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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 4310
Acessos: 54   |  Postado em: 18/07/2026

Notas iniciais:

Gurias,

Espero do fundo do coração que tenham curtido a história. 

Ela pode fugir um pouco do foco romântico, mas depois que comecei a desenvolver acabei achando interessante esta evolução psicológica entre os participantes e o planeta.

Obrigada por chegarem até aqui!

Beijos

Epí­logo - O mundo que lembrava

Roberta Almeida

 

Éden-9 ensinou Roberta a acordar devagar.

No começo, isso parecia impossível.

A vida na Terra sempre exigira pressa. Acordar, responder, produzir, atravessar corredores, cumprir prazos, interpretar relatórios, fingir que o corpo aceitava o ritmo das urgências humanas sem reclamar. Mesmo na Aurora, depois de dezoito anos de travessia em sono frio, o despertar havia sido uma ordem: abrir os olhos, medir riscos, identificar atmosfera, sobreviver.

Em Éden-9, acordar era outra coisa.

A cidade não despertava de uma vez. Ela clareava.

Primeiro vinham os canais de água, alterando o som durante a madrugada, como se avisassem às raízes que o dia se aproximava. Depois, os filamentos nas casas vivas acendiam em tons muito baixos, não para expulsar o sono, mas para convidar o corpo a retornar. Os animais menores surgiam entre as folhas prateadas. As crianças, sempre as primeiras a parecerem entender alguma mudança, começavam a rir em algum ponto distante da comunidade.

E, quase todas as manhãs, Sarah fingia que ainda dormia quando Roberta acordava.

Roberta sabia.

Sarah respirava de um jeito diferente quando estava acordada.

Menos profundo. Mais atento. Ainda tentando observar antes de ser observada.

Naquela manhã, a luz atravessava as membranas da casa delas em tons dourados. Sarah estava deitada de bruços, uma das mãos sob o rosto, os cabelos claros espalhados no travesseiro de fibra macia. A pele de suas costas recebia a claridade como se o próprio planeta a desenhasse de novo, menos como capitã e mais como mulher.

Roberta apoiou o queixo na mão e ficou olhando.

Depois de meses em Éden, ainda se surpreendia.

Não apenas com a beleza dela, embora isso continuasse sendo uma afronta cotidiana. Surpreendia-se com a leveza que Sarah havia começado a habitar. Não uma leveza simples. Não inocente. Sarah nunca seria uma pessoa sem peso. Havia Calisto nela. Havia a Aurora. Havia a Terra. Havia os nomes dos oito e dos vinte e sete. Havia a ordem que ela trouxera e recusara. Havia os dias em que acordava quieta demais e precisava caminhar até o lago antes de falar.

Mas agora havia espaço entre Sarah e a culpa.

Espaço suficiente para rir.

Para provocar.

Para amar sem pedir desculpa toda vez que era feliz.

— Vai ficar me olhando até Éden emitir parecer? — murmurou Sarah, sem abrir os olhos.

Roberta sorriu.

— Eu sabia que você estava acordada.

— Você me olha muito alto.

— Isso não faz sentido.

Sarah abriu um olho.

— Em Éden faz.

Roberta riu baixo e se aproximou, beijando o ombro dela.

— Bom dia, Sah.

Sarah virou o rosto no travesseiro.

O apelido ainda fazia algo nela. Menor agora, mais familiar, mas ainda visível. Como se, toda vez que Roberta a chamava assim, Sarah lembrasse que havia um lugar onde seu nome não era convocação, culpa ou comando.

— Bom dia, Beta.

Roberta beijou sua nuca.

— Hoje temos círculo de escuta com as cuidadoras, revisão dos registros do Vega com Aurora-Éden e você prometeu ajudar Liora com a estrutura nova do jardim.

Sarah virou-se de lado, apoiando a cabeça na mão.

— Você está tentando organizar meu dia antes do café?

— Estou praticando influência não invasiva.

— Isso é muito Éden da sua parte.

— Obrigada.

Sarah passou os olhos pelo corpo dela debaixo do tecido leve e sorriu de um jeito que, meses antes, Roberta jamais teria associado à capitã da Aurora.

— Eu tinha outros planos para começar a manhã.

Roberta ergueu uma sobrancelha.

— Sarah Solano, você está tentando fugir das responsabilidades comunitárias?

— Não. Estou tentando honrar a vida com entusiasmo.

Roberta soltou uma risada.

Sarah aproveitou o movimento, puxou-a pela cintura e a trouxe para perto. O beijo veio morno, preguiçoso e cheio de memória. Não tinha a urgência das primeiras noites. Tinha intimidade. Tinha o conhecimento acumulado do corpo uma da outra, dos humores, das cicatrizes, das provocações que funcionavam, dos silêncios que pediam cuidado.

Roberta se afastou apenas o suficiente para respirar.

— Nós vamos nos atrasar.

Sarah olhou para ela com falsa seriedade.

— Éden ensina que pressa é uma forma de violência.

— Você está usando filosofia planetária para me seduzir?

— Estou usando todos os recursos disponíveis.

Roberta riu contra a boca dela.

— Cafageste.

— Em recuperação.

Sarah a tocou com calma.

Sem pressa. Sem posse.

Como quem perguntava antes de chegar mais perto.

E Roberta respondeu do mesmo modo. Pouco a pouco, a rigidez antiga deixou seu corpo. A tensão que ela carregava mesmo dormindo se desfez sob os dedos de Sarah, sob seus beijos, sob aquela ternura que não exigia explicações.

Havia desejo, mas também havia cuidado.

Havia fome, mas não urgência.

Havia duas mulheres que tinham sobrevivido ao impossível e que, naquela manhã, escolhiam lembrar que ainda eram corpo, calor e vida.

A luz da floresta tremeluziu do lado de fora. As raízes junto à parede suavizaram o brilho, como se Éden-9 soubesse recuar diante de uma intimidade que não precisava ser testemunhada para ser lembrada.

Roberta se entregou ao calor de Sarah.

Aos beijos demorados. À pele encontrada sob a luz azul e ao modo como Sarah dizia seu nome quando já não havia distância entre as duas.

E, por alguns instantes, não houve comandante, nem missão, nem culpa, nem futuro tentando invadir a manhã.

Houve apenas Sarah, Roberta e o silêncio macio de duas sobreviventes permanecendo uma na outra antes de enfrentar, outra vez, o peso dos mundos.

Quando a calma voltou, Sarah permaneceu encostada nela, desenhando círculos lentos em sua pele. Roberta ficou olhando para o teto translúcido, onde a luz de Éden-9 se espalhava como água.

Percebeu, então, que respirava sem esforço.

Isso ainda lhe parecia uma espécie de milagre.

Sarah ergueu o rosto.

— Agora você parece aqui — disse baixinho.

Roberta olhou para ela.

— Estou.

A palavra saiu simples. E, por isso mesmo, verdadeira.

Sarah se levantou antes que Roberta pudesse responder, pegando o tecido que usavam como roupa matinal. Quando Roberta passou por ela em direção ao canal de água da casa, Sarah estendeu a mão e deu um tapa leve na bunda dela.

Rápido.

Carinhoso.

Cheio de intimidade.

Roberta parou no mesmo instante.

Virou devagar, tentando parecer indignada e falhando lindamente.

— Sah.

Sarah ergueu as duas mãos, inocente demais.

— Manifestação afetiva de baixa intensidade.

— Ainda usando esse argumento?

— Ele tem funcionado.

Roberta se aproximou, segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou com um sorriso.

— Um dia eu vou te ensinar a assumir culpa sem criar relatório.

Sarah passou os braços pela cintura dela.

— Você tem ensinado muita coisa.

A frase saiu mais baixa.

Mais verdadeira.

Roberta encostou a testa na dela.

— Você também.

Do lado de fora, a cidade acordava.

E, por alguns minutos, elas apenas ficaram ali, dentro da manhã, antes que o mundo as chamasse.

Samira costumava dizer que Éden-9 era o lugar mais insuportável e fascinante que já havia conhecido.

Dizia isso quase todos os dias.

Geralmente enquanto discordava de alguma cuidadora.

— Vocês não podem simplesmente dizer que a febre “mudou de cor” e esperar que eu entenda isso como parâmetro clínico — reclamou ela naquela tarde, sentada no núcleo de cuidado ao lado de Maela e Amat.

Maela, com a paciência de quem já ouvira aquilo muitas vezes, respondeu:

— Mas mudou.

— Para qual cor?

— Menos cortante.

Samira fechou os olhos.

Roberta, sentada ao lado, mordeu o lábio para não rir.

Sarah não teve a mesma disciplina.

Riu baixo.

Samira abriu os olhos imediatamente.

— Você está rindo da minha dificuldade metodológica?

— Estou rindo com carinho.

— Isso não existe.

Roberta inclinou-se para Sarah.

— Existe, sim. Ela aprendeu recentemente.

Sarah tocou discretamente a mão dela.

Samira olhou para as duas, estreitou os olhos e depois voltou para as cuidadoras.

— Continuando. Se “menos cortante” significa redução de intensidade nos picos autonômicos, talvez possamos criar uma escala intermediária.

Amat sorriu.

— Agora você está começando a ouvir.

Samira suspirou.

— Estou começando a traduzir. Ouvir é outro departamento.

— Não — disse Maela. — É o mesmo.

Samira ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois anotou.

Roberta gostava de observar Samira ali.

A médica, que na Aurora parecia feita de precisão, ceticismo e teimosia clínica, havia encontrado em Éden-9 uma espécie de adversário perfeito. A comunidade não rejeitava a medicina terrestre. Pelo contrário. Absorvia o que fazia sentido, questionava o que parecia invasivo, devolvia perguntas que desmontavam certezas. Samira, por sua vez, ensinava cuidados humanos, limites metabólicos, riscos de corpos não adaptados, protocolos de emergência e uma quantidade respeitável de irritação produtiva.

Com o tempo, tornou-se parte do núcleo de cuidado.

Não substituiu as curandeiras.

Não tentou liderá-las.

Aprendeu a sentar no círculo antes de propor tratamento.

Isso, para Samira, era quase uma revolução.

Sarah também havia mudado.

Roberta via isso nos círculos de fala.

No início, Sarah participava como quem ocupava uma posição tática. Escutava, avaliava, media o silêncio, tentava entender quando deveria responder. Aos poucos, aprendeu que o círculo não esperava dela uma solução. Esperava presença.

Foi mais difícil do que enfrentar a Terra.

Na primeira vez em que falou de Calisto diante da comunidade, Sarah quase desistiu no meio.

Roberta estava ao lado dela.

Não segurou sua mão.

Não de início.

Deixou que Sarah encontrasse a própria voz.

Sarah contou sobre a porta. Sobre os oito. Sobre os vinte e sete. Não como capitã apresentando relatório. Como mulher que ainda carregava mortos e que, finalmente, aprendia a não trancá-los consigo.

Quando terminou, Liora perguntou:

— Eles ficam mais leves quando você fala?

Sarah demorou para responder.

— Um pouco.

A criança assentiu.

— Então fala mais vezes. Mas não tudo no mesmo dia. Até árvore quebra se tentar soltar todos os frutos de uma vez.

Sarah olhou para Roberta.

Roberta apenas sorriu.

Mais tarde, quando voltaram para casa, Sarah disse:

— Estou recebendo aconselhamento existencial de uma criança.

— Você precisava.

— Ela tem oito anos.

— E você ficou anos tentando conversar só com protocolos. Acho que ela sai ganhando.

Sarah fingiu ofensa por três segundos.

Depois riu.

E Roberta se apaixonou mais um pouco.

Não que houvesse espaço lógico para isso.

Mas havia.

Éden também ensinava que espaço não era apenas medida.

O Vega permanecia na clareira.

Não preso.

Pertencente.

Com o passar dos meses, os filamentos de Éden-9 cresceram ao redor do módulo, sem invadir sistemas críticos. Envolveram parte do trem de pouso, subiram por áreas externas do casco e formaram uma espécie de cobertura viva que protegia a estrutura da chuva mineral. Crianças da comunidade visitavam o módulo acompanhadas por adultos e por Aurora-Éden, que agora se projetava em uma luz azul mais suave, às vezes misturada a tons dourados que Roberta não lembrava de existir antes.

Aurora-Éden mudava.

Não deixara de ser Aurora.

Mas já não era igual à parte que retornara à Terra.

Falava menos. Escutava mais. Às vezes respondia a perguntas das crianças com outras perguntas, algo que Mei, em uma mensagem posterior, classificaria como “contaminação filosófica grave”. Aurora-Éden mantinha registros, sistemas, comunicação limitada e observação ética entre tecnologia humana e rede planetária. Mas também aprendia quando não registrar.

Isso talvez fosse sua maior transformação.

Um dia, Roberta a encontrou silenciosa diante do lago.

A esfera azul pairava baixa sobre a margem.

— Está analisando alguma coisa? — perguntou Roberta.

Aurora-Éden demorou.

— Sim.

— O quê?

— A diferença entre preservar e guardar demais.

Roberta sentou-se ao lado dela.

— Chegou a alguma conclusão?

— Parcial. Algumas memórias precisam de registro. Outras precisam de testemunha. Outras precisam apenas de lugar.

Roberta olhou para a água.

— Isso foi muito bonito.

— Estou aprendendo com fontes pouco objetivas.

— Éden?

— Também você.

Roberta sorriu.

— Perigoso.

— Concordo.

Do outro lado da margem, Sarah ajudava Liora e outras crianças a ajustar pequenas estruturas de fibra que flutuavam sobre a água. Estava concentrada, com os pés descalços na margem, as calças dobradas até a panturrilha e o cabelo preso de qualquer jeito. Uma das crianças disse algo. Sarah fingiu surpresa, levou a mão ao peito e depois respondeu com um gesto exageradamente ofendido.

As crianças riram.

Sarah riu junto.

Roberta ficou olhando.

Aurora-Éden perguntou:

— O que sente ao observá-la?

Roberta respirou devagar.

— Casa.

A esfera azul permaneceu quieta.

— Registrarei?

Roberta pensou.

Depois balançou a cabeça.

— Não. Só fica comigo um pouco.

Aurora-Éden não respondeu.

Ficou.

As visitas em sonhos começaram de forma inesperada.

Não eram frequentes.

Não obedeciam pedido direto.

Iara explicou que Éden-9 não atravessava a distância até a Terra como uma transmissão comum. Não invadia mentes, não abria canais perfeitos, não entregava mensagens como uma IA. O que fazia era outra coisa: tocava a saudade das pessoas que permaneciam nele e, às vezes, criava um lugar de encontro entre memória, desejo e presença distante.

— Não é a Terra — dissera Iara.

Roberta pensou em Sarah dizendo isso meses antes.

— Mas também não é só sonho — completara Samira, contrariada com a própria frase. — O corpo acorda diferente.

Sarah sonhou primeiro com Emma.

A irmã estava em uma varanda que não pertencia exatamente a lugar algum. Havia céu de São Paulo, vento de Calisto e árvores de Éden ao fundo. Emma parecia mais velha do que Sarah lembrava e, ao mesmo tempo, igual. Olhou para Sarah sem espanto.

— Você finalmente parou de tentar morrer por educação? — perguntou.

Sarah acordou chorando e rindo ao mesmo tempo.

Roberta a segurou até a respiração dela voltar.

— Ela disse isso?

Sarah assentiu.

— Disse.

— Gostei dela.

— Ela gostaria de você.

Roberta beijou sua testa.

— Todo mundo parece gostar de mim nos seus traumas e sonhos.

Sarah, ainda emocionada, conseguiu sorrir.

— Irritante, não?

Roberta sonhou com a avó algumas semanas depois.

Jandira estava na antiga cozinha, mas havia folhas prateadas crescendo pela janela. O cheiro era de café, terra molhada e caldo de folha profunda. Ela não pareceu surpresa ao ver Roberta.

— Demorou para aprender a escutar sem querer traduzir tudo, menina.

Roberta chorou no sonho.

— Estou tentando, vó.

— Eu sei. Vi você chegando toda cheia de ciência e medo.

— A senhora viu?

— Eu vejo o que preciso ver.

Roberta riu chorando.

— Isso não é resposta.

— É resposta de avó. Vale mais.

Quando acordou, Sarah estava ao lado dela, acordada, acariciando seu cabelo.

— Ela veio?

Roberta assentiu.

— Brigou comigo.

— Naturalmente.

— Disse que você tem cara de quem precisava de comida e paciência.

Sarah ficou pensativa.

— Ela acertou.

— Infelizmente.

Roberta também sonhou com Lia.

Essa visita doeu de outro jeito.

A amiga apareceu sentada em uma calçada molhada, usando uma camiseta velha que Roberta reconheceu de uma viagem de faculdade. Estava comendo pão de queijo de um saco de papel e parecia completamente inconformada com a existência de outro planeta.

— Então você foi para o espaço e arrumou uma capitã traumatizada, gostosa e emocionalmente difícil — disse Lia.

Roberta cobriu o rosto.

— Eu senti sua falta.

— Eu sei. Mas não muda que seu padrão é ridículo.

Roberta riu tanto que acordou com o rosto molhado.

Sarah, depois de ouvir o relato, ficou ofendida apenas com a parte “emocionalmente difícil”.

— O resto você aceita?

Sarah ajeitou o corpo na cama.

— Gostosa é uma avaliação aceitável.

Roberta gargalhou.

Sarah sorriu de lado.

A leveza dela ainda surpreendia.

E, quando surpreendia, Roberta fazia questão de mostrar que via.

Algumas noites depois, Roberta sonhou com Sergey.

Não esperava.

No sonho, estava em uma sala ampla da Terra, cercada por telas e janelas altas. Não era Éden. Não era memória dela. Era algo mais próximo de uma visão mediada: fragmentos enviados por Aurora-Terra, costurados por Éden a partir da saudade, da pergunta e do vínculo criado entre todos.

Sergey estava mais magro.

Mais cansado.

Mas vivo.

Usava roupas civis, embora a postura ainda entregasse o homem que passara a vida em uniforme. Ao lado dele estavam Mei e Asha, diante de uma sala cheia de pessoas. Havia jornalistas, cientistas, representantes civis, algumas figuras militares e, em um canto, pessoas segurando placas com nomes dos descendentes de Aurora Prime.

Roberta viu flashes.

A captura inicial da Aurora quando chegaram à Terra.

O isolamento da nave.

O tribunal militar.

A acusação de insubordinação, sabotagem, divulgação ilegal de material estratégico e comprometimento de missão. A tentativa de declarar Aurora-Terra um sistema corrompido. Asha de pé diante de uma comissão, recusando-se a entregar os dados sensíveis. Mei rindo no momento errado e sendo repreendida. Sergey dizendo, diante de oficiais que um dia teriam sido seus superiores:

— Se obedecer significa mentir sobre vida inteligente para facilitar extração, então a desobediência foi a primeira decisão correta da missão.

Roberta sentiu orgulho.

Depois viu o mundo responder.

Milhões de pessoas exigindo absolvição.

Famílias dos colonos de Aurora Prime pressionando governos.

Cientistas publicando cartas abertas.

Médicos citando o parecer de Samira.

Jovens repetindo a frase sobre Éden ter aprendido a fechar as portas por dentro.

Protestos diante do Conselho.

Sistemas civis replicando a mensagem sempre que tentavam apagá-la.

Aurora-Terra atuando de dentro das redes abertas, não dominando, não controlando, mas preservando provas, impedindo apagamentos, organizando arquivos públicos e ajudando a traduzir o que podia ser traduzido sem colocar Éden em risco.

O tribunal não absolveu por bondade.

Absolveu porque o mundo estava olhando.

Não todos.

Nunca todos.

Mas gente suficiente.

Depois, Sergey apareceu em outra cena. Em um auditório menor, com Mikhail sentado na primeira fileira. O menino não parecia mais ter cinco anos. A viagem, mesmo reduzida, o tempo e a distância haviam feito seu trabalho. Mas quando Sergey olhou para ele, Roberta reconheceu o pai da Febre de Eco.

Sergey falava sobre segurança.

Não como antes.

Dizia que segurança sem escuta era só medo organizado.

Asha, em outro lugar, ensinava sobre ética de dados de mundos vivos.

Mei participava de debates públicos e, aparentemente, tornara-se insuportavelmente popular por explicar eventos absurdos com frases simples demais para os oficiais contestarem.

Aurora-Terra continuava ativa, protegida por uma coalizão civil, acadêmica e técnica que a reconhecia não como propriedade militar, mas como testemunha autônoma da missão.

Roberta acordou antes do sonho terminar.

Sarah estava sentada ao lado dela, alerta.

— Beta?

Roberta respirou fundo.

Demorou para voltar completamente.

— Eu vi eles.

Sarah ficou imóvel.

— Mei, Asha e Sergey?

Roberta assentiu.

— Eles foram capturados primeiro. Tribunal militar. Tentaram destruir a credibilidade deles. Tentaram calar Aurora-Terra.

Sarah fechou os olhos.

A dor passou pelo rosto dela.

— E agora?

Roberta segurou sua mão.

— Foram absolvidos. Não porque a Terra virou boazinha. Porque o mundo pressionou. Porque a mensagem chegou fundo demais para ser enterrada. Hoje eles são consultores. Estão ajudando a divulgar o que aprenderam aqui, com limites, sem entregar o que coloca Éden em risco. Aurora-Terra continua atuando também.

Sarah levou a mão à boca.

Por um instante, não disse nada.

Roberta sentou-se e a abraçou.

Sarah se agarrou a ela com força.

Não chorou de imediato.

Depois chorou.

Pouco.

Mas chorou.

— Sergey viu Mikhail? — perguntou Sarah, contra o ombro dela.

— Sim.

— E?

Roberta sorriu, emocionada.

— Acho que ele está aprendendo a voltar sem cerca.

Sarah fechou os olhos.

— Bom.

Ficaram assim até o amanhecer.

Do lado de fora, Éden-9 respirava com elas.

Os meses seguiram.

A comunidade sabia que a Terra enviaria outra expedição algum dia.

Não havia ingenuidade quanto a isso.

O Véu de Éden permanecia ativo, embora invisível da superfície. Às vezes, durante a noite, as estrelas pareciam mudar de lugar por um segundo, como se o céu lembrasse que havia aprendido a se proteger. Asha enviava, quando possível, atualizações filtradas por Aurora-Terra. O debate na Terra era intenso, dividido, às vezes brutal. Alguns chamavam Éden de ameaça. Outros de milagre. Outros de novo sujeito político. Outros ainda queriam romper o Véu a qualquer custo.

Mas havia também grupos de escuta.

Esse nome pegara.

Primeiro entre jovens.

Depois entre cientistas, médicos, artistas, famílias dos colonos, comunidades que viam em Éden-9 não apenas um planeta distante, mas um espelho cruel da história humana. Grupos que estudavam como chegar sem tomar. Como perguntar sem arrancar. Como reconhecer limite sem chamar de derrota.

Sarah e Roberta participavam dos círculos de escuta em Aurora Prime quase todas as semanas.

No início, Sarah ainda tentava falar pouco.

Depois aprendeu que escuta não era ausência de voz.

Era presença sem domínio.

Roberta, por sua vez, aprendeu que traduzir Éden para a Terra não significava tornar o planeta menor. Significava admitir, com honestidade, onde a tradução falhava.

— Na Terra, se eu disser que uma árvore me corrigiu, vão ter dificuldade — comentou ela certa tarde, sentada com Sarah perto do lago.

Sarah jogou uma pequena pedra na água.

— A árvore corrigiu?

— Tecnicamente, foi a rede através da árvore.

— Isso melhora muito.

Roberta olhou para ela.

Sarah tentava parecer séria.

Falhava.

— Você está muito debochada ultimamente, Sah.

Sarah passou o braço pela cintura dela.

— Influência local.

— Minha?

— Também.

Roberta se inclinou, roçando a boca na dela.

— Você sabe que está ficando perigosa quando brinca assim?

Sarah olhou para a boca dela.

— Sei.

— E continua.

— Agora eu sei e continuo.

Roberta sorriu.

— Evolução.

Sarah beijou-a.

Devagar.

Sem pressa.

O lago permaneceu quieto, refletindo as duas luas pequenas no céu. Em algum lugar próximo, Aurora-Éden conversava com Liora sobre a diferença entre arquivo e lembrança. Samira discutia com Maela sobre uma nova escala de febre que usava parâmetros fisiológicos e cores “menos ofensivamente poéticas”, nas palavras da médica. Iara observava um grupo de jovens treinando o primeiro protocolo de recepção para uma futura expedição terrestre.

Não uma expedição de conquista.

Não se Éden pudesse impedir.

Não se a comunidade pudesse escolher.

Não se Sarah, Roberta e Samira tivessem algo a dizer.

Mais tarde, no círculo de fala, Iara perguntou o que cada uma esperava da próxima chegada da Terra.

Houve muitas respostas.

Cautela.

Medo.

Curiosidade.

Raiva.

Esperança.

Quando chegou a vez de Sarah, ela ficou em silêncio por um tempo.

Roberta estava sentada ao seu lado.

Não tocou nela.

Esperou.

Sarah olhou para o círculo: Iara, Naya, Liora, Samira, as cuidadoras, Aurora-Éden pulsando perto do Vega ao longe, Roberta com os olhos atentos, a comunidade que a aceitara sem esquecer o perigo que ela representara.

— Espero que venham devagar — disse Sarah. — E que, se não souberem escutar, aceitem ficar do lado de fora até aprender.

Iara assentiu.

Depois olhou para Roberta.

— E você?

Roberta respirou.

Pensou na Terra.

Na avó.

Em Lia.

Em Sergey diante de um tribunal.

Em Asha protegendo dados.

Em Mei dizendo verdades com humor.

Em Aurora-Terra orbitando um planeta que ainda não sabia se merecia a chance recebida.

Pensou em Sarah pela manhã, rindo, leve, cafageste, viva.

Pensou no amor que construíam não como abrigo fechado, mas como prática diária de escuta.

— Espero que eles entendam que paz não é chegar sem medo — disse Roberta. — É chegar sem transformar o medo em posse.

O círculo recebeu a frase em silêncio.

Éden-9 também.

Sob os pés delas, um pulso baixo atravessou o chão.

Não alarme.

Não advertência.

Reconhecimento.

Naquela noite, de volta à casa, Sarah puxou Roberta para perto antes mesmo que a entrada se fechasse completamente.

— Você falou bonito no círculo.

Roberta sorriu.

— Você também.

Sarah beijou sua boca.

— Eu falei profundo. Você falou bonito.

— Competição?

— Admiração.

Roberta passou os braços pelo pescoço dela.

— Você está muito encantadora hoje.

Sarah deslizou as mãos pela cintura de Roberta.

— Só hoje?

— Quer elogio ou relatório completo?

Sarah a puxou mais perto.

— Quero você.

Roberta sentiu o corpo responder, mesmo depois de tantos meses, como se o desejo entre elas tivesse aprendido a amadurecer sem perder fogo.

— Isso você tem.

Sarah sorriu.

Aquele sorriso.

Leve, safado, vivo.

— Ainda bem.

Roberta riu contra a boca dela.

Lá fora, Éden-9 apagou aos poucos as luzes próximas da casa.

Privacidade.

Ou cumplicidade.

Talvez, naquele mundo, fossem a mesma coisa.

Mais tarde, quando a respiração das duas já havia desacelerado e Sarah dormia com o rosto escondido no pescoço de Roberta, a astrobióloga ficou olhando para o teto translúcido.

Havia estrelas além dele.

Havia uma Terra distante tentando decidir quem seria depois de saber.

Havia uma nave em órbita daquele planeta, com uma Aurora que continuava transmitindo começos possíveis.

Havia uma parte de Aurora no Vega, aprendendo a diferença entre guardar e deixar viver.

Havia Samira, que provavelmente acordaria cedo para brigar com uma cuidadora e chamar isso de pesquisa.

Havia Iara e Naya, Liora e Maela, Amat e tantas outras pessoas que transformaram sobrevivência em cultura.

Havia Sarah.

Sah.

A mulher que chegara carregando uma ordem de posse e escolhera ficar para proteger uma recusa.

Roberta tocou os cabelos dela com delicadeza.

Sarah murmurou algo incompreensível e se aconchegou mais.

Roberta sorriu.

Éden-9 não era um paraíso.

Nunca tinha sido.

Era vivo.

E tudo que era vivo exigia cuidado, limite, escuta, reparação e coragem de permanecer depois da primeira beleza.

Talvez fosse por isso que ela o amava.

Talvez fosse por isso que amava Sarah.

Porque em ambas havia luz e ferida.

Memória e risco.

Mistério e resposta.

E, apesar de tudo, a escolha diária de não fechar todas as portas.

Do lado de fora, a cidade respirava.

Roberta fechou os olhos.

Antes de dormir, sentiu o planeta tocar a borda de sua consciência, não como invasão, não como chamado urgente, mas como uma presença conhecida perguntando, sem palavras, se ela estava ali.

Roberta respondeu do único modo que aprendera a ser verdadeiro.

Ficou.

E Éden-9, o mundo que lembrava, guardou aquele silêncio não como fim, como começo.


FIM

Fim do capítulo


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Comentários para 34 - Epí­logo - O mundo que lembrava:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 21/07/2026

Parabéns autora gostei muito

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