Capitulo 5 algumas dores nao precisam ser atravessadas sozinha
Laura chegou ao Rio numa manhã clara de céu absurdamente azul.
E aquilo quase a irritou.
Como o mundo podia continuar tão bonito quando ainda existiam tantas coisas quebradas dentro dela?
Mesmo assim, ao atravessar as ruas da Urca em direção a casa, de sua irma sentiu algo diferente apertar o peito.
Talvez reconhecimento.
Talvez memória.
Talvez saudade de uma versão antiga de si mesma.
O melhor de voltar para o Rio era justamente aquilo: ela poderia viver em uma casa novamente.
São Paulo a havia acostumado aos apartamentos altos, silenciosos e impessoais. Mas Laura nunca gostou verdadeiramente deles.
Gostava de:
quintal,
plantas,
portas abertas,
cheiro de chuva entrando pela varanda,
vida circulando pelos espaços.
Gostava da sensação de lar.
A casa escolhida por Eleanor ficava em uma rua tranquila da Urca, a poucos metros da propria casa, cercada pelo verde e pela maresia discreta que vinha da Baía de Guanabara.
Ainda havia caixas espalhadas pela sala quando a campainha tocou.
Laura sorriu pela primeira vez no dia ao abrir o portão.
— Meus amores…
Teobaldo praticamente se jogou em cima dela assim que saiu da van da empresa de transporte.
O vira-lata caramelo latiu e girou em círculos enquanto Laura ria baixinho entre lágrimas inesperadas.
— Eu também senti saudade de você.
Logo depois veio Astholfo.
O gato saiu da caixa de transporte com a dignidade ofendida de quem claramente acreditava ter sido sequestrado contra a própria vontade.
Laura o pegou no colo imediatamente.
— Você continua julgando todo mundo, não é?
Astholfo apenas piscou lentamente, ainda irritado.
Aquela pequena normalidade aqueceu algo dentro dela.
Como se partes da antiga Laura estivessem chegando ao Rio aos poucos junto com as caixas.
---
Domingo
Laura ainda organizava algumas coisas na cozinha quando o telefone tocou.
O nome de Eleanor apareceu na tela.
— Oi, Leo.
Do outro lado, a irmã parecia apressada.
— Não almoça sem mim
Laura franziu a testa levemente.
— As meninas estão te esperando desde cedo.
— Eu sei, meu bem. Mas aconteceu um imprevisto.
Laura ouviu o som do trânsito ao fundo.
— O que houve?
Houve um pequeno silêncio antes da resposta.
— Uma amiga minha precisa de ajuda.
Algo no tom de Eleanor imediatamente chamou sua atenção.
Não era uma preocupação
comum.
Era cuidado.
Daqueles profundos.
Laura encostou na bancada da cozinha.
— É grave?
— Um pouco.
A resposta veio baixa.
— Mas eu já estou resolvendo. Só espera eu chegar pra gente sair juntas, tudo bem?
Laura suspirou devagar.
— Tudo bem.
— E Laura?
— Hm?
— Obrigada por ter vindo.
A ligação encerrou antes que Laura respondesse.
Ela permaneceu alguns segundos olhando a tela apagada do celular.
Então Teobaldo encostou o focinho em sua perna, exigindo atenção.
Laura sorriu de canto e se abaixou para acariciá-lo.
Sem perceber que, naquele exato momento, Eleanor atravessava a cidade para buscar a mulher que mudaria completamente sua vida.
Helena não dormiu naquela noite.
A nova dosagem da quimioterapia atingira seu organismo de forma brutal.
Vieram os enjoos. As náuseas. Os vômitos intermináveis.
E a sensação desesperadora de que o próprio corpo havia deixado de lhe pertencer.
Em algum momento perto das quatro da manhã, sentada no chão frio do banheiro, Helena lembrou da recomendação do oncologista:
“Se passar mal, volte imediatamente ao hospital. Lá saberemos exatamente como agir.”
Mas não conseguiu.
Estava cansada demais até para pedir ajuda.
Então apenas esperou.
Esperou a tontura diminuir. Esperou o corpo parar de tremer. Esperou conseguir pensar de novo.
Quando o relógio finalmente se aproximou das onze da manhã, Helena permanecia deitada no sofá pequeno da sala, coberta por uma manta fina apesar do calor.
O celular repousava sobre o peito.
Ela ficou alguns segundos olhando o nome de Eleanor na tela antes de criar coragem para ligar.
A chamada foi atendida rapidamente.
— Oi, Lena.
A familiaridade carinhosa da voz quase a fez chorar imediatamente.
Helena fechou os olhos por um instante.
— Desculpa te ligar assim…
Eleanor percebeu no mesmo instante que algo estava errado.
— O que aconteceu?
Helena respirou fundo antes de responder.
— Eu preciso de ajuda para ir ao hospital.
O silêncio do outro lado durou apenas um segundo.
— Me passa o endereço. Eu tô indo.
Sem perguntas. Sem hesitação.
Aquilo apertou o coração de Helena de uma forma perigosa.
---
Cerca de uma hora depois, Eleanor estacionava diante da pequena casa no subúrbio.
Ao sair do carro, observou a fachada simples em silêncio.
Helena realmente perdera quase tudo.
Eleanor sentiu uma tristeza profunda ao imaginar a amiga atravessando aquilo sozinha durante meses.
Bateu à porta apenas uma vez antes dela se abrir lentamente.
Helena parecia ainda mais abatida do que no hospital.
Os cabelos curtos desalinhados. O rosto pálido. Os olhos cansados demais para tentar esconder qualquer coisa.
— Oi… — Helena murmurou fracamente.
Eleanor entrou sem formalidades.
Naquele momento, a amizade parecia algo muito maior que educação.
— Vem. Vamos pro hospital.
Helena tentou sorrir de leve.
— Você não precisava ter vindo tão rápido.
Eleanor lançou um olhar firme para ela.
— Claro que precisava.
A resposta saiu simples. Como se fosse óbvia.
Helena desviou os olhos imediatamente, emocionada demais para sustentar aquele cuidado.
Eleanor observou discretamente a casa pequena.
Poucos móveis. Pouca vida. Poucos sinais de alguém realmente vivendo ali.
Aquilo a partiu por dentro.
Então caminhou até o quarto.
— Eu vou pegar uma mala com algumas roupas pra você.
Helena ergueu o rosto rapidamente.
— Leo, não precisa…
Eleanor virou-se para encará-la.
— Precisa, sim.
Houve um silêncio breve.
E então ela completou, mais suave:
— Você não vai voltar para cá sozinha depois do hospital.
Helena sentiu os olhos marejaram imediatamente.
Porque fazia muito tempo… muito tempo… que alguém não falava com ela como se sua presença ainda importasse para alguém.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: