''É bela esta certeza, mas a incerteza é mais bela ainda.''
Capitulo II - Saudade, Ja Nao Sei Se A Palavra Certa Para Usar
Capítulo II
''Saudade,
Já Não Sei Se A Palavra Certa Para Usar'' ²
São Paulo, Capital - Brasil.
Apartamento De Ashanti López Lima.
Manhã De Quinta-feira.
Julho 26, 2018.
Ashanti
Meu olhar está fixo em um ponto qualquer da parede na minha frente. Vejo, mas não estou enxergando nada. Assim como o meu olhar está fixado para coisa nenhuma, assim está a minha vida agora: vazia, cheia de coisa nenhuma. Levo a caneca de café aos lábios e faço uma careta... O café está frio. Não faço ideia de quanto tempo estou aqui, parada, estática. Melissa está dormindo ainda. Olho para a minha cozinha e uma lágrima teimosa rola pela minha face, caindo dentro da caneca de café. Elas já não são mais quentes. São frias como o café que está oxidando dentro da caneca.
Eu já possuía o apartamento quando nos casamos e redecoramos todo ele; juntas modificamos cada cantinho dele.
Planejamos a nova cozinha juntas. Fazíamos tudo juntas. Cada canto desse apartamento, cada móvel, as cores, armários, camas... Fizemos tudo juntas. Acreditávamos que o amor era eterno, que a vida perduraria. Mas, não. O destino foi cruel, a vida é cruel... Deus existe? Bela hora para divagações. Mais uma lágrima rola. Inferno! E eu que achava que elas tinham se acabado, porque o que eu faço é chorar nesses últimos dias. Felicidade? Essa é uma palavra que deveria ser extinta de todos os dicionários, da vida do ser humano. Limpo minhas lágrimas com a manga da camisa que eu estou usando... Camisa que ela adorava usar. Ainda tem o cheiro dela; isto é, o apartamento todo tem o cheiro dela.
Levanto e vou até a pia. Jogo o restante do café e lavo a caneca para colocar no escorredor de louças. Mas a caneca me chama a atenção. Ela tem um desenho de Olho de Hórus... Poder e proteção... Ela me deu de presente em um passeio que fizemos em Pedreira, cidade do interior paulista com pouco mais de 40 mil habitantes, conhecida por seu comércio de porcelanas e louças. Foram mais de duas horas de viagem de carro. Éramos recém-casadas... Éramos loucas. Foi um passeio delicioso de se fazer a dois... Éramos um casal, amantes e felizes. Foi nessa viagem que planejamos ter um filho, ou uma filha. Na verdade, não importava o sex*. Queríamos ser mães. E ela queria engravidar. Ganhei a caneca como mimo por ter concordado com a gravidez.
Deixo a caneca no escorredor de louças e saio da cozinha. Caminho até a sala e deito-me no sofá. Estico o braço e pego meu celular que está na mesa de centro: 7:16 mostra o visor. Melissa ainda dorme. Ela tem acordado tarde ultimamente, mas não esquento com isso. Ela está precisando descansar. Eu estou precisando... Há várias mensagens no WhatsApp. Sei que todas são importantes, mas não quero responder nenhuma agora. Mamãe, papai... Adriele... Abro a mensagem dela:
Liga para mim, por favor!
Pressiono no número dela que está nos meus contatos, torcendo para ela estar dormindo e não atender. Ledo engano.
— Oi, Ash! Bom dia!
— Bom dia, Dri!
— Eu sinto tanto, meu amor. Como você está?
— Estando... — respondo já com os olhos marejados.
— Gostaria de ter ido, mas não tinha com quem deixar a nossa clínica...
— Não precisa se justificar, Dri. Eu sei dos seus compromissos. E qual é a urgência?
— Eu sei que o momento é delicado, mas preciso de você aqui. Desculpa...
— Eu é que tenho que me desculpar. Estou atrasando a nossa vida. Mas é que... Ainda dói... Parece que foi ontem — já não contenho mais as lágrimas.
— São mais de seis meses, Ash...
— Eu sei — respondo entre fungadas.
— Você sabe que eu vejo a sua vinda para cá, e da Melissa também, como um recomeço. Tudo vai dar certo, meu amor.
