tinha poucos anos de idade, mas sua inteligência era algo que me surpreendida a cada dia.
– E eu tenho certeza que elas te amam muito. Você é a criança mais amada desse planeta todinho. Então promete uma coisa para o vovô?
– O quê? – Ela perguntou curiosa.
– Esquece aquele homem e aquele dia. Coisas ruins às vezes acontecem na nossa vida, mas o amor cura tudo, e todos nós estamos aqui para curar esse seu coraçãozinho e sua cabecinha. Deixa só as coisas boas ficarem aqui. – O homem apontou para o coração da neta e ela olhou para mim.
Gabriela pulou do colo do avô e veio em minha direção me abraçando forte.
– O vovô mandou eu guardar só coisas boas e a senhora é uma coisa boa que vou guardar aqui no meu coraçãozinho. Nunca deixa eu e a mamãe sozinhas, mãe.
Eu não esperava aquela atitude da minha pequena e quando ela disse tudo aquilo, as lágrimas que eu estava segurando rolaram pelo meu rosto sem pedir licença. Naquele momento descobri que era possível amá-la ainda mais do que eu pensava já amar. Peguei Gabriela colocando-a sentada em meu colo, e olhando no seu rostinho eu prometi:
– Eu jamais vou abandonar vocês duas. Juntas somos uma família, e vocês são a razão do meu viver.
Nos abraçamos de novo e pude ver os olhos da minha cunhada lagrimejarem enquanto meus sogros pareciam encantados com a cena.
Ainda estava abraçada com Gabriela quando vi o médico de Hanna se aproximando de onde estávamos.
– Bom dia, Dr. alguma notícia da minha filha? – Meu sogro perguntou se colocando de pé para cumprimentar o homem.
– Bom dia a todos! Tenho boas notícias… Ela acordou há pouco tempo, não vim antes porque precisei examiná-la primeiro. Ela está respondendo muito bem aos medicamentos e nesse momento está tudo bem com ela, inclusive está liberada para receber visitas.
– Isso é ótimo! – Minha sogra se animou batendo palminha. – E podemos todos vê-la?
– Bom, se vocês prometerem se comportar, eu vou abrir essa exceção. Lembrem-se que a paciente passou por uma cirurgia delicada e não pode se esforçar tanto. Por falar nisso, devo informar que ela acordou chamando pelo nome de alguém, então talvez seja importante que essa pessoa a visite.
– E quem seria? – Micaela perguntou curiosa.
– Marcela.
Meu coração disparou. Hanna havia acordado e eu tinha sido a primeira pessoa por quem ela chamou, e isso deveria significar alguma coisa. Olhei para Gabriela em meus braços e não poderia me sentir mais feliz. Era como se minha família estivesse novamente completa.
Por Hanna
Acordei em um lugar que não fazia a mínima ideia de onde estava. Minha visão doía à medida que a claridade daquela luz branca atingia meus olhos, precisei piscar diversas vezes para aos poucos me acostumara. Minha boca estava seca e meu corpo dolorido, até tentei me movimentar, mas uma mão desconhecida segurou meus braços enquanto alguém dizia para ficar calma e não fazer movimentos bruscos. Olhei ao redor e tudo era muito branco e só então percebi que estava em um hospital. Flashes surgiam na minha mente e logo me lembrei de tudo que tinha ocorrido me deixando desesperada para saber notícias da minha filha.
– Marcela…
Essa foi a primeira palavra que consegui dizer com dificuldade. Eu lembrava de tudo, lembrei das palavras dolorosas que falei naquele dia, lembrei dos olhos chorosos de Marcela quando me olharam antes da bala me atingir e levar meu corpo de encontro ao chão. Eu só queria vê-la, queria olhar em seus olhos e pedir desculpas pela dor que sabia que havia causado a ela. Queria explicar que nada daquilo foi dito com o coração, queria dizer que sem ela eu não era nada.
O médico me examinou e explicou meu quadro clinico me deixando aliviada em saber que graças a Deus, meu corpo respondia bem às primeiras horas pós cirurgia, e que não tinha sofrido nenhuma sequela. Perguntei por minha família e amigos e fiquei feliz em saber que as visitas seriam liberadas e logo eu poderia vê-los, mas meu coração ficou apertado quando parei para imaginar se Marcela estaria à minha espera.
A porta do quarto foi aberta e lentamente as figuras dos meus pais e minha irmã foram surgindo no local. Meu coração disparou em felicidade por eu poder estar vendo cada um deles novamente. O destino estava sendo generoso e me dando uma nova oportunidade para ser feliz.
– Minha filha, como é bom ver o brilho dos seus olhos novamente. – Meu pai se aproximou da cama enquanto tentava segurar as lágrimas que teimavam em rolar por seu rosto.
– Não sei o que faria se te perdesse, meu amor. – Minha mãe falou sem fazer a mínima questão de esconder como estava aliviada.
– Eu vou ficar bem. Não quero ver ninguém sofrendo, ok? O pior já passou. – Falei baixinho e com dificuldade, mas aquilo era o suficiente para que eles pudessem ouvir.
– Você nos deu um grande susto, minha irmã. Nunca mais faça isso, ou eu te bato. – Micaela segurou minha mão e conseguiu me fazer sorrir levemente.
– Ora, você não ousaria. Você me ama demais para me bater. – Ela revirou os olhos, mas sorriu lindamente para mim.
Olhei ao redor e meu coração apertou quando percebi a ausência de Marcela e Gabriela.
– Cadê a minha filha? Ela está bem? E a Marcela, ela não veio?
– Ei, calma. Não é para ficar agitada desse jeito. O médico disse que você não poderia se esforçar. – Meu pai brigou, mas dei de ombros. Tudo que eu queria eram as mulheres mais importantes da minha vida ao meu lado.
– Marcela foi assinar alguns papéis em relação à autorização da Gabriela para poder entrar aqui.
Meu coração aliviou em saber que elas duas estavam ali e que logo eu poderia vê-las.
Fiquei com meus pais e minha irmã conversando um pouco sobre como eu me sentia e meu coração disparou no momento em que vi a porta do quarto abrindo novamente. Gabriela estava nos braços de Marcela, minha filha carregava um buquê de flores lindo e sorria me olhando com paixão, me emocionei quando meus pais deram espaço para que elas se aproximassem da cama. Meus olhos conectaram-se com os castanhos e não consegui decifrar o que eles transmitiam fazendo meu coração bater ainda mais sendo tomado por uma mistura de sensações.
– Mamãe, a senhora acordou, eu tava com tanta saudade!
– Meu amor, a mamãe estava louca de saudades de vocês. Me desculpa por demorar a acordar, certo? – Tentei segurar as lágrimas que se formavam em meus olhos.
– Certo! A mãe Marcela me explicou que a senhora tinha que descansar para sarar do dodói, mas iria voltar logo, então eu esperei. Olha o que eu e a mamãe Marcela compramos para te dar.
Ela me estendeu um buquê de lírios brancos e percebi o quanto tentava conter a agitação nos braços de Marcela, que por sinal permanecia em silêncio olhando nossa interação com um encanto tímido nos olhos. Busquei os olhos de Marcela novamente e ela manteve o contato me presenteando com um sorriso rápido.
– São lindas essas flores, meu amor. Obrigada, a mamãe amou!
– Eu posso dar um abraço nela? – Ela perguntou para Marcela.
– Vamos fazer um acordo, ok? Eu vou te deixar abraçar a mamãe, mas tem que ser com cuidado e não pode demorar muito porque ela ainda está fraquinha. Combinado?
– Combinado.
Marcela aproximou-se ainda mais da cama com minha filha nos braços e inclinou a pequena para que seus bracinhos alcançassem meu pescoço de forma que seu corpinho não ficasse sobre mim. Eu não podia me mexer muito, mas só em sentir o cheirinho da Gabriela e seus bracinhos me apertando era o suficiente para sentir paz em meu coração.
– Eu te amo tanto minha filha, a mamãe nunca vai te deixar. Eu prometo que logo vou estar em casa com você.
– Eu também te amo, mamãe.
– Gabi, por que você não vem com a titia procurar algo para a gente pôr essas flores lindas aqui no lado da cama da mamãe? – Micaela perguntou atraindo a atenção da minha filha.
– Obaaaa! Eu quero, tia. – Minha filha se animou e todos nós sorrimos com o jeito estabanado da garota.
Gabriela saiu com Micaela me prometendo que logo estaria de volta e meu coração transbordava de felicidade. Meus pais inventaram uma desculpa qualquer também para sair do quarto, mas eu entendia que todos só queriam que eu e Marcela tivéssemos um momento a sós.
Quando a porta do quarto fechou um silêncio se instalou e apesar de Marcela me olhar com carinho nos olhos, eu conseguia sentir que ela parecia em conflito interno.
– Por que não vem aqui pertinho? – Quebrei o silêncio esticando a mão para que ela pudesse segurar.
– Bom, eu só... Eu não quero te machucar. Você parece tão frágil.
– Tenho certeza que não machucará. Vem aqui!
Minha namorada aproximou-se da cama com cautela e sentou ao meu lado, mas em uma distância que era totalmente incômoda para mim. Segurei a mão de Marcela que estava gelada e um pouco trêmula, mas aquele contato aquecia minha alma. Marcela respirou profundamente quando nossos dedos se entrelaçaram e percebi como ela parecia exausta.
– Eu estou muito feliz por te ver se recuperando bem. Nossa, você nos deu um susto grande!
– Eu sei! Mas estou aqui para vocês. Estou aqui para você, meu amor! – Fiz um carinho com meu polegar em sua mão atraindo seus olhos para o local.
– Nunca mais me assuste desse jeito, por favor. Você não tem noção de tudo que senti ao ver aquela cena horrível, Hanna. – A voz de Marcela ficou falha e eu sabia que ela estava se segurando para não chorar.
– Eu posso imaginar o quanto foi difícil, mas vamos tentar esquecer isso, por favor. Vamos apagar esse momento triste das nossas vidas. Eu estou aqui e não vou a lugar nenhum.
– É difícil esquecer, mas prometo que vou tentar. Só se cuida para voltar logo para casa, está bem?
– Vou me cuidar. Sabe o que acho? – O rosto de Marcela adotou uma expressão interrogativa e eu sorri. – Acho que você poderia me dar um beijo e encurtar essa distância absurda que nos separa.
Além das saudades que sentia de Marcela eu queria tentar descobrir até que ponto ela estava chateada com tudo o que aconteceu e por isso resolvi provocá-la um pouco, eu sabia que naquele momento ela não resistiria a um pedido como aquele. Marcela pareceu pensativa, mas logo foi enfática em sua resposta.
– Não podemos. O médico disse que você não pode fazer esforço nenhum e por Deus, você acabou de ser operada, não posso machucá-la.
– Dane-se o médico, Marcela. Eu quero sentir a boca da minha mulher. Será que é pedir muito depois de tudo que passei? – Fiz cara de cachorro sem dono. – Além disso, eu sei que você não vai me machucar com um beijo. Será que devo deduzir que está fugindo de algo?
– Não estou fugindo, Hanna. Eu só me preocupo com seu bem estar.
Marcela fez um carinho em meu rosto e contornou meus lábios com o polegar me fazendo fechar os olhos só com aquele contato.
– Só um beijo, por favor...
