Capitulo 5 - Incertezas e Reencontros
A poeira que subia dos cascos de Storm misturava-se à névoa densa que ainda teimava em se agarrar às depressões do terreno nas primeiras horas da manhã. O ar de Nebraska guardava aquele frescor metálico e úmido que precede o mormaço sufocante de julho, um prenúncio de que cada hora de trabalho ganha antes das dez horas da manhã valia por duas no final do dia.
Jane Catherine Brown ajustou a pressão das coxas contra o couro suado da sela, sentindo os músculos do cavalo negro trabalharem sob seu comando com a precisão mecânica de um motor de trator bem regulado. O cansaço da viagem a Omaha e as horas passadas na noite anterior mastigando os números implacáveis das planilhas contábeis sob a luz fraca do abajur da sala pareciam ter se dissipado, substituídos pela urgência do manejo daqueles novilhos que iriam garantir um sopro a mais de sobrevivência do rancho.
À esquerda de Jane, Hank avançava em um trote largo e constante, mantendo os olhos cinzentos fixos na linha de salgueiros que margeava o leito seco do canal velho. O capataz conhecia cada palmo daquelas terras como se fossem as linhas da palma de sua mão calejada; sabia onde os Hereford gostavam de se abrigar quando o sol apertava e quais reses eram mais propensas a liderar uma debandada em direção à cerca fraca da divisa norte, onde os acres que outrora pertenceram ao tio Tom agora se desmanchavam em um silêncio suspeito com a ausência de atividade naqueles poucos acres.
Mais atrás, os gritos curtos e os assobios estridentes de Billy e Toby ecoavam pelas colinas, empurrando os primeiros lotes de novilhos para fora dos capões de salgueiros. O som rítmico dos chocalhos e o mugido baixo e confuso do rebanho começavam a preencher o vale, rompendo a calmaria do dia com a sinfonia que sustentara a dinastia dos Brown por mais de um século.
Jane não fazia ideia de que, naquele exato momento, a setecentos quilômetros dali, a máquina sem alma que pretendia esmagar o Vale do Loup já havia sido acionada no trigésimo andar de uma torre de vidro fumê em Chicago. Ela não sabia que os relatórios datilografados sobre a mesa de Stephanie White detalhavam não apenas a sua dívida com o National Bank, mas também a vulnerabilidade hídrica de suas pastagens após a venda sorrateira das terras por seu tio Tom.
Para Jane, o inimigo tinha apenas um rosto conhecido: o relógio de parede do banco que avançava implacável em direção ao dia trinta do mês, às dezessete horas. Ela operava sob a lógica honesta da terra - onde o suor, a apartação correta e a pesagem justa em Omaha eram as únicas variáveis que importavam para garantir os oitenta por cento do adiantamento da Midwest Co. Os vinte por cento restantes eram uma sombra que ela guardava no fundo da mente, um problema para ser resolvido na terça-feira, após o último caminhão a diesel sumir na estrada vicinal levantando poeira.
- Segura a cabeceira, Jane! - o grito de Hank veio cortando o vento da manhã, arrancando-a de seus pensamentos. - Três novilhos de ponta estão querendo estourar pela direita, perto da vala velha!
Jane reagiu por instinto. Deu rédea curta a Storm e tocou o cavalo com os calcanhares, sentindo a resposta imediata do animal. O cavalo esguio cortou o terreno acidentado com agilidade, emparelhando com o primeiro novilho, um animal robusto, de pelagem avermelhada e a cara branca típica da linhagem pura que seu pai tanto se esforçara em aprimorar.
Com um movimento firme, Jane forçou o novilho a girar para dentro, reincorporando-o ao grosso do lote que descia em direção aos currais da sede. Billy e Toby fecharam o flanco oposto, os laços prontos nas selas, embora nenhum deles quisesse usar a corda a menos que fosse estritamente necessário; o estresse reduzia o peso, e o peso valia seu peso em ouro nas finanças do rancho.
Por volta das onze da manhã, o sol já havia quebrado completamente a névoa, transformando o Vale do Loup em um caldeirão de calor seco e poeira sufocante. O cheiro de suor animal, esterco fresco e poeira de terra batida impregnava o ar ao redor das cercas de madeira tratada da sede.
