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Palavras: 4252
Acessos: 541   |  Postado em: 12/03/2026

Notas iniciais:

 

''Ambos estão convencidos que os uniu uma paixão súbita.''

 

Capitulo I - Nao Temos Tempo A Perder

 

Capítulo I

''Não Temos Tempo A Perder'' ²

 

Rochedo, Paraná - Brasil.

Casa da Família Almeida Bacchi.

Manhã de segunda-feira.

06 de agosto de 2018.

 

Louise

 

''Eu estava caminhando à luz do sol, woh, oh

Eu estava caminhando à luz do sol, woh, oh

Eu estava caminhando à luz do sol, woh, oh

E era hora de sentir-se bem'' ¹

Escuto o alarme do celular tocar.

Walking On Sunshine, da Katrina & The Waves… Adoro os anos 80.

Com os olhos semicerrados e ainda sonolenta, ergo a cabeça, estico o braço para pegar o celular e desligo o alarme. Volto a fechar os olhos e repouso a cabeça no travesseiro. São seis horas da manhã, mas já estou acordada há algum tempo. Raramente sou despertada por ele. O meu horário de acordar é, invariavelmente, entre 5h30 e 6h. Como sempre, vou enrolar mais uns quinze minutos.

Nesses meus vinte e quatro anos — que farei no dia 24 deste mês; não, não é brincadeira, é sério — não me lembro de ter acordado algum dia depois das seis da manhã, salvo na primeira infância, pois daquela época não me lembro de muita coisa. No entanto, a partir da primeira série — que hoje não se chama mais primeira série, e sim primeiro ano — tenho certeza de que nunca acordei depois das seis horas.

Como sempre, desde que me entendo por gente, às 6h16 minha mãe bate na porta. Como eu sei? É assim desde sempre. Minha mãe acorda entre 5h e 5h30 da manhã, mesmo com raios, trovões e relâmpagos. Papai acorda junto com ela. Tiveram as suas infâncias no campo e trouxeram esse modo de vida com eles.

Os dois preparam o café juntos desde o início do casamento — eles vão fazer Bodas de Prata — e não me lembro de tê-los visto tomando café um sem o outro. Estão sempre juntos. Tenho inveja — a boa — deles.

Papai é o primeiro a sair. Ele tem uma oficina mecânica, que nos deu tudo o que temos até hoje, e gosta de começar cedo, por isso sai cedo também. Ele sempre faz suas refeições conosco e nunca chega depois das seis da noite; ou seria da tarde?

Temos uma boa casa, fruto do trabalho da minha mãe também, que nas horas vagas de dona de casa é costureira, tricoteira, boleira... Enfim, mil e uma utilidades. Temos três quartos: um do casal, meus pais, que é uma suíte, se é que posso chamar o quarto deles assim, e os outros dois, o meu e o do meu irmão; irmão esse que merece um capítulo à parte, mas não tenho saco para falar dele agora. Nós dois usamos um banheiro que fica no fim do corredor que dá acesso aos quartos. Não, não moramos em um sobrado; consequentemente, não temos escada.

Escuto um leve bater na porta e logo a seguir vejo minha mãe entreabri-la e dizer, quase em um sussurro:

— Filha, levanta! São mais de seis e quinze, meu anjo!

Falando baixo assim, só mesmo estando acordada para escutar.

— Já vou, mamãe — respondo, apoiando os cotovelos no colchão e me erguendo um pouco.

Só assim para ela fechar a porta. Sorrio para ela, ela sorri para mim e fecha a porta a seguir. Levanto, espreguiçando-me, estirando todos os meus membros, do mindinho do pé até o último fio de cabelo, bocejando e tentando mandar o sono e a preguiça embora.

Vou até o meu guarda-roupa, pego a toalha, o sutiã e a calcinha limpos — os dois na cor azul-bebê — e a minha necessaire, onde estão meu sabonete líquido, o sabonete íntimo, a escova e o creme dental, entre outras coisas. Calço meus chinelos, caminho até a porta, abro para sair e fecho-a imediatamente. Meu irmão tem o péssimo hábito de entrar com a desculpa de pegar algo. Pegar o quê? Já o encontrei, algumas vezes, bisbilhotando por ali.

Caminho até o banheiro no final do corredor, passando em frente ao quarto de Maciel. Ouço roncos. Balanço a cabeça negativamente e suspiro logo em seguida.

Entro no banheiro e tranco a porta. Penduro a toalha, o sutiã e a calcinha. Como vou sair daqui? Vestindo sutiã e calcinha, como sempre fiz, sem me importar com quem encontraria no corredor. Desde que fossem da minha família, é claro. Papai fica possesso e sempre dá uma bronca. Finjo que ouço, dou-lhe beijos e ele fica mais bravo ainda quando acontece de nos encontrarmos pelo corredor. Por isso, acho que ele sai tão cedo.

Tiro meu pijama, dobro-o e coloco-o em uma banqueta que está ali para isso mesmo. Tiro o sutiã e a calcinha usados, deixando-os separados do pijama. Vão se juntar ao restante da roupa que se acumulará durante a semana para eu lavar no sábado ou no domingo. Eu cuido das minhas roupas desde os meus dez anos, ou menos, se bem me lembro.

Sento na bacia e relaxo, esperando pelo xixi que está na portinha há muito tempo. Apoio o queixo na mão, sustentado pelo braço que está apoiado na minha coxa direita. Fecho os olhos. Sinto a urina passar pela uretra e escuto um jato forte bater dentro da bacia. Não sei como ainda não furei a bacia. Fico abismada com a força do jato que sai por ali. Ao terminar, aliviada, levanto-me sem limpar a xoxota; afinal, vou tomar banho e lá dou um trato nela.

Entro no box, levando meus sabonetes. Faço um coque com os cabelos e coloco a touca para não molhá-los. São mais ou menos longos e é uma loucura cuidar deles, o que faço só nos finais de semana: hidratação, cremes, xampus e condicionadores.

Ligo o chuveiro — não, não temos banheira, queridas fanfiqueiras — e levo um choque assim que a água gelada choca-se contra a minha pele ainda quentinha da cama. Grito, descaradamente. Com o corpo já molhado, diminuo o jato d’água e pego o sabonete líquido — cheiro de erva-doce... Adoro — para passar pelo meu corpo todo, fazendo uma pré-lavagem da minha xoxota.

Às vezes — quando tenho tempo, o que não é o caso de hoje, pois entro no meu trabalho às sete —, gosto de me masturbar. Gosto da sensação dos meus dedos tocando meus grandes e pequenos lábios, massageando meu clit*ris. Gosto de me penetrar e goz*r nos meus dedos. Mesmo sem querer, já estou massageando forte minha xoxota toda. Sinto minha respiração acelerar, mas tenho que parar. Solto um longo suspiro e pego meu sabonete íntimo para lavá-la. Fazer o que, não é? Quem sabe mais à noite, na minha caminha e com minha mente navegando por corpos desejosos.

Termino meu banho — que não é tão demorado assim —, enxugo o corpo e passo um creme hidratante de erva-doce também. Em seguida, visto o sutiã e a calcinha — uma tanga com estampas de âncoras brancas... muito fofa, por sinal — e escovo os dentes pela primeira vez. Voltarei a escová-los depois do café.

Pego tudo o que tirei da necessaire, mais o pijama e a roupa íntima usada, e volto para o meu quarto para me vestir e tomar o café da manhã com meus pais. Jogo a calcinha, o sutiã e mais algumas peças usadas que estavam pelo quarto no cesto de roupa suja que tenho ali. Dou uma arrumada básica na cama.

Visto uma calça jeans skinny, não muito apertada para não causar problemas com a diretora da escola onde trabalho; quer dizer, escolas. Pois é, sou professora de Educação Infantil e Fundamental I e II — atualmente sou responsável por classes do 2º ano do Ensino Fundamental I, com crianças entre 7, 8 anos de idade — de uma escola privada de manhã e de uma escola municipal à tarde.

De manhã, leciono na Escola ReCriar, que faz parte de um grande grupo de escolas privadas do país. Trabalho lá desde antes da minha formação. Comecei como professora substituta e fui contratada após terminar a faculdade de Pedagogia. Eles sempre me consideraram uma boa profissional. E a escola paga muito bem. Os filhos da elite da cidade estudam ali, o que é um pouco desconfortável para mim, que sempre fui — e sou — muito simples, mas tenho que conviver com o luxo todos os dias. Usamos uma camiseta branca com o logotipo da escola no lado esquerdo.

À tarde, trabalho em uma escola da prefeitura. Fiz concurso público, fui aprovada e já faz mais de dois anos que me efetivei. Separo a camiseta que uso na escola municipal — uma polo verde com o emblema e o nome da escola, EM Cecília Meireles — e pego meu jaleco branco, que uso nas duas escolas. Junto, vai minha mochila com o material que preparei neste final de semana para as duas. Vamos começar o segundo semestre.