— Estou apostando as minhas fichas nisso. Senão, enlouquecerei. Não aguento mais a mídia, jornalistas... Papai ameaçou processar todos eles... Conseguiu até uma medida protetiva para mim e Melissa. Não queria nada disso, mas acabei aceitando, principalmente por Melissa.
— Esse Dr. Arthur é fogo...
— Papai é um anjo!
— E como eles estão? A sua mãe, principalmente...
— Estão destruídos, assim como eu. Eles consideravam Cecília como filha e não como nora.
— Eu sei, querida. Mas, então... Quando você vem?
— Já está tudo pronto. Chego aí nesse final de semana. Vou fechar o apartamento. Vou levar só roupa mesmo e uma ou outra coisinha. O resto fica. Meus pais vão tomar conta do apartamento para mim.
— Por que você não vende?
— Nunca. Não venderei nunca — falo com um tom de voz mais elevado. E me arrependo logo a seguir. Dri não tem nada a ver com meus problemas. — Desculpa, Dri. Não quis te chatear.
— Você não me chateia. Nunca vai me chatear. Amo muito você e essa pequenininha que é o nosso tesouro.
— Eu sei. Desculpa.
— Está desculpada. Vou desligar, meu anjo. Abro a clínica às oito.
— Vai lá! Logo estaremos aí com você. Beijos!
— Beijos! Tchau!
— Tchau!
Envio uma mensagem para os meus pais e jogo o celular na mesa de centro de qualquer jeito. As outras mensagens respondo depois. Ajeito uma almofada sob minha cabeça e fecho os olhos.
Quando tudo começou mesmo?
O conto de fadas há quase nove anos, deixados para trás, quando nos conhecemos na USP. Eu fazia Medicina, ela Artes Cênicas. Nosso conto de terror começou há quase cinco anos, quando ela fez seu primeiro filme e recebeu suas primeiras críticas. Cecília nunca soube enfrentar a rejeição. A principal, a dos seus pais quando assumiu a nossa relação para eles, e também as não menos importantes críticas negativas de algumas de suas atuações.
Nos casamos ainda na Universidade. Pouquíssimas pessoas, só os mais íntimos e, é claro, sem a presença dos pais dela. Isso a magoou muito. Nem seu irmão mais velho compareceu. Ela também quis poucas pessoas porque ela não queria que a mídia soubesse que ela tinha uma relação homoafetiva. Ela tinha muito medo de atrapalhar sua vida artística. Eu compreendia seu lado, mas me entristecia o seu medo de alguém descobrir que ela era casada com outra mulher. Como eu aceitei o nosso casamento nessa condição, não poderia reclamar. Foi minha escolha e eu a amava muito e torcia por sua carreira artística alavancar.
Ela tinha terminado a Universidade de Artes Cênicas e eu estava terminando Medicina.
Ela começou com papéis pequenos na TV. Nós estávamos casadas há pouco tempo. Cecília fazia várias pontas, mas nada espetacular. E a sua gravidez — gravidez essa que ela dizia na emissora ser de produção independente; e como ela ainda não era famosa, não foi questionada — fez com que ela tivesse sua presença notada por um grande diretor de novelas da emissora na minissérie em que ela atuava. Como ela aparentava um jeito mignon, acabou fazendo um papel de uma adolescente grávida, mesmo tendo mais de vinte anos. E chamou a atenção pelo seu desempenho. Inclusive, o parto de Melissa foi filmado para entrar na minissérie. E então ela foi chamada para ser protagonista de uma novela no horário nobre da emissora. Ela foi um sucesso.
Ganhou seu primeiro prêmio e, alguns meses depois, foi chamada para fazer um filme por um dos bambambãs do cinema nacional. Lembro-me como se fosse hoje...
São Paulo, Capital - Brasil.
Apartamento De Ashanti López Lima.
Manhã De Segunda-Feira.
Agosto 08, 2011.
Melissa tinha acabado de dormir a pouco mais de uma hora. Passamos quase toda a madrugada com ela chorando. Ela já tinha um ano de idade, mas estava com gases ou cólica. Os gases era, na minha opinião, o motivo, pois Melissa tinha o hábito de sugar a mamadeira de qualquer maneira e engolia muito ar. Nossa filha era uma menina muito esperta. Já andava sem se segurar em nada e sabia encaixar todos os blocos e peças dos seus brinquedos. Ela estava mudando muito rapidamente, mas eu e Ceci tínhamos muita paciência e éramos muito amorosas para com ela.
Estávamos dormindo abraçadas, nuas. A cabeça de Cecília repousando em meu peito. Podia sentir sua respiração em meus seios. Estávamos nuas, não por que fizemos amor — Melissa não deixou —, mas por que gostávamos de sentir a pele uma da outra. Sempre foi assim, desde o namoro: dormíamos sem roupa, independentemente se iríamos trans*r ou não.
Um celular começa a tocar. Não era o meu, era o de Ceci.
— Amor, é o seu...
— Atende para mim — diz ela simplesmente, sai de cima do meu corpo e desaba para o lado, levando o lençol com ela e expondo totalmente minha nudez. Sua voz rouca e sonolenta me deixa arrepiada.
— É sério, amor?
— Hum-hum. Se você demorar, a Mel vai acordar — e com um movimento de pernas tira o lençol do seu corpo também, dando-me uma visão maravilhosa do seu bumbum empinado. Estou quase levantando só para arrebentar com o celular, voltar para cama e possuí-la. Ceci sempre gostou de ser passiva na nossa relação. Raramente ela tomava iniciativa e comandava o nosso sex*. Eu não achava ruim, mas gostava das vezes em que ela tornava-se uma amante mais possessiva na cama. O celular continuava tocando. — Você não vai atender, amor? — Ela pergunta, agora levantando levemente sua cabeça e fixando seus olhos em mim. — Vai lá, vai — e com sua mão direita faz um carinho em meu abdômen subindo com a mão até próximo do meu seio, mas parando ali e pousando de novo sua cabeça no travesseiro.
Rendo-me e levanto dando um longo suspiro. Ainda bem que hoje eu não iria ao hospital. Caminho até a escrivaninha que compõem o jogo do nosso quarto e pego o seu celular. Parou de tocar. Merda! Fez-me levantar à toa. Vejo as horas no visor: 8:06. Abandono-o em cima do tampo da escrivaninha e ele começa a tocar de novo.
— Número desconhecido... — falo para Ceci olhando para a cama, mas ela não me responde. A visão da sua bunda daqui é ainda mais espetacular, pois como ela está com as pernas entreabertas, vejo o seu sex* todo convidativo. Resolvo atender antes que Melissa acorde.
— Alô!
— Srta. Novaes? — Era uma mulher.
— Não! Quem deseja?
— Sou Nadir, Assistente de Produção do diretor de cinema Roberto Batista.
— E o que você ou esse diretor desejam? — Nisso Cecília levanta sua cabeça do travesseiro e olha para mim, sentando-se na cama e apoiando sua costa na cabeceira. Olhos levemente inchados, cabelos revoltos.
Deliciosa.
— Gostaria de falar diretamente com ela. É possível? — Como eu sei que Cecília leva muito a sério essa história de artista, decido passar o celular para ela.
— É uma tal de Nadir que diz trabalhar para Roberto Batis... — não terminei a frase. Fiquei petrificada com a velocidade que Ceci saiu da cama e pegou o celular da minha mão.
— Alô... Sim, sou eu... — enquanto ela falava e desfilava aquele corpo lindo para cá e para lá, resolvi ir ao banheiro. Queria fazer xixi há muito tempo e estava enrolando. Depois de acabado e me limpado — uso lenços íntimos, apesar de controversos — vou até ao quarto da Mel para ver como ela está. Saio do quarto com Cecília falando ainda com a tal assistente. Não fechamos a porta do quarto da Mel nem a nossa. Quer dizer, quando nos amamos, sim...
A nossa princesa está desmaiada, com um lindo sorriso rosado nos lábios.
Cecília usou um óvulo meu para a fertilização e buscamos em um banco de sêmen um doador com as características do genótipo dela. Assim nossa princesa ficou entra a brancura dela e a minha negritude, isto é, uma linda moreninha de cabelos nem lisos, nem cacheados; bonitos e levemente ruivos, como os de Cecília. Faço um carinho de leve em seus cabelos, para não acordá-la, e volto para o nosso quarto. Quem sabe a conversa acabou e eu consigo amar a minha esposa.
Quando chego no quarto ele está vazio, mas escuto sons no banheiro. Minha mulher está tomando banho. Passo pela porta entreaberta e observo-a.
— Me acompanha? — Ela não precisou falar uma segunda vez. Entro no box e, sem cerimônia nenhuma, prenso Ceci na parede azulejada. Ela se assusta com a força que eu uso, mas sabendo o que eu quero, entreabre as pernas e empina a sua bunda, facilitando para ser acariciada e penetrada por trás. Suspira ruidosamente quando sente meus dedos massagearem sua vulva, grandes lábios, os pequenos também... Demoro-me um pouco mais em seu clit*ris e quando meus três dedos invadem sua vagin*, já molhada — e não é pela água do chuveiro — ela gem*... Gem* gostoso.
Meto forte meus dedos em sua bocet*, mas sem brutalidade. Ela gem* a cada entrada, a cada saída. Enquanto a fodo, mordo seu ombro, beijo sua nuca, aperto seus seios com minha mão livre. Ela começa a rebol*r em meus dedos. Eu então aumento a rapidez dos meus movimentos. Não demora muito e ela se derrama toda, lambuza minha mão. E eu? Gozo com ela. É sempre assim. Consigo ter o meu prazer somente com o seu orgasmo. Ela vira-se para mim e me beija apaixonadamente. Agora, sim, começamos o nosso banho: nos ensaboamos, esfregamos e enxaguamos. Seios, costas, bunda... Sexos. Após alguns minutos saímos do box, renovadas e cheirosas. Enxugamo-nos, eu a ela... Ela a mim. Passamos os nossos cremes hidratantes — com aroma de ameixa, usamos o mesmo — colocamos nossos roupões e voltamos para o quarto.
Sento na cama e ela senta ao meu lado pegando minhas mãos. Ela tem alguma coisa para dizer, e é importante. Ela usa esse gesto quando quer tocar em um assunto delicado.
— Pode falar... É sobre a ligação, não é?
— Sim, vida — diz olhando-me com seus profundos olhos castanhos/avelã, como os meus e os de Melissa. — Recebi um convite para fazer um filme... E eu serei a protagonista.
— Isso é maravilhoso, meu amor — digo abraçando-a com força. Estou sendo sincera. Há muito tempo ela esperava por uma oportunidade dessa. — Eu tinha certeza que um dia você iria conseguir.
—É que... — mas não termina a frase. Ela me olha, preocupada.
— Você não está feliz?
— Estou. Estou doida para gritar, explodir de felicidade, mas não quero magoar você.
— E por que você me magoaria? Não estou entendendo.
— É que as filmagens serão no Rio de Janeiro... — ela diz e abaixa a cabeça.
— E daí? — Indago. Levo minha mão até o seu queixo, levantando seu rosto. Seus olhos estão marejados.
— Tem você, a Melissa...
— O quê? Você acha que eu não dou conta?
— Não é isso... Esse diretor é muito exigente. Quem já trabalhou com ele, quase enlouqueceu. Por exemplo, se uma cena envolve chuva, ele espera chover de verdade para filmar a cena...
— Cada doido com sua mania — afirmo, bem-humorada. Rimos juntas.
— Então... Ele já me avisou que as filmagens vão durar no mínimo seis meses ou mais — gelei com a informação. Seis meses. Porém, eu tinha que apoiá-la.
— Meu amor — exprimo, envolvendo seu rosto em minhas mãos, obrigando-a fitar meus olhos. Eu queria que ela sentisse a sinceridade das minhas palavras.
— Quando nos casamos, sabíamos que as nossas profissões eram complicadas. Quantas noites você passou sozinha com a Mel enquanto eu estava de plantão no hospital? — Selei os seus lábios com um beijo suave. — Você consegue lembrar quantas vezes foram? — Ela balança a cabeça, sorrindo abertamente, feliz. — Pois, então, vai tranquila. Além disso, tem os meus pais. Eles amam a Mel e você. E a questão do tempo e da distância, nós damos um jeito.
Em um gesto rápido ela me joga em cima da cama e me enche de beijos.
— Eu amo tanto você...
— Eu te amo mais...