Marcela encurtou a maldita distância que teimava em nos separar e delicadamente inclinou seu corpo sobre o meu colando nossos lábios em um beijo delicado, mas cheio de saudades. Pedi passagem para que minha língua pudesse explorar sua boca e meu corpo vibrou quando ela concedeu. Nossos beijos eram sempre deliciosos, mas naquele momento nosso beijo era diferente, inexplicável, cuidadoso, apaixonado, saudoso, carinhoso e muito calmo.
Senti um gosto salgado na boca e percebi que ela estava chorando. Me afastei calmamente dos seus lábios e busquei seus olhos que fugiam de encontrar com os meus.
– Ei, por que está chorando? – Perguntei secando suas lágrimas com o dedo.
– Eu só estou feliz e aliviada por você estar aqui. É um sentimento único, eu só quero te ver bem e feliz.
– Eu também estou feliz, meu amor. Estou feliz por ter minha família e você comigo. Também senti muito medo diante de tudo que aconteceu, mas a sensação de estar aqui novamente com vocês me faz apagar qualquer dor do meu coração.
– Você sabe que vai precisar reviver tudo não sabe? Você vai precisar depor e acredito que algum policial venha aqui, mas não quero que isso lhe faça piorar. Por falar nisso, a Gabriela está lá no meu apartamento, espero que não se incomode, mas a Mica achou que seria melhor para ela, então eu só achei que poderia levá-la sem você saber antes e autorizar.
Marcela tentava se explicar tão apressadamente que quase tropeçava em suas próprias palavras. Meus dedos pousaram em seus lábios calmamente para que ela conseguisse silenciar e ficar calma. Estava muito difícil entender Marcela, era como se ela estivesse ocultando uma parte do que ela sentia, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que isso estava acontecendo e eu sabia o que estava deixando ela assim.
– Amor, eu sei que temos que conversar sobre isso e...
– Não, Hanna. Não precisa se preocupar com nada, tá bom? Eu estou bem, e a gente não precisa falar sobre nada do que aconteceu naquele lugar. – A olhei em silêncio diante da fuga de Marcela.
– Marcela, você precisa me ouvir. A gente não pode deixar coisas por dizer dessa forma, meu amor. Você não pode fugir assim.
Lágrimas escorreram ainda mais dos olhos de Marcela, e meu coração doía diante daquela cena. Eu não conseguia acreditar que mais uma vez eu tinha quebrado o coração da mulher que eu amava, mas dessa vez eu não deixaria ela fugir, eu não iria perdê-la de novo.
– Amor, olha para mim. – Pedi com paciência e vi seus olhos vermelhos encontrarem os meus. – Já que você não quer falar sobre isso agora, nós não vamos, mas eu preciso que saiba que você pode levar a Gabriela para qualquer lugar a hora que quiser. Não apenas por ter minha confiança, mas por ter o amor da nossa filha. – Lágrimas voltaram a escorrer pelos olhos de Marcela quando falei essas últimas palavras e meu coração doeu ainda mais. – Tenho certeza que em seu apartamento ela vai estar muito bem enquanto eu estiver por aqui. Ela a tem como mãe, Marcela. E meu coração se alegra com isso porque eu não poderia ter escolhido uma mulher melhor para dividir esse posto comigo.
– Obrigada por confiar em mim. Eu prometo que cuidarei bem dela até você voltar.
Puxei delicadamente Marcela para lhe beijar novamente e demonstrar o quanto eu a amava e a desejava ainda mais que antes, se é que isso era possível.
– Eu te amo, Marcela! Sou completamente sua!
– Eu também te amo muito, minha princesa!
A porta do quarto foi aberta e Micaela entrou com uma Gabriela saltitante.
– Mamãe, nós conseguiu um vaso para pôr as flores. Olha que lindo!
Marcela olhou para mim e com um sorriso tímido me deu um selinho demorado antes de se afastar do meu corpo e colocar Gabriela sentada na cama no lugar que ela ocupava antes.
Fim do capítulo
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