Com a mochila pendurada em um ombro, o jaleco no braço e as chaves do carro na mão — além do celular no bolso da calça —, saio do quarto fechando a porta. Vou até a sala e deixo tudo em cima do sofá. Daqui, sinto o aroma do café. Em nossa casa, não há paredes entre a sala e a copa. O que separa os dois ambientes é o sofá de três lugares. A cozinha é separada dos dois por uma parede e uma porta de vaivém, daquelas do Velho Oeste americano... Ideia do meu pai. Passo por ela e vejo meus dois velhos sentados, já com suas xícaras fumegantes.

O cheiro de pão na chapa está delicioso.

— Bom dia, mãe... Bom dia, pai... — cumprimento os dois, dando um beijo na bochecha de cada um.

— Você não está atrasada?

— Não, papai. Tudo dentro dos conformes.

— Você não viu seu namorado nesse final de semana de novo — adoro minha mãe, não, eu a amo. Mas às vezes...

— Primeiro, ele não é meu namorado. Segundo, desde quando você precisa se preocupar com meus finais de semana? — Finjo insatisfação, fazendo cara feia. — Sou bem grandinha, mamãe. Sei me cuidar — continuo com a cara amarrada.

— Desculpa, filha. É que ele é um bom rapaz...

— Eu nunca disse o contrário — enquanto falo, delicio-me com o pão na chapa que minha mãe fez. Perfeito: crocante por fora, macio por dentro e com aquela margarina derretida. Deliciosamente delicioso. Mais o café quentinho. OMG! — O que você disse, papai? — Ele me olha confuso, mas sorri, sabendo que eu queria fugir daquela conversa com minha mãe.

— Não quero me meter nas confusões de vocês duas. Tenho mais o que fazer — responde de bom humor. Termina de tomar seu leite com café, levanta-se, dá um beijo na bochecha de minha mãe, na minha e sai pela porta-balcão. — Tenho um carro para entregar até o almoço — grita já da sala. — Tchau! — E ouvimos a porta da frente bater.

— Você não está brava comigo, está? — Pergunta mamãe, pegando a xícara vazia que papai havia deixado sobre a mesa. Olho para ela, tentando manter o semblante carregado, mas não consigo. Amo demais essa mulher. Na verdade, amo demais meus pais. Acabo sorrindo e negando com a cabeça. — Nossa, ainda bem. Já estava ficando nervosa.

— Tudo bem, mamãe. Você sabe que eu não consigo ficar brava com você. Já expliquei para você e o papai que eu e o Douglas estamos... nos conhecendo.

— Há mais de um ano?

Ela está sendo irônica comigo?

— É, mamãe! Há mais de um ano — termino rapidamente meu pão e o café.

A conversa já deu.

— É que ele é filho do prefeito, é advogado... — não deixo ela terminar a frase, levantando-me de supetão e assustando-a. Não gosto de agir assim com ela, mas a conversa já extrapolou. Levo o pratinho e a xícara para a pia e os lavo. Vou até ela, beijo seu rosto.

— Tchau, mamãe. Tenho que trabalhar — assim, encerro a conversa. Olho para o relógio na parede da cozinha: 6h45.

Caminho até a porta-balcão para sair da cozinha e ir para a sala.

— Você vem almoçar? — Paro, com uma das abas aberta, e me viro já respondendo.

— Claro, mamãe! Tchau!

— Tchau, filha. Bom trabalho... e juízo.

Vou até a sala, pego minhas coisas, abro a porta da frente com minhas chaves e saio. Tranco a porta e me viro de frente para o portão de saída. Não vou sair por ele. Paro só para observar o lindo jardim que margeia a entrada da nossa casa, cuidado por mim e por meus pais. Na verdade, não é bem um jardim, é um roseiral. Essa saída nos leva para a avenida principal que corta nosso bairro.

Viro-me para a esquerda e sigo por um corredor que dá para o nosso imenso quintal. É onde está a nossa garagem. Nossa casa fica em uma esquina, e fica mais fácil sair de carro pela rua lateral. Tem menos trânsito.

Nosso quintal merece um adendo. É quase um pomar: temos jabuticabeira, mangueira, abacateiro, goiabeira, laranjeira e limoeiro. Nossa garagem foi construída embaixo de duas variedades de mangueiras — uma Espada, outra Bourbon — e recebe sombra o ano todo. Para dizer a verdade, o quintal inteiro vive à sombra, quebrada aqui e ali por raios de sol que vazam por entre os galhos das árvores. Árvores que, quando florescem, deixam a casa toda com um aroma inebriante, principalmente as flores das laranjeiras-peras. Nessas épocas, o quintal todo se enche de pássaros e abelhas... até borboletas aparecem.

A garagem já está aberta, pois papai saiu primeiro e ele não a fecha quando sabe que vou sair também. Desarmo o alarme do Cuca — na verdade, meu Fusca chama-se Cucarachita, mas ficou Cuca mesmo — e coloco todo meu material no banco do passageiro. O meu carro é um Fusca 1500, 1972, amarelo-ovo. Lindo, lindo. Papai o reformou inteirinho, deixando-o igual ao original, e me deu de presente quando assumi o cargo efetivo de professora.

Quando vou entrar no Cuca, sinto meu celular vibrar no bolso de trás da calça. Pego o celular do bolso e encosto no carro para atender. Olho para a tela: é o Doug.

— Bom dia, lindo! Tudo bem?

— Bom dia para você também, linda! — Acabamos rindo das gentilezas fofas. — Comigo está tudo bem. E com você? — Somos carinhosos um com o outro desde sempre, mesmo não tendo nada mais sério entre a gente. Preocupamo-nos um com o outro de verdade.

— Tudo bem, apesar de ter passado um final de semana corrido.

— Então... Quero me desculpar por não ter ficado e ajudado você, mas... Você entende... Meu pai...

— Reunião política de novo?

— Pois é, com a base do partido. O Sr. Frank quer me fazer seu sucessor...

— Que merd*... — digo com pesar. Doug detesta política.

— Apesar de eu achar que você ficaria um must como primeira-dama.

— Nem pensar. Primeiro, porque nós jamais seremos um casal casado, e depois, você sabe o que eu penso dos políticos. É uma classe nojenta, sem querer ofender seu pai.

— Eu sei. Você sempre deixou claro o que temos — ou melhor, o que não temos — e nunca escondeu o que pensa dos políticos, mesmo na frente do meu pai. O mais triste é ver o Sr. Frank e a Dona Úrsula empurrarem minha irmã para cima de um deputado federal dezessete anos mais velho que ela.

— Isso é nojento, Doug. Muito nojento.

— O problema é que a Christiane gosta desse jogo político.

A irmã dele tem 17 anos, mas já é uma libertina em todos os sentidos... Infelizmente, para os outros.

— Doug, tenho que ir. É o primeiro dia do segundo semestre, e a diretora reúne todos no pátio para a tal da acolhida e falar, falar, falar.

— Não vou mais atrapalhar. Liguei mesmo só para desejar um bom dia e um bom retorno às aulas.

— Obrigada! E você não atrapalha — digo com sinceridade.

— Nos vemos essa semana?

— Vai ser difícil. É sempre complicado o recomeço. Criança chorando, mãe chorando... Até professor chora também — rimos juntos.

— Ok! Vai lá... Tchau!

— Tchau!

Encerro a ligação e vejo as horas no celular: 6h50. Ainda tenho tempo. A escola fica a três quadras da nossa casa. Dá para ir a pé, mas não vou; sempre tenho muita coisa para levar.

Entro no carro e fecho a porta com cuidado. O meu Cuca é uma raridade. Aciono o portão automático para abri-lo. Coisas do meu pai: a garagem tem portão com chave e cadeado — uma loucura — e o portão da saída do terreno é elétrico. Engato a marcha à ré e manobro o Fusca para tirá-lo da garagem. Viro à direita, ainda de ré, enquanto aperto o botão do controle para fechar o portão.

Antes de seguir em direção à escola, ligo o som do carro. É claro que não é o som original, já que em 1972 não tinha MP3 nem USB. O pen drive está sempre conectado, e sempre tenho uma nova playlist.

Engato a primeira marcha e vou até a esquina para virar à direita, pegar a avenida e seguir até a escola. Geralmente essa ida dura o tempo de uma canção, mais ou menos.

Tempo Perdido, da Legião Urbana, começa a tocar...

''Todos os dias quando acordo

Não tenho mais

O tempo que passou

Mas tenho muito tempo

Temos todo o tempo do mundo

 

Todos os dias

Antes de dormir

Lembro e esqueço

Como foi o dia

Sempre em frente

Não temos tempo a perder''

Impossível não pensar no meu relacionamento com Doug. Somos mais amigos que amantes. Não tenho muita experiência com homens, então não posso afirmar que Doug é o melhor homem que já passou pela minha vida. Ou o pior. Com certeza, ele é melhor do que os outros dois com os quais tive relacionamentos.

O primeiro foi o Tom — até hoje não sei seu nome verdadeiro —, que conheci em uma festa de 15 anos de uma amiga da minha amiga, no primeiro ano do Ensino Médio. A festa era regada a muita bebida, bastante bebida e mais bebida. Fora a droga que, fiquei sabendo depois, rolou à solta. Foi com o tal do Tom que perdi minha virgindade. Como eu estava bêbada, não faço a menor ideia se foi bom ou ruim. Só perdi. Simples assim. Tivemos mais alguns encontros, não sexuais, e depois ele sumiu. Literalmente.

''Nosso suor sagrado

É bem mais belo

Que esse sangue amargo

E tão sério

E selvagem! Selvagem! Selvagem!

 

Veja o sol

Dessa manhã tão cinza

A tempestade que chega

É da cor dos teus olhos

Castanhos''

Depois, foi com o Mateus, no final do terceiro ano. Ele estudava na minha classe e sempre trocávamos olhares, mas nunca avançamos. Até que um belo dia ele me convidou para o cinema em um final de semana, e eu aceitei. Eu era muito tímida e ainda sou, mesmo com tanto tempo com Doug. Depois do cinema, fomos para a casa dele e, aí, acabou rolando sex*. Eu não estava bêbada dessa vez e posso afirmar com toda a certeza: foi broxante para mim, muito broxante. Desagradável. O cara, sem preliminares, foi arrancando as roupas e, quando dei por mim, ele já estava dentro. Foi frustrante. Foi tão ruim — acho que até mesmo para ele — que, quando nos encontramos na segunda-feira, na escola, mal olhamos um para o outro. Depois disso, era no máximo um "oi", e olhe lá. Terminamos o ano praticamente como estranhos.

''Então me abraça forte

E diz mais uma vez

Que já estamos

Distantes de tudo

Temos nosso próprio tempo

Temos nosso próprio tempo

Temos nosso próprio tempo''

Então conheci o Douglas, quer dizer, o Doug. Eu estudava Pedagogia e ele, Direito. Estudávamos na mesma Federal. Assim como eu, ele também é meio introvertido. Pegávamos o mesmo ônibus para a faculdade; ele ainda não tinha carro próprio, e eu não tinha condições de ter um. Em uma dessas viagens — de ida e volta —, acabamos dividindo o mesmo banco e iniciamos timidamente uma conversa. Éramos — somos — parecidos em muitas coisas, e isso nos aproximou. Surgiu a amizade e, dela para o namoro, ou algo parecido, foi um pulo.

Mas não durou muito esse nosso ''namoro''. Os pais dele achavam que estudar no Brasil, em qualquer faculdade ou universidade, era ruim, pois ele nunca teria uma formação completa. Então, depois de um ano e pouco, ele foi para os Estados Unidos, especificamente para a Universidade Yale, em New Haven, Connecticut. É uma das mais antigas dos Estados Unidos e uma das mais caras. Nos perdemos aí. Falávamos pelo Facebook e nada mais. Até que, com o tempo, nos perdemos realmente.

''Não tenho medo do escuro

Mas deixe as luzes

Acesas agora''

Por isso foi uma surpresa, para mim, quando, do nada, ele apareceu em frente à escola onde trabalho hoje, querendo reatar a amizade. E assim foi, como no começo da faculdade. Começamos a nos encontrar como amigos e, assim, reatamos nosso "namoro".

Não posso me queixar da companhia do Doug, apesar da família que ele tem — da qual, com exceção dele, não presta ninguém. Além de serem políticos, somou-se a isso a soberba e a arrogância por terem muito dinheiro. Doug é diferente, e não é só comigo. Ele tem um escritório de advocacia no centro da cidade e é reconhecido pelo profissionalismo e por sempre ajudar os mais carentes, mas que, infelizmente, tem seu nome sempre atrelado ao do pai, prefeito, e de um tio senador, ambos já denunciados por corrupção — mas, como sempre ocorre em nosso país, nunca punidos.

E eu não o amo, e ele sabe disso. Mas diz não se importar.