Se soubéssemos o que o futuro nos reservava, jamais embarcaríamos nessa viagem maluca, que foi ela fazer esse ''bendito'' filme.
São Paulo, Capital - Brasil.
Apartamento De Ashanti López Lima.
Ainda Manhã De Quinta-feira.
Julho 26, 2018.
''Ei, ei, mamãe, diz o jeito que você se move
Vou fazer você suar, vou fazer você dançar'' [1]
Sou despertada pelo toque do meu celular.
Sim, é Black Dog do Led Zeppelin. Reza a lenda que um cachorro preto que entrava e saía do estúdio durante a gravação do lendário álbum Led Zeppelin IV serviu de inspiração para a construção da canção.
Em meios a esses meus devaneios, nem vi o tempo passar. Olho para a tela do meu smartphone: são mais de dez horas da manhã. É minha mãe ligando.
— Bom dia, mamãe.
— Bom dia, filha. Arrumou tudo?
— Tudo o que eu vou levar já está nas caixas. Vou despachar hoje à tarde.
— A casa lá já está pronta?
— Sim. A Dri cuidou de tudo para mim.
— Essa sua amiga não existe. E tudo vai dar certo, filha.
Ficamos alguns segundos em silêncio. Eu sei que ela está emocionada com a minha partida e principalmente da Mel.
— É o que eu espero.
— E a Mel?
— Está dormindo até agora. Acredita?
— Por que vocês não veem almoçar amanhã com a gente? Seu pai ficaria muito contente. Afinal você já saiu do hospital, não saiu?
— Sim, já estou em casa e vamos, claro. Não esquece do sorvete de chocolate branco. Melissa adora... E eu também.
— Pode deixar. Estaremos esperando vocês. Beijos.
— Beijos. Dá um abraço no papai.
—Darei. Beijos, querida. Tchau!
— Tchau!
Deixo o celular em cima da mesa de centro da sala e vou até o quarto da Mel. Quero ver se essa menina respira ainda. Dorminhoca igual à mãe dela era. Chego até o quarto dela e vou pé ante pé até sua cama. Ela está desmaiada. Está até ronronando como uma gatinha. Saio silenciosamente e volto para a sala. Procuro uma canção na minha playlist para ouvir e matar o tempo. E escolho uma das canções que Ceci gostava muito: Versos Simples do Chimarruts...
''Sabe já faz tempo que eu queria te falar
Das coisas que trago no peito
Saudade, já não sei se a palavra certa para usar
Ainda lembro do seu jeito''
Saudades. Quanta saudade eu tenho do meu amor. Não estou mais triste pela sua passagem, mas saudades ainda tenho. Principalmente daquela Cecília que existia antes do ''Despertar De Uma Mulher'', o filme que ela fez e que foi um fracasso total. Foi vaiado pelo público, execrado pela crítica e levou à falência o estúdio que financiou o filme. Foi uma catástrofe. Eu nunca assisti nada do que Ceci fez. Seja no teatro, cinema ou TV. Por mais que eu a amasse — e eu a amava muito — não suportava suas cenas de beijos com os tais dos galãs. Sendo técnico ou não, embrulhava-me o estômago.
Imaturidade minha? Pode ser.
Mas nunca assisti nenhuma cena dela. Principalmente nesse filme onde havia várias cenas dela na cama com o ator principal, e que na época das filmagens disseram — as revistas de fofocas — que eles tiveram um caso.
Sei que não, pois confiava cegamente em Cecília, mas essas fofocas, além das críticas, mexeram muito com Ceci.
Devido às críticas, trabalhos foram escasseando e quando surgiam eram coisas pequenas. O diretor do filme? Fez as malas e foi para a Grécia em uma segunda lua de mel com sua esposa. Sumiu do mapa. E então? Então que Cecília ficou por aqui recebendo as porr*das sozinha, por mais que eu a consolasse. E Cecília era muito insegura. Aí vieram os cigarros. Do nada ela começou a fumar. Primeiro, escondida. Depois na cara dura na minha frente e da Mel. Logo depois veio o álcool.
