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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3265
Acessos: 110   |  Postado em: 15/06/2026

O mundo à espera

Sarah Solano

Sarah acordou antes de abrir os olhos, era sempre assim nos ciclos de despertar.

Primeiro vinha a consciência, pesada e incompleta, tentando se encaixar novamente no corpo. Depois, o frio. Depois, a sensação de que seus pensamentos haviam sido desmontados, limpos, arquivados em algum lugar escuro e devolvidos na ordem errada.

A cápsula criogênica abriu com um suspiro mecânico.

O ar da Aurora entrou em seus pulmões como uma lembrança fabricada.

Sarah abriu os olhos.

A luz azulada do módulo de suspensão era baixa, pensada para não agredir o sistema nervoso recém-retirado da pausa biológica. Mesmo assim, tudo parecia forte demais. O brilho das telas. O som dos filtros. A vibração sutil da nave. O próprio peso do corpo contra a cápsula.

— Capitã Solano, ciclo de despertar intermediário concluído — informou Aurora. — Seus sinais vitais estão estáveis. Coordenação motora em recuperação. Temperatura corporal subindo dentro dos parâmetros esperados.

Sarah tentou responder, mas a garganta estava seca.

Samira surgiu ao lado da cápsula, com um copo de hidratação na mão e a expressão calma de quem já havia visto a humanidade acordar mal muitas vezes.

— Devagar — disse a médica. — Seu corpo ainda está lembrando que existe.

Sarah aceitou o copo.

— Quanto tempo?

A voz saiu rouca.

— Desde o último ciclo consciente, oito meses subjetivos de missão — respondeu Aurora. — Em tempo terrestre, mais do que isso.

Sarah não pediu o número exato.

Havia aprendido, nos ciclos anteriores, que certos dados não ajudavam. A passagem real dos anos existia nos relatórios, nas projeções, na distância crescente da Terra. Mas repeti-la a cada despertar era uma forma de ferir a tripulação sem necessidade operacional.

— Status geral? — perguntou Sarah.

Samira passou um scanner por seu pescoço.

— Tripulação em processo de despertar programado. Mei reclamou da temperatura antes mesmo de abrir os olhos. Asha pediu acesso aos registros de navegação em vez de água. Sergey perguntou se havia ordens pendentes. Roberta ainda está acordando.

Sarah absorveu o último nome com cuidado.

— Alguma intercorrência?

— Nenhuma grave. Roberta apresentou atividade onírica elevada no último ciclo.

Sarah virou o rosto para a médica.

— Sonhos?

— Sim. Fragmentados, mas intensos.

— Relacionados a quê?

Samira a observou por um segundo.

— Isso entra no campo de privacidade médica, capitã.

Sarah sustentou seu olhar.

— Se afetar a missão, preciso saber.

— Se afetar a missão, eu informarei.

A resposta foi serena.

E irremovível.

Sarah quase admirou.

Quase se irritou.

As duas coisas se tornavam cada vez mais parecidas naquela nave.

Ela saiu da cápsula com ajuda mínima. As pernas estavam firmes o bastante, mas havia uma lentidão desconfortável nos músculos, como se cada fibra precisasse ser convencida a colaborar. A criogenia era segura. Avançada. Necessária. Mas não era descanso. Era uma negociação prolongada com o corpo.

No vestiário médico, vestiu o uniforme de treinamento e prendeu os cabelos. O relógio do pai estava guardado em compartimento protegido durante a suspensão, mas Aurora o liberara para uso no ciclo consciente. Sarah prendeu a pulseira no braço esquerdo e sentiu o peso familiar tocar a pele.

Samira notou.

— Ainda marcando hora?

— Ainda fingindo que ela obedece.

— Uma ilusão útil.

— As melhores são.

O treinamento físico era obrigatório em todos os ciclos de despertar. A suspensão preservava tecidos, reduzia desgaste e mantinha funções básicas, mas nada substituía o movimento real. Corpos humanos não foram feitos para desaparecer por longos períodos e depois retornar como se nada tivesse acontecido. Precisavam ser lembrados. Testados. Reeducados.

No módulo de condicionamento, Mei já corria em uma esteira gravitacional, resmungando contra a própria frequência cardíaca. Asha fazia exercícios de coordenação com sensores de reflexo, acertando luzes que surgiam ao redor dela em velocidades absurdas. Sergey realizava séries de força com precisão militar, sem desperdício de movimento, sem expressão de desconforto. Para ele, até o suor parecia obedecer a um regulamento.

Roberta estava no centro do módulo, sobre uma plataforma de equilíbrio.

Sarah parou por meio segundo antes de entrar completamente.

A astrobióloga usava roupa de treino cinza, os cabelos escuros presos no alto, alguns fios soltos junto ao rosto. A plataforma projetava variações de gravidade e instabilidade sob seus pés. Roberta acompanhava o movimento com os joelhos levemente flexionados, braços abertos, corpo atento. Não tinha a força compacta de Mei nem a rigidez treinada de Sergey. Seu movimento era outro. Mais fluido. Quase intuitivo.

Como se escutasse o desequilíbrio antes de corrigi-lo.

Sarah percebeu a linha dos ombros, a firmeza das pernas, o controle da respiração. Percebeu também a concentração no rosto dela, a forma como os olhos castanhos acompanhavam cada alteração da plataforma, a pequena contração da boca quando acertava a resposta do corpo.

Era uma observação objetiva, disse a si mesma.

Avaliação física de tripulante.

Estado muscular adequado. Coordenação preservada. Reflexos bons. Resistência dentro do esperado.

Então Roberta perdeu o equilíbrio por um instante, riu de si mesma e recuperou a posição com uma elegância desnecessária.

A justificativa objetiva começou a falhar.

— Capitã — disse Aurora no comunicador interno, com a serenidade inoportuna de sempre. — Seu batimento cardíaco apresentou elevação súbita.

Sarah olhou para o sensor mais próximo.

— Estou entrando em atividade física.

— A elevação ocorreu antes do início do exercício.

Mei, da esteira, virou o rosto.

— Isso ficou interessante.

Sarah não olhou para ela.

— Aurora, limite os comentários biométricos ao canal médico.

— Deseja que eu registre essa preferência como privacidade emocional?

Roberta olhou para Sarah.

E sorriu.

Não muito.

O bastante para desestabilizar algo que não tinha relação alguma com gravidade.

— Registre como preferência de comando — disse Sarah.

— Registrado — respondeu Aurora.

Samira, que acompanhava os dados no painel lateral, não escondeu completamente a expressão divertida.

Sarah decidiu começar o treino antes que sua própria nave a humilhasse com eficiência estatística.

Os exercícios seguiram por quase uma hora. Corrida leve, resistência, reflexos, força, equilíbrio, simulações de deslocamento em gravidade variável. A equipe respondia bem. Mei reclamava, mas superava os índices. Asha se distraía com os próprios dados e precisava ser lembrada de descansar. Sergey tratava cada avaliação como uma inspeção de prontidão militar. Roberta, apesar de menos treinada que os demais em ambiente de nave, adaptava-se rápido.

Rápido demais para Sarah ignorar.

Ao fim da sessão, Aurora apresentou os resultados em projeção.

— Desempenho geral satisfatório. Nenhum tripulante apresenta degradação funcional relevante. Recomenda-se novo ciclo de suspensão dentro de quatro horas, após alimentação, avaliação psicológica e revisão operacional.

— Quatro horas — murmurou Mei. — Tempo suficiente para lembrar que estou viva e depois apagar de novo. Delicado.

— A suspensão é necessária — disse Sergey.

— Eu sei, Ivanov. Isso não me obriga a gostar.

— Gostar é irrelevante.

Roberta enxugou o rosto com uma toalha e olhou para ele.

— Essa frase deve ser bordada em algum brasão militar.

Sergey virou-se.

— A missão depende de cumprimento, não de preferência.

— Também depende de discernimento.

— Discernimento sem disciplina vira risco.

— Disciplina sem discernimento vira obediência perigosa.

O silêncio caiu rápido.

Sarah percebeu o olhar de Samira se mover de um para o outro. Mei pareceu pronta para assistir. Asha fingiu ajustar os sensores, mas claramente ouvia.

— Chega — disse Sarah.

Roberta respirou fundo e desviou o olhar.

Sergey apenas assentiu.

— Sim, capitã.

A prontidão dele era tão absoluta que Sarah sentiu um desconforto familiar. Em Calisto, algumas pessoas também haviam aguardado ordens como se uma cadeia de comando pudesse absolver todos os envolvidos. Mas ordens não apagavam consequências. Apenas organizavam a culpa.

Mais tarde, no refeitório, a tripulação comeu em silêncio relativo. A comida era nutritiva, tecnicamente saborosa e emocionalmente ofensiva. Mei tentou defender que qualquer civilização capaz de cruzar estrelas deveria ter resolvido o problema da textura de proteína sintética. Asha argumentou que textura era questão cultural. Samira recomendou que todos comessem antes que a conversa se tornasse filosófica demais para um sistema digestivo recém-desperto.