Quando estamos juntos, ele sempre é carinhoso, companheiro. E na hora do sex*, esforça-se muito para me satisfazer. Tenho prazer quando estou com ele, mas de vez em quando. Na maioria das vezes — em muitas vezes —, quando estou incendiada, ele é só cinzas.

''O que foi escondido

É o que se escondeu

E o que foi prometido

Ninguém prometeu

Nem foi tempo perdido

Somos tão jovens

Tão jovens! Tão jovens!'' ²

Somos "amigos com benefícios": amizade e sex*, às vezes, e nada mais. Da minha parte, não somos um casal e nunca seremos, apesar da torcida dos meus pais — principalmente da mamãe. A família dele? Não gostam de mim e não escondem isso. A recíproca é verdadeira.

Ah, já ia esquecendo-me. Na faculdade, antes de conhecer o Douglas, beijei uma menina em uma destas festas de veteranos e calouros. O que posso dizer? Foi estranho, mas não ruim. Na verdade, tornamo-nos amigas, pois quando nos reencontramos pelos corredores da faculdade, ela não fingiu o que tinha acontecido e nem eu. Demos boas risadas. Hoje ela é casada e, até onde eu sei, feliz com o seu marido, e já tem filhos.

C'est la vie!

Chega de devaneios.

Já é possível ver a fila de carros se formando na frente da escola, mais as vans e os ônibus escolares. Ainda bem que a entrada para os professores motorizados fica na rua de trás, pois a escola ocupa um quarteirão inteiro. Dou seta à direita para sair da avenida e evitar o congestionamento que está se formando. Manobro o Cuca para ficar em frente ao portão da escola e aciono o botão do controle para abri-lo. Ele é eletrônico: um presente — que nós pagamos — da diretora para os professores e funcionários motorizados.

Adentro o pátio reservado aos carros e coloco meu Fusca embaixo de uma árvore, apesar do cagaço que tenho de um galho cair e riscar o meu Cucarachita. O estacionamento é bastante arborizado e fica com sombra quase o dia inteiro.

São todos oitizeiros, segundo o zelador da escola.

Saio do carro, pego o jaleco e visto-o. Penduro a mochila no ombro direito — revezo com o esquerdo, quando lembro — e verifico se o celular já está no modo silencioso. Fecho o Fusca, aciono o alarme e, antes de me encaminhar para as minhas aulas, olho para o céu, límpido e claro nesta manhã, e faço minha oração:

''Senhor, ouvi minhas palavras, escutai meus gemidos.

Atendei à voz de minha prece, ó meu rei, ó meu Deus.

É a vós que eu invoco, Senhor, desde a manhã;

Escutai a minha voz, porque, desde o raiar do dia,

Vos apresento minha súplica e espero.'' ³

Solto um longo suspiro e então dou o primeiro passo para me encontrar com os meus anjinhos.

Será uma longa manhã.

Sempre é uma longa manhã.

_________________________________________________________________________

¹ Walking On Sunshine [Caminhando Na Luz Do Sol] - Katrina & The Waves - 4:00

Track By Katrina & The Waves From The Single ''Walking On Sunshine'' - 1985.

Songwriter: Kimberley Charles Rew.

Lirycs By Walking On Sunshine © Sony/ATV Music Publishing LLC, Warner Chappell Music, Inc, BMG Rights Management.

Link Discogs:

https://www.discogs.com/pt_BR/release/1682297-Katrina-And-The-Waves-Walking-On-Sunshine

Link Wikipedia:

https://en.wikipedia.org/wiki/Walking_on_Sunshine_(Katrina_and_the_Waves_song)

Link YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=CTigOGlS-V0

 

² Tempo Perdido – Legião Urbana - 3:54

Track By Legião Urbana From The Single ''Tempo Perdido'' - 1986.

Songwriter: Renato 'Russo' Manfredini Júnior.

Lirycs By Tempo Perdido © Sony/ATV Music Publishing LLC.

Link Discogs:

https://www.discogs.com/pt_BR/release/2646632-Legi%C3%A3o-Urbana-Tempo-Perdido

Link Wikipedia:

https://en.wikipedia.org/wiki/Tempo_Perdido_(Legi%C3%A3o_Urbana_song)

Link YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=4ADf5yQd6MI

 

³ Bíblia Católica Ave Maria, Salmo 5.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

 

FOR NOW, THAT'S IT!

Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.

 


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