A descida
Roberta Almeida
Antes de acordar, Roberta sonhou com uma estação de trem.
Não era uma estação real, embora tivesse pedaços de muitas. Havia o piso frio da Estação da Luz, a cobertura antiga que lembrava fotografias de outro século, os bancos metálicos dos terminais modernos de São Paulo e um céu violeta que não pertencia à Terra. Os trilhos desapareciam dentro de uma névoa azulada. Nenhum painel indicava destino. Nenhuma voz anunciava partida.
Mesmo assim, ela sabia que estava esperando alguém.
No sonho, usava a mesma jaqueta vermelha que havia usado sete anos antes, em uma tarde de chuva, quando Isabele segurou sua mão pela primeira vez sem pedir desculpas depois.
Isabele.
O nome apareceu como uma luz acendendo devagar.
Por muito tempo, Roberta tinha conseguido pensar nela com uma espécie de delicadeza segura, quase domesticada. A dor não desaparecera, mas aprendera a se comportar. Já não invadia a cozinha no meio da noite. Já não sentava ao lado dela no metrô. Já não transformava qualquer cheiro de lavanda em uma queda.
Sete anos eram tempo suficiente para a perda deixar de ser incêndio e virar cicatriz.
Mas a criogenia, Roberta começava a entender, não respeitava as gavetas onde a mente guardava suas coisas.
No limiar do despertar, quando o corpo ainda não havia voltado por completo e a consciência parecia flutuar entre sonho, memória e ruído neural, Isabele apareceu caminhando pela plataforma.
Tinha os cabelos curtos, castanhos, presos de qualquer jeito atrás da orelha. Usava uma blusa branca simples, calça escura e aquele sorriso que parecia sempre saber um segredo antes dos outros. Não estava doente. Não estava fraca. Não tinha as manchas acinzentadas que a doença deixara sob a pele nos últimos dias. Era a Isabele de antes. A que ria com facilidade. A que discutia cinema ruim como se fosse questão política. A que chamava Roberta de “cientista das plantas dramáticas”.
Roberta tentou falar, mas não conseguiu. Isabele sentou-se ao lado dela no banco da estação.
— Você está indo longe — disse.
A voz era exatamente como Roberta lembrava e isso doeu mais do que se tivesse sido diferente.
— Estou — respondeu Roberta, ou pensou ter respondido.
No sonho, as palavras não precisavam da boca.
— Sempre achei que você iria.
— Você dizia que eu não sabia ficar.
Isabele sorriu.
— E eu estava errada?
Roberta olhou para os trilhos, a névoa violeta se movia devagar, como respiração.
— Eu fiquei com você.
— Ficou.
A simplicidade da resposta abriu alguma coisa antiga.
Isabele havia morrido de uma doença mutável, uma dessas enfermidades novas que surgiram no período de transição genética do século XXIII, quando a medicina já era avançada demais para aceitar derrotas e ainda limitada demais para impedir todas elas. No início, parecia uma infecção rara. Depois, um distúrbio autoimune. Depois, algo que mudava de comportamento antes que os tratamentos conseguissem alcançá-lo.
Quando deram nome à síndrome, já era tarde para muitas pessoas, inclusive para Isabele.
Roberta a acompanhou no hospital, nos exames, nos dias de esperança absurda, nas melhoras pequenas que enganavam todo mundo, nas recaídas que vinham sem pedir licença. A relação das duas nunca ganhou um nome sólido. Não houve tempo. Havia desejo, cuidado, medo, confusão, ternura e uma espécie de promessa que nenhuma das duas teve coragem de colocar em voz alta.
Depois Isabele morreu e Roberta passou anos sem saber se tinha perdido um amor ou a possibilidade de um.
Às vezes, achava que a segunda opção era mais cruel.
No sonho, um trem surgiu ao longe, silencioso, vindo de dentro da névoa.
— Eu nunca soube o que você foi para mim — disse Roberta.
Isabele apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando para os trilhos.
— Talvez você não precisasse saber naquela época.
— Eu queria ter sabido.
— Queria?
Roberta não respondeu de imediato.
No fundo, sabia que parte dela transformara a dúvida em monumento. Enquanto não definisse o que tinham sido, também não precisaria aceitar completamente o que havia acabado.
Isabele olhou para ela com uma doçura quase insuportável.
— Tem gente que fica a vida inteira. Tem gente que passa rápido. Tem gente que só atravessa a estação no mesmo horário que a gente e muda tudo mesmo assim.
O trem parou diante delas.
As portas se abriram, mas ninguém desceu.
— Você foi embora cedo demais — disse Roberta.
— Eu sei.
— Eu te amei?
Isabele sorriu. Não com pena. Com liberdade.
— Você me amou do jeito que conseguiu naquele tempo.
A resposta, estranhamente, não doeu como Roberta esperava.
Ou doeu de um jeito limpo.