Roberta sentou-se do outro lado da mesa de Sarah, não diretamente à frente, um pouco em diagonal. Distância segura para duas pessoas que ainda não sabiam o que fazer com a própria curiosidade.

— Capitã — disse ela, depois de alguns minutos.

— Doutora.

— Posso perguntar uma coisa sem parecer insubordinada?

— O fato de perguntar isso antes já é um progresso.

Roberta sorriu.

— Depois do despertar definitivo, qual será a primeira regra em Éden-9?

Sarah apoiou o copo na mesa.

— Ninguém pousa até confirmarmos atmosfera, radiação, atividade biológica aérea, estabilidade geológica, padrões de comunicação e integridade orbital.

— Essa é a primeira regra técnica.

— É a única que importa antes de tocar o solo.

— Discordo um pouco.

— Surpreendente.

Roberta ignorou a ironia leve.

— A primeira regra deveria ser não presumir silêncio como permissão.

Sarah observou-a.

Havia cansaço no rosto de Roberta, mas também uma firmeza que não vinha de teimosia simples. Ela acreditava naquilo. Não como uma ideia bonita. Como princípio.

— Você acha que podemos pedir permissão a um planeta?

— Não sei. Mas podemos evitar agir como se a impossibilidade de resposta em linguagem humana fosse autorização automática.

Sarah demorou a responder.

— Se a segurança permitir, tentaremos uma abordagem gradual.

— “Gradual” é uma palavra que pode significar muitas coisas.

— E “permissão” também.

Roberta aceitou o ponto com um pequeno movimento de cabeça.

— Justo.

Aurora interveio pelos alto-falantes do refeitório:

— Registro: a conversa entre capitã Solano e doutora Almeida apresenta redução de tensão vocal em comparação ao ciclo anterior.

Mei largou o talher.

— Aurora, eu retiro metade das reclamações. Você é maravilhosa.

Sarah fechou os olhos por um instante.

— Aurora.

— Comentário biométrico indevido. Ajustando filtros.

Roberta levou o copo à boca para esconder o sorriso, não conseguiu completamente.

Sarah viu.

E, contra a própria vontade, guardou a imagem.

Quatro horas depois, voltaram às cápsulas.

A suspensão os recebeu novamente com sua delicadeza clínica. Um por um, os tripulantes desapareceram em luz azul, respiração reduzida, sonhos induzidos e silêncio monitorado. Sarah foi a última, como sempre. Antes de se deitar, percorreu os módulos principais, conferiu dados de rota, autorizou protocolos e revisou o estado da nave.

Na cápsula, antes que a tampa fechasse, Aurora falou em canal privado.

— Capitã, deseja acessar relatório emocional do ciclo?

— Não.

— Deseja acessar apenas dados resumidos?

— Não.

— Deseja que eu exclua observações não operacionais relativas à doutora Almeida?

Sarah abriu os olhos.

— Quais observações?

— Como a senhora recusou acesso ao relatório emocional, não posso detalhar sem contradizer sua preferência anterior.

Sarah encarou o teto da cápsula.

— Aurora.

— Sim, capitã.

— Você está aprendendo sarcasmo?

— Estou aprendendo contexto.

— Péssimo sinal.

— Registro seu desconforto como progresso interacional.

A tampa começou a fechar.

Sarah soltou o ar devagar.

— Boa noite, Aurora.

— Boa noite, capitã.

A luz azul tomou seu campo de visão.

O corpo afundou.

O tempo se desfez outra vez.

Anos depois, Sarah acordou com o som de um alarme suave.

Não era emergência.

Era chegada.

A consciência retornou em camadas: primeiro o frio, depois a respiração, depois o peso do próprio nome. A cápsula se abriu. O ar da Aurora parecia diferente. Não na composição, que certamente permanecia impecável, mas na carga invisível que todos os ambientes adquirem quando algo esperado por muito tempo finalmente acontece.

Samira estava de pé no módulo, já desperta, auxiliando Mei.

Asha saía de sua cápsula com os olhos úmidos e um sorriso pequeno demais para caber no rosto.

Sergey levantava-se com esforço controlado, buscando imediatamente estabilidade.

Roberta ainda estava deitada, a tampa aberta, os cabelos escuros espalhados sobre o suporte da cápsula. Piscou algumas vezes, confusa, e então olhou para Sarah.

Por um instante, nenhuma das duas disse nada.

Talvez porque a última conversa entre elas tivesse acontecido anos antes e, ao mesmo tempo, poucas horas atrás, dependendo da memória que se escolhesse obedecer.

— Chegamos? — perguntou Roberta.

Sarah sentiu o peso da palavra antes de responder.

— Estamos chegando.

Aurora iluminou o módulo com tons mais claros.

— Tripulação principal desperta. Aproximação orbital de Éden-9 em andamento. Janela visual disponível no convés de comando.

A reação foi imediata e silenciosa, ninguém precisou ordenar pressa. Todos se moveram como se o corpo, mesmo recém-desperto, soubesse que aquele era o momento que justificara cada perda.

No convés, a tela frontal ainda estava escura.

Sarah assumiu o centro de comando. Mei sentou-se no posto de pilotagem, as mãos trêmulas por uma fração de segundo antes de estabilizar. Asha abriu mapas com velocidade quase febril. Sergey checou sistemas de aproximação. Samira monitorou a tripulação e, pela primeira vez desde que Sarah a conhecera, pareceu esquecer de fingir calma completa.

Roberta entrou por último.

Parou perto da estação científica, mas não tocou em nenhum comando.

Apenas olhou para a tela.

Aurora falou:

— Removendo filtro de navegação. Visual direto em três, dois, um.

A escuridão se abriu.

Éden-9 apareceu.

E por alguns segundos a tripulação da Aurora deixou de ser tripulação.

Foram apenas humanos.

Pequenos.

Assombrados.

O planeta ocupava a maior parte da tela, suspenso contra um campo de estrelas mais denso do que qualquer céu visto da Terra. Não era azul como os mundos habitáveis costumavam ser nas simulações escolares. Era violeta, verde, prata e negro, como se oceanos, florestas e tempestades tivessem aprendido a emitir luz própria.

As massas continentais se espalhavam em formas sinuosas, sem a geometria conhecida dos mapas terrestres. Florestas bioluminescentes cobriam vastas regiões, brilhando em redes delicadas, como veias luminosas sob a pele de um organismo adormecido. Oceanos escuros refletiam faixas de luz esverdeada vindas da atmosfera. Tempestades lentas giravam sobre o hemisfério norte, mas não pareciam caóticas. Seus braços se moviam em espirais quase simétricas, como pensamentos atravessando nuvens.

Duas luas pequenas acompanhavam o planeta. Uma clara, marcada por crateras rasas. Outra avermelhada, parcialmente envolta por poeira orbital. Entre elas e a superfície, partículas brilhantes formavam anéis tênues, como pólen suspenso no espaço.

Na borda do planeta, a atmosfera cintilava em camadas.

Azul profundo.

Violeta.

Dourado.

Verde.

Havia auroras imensas atravessando os polos, descendo em cortinas luminosas que pareciam tocar as florestas abaixo. Em certos pontos da superfície, manchas de luz se acendiam e apagavam em sequência, conectando regiões inteiras por pulsos suaves.

Asha foi a primeira a falar.

— Meu Deus.

Mei não fez piada.

Sergey permaneceu rígido, mas seus olhos estavam fixos na tela com uma intensidade quase desconfortável.

Samira levou a mão à boca.

Roberta chorou em silêncio.

Sarah viu pelo reflexo do painel, não deveria ter olhado.

Olhou.

A emoção no rosto de Roberta era limpa, devastadora. Não era apenas encanto. Era reconhecimento. Como se algo que ela havia defendido antes de ver finalmente se apresentasse diante dela.

Sarah voltou os olhos para Éden-9.

Sentiu medo.

Não o medo simples de colisão, falha técnica ou ameaça militar. Era outro tipo. Mais profundo. O medo de estar diante de algo que tornava pequenas as categorias humanas. Planeta. Recurso. Alvo. Santuário. Consciência.

Nenhuma palavra parecia suficiente.

Aurora quebrou o silêncio com suavidade.

— Primeira varredura orbital em andamento. Atmosfera compatível com presença humana mediante filtragem adaptativa. Alta concentração de partículas orgânicas suspensas. Atividade eletromagnética incomum. Padrões luminosos de superfície não correspondem a tempestade, vulcanismo ou urbanização conhecida.

Asha ampliou uma região.

— Esses pulsos... não são aleatórios.

Na tela, pontos de luz viajavam pela superfície em linhas ramificadas. Uma floresta inteira respondia a outra a centenas de quilômetros. Depois, uma terceira região acendia. Depois outra.

Roberta aproximou-se da tela.

— Parece comunicação.

Sergey respondeu sem desviar os olhos dos dados.

— Parece atividade biológica desconhecida. Comunicação é inferência prematura.

Roberta não retrucou.

Isso, para Sarah, disse mais do que qualquer discussão. A beleza de Éden-9 havia reduzido até as defesas dela.

Aurora continuou:

— Detectando estruturas artificiais na região equatorial. Possível localização da antiga Colônia Aurora Prime. Integridade parcial. Presença de cobertura vegetal extensa. Sinais térmicos inconclusivos.

O convés mudou.

A contemplação cedeu lugar à missão.

Sarah sentiu o comando retornar ao corpo como uma armadura conhecida.

— Asha, quero mapeamento orbital completo. Priorize a antiga colônia, fontes de energia, padrões atmosféricos e qualquer emissão de sinal.

— Sim, capitã.

— Mei, preparar simulações de descida. Nenhuma manobra antes de três rotas alternativas validadas.

— Já estou nisso.

— Sergey, revisão dos módulos de pouso e trajes atmosféricos. Quero redundância manual em todos os sistemas essenciais.

— Sim, capitã.

— Samira, protocolo biológico de contato. Ninguém sai da nave sem filtragem, sensores dérmicos e autorização médica.

— Já estou preparando.

Sarah virou-se para Roberta.

A astrobióloga ainda olhava para o planeta, mas agora havia concentração no lugar do choro.

— Doutora Almeida, você vai liderar a análise de superfície viva. Quero hipóteses de risco e interação antes de qualquer exploração externa.

Roberta assentiu.

— Sim, capitã.

Sarah olhou para todos.

— Escutem com atenção. Éden-9 não é cenário, não é prêmio e não é extensão da Terra. A partir deste momento, cada passo será tratado como possível contato. Não vamos tocar, coletar, perfurar, marcar ou interferir sem necessidade justificada e autorização conjunta.

Sergey ergueu os olhos.

— Capitã, em caso de risco, a autorização conjunta pode atrasar resposta.

— Em caso de risco imediato, o comando decide. Fora disso, ninguém age sozinho.

Roberta olhou para Sarah.

Havia algo ali. Não gratidão exatamente, talvez surpresa.

Talvez o início delicado de confiança.

Sarah não se permitiu permanecer tempo demais naquela impressão.

— Também quero deixar claro — continuou — que não estamos aqui para provar expectativas pessoais. Nem medo, nem esperança. A última transmissão nos trouxe até aqui, mas não vai decidir por nós. Vamos observar primeiro. Interpretar depois. Agir por último.

A sala ficou silenciosa.

Lá fora, Éden-9 girava lentamente, como se tivesse todo o tempo do universo.

Sarah respirou fundo.

— Aurora, abrir canal de transmissão orbital em baixa potência. Mensagem simples, repetida em intervalos regulares.

— Conteúdo?

Sarah olhou para Roberta por um instante.

Depois voltou-se para o planeta.

— Aqui é a nave Aurora, enviada da Terra. Viemos em missão de observação e contato. Não iniciaremos pouso sem tentativa de comunicação. Se houver alguém nos ouvindo, solicitamos resposta.

Aurora processou.

— Mensagem preparada.

Sarah sentiu todos os olhos sobre ela.

— Transmitir.

— Transmitindo.

A mensagem partiu.

Atravessou o casco da nave, o vazio orbital, as camadas luminosas da atmosfera e desceu em direção ao mundo vivo.

Por alguns segundos, nada aconteceu.

Então, na superfície de Éden-9, uma linha de luz acendeu.

Depois outra.

Depois milhares.

As florestas do hemisfério visível começaram a pulsar em sequência, não como tempestade, não como reflexo, não como acaso.

Como resposta.

Asha parou de respirar.

Mei sussurrou algo em chinês.

Samira apertou o painel médico com força.

Sergey ficou imóvel.

Roberta levou uma mão à boca.

Sarah sentiu o próprio coração bater contra as costelas.

Na tela, os pulsos luminosos se organizaram em círculos concêntricos ao redor da antiga colônia humana.

Aurora falou, pela primeira vez com algo quase próximo da hesitação:

— Capitã, os padrões de superfície alteraram-se imediatamente após nossa transmissão.

Sarah encarou o planeta. O medo já não era possibilidade, era presença.

— Análise de resposta — ordenou.

— Em andamento.

Roberta deu um passo à frente, a voz baixa.

— Ele ouviu.

Sarah não corrigiu a palavra.

Ele.

Ela.

Consciência.

Mundo.

Éden-9 brilhava diante deles, magnífico e impossível.

E, pela primeira vez em toda a viagem, Sarah teve a certeza de que a missão não começara quando deixaram a Terra.

Começava agora, com um planeta inteiro olhando de volta.

Fim do capítulo


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