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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3374
Acessos: 86   |  Postado em: 15/06/2026

Primeiro silêncio

Roberta sempre achou que partir teria som.

Imaginava alarmes, motores, vibrações violentas, contagens regressivas como nos filmes antigos que sua mãe gostava de assistir quando queria fingir que descansava. Esperava algum tipo de grandiosidade sonora, algo que combinasse com a insanidade elegante de deixar a Terra por tanto tempo, mas a partida da Aurora começou em silêncio.

Um silêncio técnico, controlado, quase educado.

As portas internas se fecharam uma a uma. Os corredores principais reduziram a iluminação. Os sistemas de suporte vital ajustaram pressão, temperatura e composição do ar. Em algum lugar profundo da nave, os braços mecânicos da Base Orbital começaram a liberar travas de ancoragem que seguravam a Aurora como dedos ao redor de uma asa.

E, no módulo científico, Roberta estava parada diante de uma parede translúcida, tentando memorizar a última imagem da Terra.

O planeta ocupava quase toda a tela externa.

Azul, branco, imenso.

Próximo demais para parecer perda.

Distante demais para parecer casa.

A América do Sul estava parcialmente coberta por nuvens. O contorno do Brasil desaparecia e reaparecia sob massas brancas. Em algum ponto invisível daquele desenho estavam São Paulo, sua mãe, Lia, as plantas do apartamento, o caderno da avó, o café que ela não terminara, a pedra proibida que ficara sobre a mesa e todas as pequenas coisas que, juntas, formavam uma vida.

Ela levou a mão ao bolso interno do uniforme e tocou a pequena imagem de madeira da avó.

Passara pela triagem.

A burocracia espacial, por algum milagre de baixa intensidade, havia permitido que um pedaço de fé popular brasileira atravessasse a órbita terrestre.

Roberta sorriu sozinha.

— Você está rindo para a Terra ou tramando uma fuga? — perguntou Mei Wang, surgindo ao lado dela.

Roberta olhou para a piloto.

— As duas coisas são incompatíveis?

— Numa nave sob comando da capitã Solano, provavelmente.

Mei encostou-se à lateral da parede, os braços cruzados. Parecia relaxada, mas seus olhos estavam atentos demais à tela. Pilotos, Roberta já havia percebido, fingiam leveza com muita competência. Talvez porque soubessem, melhor do que ninguém, que o erro sempre estava esperando uma oportunidade.

— Você já fez muitas partidas assim? — perguntou Roberta.

— Deixar a Terra? Algumas. Deixar por trinta e seis anos mínimos? Primeira vez. Estou tentando decidir se é traumático ou apenas inconveniente em escala épica.

— E já decidiu?

Mei olhou para a Terra.

— Traumático. Mas vou chamar de inconveniente. Fica mais elegante.

Roberta riu baixo.

A tela exibiu uma sequência de dados orbitais. Velocidade relativa, ângulo de desacoplamento, integridade estrutural, pressão dos módulos, estabilidade de campo. Números limpos para uma experiência emocionalmente suja.

— Minha mãe perguntou se teria chamada de vídeo — disse Roberta.

Mei fez uma careta.

— A minha perguntou se eu podia desistir sem sofrer punição administrativa.

— E você?

— Disse que não.

— Era verdade?

— Não sei. Mas soou firme.

Roberta olhou para ela.

Pela primeira vez, percebeu uma camada de medo por baixo da ironia da piloto. Não era pânico. Era algo mais quieto. Uma consciência precisa do tamanho da distância.

— Você deixou família na Terra? — perguntou.

Mei demorou um pouco.

— Minha mãe. Dois sobrinhos. Uma ex-mulher que provavelmente vai dizer que sempre soube que eu escolheria um motor antes de estabilidade emocional.

— Ela estaria errada?

— Infelizmente, não muito.

As duas ficaram em silêncio.

A voz de Aurora surgiu no ambiente.

— Tripulação, preparar para desacoplamento em dez minutos. Todos os setores devem confirmar fechamento interno e permanência em zonas autorizadas.

Mei endireitou-se imediatamente.

— Hora de trabalhar.

— Boa sorte.

— Não preciso de sorte. Preciso que Sergey não tenha deixado nenhum parafuso com complexo de liberdade.

Roberta sorriu.

— Isso foi uma piada técnica?

— Foi uma ameaça poética.

Mei saiu pelo corredor com passos rápidos.

Roberta permaneceu diante da tela por mais alguns segundos. Queria sentir alguma certeza. A solenidade do momento parecia exigir uma emoção clara: coragem, tristeza, orgulho, medo. Mas dentro dela tudo se misturava. Uma parte queria correr para fora, voltar para São Paulo, bater na porta de Lia, tomar café frio e dizer que tinha reconsiderado. Outra parte desejava atravessar logo o espaço, chegar a Éden-9 e descobrir se o universo realmente era capaz de lembrar.

Talvez a coragem não fosse ausência de contradição.

Talvez fosse apenas continuar caminhando enquanto todas as versões de si mesma discutiam.

No corredor principal, encontrou Asha Patel ajustando um painel de comunicação portátil. Havia pequenas projeções ao redor dela, gráficos que se dobravam como rendas luminosas.

— Você devia estar em preparação de navegação — disse Roberta.

— Estou em preparação de navegação.

— Caminhando?

— Minha genialidade é móvel.

Roberta parou ao lado dela.

— Você está bem?

Asha continuou ajustando os gráficos.

— Essa pergunta, em uma missão interestelar, deveria vir com formulário anexo.

— Posso reformular.

— Por favor.

— Você está funcional?

Asha sorriu.

— Muito.

— Emocionalmente?

— Ah. Então não reformulou, só tornou a violência mais elegante.

Roberta riu.

Asha desligou as projeções e olhou para a tela ao fim do corredor, onde a Terra aparecia reduzida em outro ângulo.

— Minha mãe costumava dizer que os números são gentis porque não fingem ser outra coisa. Dezoito anos para ir. Dezoito para voltar. Trinta e seis anos mínimos fora. Os números dizem isso com simplicidade. Quem complica somos nós, porque sabemos o que cabe dentro deles.

— E o que cabe?

— Aniversários. Doenças. Casamentos. Mortes. Cidades mudando de nome. Crianças que viram adultos. Adultos que viram lembrança. Pequenas traições do tempo.

Roberta sentiu a garganta apertar.

— Você deveria escrever poesia.

— Eu escrevo rotas. É parecido, mas com mais risco de explosão.

Antes que Roberta respondesse, um ruído metálico percorreu a nave. Não foi alto. Pareceu vir de muito longe, profundo, como um animal enorme mudando de posição durante o sono.

A primeira trava externa havia sido liberada.

Roberta sentiu o corpo inteiro prestar atenção.

Asha ficou imóvel.

Aurora informou:

— Primeira ancoragem liberada. Estabilidade mantida.

Roberta olhou para o teto, como se pudesse enxergar através dos andares da nave.

— Parece pouco.

— É muito — disse Asha. — A primeira trava é sempre a mais simbólica. Depois dela, a nave já começou a deixar de pertencer ao lugar onde estava.

Roberta pensou em Lia na plataforma sob chuva.

Em sua mãe tentando parecer forte.

Em sua avó dizendo que rio guardava conversa.

— Você acredita que Éden-9 pode estar esperando por nós? — perguntou.

Asha ficou séria.

Por um instante, Roberta teve certeza de que a navegadora sabia algo que não havia sido dito na reunião.

— Acredito que, se a última transmissão for verdadeira, talvez ele já saiba que estamos indo.

A resposta espalhou frio pela nuca de Roberta.

— E isso te assusta?

— Sim.

— A mim também.

Asha olhou para ela.

— Ainda bem.

— Por quê?

— Porque gente sem medo costuma tomar decisões barulhentas demais.

A segunda trava foi liberada.

Depois a terceira.

O silêncio da nave mudou de textura.

Roberta percebeu antes de Aurora anunciar. Era como se a Aurora tivesse se soltado de uma obrigação física. Como se o corpo imenso da nave agora estivesse apoiado apenas em si mesmo.

A voz de Sarah Solano surgiu nos alto-falantes.

— Aqui é a capitã. Desacoplamento em fase final. Todos os tripulantes devem seguir para seus postos designados. Reforço: permaneçam nas zonas autorizadas até confirmação de estabilidade orbital.

A voz dela era firme, precisa, sem tremor.

Roberta se perguntou quanto daquilo era Sarah e quanto era a armadura de comando. Lembrou-se dos olhos claros da capitã, da postura controlada, da resposta sobre fatos, interpretação e comando. Havia algo nela que Roberta reconhecia sem conhecer: uma pessoa treinada para ser necessária antes de ser inteira.

Isso não deveria lhe interessar.

Interessou.

— Você está fazendo essa cara de cientista que encontrou problema bonito — disse Asha.

Roberta piscou.

— O quê?

— Nada. Só observei.

— Você também é irritantemente perceptiva?

— Sou navegadora. Perceber trajetórias é minha função.

Roberta decidiu não responder.

O módulo científico ficava dois corredores adiante. Ao chegar, encontrou Samira revisando kits de emergência biológica. A médica parecia tão serena que chegava a provocar desconfiança.

— Doutora Almeida — disse Samira. — Seus sinais de ansiedade estão dentro do esperado.

Roberta parou.

— Isso é uma saudação médica?

— É uma tentativa de tranquilização.

— Funcionou moderadamente.

Samira apontou para uma cadeira de fixação.

— Sente-se durante o desacoplamento final.

Roberta obedeceu. Prendeu os cintos sobre o corpo e observou Samira continuar a verificação.

— Você parece calma — disse Roberta.

— Parecer é uma habilidade profissional.

— Então não está?

Samira encaixou um cartucho no equipamento.

— Estou calma o suficiente para trabalhar. Ansiosa o suficiente para não ser idiota.

— Essa é uma boa medida.

— É a única que confio.

Roberta observou a médica por alguns segundos. Samira tinha uma presença diferente da de Sarah. A capitã organizava o espaço ao redor pela autoridade. Samira, pela atenção. Tudo nela parecia dizer: eu já vi corpos falharem de muitas formas, então não desperdice minha paciência fingindo invulnerabilidade.

— Você tem medo de Éden-9? — perguntou Roberta.

Samira não interrompeu o trabalho.

— Tenho medo do que organismos desconhecidos podem fazer com corpos humanos. Tenho medo do que humanos assustados podem fazer com organismos desconhecidos. Ainda não decidi qual dos dois me preocupa mais.

— Acho que o segundo.

— Como médica, meu dever é não escolher cedo demais.

A nave vibrou novamente.

Dessa vez, mais forte.

Aurora anunciou:

— Desacoplamento completo. Aurora livre da Base Orbital Internacional. Iniciando afastamento por propulsão auxiliar.

Roberta prendeu a respiração.

Livre.

A palavra não combinava inteiramente com o que sentia.

Não era liberdade.

Era separação.

A imagem da Terra surgiu automaticamente em uma das telas do módulo. A Base Orbital afastava-se devagar, estrutura imensa e iluminada contra o planeta. A Aurora se movia com elegância quase absurda, sem solavanco, sem violência, apenas deixando para trás o último ponto de contato físico com a humanidade.

Roberta sentiu uma lágrima escorrer antes de decidir se queria chorar.

Não limpou.

Samira viu, mas não comentou.

Por isso, Roberta gostou dela um pouco mais.

A voz de Sarah voltou.

— Desacoplamento confirmado. Bom trabalho, equipe. Próxima etapa: alinhamento para janela de aceleração. Piloto Wang, assumir comando de manobra.

Mei respondeu pelo comunicador:

— Assumindo comando de manobra.

A calma da piloto desaparecera. Agora sua voz tinha outra textura. Focada, afiada, viva.

Sarah continuou:

— Engenheiro Ivanov, status dos motores auxiliares.

A resposta de Sergey veio imediata.

— Motores auxiliares dentro dos parâmetros. Sistema principal em espera. Todas as linhas de contenção verificadas. Sem variação crítica.

— Navegadora Patel?

— Rota inicial validada. Janela de aceleração em quatro horas e doze minutos. Comunicação com a Base mantida.

— Médica Al-Nasr?

Samira tocou o comunicador preso ao pulso.

— Tripulação estável. Nenhuma intercorrência clínica.

— Doutora Almeida?

Roberta levou meio segundo para perceber que Sarah chamara por ela.

— Módulo científico está seguro. Equipamentos estabilizados. Nenhuma intercorrência.

Houve uma pausa mínima antes da resposta.

— Confirmado.

Roberta não sabia por que aquele pequeno intervalo chamou sua atenção.

Talvez porque a voz de Sarah, ao dizer apenas uma palavra, parecesse menos distante.

Talvez porque ela estivesse emocional demais e começasse a encontrar significados onde havia apenas protocolo.

Afastou a ideia.

Não estava ali para transformar comando em mistério pessoal, já havia mistério suficiente em um planeta vivo.

Horas depois, quando a Aurora atingiu a janela de aceleração, toda a tripulação estava no convés de comando ou em setores de suporte. Roberta havia sido autorizada a acompanhar a manobra da estação científica lateral, presa a um assento próximo ao painel de análise atmosférica. Não havia função essencial para ela naquele momento, mas Sarah permitira sua presença.

— Apenas observe — dissera a capitã.

— É uma das minhas especialidades — respondera Roberta.

Sarah não sorriu.

Mas também não a expulsou.

O convés de comando era amplo, curvo, com telas distribuídas em semicírculo. No centro, Sarah permanecia de pé diante da cadeira de comando, embora pudesse estar sentada. Mei ocupava o posto de pilotagem, os dedos pairando sobre controles luminosos. Asha monitorava a rota. Sergey acompanhava cada oscilação dos motores com a rigidez de quem esperava obediência até das partículas. Samira observava sinais vitais da tripulação e sistemas de suporte.

Aurora estava em todos os lugares.

Nas luzes.

Nos sensores.

Na voz que surgia apenas quando necessária.

— Janela de aceleração em sessenta segundos — informou Asha.

Roberta olhou para a tela frontal.

A Terra ainda era grande, mas já não preenchia tudo. Ao redor, a escuridão parecia mais vasta do que antes, como se a distância tivesse retirado do planeta a função de escudo emocional.

Sarah falou:

— Tripulação, preparar para aceleração.

Mei respondeu:

— Sequência pronta.

Sergey:

— Motores de fusão em pré-ignição. Contenção magnética estável.

Asha:

— Rota livre. Correção gravitacional validada.

Samira:

— Todos os sinais vitais dentro dos limites.

Roberta apertou os dedos no apoio do assento, ela não precisava informar nada, mas mesmo assim, sentiu que deveria fazer parte daquele instante.

Sarah olhou brevemente para ela.

Foi rápido.

Um segundo.

Talvez menos.

Mas Roberta teve a impressão de que a capitã verificava se ela estava bem.

Não como comandante avaliando uma tripulante, como pessoa. A impressão passou tão rápido que poderia ter sido inventada.

— Aurora — disse Sarah. — Iniciar sequência.

— Sequência iniciada — respondeu a IA.

A contagem regressiva apareceu nas telas.

Dez.

Nove.

Oito.

Roberta pensou na avó Jandira.

Sete.

Na mãe.

Seis.

Em Lia.

Cinco.

Em São Paulo brilhando sob chuva.

Quatro.

Em Éden-9.

Três.

Em um planeta que talvez soubesse intenção.

Dois.

Em como se apresentar a um mundo vivo.

Um.

A aceleração começou.

Não houve explosão.

Houve pressão.

Um peso crescente empurrou Roberta contra o assento. Os campos de compensação reduziram o impacto, mas não apagaram a sensação brutal de que seu corpo era pequeno demais para o movimento que a nave realizava. O peito ficou pesado. A respiração exigiu atenção. As telas alongaram estrelas em linhas delicadas.

Mei falou comandos em voz baixa.

Asha respondeu com números.

Sergey corrigiu variações antes que se tornassem problemas.

Samira monitorou a todos.

Sarah permaneceu firme no centro do convés, uma figura imóvel enquanto a Aurora rasgava a órbita terrestre e entrava em sua rota de afastamento profundo.

Roberta, mesmo presa ao assento, não conseguiu tirar os olhos dela.

Havia beleza naquilo.

Não uma beleza fácil.

Era a beleza de alguém que se recusava a tremer quando todos precisavam acreditar que o mundo ainda tinha eixo.

Talvez Sarah tremesse depois.

Sozinha.

Talvez nunca.

Roberta não sabia qual das hipóteses era mais triste.

A aceleração durou minutos, mas pareceu maior. Quando a pressão diminuiu, Roberta sentiu o corpo leve, exausto, desperto demais.

Aurora informou:

— Janela de aceleração concluída. Trajetória interestelar inicial estabelecida. Estimativa de chegada a Éden-9: dezoito anos terrestres.

A frase caiu sobre o convés como uma porta se fechando.

Dezoito anos até lá. Sarah finalmente sentou-se na cadeira de comando, por um instante, ninguém falou.

Então Mei soltou um assobio baixo.

— Bom. Não explodimos.

Sergey virou-se.

— Esse comentário é desnecessário.

— Mas estatisticamente reconfortante.

Asha cobriu a boca para esconder o riso. Samira fechou os olhos por dois segundos, talvez agradecendo a alguma coisa que não precisava ser nomeada.

Roberta respirou fundo.

A Terra agora estava menor na tela.

Ainda azul.

Ainda linda.

Mas já não parecia alcançável.

Nas horas seguintes, a Aurora entrou na rotina inicial de viagem. Foram feitos testes pós-aceleração, revisão estrutural, avaliação médica e conferência dos módulos de criogenia. A suspensão biológica não começaria imediatamente para todos ao mesmo tempo. A primeira fase exigia que a tripulação estivesse física e psicologicamente estável. Sarah determinou ciclos escalonados: Sergey e Mei entrariam primeiro, depois Asha e Samira, depois Roberta. Sarah seria a última.

— O comandante fecha a vigília inicial — explicou.

Ninguém contestou.

Sergey aprovou com um aceno quase reverente.

Roberta notou.

Ele gostava de ordem porque a ordem o dispensava de hesitar. Havia conforto nisso. Um conforto perigoso.

No corredor dos módulos criogênicos, as cápsulas estavam alinhadas em duas fileiras. Transparentes, iluminadas por tons azulados, pareciam berços desenhados por uma civilização que havia confundido descanso com rendição. Cada cápsula continha sensores, fluidos de suporte, campos de estabilização neural e mecanismos capazes de reduzir o corpo humano a uma quase pausa.

Quase vivo.

Quase ausente.

Roberta tocou o vidro de sua cápsula.

— É horrível — disse.

Samira, ao lado dela, respondeu:

— É uma das tecnologias mais seguras já desenvolvidas.

— Continua horrível.

— Concordo.

Mei entrou na cápsula dela fazendo piada, mas Roberta viu seus dedos tremerem antes que a tampa começasse a fechar.

— Se eu acordar com cabelo ruim, vou processar alguém — disse a piloto.

Asha respondeu:

— A humanidade agradece sua priorização estética.

Sergey foi diferente.

Entrou na cápsula como quem cumpria uma ordem simples. Não olhou para a Terra na tela lateral. Não pediu música. Não fez piada. Apenas deitou, ajustou os braços e disse:

— Pronto para suspensão.

Sarah estava presente, observando.

— Bom descanso, engenheiro.

— A serviço, capitã.

A tampa fechou sobre ele.

Roberta sentiu um desconforto difícil de nomear. Não era antipatia. Não exatamente. Sergey tinha competência, calma e lealdade. Mas havia nele uma entrega absoluta ao comando que parecia menos confiança do que renúncia.

Uma pessoa que obedecia sempre poderia ser confiável.

Até receber uma ordem errada.

Quando chegou sua vez, Roberta percebeu que todo discurso racional sobre suspensão biológica não servia para nada diante da cápsula aberta. O interior era estreito, revestido por material macio e sensores finos. Samira posicionou eletrodos em sua testa, pulsos e pescoço. Aurora ajustou os níveis de temperatura.

Sarah aproximou-se.

— Doutora Almeida.

Roberta virou o rosto.

— Capitã.

— Alguma pendência?

A pergunta era protocolar, mas o tom não era só protocolo.

Roberta tentou sorrir.

— Além da vontade absurda de desistir por uns trinta segundos?

Sarah a observou.

— Isso é comum.

— Em você também?

A pergunta escapou antes que Roberta pudesse medir. Samira, discretamente, fingiu revisar um painel.

Sarah não respondeu de imediato.

Depois disse:

— Sim.

Foi uma palavra pequena, mas atravessou Roberta com força, não porque revelasse muito. Justamente porque revelava pouco, e esse pouco parecia ter custado.

— Obrigada por responder — disse Roberta.

Sarah assentiu.

— Nos vemos no próximo ciclo de despertar.

Roberta se deitou na cápsula. O material frio se ajustou ao seu corpo. Sensores acenderam ao redor. A tampa transparente começou a descer devagar. O mundo ficou menor.

Sarah permaneceu visível através do vidro, em pé ao lado de Samira, postura reta, olhos atentos.

Roberta pensou que havia algo profundamente injusto em sentir curiosidade por alguém justamente quando estava prestes a dormir por anos.

— Capitã — chamou, antes que a tampa selasse.

Sarah inclinou-se levemente.

— Sim?

— Quando chegarmos a Éden-9, antes de qualquer protocolo de coleta... podemos tentar ouvir primeiro?

Samira ergueu os olhos para Sarah.

A pausa foi breve.

Mas real.

— Podemos tentar — respondeu Sarah.

Não era uma promessa completa, mas também não era recusa. Para Roberta, naquele momento, bastou.

A tampa fechou.

A voz de Aurora soou dentro da cápsula, mais suave do que nos alto-falantes da nave.

— Iniciando suspensão biológica. Respire normalmente, doutora Almeida.

Roberta quase riu. Nada naquela situação era normal.

O frio começou pelas costas. Depois pelos braços. Uma sonolência artificial, densa, espalhou-se pelo corpo. As luzes acima dela se transformaram em manchas azuis.

Ela pensou na Terra, seus amigos, familiares, no violão guardado. Depois pensou em Sarah dizendo sim, ou quase isso. A consciência começou a afundar. Antes de dormir completamente, Roberta ouviu algo. Era um som distante, impossível, como folhas se movendo dentro d’água.

Depois, uma voz.

Ou muitas.

Baixas.

Femininas.

Antigas.

Não diziam seu nome, mas Roberta sentiu, com uma certeza que não vinha da razão, que falavam com ela.

A última coisa que pensou antes do escuro foi uma frase da avó:

Mata não é muda.

E então a Aurora seguiu, a Terra ficou para trás. Éden-9, em algum lugar à frente, talvez já estivesse escutando.

Fim do capítulo


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