Capitulo 2
Tereza saiu de casa com o maxilar travado, a bolsa pendurada no ombro e a sensação sufocante de que aquela conversa ainda continuava dentro dela. Não era só sobre aquela manhã. Nunca era.
Era sobre anos.
Anos tentando seguir em frente enquanto certas feridas ainda doíam como se tivessem acabado de acontecer. Anos ouvindo pedidos de desculpa como se arrependimento apagasse repetição. Anos tentando não se transformar completamente na versão desconfiada que as traições de Lara quase criaram.
— O problema é que você age como se o dano tivesse prazo de validade só porque pediu desculpa.
Talvez tivesse sido dura. Mas Tereza estava cansada de suavizar verdades para proteger quem nunca protegeu as dela.
Sem esperar resposta, colocou o capacete, subiu na moto e saiu antes que Lara dissesse qualquer coisa além do necessário.
O vento da manhã batia contra sua pele, mas não o suficiente para silenciar a mente. Ela seguia no automático, sem pressa. Só ela, o trânsito e pensamentos demais.
No semáforo, respirou fundo.
Por um instante, lembrou de quando gostava de voltar correndo para casa. De quando Lara era porto, não peso. De quando amor parecia simples.
Agora, às vezes, parecia só cansaço com memória afetiva.
No trabalho, a manhã se arrastou lentamente.
Planilhas. Demandas. Pessoas falando ao mesmo tempo. O celular vibrando no bolso com insistência irritante.
Tereza ignorou o máximo que conseguiu.
Até o primeiro intervalo.
Encostada perto da janela, desbloqueou a tela como quem procura cinco minutos de fuga. Três notificações. O grupo,Lara e uma de Alexandra.
E foi exatamente essa que mudou sua expressão sem pedir permissão.
Alexandra: Atualizações, por favor. Sobreviveu à ressaca? Preciso saber se você segue viva ou se foi de arrasta depois daquele show particular.
Tereza soltou uma risada baixa antes de responder.
Tereza: Infelizmente sobrevivi. Minha dignidade, no entanto, faleceu às 2h da manhã.
A resposta veio quase imediata.
Alexandra: Eu avisei que aquela performance de sofrência teria consequências.
Tereza: Você prometeu não me julgar.
Alexandra: Nunca prometi. Inclusive ainda tô me recuperando emocionalmente.
Tereza balançou a cabeça, rindo sozinha.
Tereza: Isso porque você claramente nunca me viu bêbada de verdade.
Alexandra: Tem mais?
Tereza: Infelizmente.
Alexandra: Meu Deus… então existe uma versão pior?
Tereza: Existe. E ela dança.
Assim que enviou, se arrependeu.
Alexandra: Não.
Tereza: Sim.
Alexandra: Eu vou precisar de vídeos.
Tereza: Você quer demais.
Alexandra: Eu mereço demais.
Pela primeira vez naquele dia, Tereza sentiu o peito desacelerar.
Era ridículo. Bobo até.
Mas conversar com Alexandra parecia fácil.
Sem tensão, sem passado atravessando cada frase, sem a sensação constante de que qualquer palavra poderia ser usada como prova em algum tribunal emocional.
No almoço, sentada sozinha diante da marmita aberta e quase esquecida, o celular vibrou outra vez.
Alexandra: Momento sério.
Tereza arqueou a sobrancelha.
Tereza: Vixi, manda kkkkk
Alexandra: Você flerta bêbada ou aquilo foi delírio meu?
Tereza quase engasgou.
Ficou encarando a tela como se pudesse intimidar a mensagem.
Tereza: Perdão?
Alexandra: Você me chamou de interessante algumas vezes.
Tereza: Eu tava alcoolizada.
Alexandra: Então sóbria você me acha o quê?
Tereza mordeu o lábio para conter o sorriso.
Tereza: Hoje eu diria inconveniente.
A resposta veio imediatamente.
Alexandra: Ótimo. Inconveniente, mas interessante.
Tereza tentou não sorrir.
Falhou miseravelmente.
As mensagens continuaram durante o resto do dia, rápidas, engraçadas, perigosamente naturais.
Alexandra: Você trabalha mesmo ou só responde minhas mensagens?
Tereza: Eu finjo responsabilidade muito bem.
Alexandra: Admirável. Mulher multitarefas.
Tereza: E você?
Alexandra: Trabalho, pago boletos e agora aparentemente fiscalizo sua personalidade caótica.
Tereza: Cargo importante.
Alexandra: Alguém precisa.
De alguma forma, entre uma demanda e outra, Tereza percebeu que estava esperando pelas notificações.
Esperando pelas respostas.
Esperando por Alexandra.
No fim da tarde, quando finalmente saiu do trabalho, sentia o corpo cansado, mas a mente estranhamente mais leve.
Colocou o capacete, ligou a moto e, antes mesmo de guardar o celular, outra mensagem apareceu na tela.
Alexandra: Pergunta importante antes de você sumir.
Tereza parou por um segundo antes de responder.
Tereza: Primeiro que eu não vou sumir, vou dormir pra recuperar a dignidade, mais fale!
Alexandra: Você é sempre divertida assim ou eu tive sorte de te conhecer num surto alcoólico carismático?
O sorriso veio involuntário. Daqueles que aparecem antes mesmo da razão perceber.
Tereza: Talvez os dois.
Demorou apenas alguns segundos para a resposta chegar.
Alexandra: Excelente. Gosto de mulheres consistentes.
Tereza travou.
Ficou olhando para a tela por tempo demais.
Então riu sozinha dentro do capacete.
Porque talvez fosse brincadeira.
Talvez não.
Mas, depois de tanto tempo vivendo entre rachaduras, era impossível não perceber quando alguma coisa mesmo pequena parecia nova.
Fim do capítulo
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