Capítulo XIX - Um Segundo a Mais
Por Inês:
Havia uma disciplina em manter distância que ninguém me ensinara e que eu mesma fui obrigada a inventar.
Não era difícil evitar o corredor onde ficava seu quarto. Era difícil evitar pensar nele enquanto o evitava.
Aprendi, naqueles dias, a controlar ainda mais minhas próprias entradas e saídas em cada cômodo daquela casa. Descia para o café antes que Cecília já estivesse à mesa, e não me demorava. Assim a saudação era breve, formal, cumprida em segundos, e eu podia ir para outro local sem que meus olhos precisassem escolher entre olhá-la e não olhá-la. À noite, subia para o quarto antes que ela se recolhesse.
Chamavam aquilo de discrição. Era, na verdade, fuga e sobrevivência.
Sentia mais do que raiva de mim mesma. O que eu sentia não tinha nome tão generoso. Era antes uma lucidez incômoda. A certeza fria de que eu conhecia cada passo que dera e as razões que me haviam levado até ali.
Bastava lembrar o que o corpo dela havia dito naquela noite e o que a boca dela dissera depois, na biblioteca, para que a distância parecesse não apenas prudente. Parecesse a única resposta possível.
Não guardava rancor de Cecília. Como poderia? Ela era jovem e fora criada para acreditar que a vida lhe acontecia, não que ela também a escrevia. Eu era a única, na casa, que sabia o preço exato do que havíamos feito.
Foi nesse estado de reflexão calculada que Alberto chegou.
Observei-o pela primeira vez pela janela do andar de cima, descendo da carruagem com aquele entusiasmo fácil de quem nunca precisou temer chegar tarde a lugar nenhum. Reconheci nele algo que já esperava reconhecer: o tipo de homem que Dona Eulália aprovaria sem hesitação, o tipo de homem para quem toda a arquitetura daquela casa, incluindo Cecília, fora silenciosamente preparada.
Observei-o durante o almoço com atenção. A maneira como falava com Dona Eulália, sempre no tom certo. A maneira como olhava para Cecília, com uma ternura silenciosa e uma paixão que ele já não conseguia esconder.
Quando o senhor Guimarães falou sobre filhos sem falar sobre filhos, ergui os olhos antes de poder me impedir. Encontrei os de Cecília já postos em mim.
Recolhi o olhar no instante seguinte. Voltei-o ao prato. Mas o instante já havia acontecido, e um instante, eu sabia, era o suficiente para trair uma vida inteira de compostura.
Vi-os junto à cerca, próximos ao pomar, antes que eles me vissem.
Não fora minha intenção. Depois do almoço, recolhi-me ao quarto sob um pretexto qualquer. Precisava de alguns instantes longe da sala de visitas, longe das conversas e, sobretudo, das despedidas que aconteceriam em seguida.
Foi da janela que os avistei. Os dois haviam parado junto à cerca, alheios ao fato de que eu os observava.
Deveria ter me virado. Havia tempo suficiente. Não me virei.
Fiquei olhando um segundo a mais do que deveria, e depois outro, como quem precisa certificar-se da existência da ferida antes de permitir que ela doa.
Cecília deu o passo. Foi ela quem se aproximou, não ele. Registrei isso com uma precisão fria. Ela não fora tomada de surpresa. Ela não recuou.
Ela ergueu a mão e tocou o rosto dele com um cuidado que eu conhecia, porque com aquele mesmo cuidado havia tocado o meu rosto poucos dias antes.
Os lábios deles se encontraram.
Não senti o que esperava sentir. Não houve o golpe direto que eu temia. Houve algo mais lento e mais completo, uma espécie de afundamento silencioso.
Fiquei ali mais um tempo. Precisava. Precisava ter certeza de que aquilo doía o suficiente para justificar o que eu já havia decidido fazer.
Doeu.
***
No dia seguinte, fiz aquilo em que me tornara especialista: evitei Cecília. Mas não consegui fazer o mesmo com Dona Eulália.
Naquela manhã, Dona Eulália chamou-me à sala de costura. Bastou ouvir sua voz para reconhecer o tom que reservava aos assuntos que já não podiam ser adiados
— Inês — disse, sem erguer os olhos do bordado — o senhor comendador voltará a perguntar, e eu gostaria de lhe dar uma resposta antes que ele o faça.
— A resposta é não, senhora Eulália.
Ela ergueu os olhos. Havia nele uma decepção que não era hostil, apenas cansada, a decepção de quem gostaria que o mundo fosse mais simples do que insistia em ser.
— Você sabe o que está recusando.
— Sei.
— Uma casa. Uma posição. Um nome.
— Sei, Dona Eulália.
— E ainda assim.
— E ainda assim — respondi.
Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes, passando os dedos sobre o tecido estendido no colo.
— Ontem mesmo havia outra carta endereçada à senhorita Bianca Rossi na bandeja da entrada.
Ergui os olhos.
— Sim.
— Não conheço a fundo esta moça. Tampouco tenho qualquer razão para pensar mal dela. Mas imagino que a vida que ela leva seja muito diferente da sua. Diferente da nossa. Há ideias que florescem em certos lugares e que, por vezes, nos fazem olhar para aquilo que temos diante de nós com outros olhos.
Esperei que ela terminasse.
— Diga-me apenas uma coisa, Inês. Essa amizade... essas correspondências... têm alguma relação com sua recusa?
Sustentei seu olhar.
— Não têm qualquer relação, Dona Eulália.
Ela continuou me observando por um longo momento, como se procurasse em meu rosto alguma fissura por onde pudesse entrar e persuadir. Não encontrou. Suspirou, baixou os olhos de volta ao bordado e não insistiu mais. Isso, também, era próprio dela: sabia quando uma porta estava de fato fechada, mesmo sem saber por quê.
Naquela noite escrevi a outra carta.
Não foi difícil escolher as palavras, porque já as sabia havia dias, guardadas em algum lugar da mente à espera do momento em que seriam necessárias. Agradeci a ela pelo teto, pela paciência, pelos anos em que fui bem tratada. Não expliquei a recusa além do que já havia explicado em pessoa. Não mencionei Bianca. Tampouco mencionei Cecília. Não havia frase que pudesse conter aquele nome sem também revelar tudo o que eu não estava disposta a revelar.
Dobrei o papel duas vezes e o deixei sobre a escrivaninha, pronto para ser encontrado.
No dia seguinte, levantei antes do amanhecer, quando a casa ainda respirava o sono pesado de quem não sabe que algo está prestes a mudar.
Arrumei a mala com o mesmo cuidado metódico que aplicava a tudo, dobrando cada peça na ordem certa, guardando os poucos livros que considerava meus por direito e não por empréstimo. A casa estava silenciosa daquele jeito específico que só existe pouco antes do sol nascer.
Não cruzei com Cecília. Não cruzei com Dona Eulália. Havia planejado exatamente para que assim fosse.
Encontrei Arminda na cozinha, já de pé, atiçando o fogo do fogão com empenho. Ela me olhou, olhou a mala na minha mão, e algo em seu rosto se fechou antes mesmo que ela perguntasse.
— Mas o que isso quer dizer, senhorita Inês?
— Quer dizer que estou de partida, Arminda.
— Assim. Sem se despedir de ninguém? Na surdina?
— Deixei uma carta para Dona Eulália. Ela vai entender.
Arminda não perguntou nada sobre a carta, continuou apenas me olhando.
— Vou sentir sua falta — disse, e havia um leve tremor em sua voz que quase me desarmou mais do que qualquer despedida elaborada teria feito.
Abracei-a. Foi um abraço breve, mas real, dos poucos que dei naquela casa sem calcular a duração.
— Cuide delas — pedi em voz baixa. Não precisei dizer seus nomes para que Arminda soubesse de quem eu falava.
Atravessei o jardim, passei pelo pomar e segui pela trilha que levava à porteira. Não olhei para trás. Sabia que, se o fizesse, talvez encontrasse uma razão para permanecer.
Bianca já esperava em frente à porteira da fazenda, exatamente como havíamos combinado por carta, a silhueta reconhecível mesmo na luz incerta da madrugada. Não trocamos grandes palavras. Ela tomou minha mala com naturalidade e seguimos de carruagem em direção à estação. O barulho das rodas sobre a terra o único som que preenchia aquele espaço.
Luca já estava na plataforma quando chegamos, e subiu ao mesmo vagão sem que fosse necessário combinar nada além do que já havia sido combinado por carta dias antes.
O trem partiu dando aquele solavanco inicial que sempre parece maior do que os que seguem. Sentei-me junto à janela. Bianca sentou-se à minha frente, e por um tempo nenhuma das duas falou, como se ambas soubéssemos que havia um limite de palavras que a manhã ainda podia suportar.
— Você fez a escolha certa — disse Bianca, em algum momento, os olhos postos em mim como se tentasse me confortar. — Seu futuro agora está nas suas próprias mãos, senhorita Inês. Ninguém vai decidir mais nada por você.
— Sim — respondi.
Ela pareceu esperar que eu dissesse mais. Não veio nada, e ela, sabiamente, não insistiu.
A paisagem começou a se mover do lado de fora, devagar no início, depois com uma velocidade que engolia os detalhes antes que eu pudesse fixá-los. Um bosque. Uma cerca. Uma casa distante com fumaça subindo fina da chaminé.
Foi o movimento da luz atravessando as árvores que trouxe de volta o que eu não pedira para recordar.
O quarto silencioso. A curta distância entre nós. As mãos de Cecília encontrando as minhas. O instante em que seus lábios tocaram os meus pela primeira vez, com toda a hesitação de quem atravessava uma fronteira sem saber o que existia do outro lado. Depois, a entrega dos corpos. A delicadeza que lentamente deu lugar à certeza de que nenhuma das duas desejava interromper aquele momento.
Luca interrompeu meus pensamentos, dizendo alguma coisa sobre a cidade, sobre o que nos esperava, sobre nomes e endereços que eu deveria memorizar. Ouvi em fragmentos, do jeito que se ouve chuva distante.
Voltei os olhos para a janela.
A paisagem continuava a passar diante da janela, indiferente, enquanto eu permanecia presa entre dois lugares: aquele que eu havia deixado e aquele para o qual ainda não sabia se estava pronta.
Fim do capítulo
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