Capitulo 1
O celular vibrava sem parar sobre o criado-mudo, insistente como se quisesse arrancar Tereza à força daquele sono pesado.
Ela gem*u, apertando os olhos contra a claridade cruel que atravessava a janela.
A cabeça latej*v*. A boca estava amarga. O estômago embrulhado.
Ressaca.
Tereza esticou o braço para pegar o aparelho, quase derrubando-o no chão no processo.
— Merda…
A tela acesa iluminou seu rosto ainda amassado de sono.
240 mensagens.
Franziu a testa.
O grupo novo.
As lembranças da noite anterior vieram em flashes confusos: música alta, gargalhadas, doses demais e aquele impulso irresponsável de aceitar entrar num grupo de desconhecidos porque, por algumas horas, parecer interessante parecia mais fácil do que sentir.
Abriu as mensagens com preguiça.
Figurinhas. Áudios. Conversas aleatórias.
Até que uma notificação privada chamou sua atenção.
Alexandra.
Tereza piscou algumas vezes, tentando lembrar.
Abriu.
E imediatamente sentiu o rosto aquecer.
“Você é sempre assim ou só quando bebe?” “Eu gostei de você.” “Conta mais.” “Prometo não te julgar.”
— Meu Deus… sussurrou, passando a mão no rosto.
Ao seu lado, Lara se remexeu na cama.
— Você mal acordou e já tá nesse celular?
A voz veio carregada de irritação, mas Tereza conhecia bem demais para confundir.
Aquilo não era só implicância.
Era vigilância.
Tereza travou a tela no mesmo instante, por reflexo e odiou perceber isso.
— Só tô vendo umas mensagens.
Lara se virou, apoiando a cabeça na mão, os olhos ainda inchados de sono… mas atentos.
Atentos demais.
— Mensagem de quem?
A pergunta veio rápida. Natural demais. Como quem pergunta sem querer parecer que está perguntando.
Tereza soltou uma risada seca.
Porque conhecia aquele jogo.
Conhecia porque viveu o outro lado dele vezes demais.
— Desde quando isso importa?
Lara estreitou os olhos.
— Eu só perguntei.
Tereza sustentou o olhar por alguns segundos, sentindo aquele velho cansaço se instalar antes mesmo do dia começar.
Era sempre assim.
Lara agia como se o excesso de cuidado fosse amor… quando Tereza sabia que, muitas vezes, era culpa.
Anos atrás, ela também fazia perguntas assim.
“Quem é?” “Por que apagou?” “Por que demorou?” “Posso ver?”
Até descobrir que nenhuma vigilância impede alguém de trair, quando ela quer.
A primeira vez tinha destruído. A segunda, humilhado. As outras… só ensinaram Tereza a sobreviver.
— Não começa cedo, Lara.
A voz saiu fria, mas não alta.
Lara se sentou na cama de uma vez.
— Eu não tô começando nada.
Tereza respirou fundo, encarando o teto por um segundo.
Sete anos.
Sete anos de amor, reconstrução, recaídas, promessas refeitas e rachaduras mal curadas.
Sete anos tentando esquecer mensagens que nunca deveriam ter existido. Nomes que ela nunca quis decorar. Pedidos de perdão que perderam o valor na repetição.
— Claro que não — murmurou, afastando o lençol. Vou tomar banho.
— Foge, como sempre.
Tereza parou por um segundo.
Virou o rosto apenas o suficiente para responder:
— Engraçado você falar de fuga.
O silêncio que veio depois foi brutal.
Lara não respondeu.
Porque entendeu.
No banheiro, Tereza fechou a porta e apoiou as mãos na pia, encarando o próprio reflexo.
Olheiras. Exaustão. E uma tristeza funda, daquelas que já nem fazem barulho.
Ela não era mais a mesma mulher que perdoou chorando a primeira traição.
Agora, havia algo diferente.
Não era falta de amor.
Era excesso de cicatriz.
Ligou o chuveiro, deixando a água quente cair sobre os ombros tensos.
Queria lavar a ressaca. A irritação. A memória.
Mas algumas coisas não saíam com água.
Quando saiu, o cheiro de café já preenchia a casa.
Lara estava na cozinha, em silêncio, mexendo na frigideira como se nada tivesse acontecido.
Como fazia depois de quase toda discussão.
Tereza observou por alguns segundos.
Era essa a pior parte: A capacidade que Lara tinha de ferir… e depois agir como se bastasse seguir o dia.
— Fiz café.
— Obrigada.
Sentou-se à mesa, pegando a caneca.
O celular vibrou de novo.
Alexandra: “Bom dia, sobrevivente. Me diz que você tá menos bêbada hoje.”
Sem perceber, Tereza sorriu.
Pequeno. Automático. Real.
— Tá sorrindo pra quem?
A pergunta veio instantânea.
Rápida.
Quase ansiosa.
Tereza ergueu os olhos devagar.
E, pela primeira vez naquela manhã… não se sentiu culpada.
— Pra uma conversa leve.
Lara ficou imóvel.
Porque talvez, no fundo, soubesse exatamente o peso daquela resposta.
Não era sobre outra pessoa.
Era sobre aquilo que elas tinham perdido há muito tempo.
Lara permaneceu em silêncio por alguns segundos, a mão ainda pousada sobre a frigideira, mas o café já não parecia ser sua prioridade.
“Pra uma conversa leve.”
A frase ficou suspensa no ar como fumaça.
Tereza não desviou o olhar.
Por muitos anos, desviou. Engoliu. Suavizou. Tentou parecer menos ferida para que Lara não precisasse encarar o tamanho do estrago.
Mas naquela manhã, não.
Lara soltou uma risada fraca, daquelas sem humor algum.
— Entendi.
E Tereza conhecia bem aquele “entendi”.
Não significava compreensão. Significava incômodo.
— Não, Lara… você não entendeu. — Tereza tomou um gole do café, mesmo morno demais. — Conversa leve não é sobre flerte. É sobre não sentir que cada palavra minha vai virar interrogatório.
A resposta atingiu em cheio.
Lara virou-se de costas, mexendo o café sem necessidade.
— Eu não tô te interrogando.
Tereza arqueou a sobrancelha.
— Não?
Silêncio.
Porque as duas sabiam.
Lara não precisava pegar o celular de Tereza para vigiar. Bastava o tom. As perguntas. O jeito que observava cada notificação como quem espera o pior.
E talvez esperasse mesmo.
Quem trai repetidamente aprende a reconhecer sinais… porque um dia deixou esses mesmos sinais pelo caminho.
— Você acha que eu não sei que errei? — Lara perguntou de repente, mais baixa.
Tereza riu, mas dessa vez havia dor.
— Saber nunca foi o problema.
Lara finalmente virou para encará-la.
— Então qual é?
Tereza pousou a caneca devagar sobre a mesa.
Seu peito já estava apertado, mas não de raiva.
Cansaço.
— O problema é que você age como se o dano tivesse prazo de validade só porque pediu desculpa.
Lara abriu a boca… Fechou.
Porque não havia resposta simples para isso.
Tereza se levantou, pegando a bolsa.
— Eu preciso ir.
— Fugir de novo?
A frase saiu amarga, automática.
Mas Tereza apenas suspirou.
— Não, Lara. Trabalhar. Porque diferente de algumas coisas… a vida continua.
Fim do capítulo
Espero que gostem.
Capítulo novo as quintas!
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: