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Dolce Felicitá : Pequenas Doses de Amor por jmalchanceux

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Palavras: 2161
Acessos: 194   |  Postado em: 04/06/2026

Prólogo

Marcela estica os braços na grande cama e não fica surpresa ao encontrar o lado vazio, apenas o lençol frio e amassado deixado para trás há horas, assim como nas vezes anteriores. Ela suspira, este é o acordo original, que mais tarde se tornou uma promessa, apenas o jantar, sex* e não compartilhar a mesma cama. Esta sempre foi a regra principal, depois da mais óbvia, nunca se apaixonar. Quando tudo começou não imaginaram que chegaria a este ponto, são cinco anos recriando o que aconteceu após uma noite de bebedeira comemorando o contrato que daria início a construção de Dolce Felicità. Ela se sente enjoada enquanto tenta ajustar-se à luz clara que infiltra o quarto através das janelas altas, imediatamente arrependida de ter bebido meia garrafa 

de vinho, então se questiona se a outra mulher estaria da mesma forma, pois ela quem bebeu a outra metade. As duas raramente se embebedam desta forma e quando fazem é isso o que acontece: uma cama vazia, pele quente e um coração pesado, expectativas jogadas no lixo. A morena levanta cambaleando, fraqueza tomando conta junto a tontura leve, e ri de si mesma por estar deplorável, lembrando do que sua tia sempre lhe disse, que a idade viria e as ressacas ficariam piores.

- Mamãe! - e vem a dor de cabeça, a pior parte, que tenta ignorar, aquele martelar no fundo da cabeça enquanto seu filho corre até ela a gritos animados demais para uma manhã de segunda feira - Mamãe! Dinda fez panquequinhas, eu pedi de ursinho, ela fez de ursinho! - ele conta animado, sem perceber a surpresa estampada no rosto da mãe que de repente se sente muito acordada.

- Ela fez o café da manhã para você?

- Sim, Dinda me acordou e pediu ajuda, eu estou ajudando, sou um menino grande agora. - Theo despeja o entusiasmo, falando rapidamente e sem interrupções - Vem ajudar a gente? Eu estava te esperando acordar, porque seria legal todo mundo cozinhar junto, Dinda até tenta, mas a senhora cozinha melhor. Só não conta pra ela, tá bom?

- Tá bom, meu amor. - ela sussurra e puxa o garoto para si, deixando um beijo na testinha dele sob os cabelos bagunçados - Mamãe vai tomar banho rápido e logo vai ajudar vocês.

- Tá bom, vou falar pra Dinda.

Theo abre um sorriso maior ainda e sai correndo pela casa, não ouvindo a mãe lhe dizer para não fazer isso de meias. Ela passa a mão pelo cabelo, colocando uma mecha atrás da orelha, e tenta não criar falsas esperanças, falhando miseravelmente. Depois de se mudar, Diana nunca ficou para o dia seguinte, é uma distância segura que criou para si e ela respeitou, afinal, não conseguiu se afastar e por fim aceitou tudo o que ela estivesse disposta a dar, mesmo que não passe de migalhas esporádicas apenas para não lhe matar de fome, ainda assim sempre lhe fazendo seguir como um pato sedento. O que resultou em algo que Marcela sempre desprezou e nunca imaginou que um dia se tornaria, agora é uma amante, a amante e pecado secreto de sua melhor amiga, madrinha de seu filho e também sócia, Diana Albuquerque. Não, ela não iniciou como amante, elas já dormiam juntas há quatro anos quando a empresária conheceu seu atual namorado, foi na construção da matriz em São Paulo, a qual Amauri era o principal engenheiro encarregado e depois de dois encontros começaram o relacionamento que dura quase dezoito meses. Nessa época ela já estava conformada com a ideia do fim de seu caso secreto, até ser empurrada contra a parede do banheiro pela ruiva uma semana após o anúncio oficial. E assim elas continuam, se esgueirando durante festas, idas ao banheiro juntas que com certeza terminam em rapidinhas ou pelo menos uma delas com o batom borrado, reuniões particulares que são a desculpa para poderem trocar beijos no escritório pois a noite Diana voltaria para Amauri, com quem se deita, troca juras de amor e planeja o futuro.

Marcela achou a noite anterior atípica, já que há meses elas não realizavam o ritual do jantar seguido de sex*, mas ela insistiu, até mesmo a levou para seu restaurante favorito e pediu uma sobremesa para Theo, sinalizando que seria na casa de Marcela e não em um motel como estava sendo no último ano, desde que o engenheiro passou a frequentar a casa dela. Quando chegaram o menino ainda estava acordado, a babá tentando se desculpar por não conseguir fazê-lo dormir e explicando que ele ficou agitado perto do horário de dormir. Então Diana contornou o afilhado com a sobremesa trazida e filmes, tendo sucesso quase imediato, já que logo após pagar a babá ela a encontrou com seu filho no colo, o levando para escovar os dentes, Theo extremamente sonolento e à mercê aos truques da ruiva. Ela recusou ajuda, mesmo Marcela insistindo que o menino não pesa mais apenas 12 quilos e pode ser muito manhoso nestes momentos. Depois de muito trabalho e convencimento, a criança dormiu ainda no colo de Diana. Elas lhe colocaram na cama e o cobriram cuidadosamente, com um beijo na têmpora cada, silenciosamente implorando que ele não acordasse durante a noite. O que, por algum milagre, não aconteceu, mesmo com os gemidos desinibidos de Marcela, os palavrões de Diana e nem mesmo com a cama rangendo violentamente. Fato que a lembra de que precisa comprar um novo colchão, algo que deveria ter feito semana passada e esqueceu completamente, uma briga de travesseiros com o filho terminou em molas quebradas, não ruim o suficiente para notar ao dormir normalmente, mas com certeza em outras atividades.

- Droga! - ela pragueja ao se ver no espelho após sair do banho, há marcas das coxas até o pescoço, espalhadas aleatoriamente por este caminho, passando de tons rosados para vermelhos e de vermelhos para roxos - Eu vou matar Diana... - murmura terminando de secar o corpo com a toalha, pensando em como cobrir as marcas nos lugares visíveis, amaldiçoando-a por estragar seu plano de usar um vestido mais curto no dia abafado.

Por fim, Marcela acaba vestindo uma calça jeans flare, tênis sem cadarços e uma regata vermelha que usa de pijama, sem estampa. Deixa o cabelo castanho solto, secando naturalmente em mechas onduladas nas pontas, mas escova a as madeixas rebeldes. Há um rastro dos ch*pões pelo pescoço ainda aparente, só então ela percebe uma mordida na curva, a marca de dentes perfeitamente desenhada. Mais um detalhe atípico, Diana nunca a mordeu ou marcou desta forma, pelo menos não tão explícito; algo ocasional, brincalhão, contido e tímido sim, mas nunca assim. Depois do protetor solar, uma camada generosa de base, perfume e hidratante com cor nos lábios, Marcela está pronta e caminha até a cozinha, seguindo as vozes animadas.

- E qual é o seu papel? - Diana pergunta, sem tirar os olhos do fogão enquanto mexe os ovos na pequena frigideira.

- O de bruxo mau, Dinda. - diz ele orgulhoso, enfiando um punhado de mini panquecas na boca antes de continuar - Vou ser malvado, igualzinho a madrasta da Branca de Neve. Ah, eu tentei ser um leão, a senhora sabe que amo leão, mas a Laurinha pegou e tudo bem, eu vou ser um bruxo muito legal. Vou usar tudo preto, até aquela coisa preta nos olhos, eu acho que é sombra. É, sim, sim, é sombra. Acho que uma capa também, quero deixar meu cabelo espetado, bem espetado! Sabe deixar o cabelo espetado? - Marcela apenas os observa, admirada com a interação dolorosamente doméstica e não evita soltar uma pequena risada, chamando atenção dos dois - Mamãe! Dinda está cozinhando, ela queimou um pouco, mas está delicia.

- Dedo duro! - a ruiva acusa e sorri, desligando a boca do fogão - Bom dia, querida! - se aproxima de Marcela, a encarando dos pés a cabeça, procurando pelas marcas que sabe ter deixado na noite anterior, então a beija na bochecha, arrastando o beijo até o canto dos lábios, fazendo-a estremecer ao leve toque, tão simples e íntimo ao mesmo tempo - Está com fome?

- Estou faminta...

- Fiz ovos mexidos e suco de laranja para você, se quiser, posso fazer aquele sanduíche de requeijão que ama. - Diana pega sua mão e a direciona até a bancada, onde ela se senta ao lado de Theo e a empresária volta para sua posição inicial, terminando o prato - Preparou sua mochila para a natação, Theo? Não teremos tempo para buscar após a aula.

- Ainda não, Dinda. Esqueci, desculpa. - ele se sente envergonhado e encara o prato.

- Tudo bem, meu amor. - a mãe acaricia o cabelo castanho e levanta a cabecinha dele, fazendo-o olhar diretamente para ela - Essas coisas acontecem, mamãe vive esquecendo as coisas também, fique tranquilo. Coma e depois vá para o quarto arrumar, tá bom?

- Tá bom, mamãe!

Os três tomam café juntos, conversando sobre os planos para o mês e as aulas de Theo, apesar de ter apenas sete anos ele tem uma agenda relativamente ocupada com cursos e hobbies após as aulas, algo que ele mesmo quis e as mulheres incentivaram, pois foram quase dois anos de seu desenvolvimento prejudicados pela pandemia, um ano tentando se adaptar e os últimos lhe proporcionaram bons momentos. Ele fez amigos, ganhou interesse por aprender e se divertir ao ar livre. E assim iniciou nas aulas de inglês, natação e karatê, além dos escoteiros.

- Eu sou um Lobinho, eu queria ser o líder, mas só é líder da matilha quem chega primeiro e eu entrei agora. - ele explica animado, descrevendo o uniforme azul que compraram semanas antes - Eles também acampam, mas mamãe diz que só vou acampar com eles quando eu crescer.

Marcela tenta manter-se concentrada no que o filho diz, mas seus pensamentos voam longe, centrados na mulher a sua frente, ela não lembra delas terem dormido juntas na mesma cama, nem que Diana havia ficado, talvez fosse o álcool ou o cansaço, assim que atingiu o ápice ela desmaiou. Elas compartilham chaves, por uma dezena de razões, mas também para estes momentos. Nem mesmo percebe o menino se levantar e correr para seu quarto, extasiado com a promessa da madrinha de que ela quem o levaria para a aula, como nos velhos tempos, quando não havia ELE.

- Mar... - Diana chama, dando a volta na bancada, parando em frente a mulher.

- Sim?

- Você parece distante. - constata ela e sorri, levando uma mão ao rosto dela, acariciando suas bochechas rosadas.

- Eu estava pensando... Você passou a noite? - pergunta Marcela mal conseguindo conter o faísca de esperança e um sorriso nos lábios ao imaginar as duas juntas na mesma cama, por mais que não lembre, seria algo.

- Dormi no sofá.

- Ah. - e o sorriso morre tão rápido quanto surgiu.

- Eu tenho novidades. - a mulher anuncia repentinamente, não quer adentrar o assunto, e se distancia, a fim de evitar aqueles olhos de cachorro abandonado que Marcela sempre faz e a faz derreter de dentro para fora - Amauri me pediu em casamento.

- O que? Quando? - o coração dela afunda no peito, se sente enjoada e tonta novamente, dói apenas de imaginar a cena, de imaginar que ele conseguiu. Oficial e inegavelmente.

- Ontem de manhã, saí do banho e lá estava ele com uma caixinha. - ela sorri e se vira para pegar a bolsa no banquinho alto, então chama Theo, não quer ficar presa no tráfego e o atrasar - Eu busco ele depois da aula e o levo para a natação, o que acha de jantar na casa dos meus pais? Podemos nos encontrar lá.

- V-você aceitou? - a voz da morena falha, ignorando a pergunta, não tem forças.

- Claro, afinal, eu o amo e ele me ama. É perfeito. Uma hora ou outra aconteceria. - Diana rebate mecanicamente voltando a olhar para Marcela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, como se estivesse a ofendendo com uma pergunta absurda, todas as camadas do que acontece escondidas atrás de sua habitual máscara. Theo entra no cômodo, com a mochila nas costas e a garrafinha de água em mãos - Olha que rapaz grandinho, logo estará do tamanho da sua mãe.

- É o que eu quero, Dinda. - Theo sorri e dá um beijo em Marcela, ele a agarra em um abraço apertado que a faz voltar a realidade - Até depois, mamãe. Te amo de montão!

 

- Eu te amo mais! Te vejo mais tarde, meu amor. - ela os acompanha até a porta, encarando Diana antes de sussurrar - Parabéns! Espero que vocês sejam felizes. - e fecha a porta sem esperar por uma resposta, no segundo seguinte perde a batalha contra as lágrimas quentes e teimosas, que apenas traduzem a dor de seu coração enfim partido.

Fim do capítulo


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Comentários para 1 - Prólogo:
Lea
Lea

Em: 04/06/2026

Diana não é tóxica,ela é radioativa. Péssima amiga, aparentemente,uma ótima madrinha.

Como a Marcela continua se envolvendo com um, encosto desse?? A saúde mental e emocional fica como??

Quero conhecer melhor a Marcela para saber como,ela lida e lidará com tudo isso.

Vamos conhecer Diana, também. Né?

Observação: gosto tanto dos seus livros uma pena que, nunca continua até o que,tenha um final.


jmalchanceux

jmalchanceux Em: 06/06/2026 Autora da história
Ela é a própria Chernobyl em alguns momentos e não dá de passar panos para algumas coisas. Ótima mesmo, ele é como se fosse um filho para ela.
Como autora, eu tenho que dizer: Marcela não tem amor próprio e sofre muito com isso.
Logo logo você vai conhecer mais e até mesmo as razões dela suportar essas canalhices, como ela lida e etc.
Vão sim!!! E a família dela também!
Então, basicamente você acompanha meu processo criativo, ás vezes tenho quase tudo pronto e percebo que não gosto da minha escrita ou enredo. Além disso, tenho momentos em que não consigo escrever, como quando estava na faculdade :( Estou voltando aos poucos, depois de anos, pois me formei e estou mais tranquila. Prometo trazer continuações, mesmo que revisadas. Obrigada por ler e comentar, espero que goste do resto


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