Duzentas cabeças de novilhos Hereford estavam finalmente encurraladas, divididas em lotes menores nos piquetes de manejo para facilitar a vacinação e a checagem das marcas de ferro antes do embarque de segunda-feira. Jane desmontou de Storm, sentindo as pernas pesadas pelo esforço e os braços trêmulos pela tensão das rédeas. Ela amarrou o cavalo no mourão do palanque e tirou o chapéu de feltro surrado, usando a manga da camisa de brim sarja desbotada para limpar o suor que escorria por sua testa.
- Bom trabalho, menina - disse Hank, aproximando-se enquanto guardava o canivete que usara para cortar um pedaço de fumo. - Estão todos aí. O gado está sadio e bem pesado. Se a balança de Dave Miller em Omaha estiver calibrada e for justa, esse lote vai render uma boa média por arroba. Agora vá para dentro, coma alguma coisa e descanse. Deixe que eu e os meninos cuidamos da água e do feno para esses animais passarem o fim de semana tranquilos.
Jane assentiu, agradecida pelo respeito e atenção do velho capataz. Ela caminhou até a varanda da casa principal, o rangido de suas botas de montaria gasta ecoando no silêncio que voltava a se instalar sobre a sede. Dentro da casa, o frescor das paredes antigas de madeira e tijolo era um alívio contra o mormaço do meio-dia.
Ela preparou uma refeição simples e rápida - feijões aquecidos na panela de ferro, algumas fatias de carne curada e um copo de água fria tirada do filtro de barro. Enquanto comia na mesa de carvalho da cozinha, seus olhos inevitavelmente se voltaram para as pastas suspensas cheias de notificações judiciais e balancetes bancários acumulados sobre a escrivaninha do pai. A lembrança das palavras frias que ouvira em Omaha de que o mercado já não mais perdoava os pequenos criadores parecia pesar mais do que o trabalho físico daquela manhã.
O cansaço acabou por vencê-la nas primeiras horas da tarde. Jane deitou-se na velha poltrona de couro da sala, adormecendo profundamente ao som do zumbido das moscas contra a tela de arame fino da janela e do vento quente que soprava lá fora.
Foi o som de um motor diferente que a acordou por volta das quatro e meia da tarde. Não era o ronco pesado da picape de Hank ou o barulho dos tratores do rancho usados no manejo das pastagens. Era o zumbido agudo, esportivo e inconfundível de um motor de quatro cilindros japonês. Jane sentou-se na poltrona, ajeitando o cabelo desalinhado, e caminhou até a janela da frente. Parado no pátio de cascalho, contrastando violentamente com a paisagem de poeira e madeira rústica, estava um Toyota Celica vermelho, ano 1977, a pintura brilhando sob o sol do fim de tarde.
A porta do motorista abriu-se e uma mulher de calça jeans de cintura alta, jaqueta de camurça com franjas e óculos escuros estilo aviador desembarcou, esticando os braços com um sorriso largo. Era Sarah Lee.
Jane sentiu o coração dar um salto involuntário, uma mistura de surpresa e uma pontada de nostalgia que ela achava ter enterrado junto com os pertences - umas poucas fotos Polaroid desbotadas, que levara para a faculdade em Lincoln anos atrás. Sarah fora sua vizinha na fazenda vizinha dos Lee e, nos meses que antecederam a partida de Jane para a cidade grande, as duas haviam compartilhado mais do que apenas segredos próprios da juventude, no banco de trás de uma caminhonete velha; viveram um caso rápido, intenso e escondido dos olhos severos daquela comunidade rural - um segredo guardado sob o céu estrelado de Nebraska que nunca encontrara espaço para se transformar em algo público, impensável nos últimos anos da década de 1960 e ainda agora em 1980.
- Eu não acredito no que meus olhos estão vendo - Jane disse, abrindo a porta de tela e saindo para a varanda com o primeiro sorriso genuíno do dia. - Sarah? O que você está fazendo aqui?
- Eu soube que você estava de volta ao vale enfrentando os leões sozinha, Jane Cat. - Sarah tirou os óculos escuros, revelando os olhos castanhos vivos que Jane conhecia tão bem. - E achei que você precisava de uma distração antes que esquecesse como é o gosto de uma cerveja gelada e boa companhia.
Jane sorriu abertamente ante a lembrança do apelido pela qual Sarah costumava chama-la naqueles dias quentes de verão a 12 anos atrás. As duas se abraçaram no meio do pátio, um abraço apertado que cheirava a perfume de lavanda de Sarah e à poeira e cheiro do couro da sela que ainda teimava em se agarrar às roupas de Jane. A presença de Sarah era como uma lufada de ar fresco de um tempo em que as responsabilidades do rancho não pesavam sobre os ombros de Jane e o futuro parecia uma linha aberta no horizonte, e não uma parede de tijolos financeiros construída por empresas e bancos sem coração.
- Você veio na hora certa - Jane admitiu, afastando-se para olhar a amiga. - Acabamos de fechar duzentas cabeças no curral para o embarque de segunda-feira. Meu corpo dói e minha cabeça está prestes a explodir com juros e prazos de hipotecas.
- Então você não tem escolha - Sarah disse, piscando e apontando para o Celica vermelho. - Você vai tomar um banho, tirar essa poeira do Vale do Loup de cima de você e nós vamos até o Blue Moon em Broken. Hoje à noite é noite de jukebox, cerveja barata e conversa fiada. Sem advogados, sem gerentes de banco e sem preocupações. Entendido?
Jane hesitou por um segundo, olhando para o curral onde o gado descansava sob os cuidados de Hank. Ela sabia que o trabalho físico do dia terminara e que nenhuma planilha mudaria de valor se ela ficasse sentada olhando para ela até o anoitecer. Ela merecia aquela pausa.
- Me dê vinte minutos - Jane cedeu, sorrindo.
Vinte minutos depois, Jane desceu os degraus vestindo uma calça jeans limpa, uma camisa de algodão xadrez azul e suas botas de sair, com o cabelo lavado e preso em um rabo de cavalo prático. Ela deixou um bilhete rápido para Hank na escrivaninha da entrada, avisando que estaria na cidade, e entrou no banco do carona do Toyota Celica.
O interior do carro japonês cheirava a estofado recém lavado e ao aromatizante de pinho que Sarah pendurara no retrovisor. Assim que Sarah girou a chave e o motor ganhou vida, o som de uma fita cassete no rádio preencheu a cabine; as batidas sintéticas e as guitarras de uma música new wave ecoaram pelas saídas de ar enquanto o carro manobrava no cascalho e ganhava a estrada vicinal, deixando para trás a silhueta silenciosa e imponente do rancho.
A viagem de trinta minutos até Broken foi preenchida pelo som da música e pelas primeiras atualizações sobre a vida de Sarah, que agora trabalhava na farmácia da cidade e tentava guardar dinheiro para se mudar para Denver. Conforme o sol desaparecia atrás das colinas do oeste, pintando o céu de Nebraska com tons de roxo e laranja neon, a escuridão da noite rural começou a isolar o carro na rodovia de duas pistas, transformando o painel de instrumentos do Celica na única fonte de luz naquela imensidão escura.
O Blue Moon era o coração social de Broken nas noites de fim de semana. O letreiro de neon azul na fachada piscava com um zumbido elétrico audível, refletindo-se nas poças de água da chuva que caíra no dia anterior. O estacionamento estava lotado de picapes Ford e Chevy antigas, intercaladas com alguns sedãs da General Motors e o ocasional carro importado que os jovens da cidade compravam para economizar combustível naqueles tempos de pós-crise do petróleo.
Lá dentro, a atmosfera era quente, barulhenta e impregnada pelo cheiro de gordura de fritura, cigarro Marlboro e o odor acre de cerveja derramada sobre o piso de madeira linóleo. Homens de meia-idade com chapéus de caubói jogavam sinuca ao fundo, o estalo das bolas de marfim misturando-se às risadas altas e ao som que vinha da grande máquina de música jukebox iluminada por tubos de neon coloridos no canto do salão. No momento em que as duas entraram, a voz rasgada de algum cantor country cantando sobre promessas perdidas de amor preenchia o ambiente.
Sarah conduziu Jane até uma mesa de canto, afastada do balcão principal onde os fazendeiros locais discutiam os preços do milho e do feno na cooperativa. Um garçom de avental manchado trouxe rapidamente duas garrafas de Budweiser, deixando-as sobre os descansos de papelão.
- Às velhas tradições - Sarah disse, erguendo sua garrafa.
- E à sobrevivência das dinastias - Jane completou, batendo sua garrafa na da amiga antes de dar um longo gole, sentindo o líquido frio descer limpando a garganta da poeira que engolira no manejo dos novilhos.
- Então, Jane - Sarah começou, apoiando os cotovelos na mesa de fórmica imitação de madeira -, como estão as coisas de verdade no vale? Todo mundo na cidade sabe que o banco está apertando o cerco após a morte do seu pai. Como estão as coisas, de verdade?
Jane soltou um suspiro longo, deixando a garrafa na mesa e olhando para o rótulo molhado.
- É pior do que a cidade imagina, Sarah. A crise que se abateu sobre o país nos anos setenta deixou um rombo nas contas do meu pai. Ele tentou manter o rancho operando sem demitir ninguém e sem reduzir o padrão do rebanho, colocando a própria sede como garantia da hipoteca. Agora, a diretoria do banco cortou as linhas de crédito para os pequenos criadores independentes. Eles querem os grandes complexos, a produção em massa. Não há espaço para o que meu pai construiu aqui. O prazo final é o dia trinta deste mês.
- E o rebanho que você tem? Dá para vender? - Sarah perguntou, o tom de voz mudando para uma preocupação genuína.
- Fechei a venda de duzentas cabeças - Jane explicou, a voz baixa para não atrair a atenção das mesas vizinhas. - O adiantamento vai cobrir exatamente oitenta por cento do que devo ao banco. Mas os vinte por cento restantes são o meu pesadelo. Se eu não colocar esse dinheiro na mesa do banco até as dezessete horas do dia trinta, as terras do Vale do Loup vão a leilão judicial. E a holding de Chicago, a que comprou as cooperativas locais vai arrematar tudo por uma ninharia para transformar o vale em um confinamento industrial de porcos ou gado de corte de baixa qualidade.
Sarah balançou a cabeça com amargura, dando um gole em sua cerveja.
- É o que está acontecendo por toda parte, Jane. Os Miller perderam a fazenda de grãos no mês passado. Os engravatados chegam com a papelada, analisam os fluxos de caixa e decidem que famílias que estão naquelas terras há três gerações não são mais financeiramente viáveis, como o que aconteceu com a minha família, você lembra. É um mundo cínico, tudo ficou muito pior. Às vezes sinto que os anos oitenta vieram para apagar qualquer vestígio de humanidade que restava neste país. Tudo virou números em um monte de papel amarelado.
Jane sorriu de forma amarga, lembrando-se de sua própria época como analista de investimentos no Loop de Chicago.
- Eu sei exatamente como eles pensam, Sarah. Eu mesma já digitei esses relatórios. Eu já fui a pessoa que recomendava a liquidação de ativos para maximizar os lucros de acionistas em Nova York ou na Europa. É por isso que dói tanto. Eu conheço as armas deles. Sei que para eles, o Vale do Loup não é a terra onde as minhas antepassadas Kitty e Judith Brown enfrentaram nevascas para construir um lar; é apenas um dado, uma coordenada sobre um mapa, subvalorizada em um balanço patrimonial.
Sarah estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo os dedos de Jane com os seus. O toque era quente, familiar e carregava a eletricidade sutil daquele passado que as duas compartilhavam em segredo. Jane olhou para a amiga, sentindo uma onda de gratidão por aquele momento de conexão humana em meio à tempestade que enfrentava desde a morte do pai.
- Você não é como eles, Jane Cat. - Sarah disse, os olhos castanhos fixos nos dela com intensidade. - Você voltou. Você escolheu a lama e as botas de montaria em vez dos saltos altos nos carpetes de Chicago. Você escolheu lutar por Freddie e pela história da sua família. Isso te torna diferente deles. Você tem algo pelo que lutar; eles só têm papéis com números.
As duas mudaram de assunto conforme as garrafas de Budweiser se esvaziavam e eram substituídas por novas rodadas. Elas riram das velhas histórias da escola, dos verões em que costumavam fugir para nadar no riacho sob o luar e de como os rapazes da cidade eram previsíveis e desinteressantes em comparação com a liberdade secreta que as duas encontravam quando estavam sozinhas na cabine da caminhonete.
O ambiente do Blue Moon parecia flutuar ao redor delas como um borrão de luzes de neon e fumaça de cigarro, isolando-as em uma bolha de nostalgia que amorteceu o peso da realidade por algumas horas.
Por volta das dez da noite, a jukebox começou a tocar uma música nostálgica. A melodia lenta e melancólica dos sintetizadores preencheu o bar, mudando o ritmo do salão. Sarah olhou para Jane, seu olhar demorando-se um pouco mais nos lábios da amiga antes de recuar com um sorriso triste.
Ambas sabiam que aquele momento tinha um prazo de validade curto; a vida de Jane estava ancorada na situação financeira do rancho e a de Sarah estava presa à rotina da farmácia em Broken e o desejo de levantar voo para uma cidade maior, e a atmosfera dos anos oitenta não era um lugar que permitia que duas mulheres construíssem um futuro juntas fora das sombras.
- Acho melhor voltarmos - Jane disse suavemente, quebrando o feitiço da música. - O gado está nos piquetes, mas eu preciso estar acordada cedo para ajudar Hank a conferir as marcações.
- É, você tem razão - Sarah concordou, recolhendo sua jaqueta de camurça da cadeira. - A realidade sempre nos encontra no final da noite.
A viagem de volta foi mais silenciosa, embalada pelo som baixo do rádio do carro que agora tocava uma balada country distante de uma rádio de ondas longas vinda de algum lugar do Nebraska. O Toyota Celica cortava a escuridão da rodovia com seus faróis altos, iluminando os olhos brilhantes de alguns animais que observavam a passagem do veículo da margem do acostamento antes de sumirem na imensidão escura dos campos.
Quando Sarah parou o carro no pátio de cascalho da sede do rancho, o relógio no pulso de Jane marcava quase onze horas. A casa principal estava completamente às escuras, uma silhueta maciça e protetora contra o céu estrelado do vale. O som distante e compassado do mugido dos novilhos nos currais vinha com o vento fresco da noite, lembrando Jane de que a trégua havia terminado.
Jane abriu a porta do carro, mas antes de descer, virou-se para Sarah.
- Obrigada pela noite. Eu realmente precisava disso. Mais do que você imagina.
Sarah sorriu, inclinando-se para a frente e depositando um beijo suave no canto dos lábios de Jane - um gesto rápido, meio bônus, meio promessa perdida, que carregava todo o peso do que fora e também do que nunca poderia ser.
- Lute por este lugar, Jane Cat. - Sarah disse, a voz terna. - Não deixe que aqueles engravatados levem a única coisa que te faz lembrar de quem você realmente é.
Jane desceu do carro e fechou a porta. Ela permaneceu parada no cascalho enquanto o Toyota Celica vermelho fazia a curva no pátio e avançava em direção ao portão principal, suas lanternas traseiras quadradas e vermelhas sumindo gradualmente na poeira da estrada vicinal até desaparecerem por completo na curva do vale.
O silêncio do rancho a envolveu novamente, um silêncio que agora parecia maior e mais denso. Jane caminhou até a varanda, sentindo o ar frio da noite bater contra seu rosto. Ela entrou na casa escura, trancando a porta de tela atrás de si. Subiu os degraus de madeira rangente até o quarto, despindo-se no escuro para não quebrar a calmaria que se instalara em sua mente.
Deitada na velha cama que pertencera à sua família por gerações, ouvindo o estalo característico da madeira da casa resfriando sob a noite de Nebraska, Jane Catherine Brown encarou o teto escuro. Ela estava sozinha novamente no centro do furacão. Ela não sabia que os homens de Stephanie White estariam no rancho na semana seguinte com propostas indecentes guardadas em suas pastas de couro.
Mas agora, ali, sentindo o cheiro da terra e ouvindo o chamado de seu rebanho no curral, ela soube com clareza primitiva que não importava o tamanho do problema que tivesse que enfrentar: o Vale do Loup era o seu sangue, o seu legado, e ela não entregaria as chaves do forte sem queimar até o último cartucho disponível.
Fim do capítulo
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