''Não te trago ouro
Porque ele não entra no céu
E nenhuma riqueza deste mundo
Não te trago flores
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples
Mas que fiz de coração''
Foi um período duro e que nos testou de todas as maneiras que podíamos pensar. Fomos vencendo os obstáculos aos poucos, lentamente. Eu via que ela se esforçava, e nós a ajudávamos. Meus pais foram valentes nesse período sombrio da nossa vida. A poeira foi baixando, o cigarro sumiu, a bebida também. No hospital eu me destacava mais e mais. Eu era, não... Eu sou uma boa profissional. Enfim, a paz voltou ao nosso lar. Ceci foi conseguindo novos papéis, e voltando a ser destaque na imprensa especializada em show business. Os anos se passaram e o nosso mundo voltou a ser cor-de-rosa de novo.
Cecília estava no auge novamente. Os anos fizeram bem a ela. Ela ficou mais madura profissionalmente e fazia muito sucesso. Materialmente nós estávamos muito bem: ela ganhava um bom salário, além de contratos com merchandising. E amorosamente, sentimentalmente e sexualmente estávamos melhores ainda. Então veio um convite para uma peça de teatro: A Falência que foi sucesso com Stela Albanez, diva do teatro nacional. Na verdade, o diretor queria refazer a peça, com outra ótica.
Esse foi o começo do fim de Cecília Novaes.
''Sabe já faz tempo que eu queria te falar
Das coisas que trago no peito
Saudade, já não sei se a palavra certa para usar
Ainda lembro do seu jeito''
A peça foi um total fracasso. Ficou pouco mais de uma semana em cartaz. A maneira como o diretor quis que os atores interpretassem os seus personagens, principalmente Ceci, e a forma com que ele alterou o texto — segundo críticos e meus pais que assistiram à encenação — descaracterizou totalmente a ideia original do texto, que era a decadência de uma família dona de uma fazenda de café em meio à crise de 1929. Ele quis modernizar a peça e detonou tudo. E as críticas vieram, inclusive da família do autor da peça que entrou na justiça para proibir a encenação.
Ceci novamente caiu.
Mesmo com a TV oferecendo para ela papéis bons, não se preocupando com a reação negativa da peça, Cecília não aceitava e foi se isolando de todos... De mim, da Mel... O cigarro não surtia mais efeito, a bebida sempre era pouca. O nosso paraíso virou pesadelo. Ela chorava e eu chorava com ela. O meu trabalho no hospital já estava sendo afetado.
E então vieram as drogas. Não sei como ela conseguia, não sei como ela pagava, mas ela consumia. E como desgraça pouca é bobagem, ela saiu de casa e voltou a morar com os pais. O estrago estava feito. Em um dos raros momentos de lucidez dela, eu a questionei, afinal, em nenhum momento eu a abandonei. Como resposta, ela alegou que estava me destruindo também e não suportava mais o olhar que a Mel direcionava a ela. A Mel era bem esperta para sua idade, mas não da maneira como Ceci achava que ela era. Os idiotas dos pais dela ficaram felizes com sua volta, mesmo sabendo eles que ela estava se destruindo.
Alguns meses se passaram da saída dela do nosso apartamento. Em todos esses meses, tanto eu quanto os meus pais, que a consideravam mais filha que nora, fizemos de tudo para que ela voltasse para mim e para Mel. Às vezes, ela nos surpreendia e aparecia no apartamento, sóbria, e nos deixava felizes. Porém, foram raros esses momentos. As chaves do apartamento ficaram com ela. Eu nunca proibi sua entrada, apesar do temor, não vou negar que eu tinha, dela encontrar a Mel estando drogada. Eu emagreci, deixei de me alimentar corretamente, dormia à base de calmantes. Não caí com ela devido à Melissa... Nossa filha tornou-se minha luz, meu ar... Minha vida.
Então, o dia que eu tanto temia chegou...
São Paulo, Capital - Brasil.
Apartamento De Ashanti López Lima.
Final Da Tarde De Quinta-Feira.
Janeiro 11, 2018.
A cidade estava fria; eu estava com frio, mesmo estando em pleno verão.
O dia estava cinzento, chovia um pouco. Eu estava triste: no natal, Ceci nos visitou e depois sumiu. Eu sentia um aperto no meu peito e um bolo no estômago. Entrei no apartamento e de cara notei que algo não estava certo. Todas as tardes, quando eu chegava do hospital, Melissa brincava na sala com a babá. A sala estava vazia.
— Cláudia... Mel...
Chamei por elas e ninguém me respondeu. Cláudia, a babá, não estava; nem a Mel. Achei estranho...
Meu apartamento é um duplex, nossos quartos ficam em cima. Pensei então que talvez elas estivessem brincando no quarto da Mel. Subi as escadas chamando por elas, mas ao pisar no piso superior, um calafrio percorreu minha espinha, arrepiando os pelos de minha nuca: na porta do nosso quarto, eu vi a bolsa de Ceci caída no chão.
Minhas pernas amoleceram. Peguei meu celular e liguei para o meu pai. Eu estava com um péssimo pressentimento.
— Pai, vem prá cá.
— Filha, você está chorando? Aconteceu alguma coisa...
— Pai, por favor... Você e a mamãe... Venham para cá... Agora — não esperei meu pai responder. Desliguei o celular e coloquei de volta no bolso do jaleco do hospital. Eu não tinha tirado ele ainda.
— Cláudia... Mel... — voltei a chamar.
Entro empurrando lentamente a porta do quarto e a cena que eu vejo quase me fez desfalecer. Como médica, vivo constantemente frente a frente com a morte, mas a dos outros: na porta do banheiro, Melissa está encostada, caída de lado, em meio a uma poça d’água... Acho que é água. Com lágrimas nos olhos, caminho até ela, agacho-me, tocando de leve em seu rosto, temendo o pior... Mas está quente... Ela está viva. Eu a pego no colo e ela abre os olhos.
— Mamã, a mommy tá no banheiro... Ela não qué falá comigo.
— Calma, meu amor. Está tudo bem, viu? — Melissa não costuma falar tantas palavras erradas. Pego-a no colo e a levo para minha cama. Ela está toda molhada porque fez xixi na roupa. Deixo-a na minha cama e vou correndo para o quarto dela pegar uma roupa seca.
Onde está Cláudia?, penso.
Merda.
Minha Cecília... Não pode ser... Tenho que me controlar...
Entro correndo do quarto da Mel, pego qualquer roupa e volto apressada para o meu quarto. Mel está quietinha, com as mãos entre as pernas, olhando para a porta do banheiro.
— Mamã, por que a mommy não quer falar comigo?
— A mamãe já vai ver, querida.
— Por que você está chorando?
— A mamãe está nervosa — eu já estava terminando de trocar a roupa da Mel quando escuto passos e vozes no corredor... São meus pais.
— Filha, a Mel está bem?
— Vovó... — ela estica os bracinhos e minha mãe a pega no colo.
— Pai, ela está no banheiro — nós três olhamos ao mesmo tempo, para a porta fechada.
— Mãe... — não precisei completar. Ela entendeu.
— Mel vamos até a cozinha preparar um chocolate?
— Vamos, vovó — enquanto elas saem, eu e meu pai nos encaramos.
— Filha, você não precisa fazer isso...
— Eu preciso, pai...
— Talvez ela...
— Não, pai... Eu sei, eu sinto... Ela se foi... — abraçamo-nos e lacrimejamos.
— A porta está trancada?
— Não sei, não mexi ainda.
— Onde está Cláudia?
— Também não sei — ele assente. Nós dois estamos paralisados. Então, lentamente, caminho até a porta do banheiro.
Tento girar a maçaneta e ela se abre. Não estava trancada. Olho para trás e meu pai continua no mesmo lugar. As lágrimas, em seu rosto, já escorrem sem freios. Eu não estou diferente. Choramos baixinho. Como o que não tem remédio, remediado está, abro a porta de uma vez. Por mais que eu achasse que estivesse preparada para aquilo — afinal eu convivo com a morte e a vida todos os dias no hospital — ao ver meu amor daquele jeito, eu desmoronei de joelhos e gritei com toda a raiva e tristeza que eu estava sentindo, sem me importar com a presença de meu pai, sem me importar se minha mãe ou da Mel ouvissem-me.
Na minha frente estava o meu amor, olhos fechados, o braço direito sobre a tampa do vaso sanitário, a cabeça tombada, escorada pelo vidro do box e o seu braço esquerdo caído do lado do corpo... Na mão, uma seringa... Ela parecia dormir, profundamente...
O meu amor dormia serenamente.
Tomei-a em meus braços, aconchegando-a em meu peito e comecei a acariciar seus cabelos, rosto... Senti os braços do meu pai me envolver e choramos juntos.
— Filha, nós temos que...
— Eu sei, pai... Eu sei. Faça o que tem de ser feito. Eu não estou em condições — meu pai se levanta e começa a se afastar. — Pai... — ele para na porta e me olha. Ele está desolado. —, leva a mãe e a Mel daqui. Isso vai virar um inferno.
— Não, não vai. Eu cuido disso — agora quem falava era o Dr. Arthur, mesmo com lágrimas nos olhos. — Vou cuidar de tudo, da sua mãe e da Mel — e ele sai.
A dor que eu estava sentindo estava dilacerando meu peito. Eu estava destruída. O que eu faria da minha vida agora? Como Mel e eu sobreviveríamos sem ela? Sem a nossa Ceci?
— Desculpa, meu amor... Desculpa...
''Não te trago ouro
Porque ele não entra no céu
E nenhuma riqueza deste mundo
Não te trago flores
Porque elas secam e caem ao chão
Te trago os meus versos simples
Mas que fiz de coração'' [2]
São Paulo, Capital - Brasil.
Apartamento De Ashanti López Lima.
Começo Da Tarde De Quinta-Feira.
Julho 26, 2018
Sou despertada da minha viagem ao passado por uma mãozinha quente, acariciando meu rosto, limpando minhas lágrimas. Abro meus olhos e encaro o meu anjo, o meu anjinho.
— Não chora, mamã... Eu te amo.
— Eu também amo muito, muito você — agarro minha filha e a encho de beijos. Ela não gosta.
— Para, mamã... Para... — ela limpa os meus beijos com a sua mãozinha.
— Linda... — e a beijo de novo, e de novo e a deito no meu peito.
— Você tava pensando na mommy?
— É, estava.
— Então, você tá triste?
— Não, vida! A mamãe não está triste. A tristeza acabou. É só um pouquinho de saudade.
— Eu também tô com saudade dela — então eu a abraço mais forte. — Eu tô com fome de comida também, mamã. — Ao ouvir minha princesa falar que estava com fome, levanto do sofá com a Mel no colo, pegando já o meu celular para ver as horas: 12:17.
— Nossa! A mamãe perdeu a hora. Você ajuda a mamã fazer o almoço? — Falo para minha filha olhando para os seus olhinhos luminosos, avelãs brilhantes. O contraste com sua pele morena a faz mais bela ainda.
— Ajudo! — Ela pula do meu colo, mesmo antes de eu colocá-la no chão, e vai correndo para a cozinha.
— Não corre, filha — eu sigo atrás, mas ela já não me ouve. A danadinha é rápida.
Enquanto sigo para a cozinha, penso na nossa viagem que faremos sábado. Temos ainda amanhã para curtir mais um pouco a capital e meus pais. No entanto, não consigo esconder o meu sorriso, afinal estamos, eu e a Mel, partindo para um recomeço.
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¹ Black Dog [Cão Negro] - Led Zeppelin - 4:55
Track By Led Led Zeppelin From The Single ''Black Dog / Misty Mountain Hop'' - 1972
Written-By – James Patrick 'Jimmy' Page/John Paul Jones/Robert Anthony Plant.
Letra De Black Dog © Mushroom Music Pty. Ltd., Succubus Music Ltd., Sons Of Einion Publishing, Cap Three Ltd, Flames Of Albion Music, Inc.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/pt_BR/release/1355633-Led-Zeppelin-Black-Dog-Misty-Mountain-Hop
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Black_Dog_(Led_Zeppelin_song)
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=1pPA5lxxNPY
² Versos Simples - Chimarruts - 3:23
Track By Chimarruts From The Album ''Ao Vivo'' - 2009
Compositor: Sander Frois.
Letra De Versos Simples © UBC.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/pt_BR/release/6704225-Chimarruts-Ao-Vivo
Link Wikipedia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ao_Vivo_(%C3%A1lbum_de_Chimarruts)
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=kc2MyOkFbuc
Fim do capítulo
''Nil sapientiae odiosius acumine nimio.''
Sêneca
FOR NOW, THAT'S IT!
Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.
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