— E agora? — perguntou ela.
Isabele se levantou.
— Agora você vai.
— Para onde?
Isabele olhou para além dos trilhos. O céu da estação ficou mais violeta. Pontos de luz surgiram no ar, como vagalumes, como estrelas, como pólen.
— Para um lugar que talvez saiba escutar melhor do que nós sabíamos.
Roberta sentiu o frio chegando pelas costas.
Não o frio da estação, o frio da cápsula. A imagem de Isabele começou a se desfazer nas bordas.
— Eu não quero te esquecer — disse Roberta.
— Então não esquece. Só não me usa como lugar para não chegar em mais ninguém.
As portas do trem começaram a fechar. Roberta tentou se levantar, mas o corpo já não obedecia ao sonho.
— Isabele...
A outra mulher sorriu uma última vez.
— Vai, Beta.
A estação desapareceu.
A voz de Aurora entrou no lugar dela.
— Doutora Almeida. Pré-despertar concluído. Retorno cognitivo em andamento. Respire normalmente.
Roberta abriu os olhos.
Por alguns segundos, não soube onde estava.
A tampa transparente da cápsula refletia seu rosto pálido, os olhos úmidos, os cabelos escuros soltos ao redor da cabeça. A luz azul do módulo criogênico tremia suavemente. Havia sons ao redor: passos, sensores, vozes baixas, sistemas pressurizados. O corpo parecia pesado, como se cada osso precisasse reassumir sua função.
Samira apareceu no campo de visão.
— Roberta, você está na Aurora. Está segura. Chegamos a Éden-9. Preciso que acompanhe minha voz.
Roberta piscou.
Éden-9.
A palavra atravessou o resto do sonho e a trouxe de volta com força.
— Eu sonhei — murmurou.
A voz saiu áspera.
Samira ajustou um sensor no pescoço dela.
— É comum no pré-despertar. Fragmentos de memória, reconstruções emocionais, imagens residuais. Seu cérebro está reorganizando continuidade.
— Parecia real.
— Muitas coisas parecem reais antes de virarem lembrança.
Roberta olhou para a médica. Havia gentileza naquela frase, mas também cuidado para não invadir.
— Eu vi uma pessoa que morreu.
Samira não demonstrou surpresa.
— Quer registrar isso agora ou prefere depois?
Roberta respirou fundo.
A imagem de Isabele ainda estava ali, não como ferida aberta, mas como porta recém-fechada.
— Depois.
— Certo.
Samira a ajudou a sentar. O corpo protestou. Músculos, articulações, estômago, pele. A criogenia nunca entregava a pessoa de volta sem cobrar pedágio. Roberta aceitou o copo de hidratação, bebeu devagar e tentou não tremer.
Ao redor, os outros já estavam em diferentes estágios de recuperação. Mei discutia com Aurora sobre a temperatura do módulo. Asha olhava para os próprios dedos como se conferisse se ainda pertenciam a ela. Sergey já estava de pé, rígido, pedindo relatório de status antes mesmo de parecer totalmente humano. Sarah, perto da porta, conversava com Samira em voz baixa.
Roberta olhou para ela antes de conseguir evitar.
A capitã usava uniforme de comando, os cabelos presos, o rosto controlado. Mas havia sinais pequenos de despertar recente: a palidez discreta, o movimento mais cuidadoso dos ombros, a mão esquerda fechando e abrindo uma vez, como se testasse o próprio corpo. O relógio antigo estava no pulso.
Sarah percebeu o olhar.
Por um instante, as duas se encararam.
Não houve sorriso.
Não houve palavra.
Ainda assim, Roberta sentiu alguma coisa se mover entre o sonho e a realidade. Isabele dizendo: não me usa como lugar para não chegar em mais ninguém.
Roberta desviou os olhos primeiro. Não estava pronta para entender aquilo e, felizmente, a missão não deu tempo, menos de uma hora depois, todos estavam no convés de comando.
Éden-9 ocupava a tela principal, e nenhuma imagem, simulação ou sonho poderia ter preparado Roberta para o impacto de vê-lo assim, tão próximo.
No capítulo anterior de sua vida, a Terra era o mundo inteiro.
Agora havia outro.
Da estação científica, Roberta observava Éden-9 com uma sensação diferente daquela primeira visão no convés. Antes, o planeta parecia impossível, agora, parecia inevitável.
A imagem orbital já não surgia como espetáculo, mas como mapa de aproximação. A beleza continuava ali, nas camadas luminosas da atmosfera, nas regiões vivas que pulsavam em silêncio, nas linhas orgânicas que atravessavam a superfície como se cada floresta respondesse a uma respiração maior. Mas, naquele momento, Roberta não olhava mais apenas com encantamento.
O olhar dela procurava risco, procurava padrão e permissão.
A zona de pouso escolhida aparecia ampliada na tela lateral, marcada por uma faixa de luz estreita que continuava acesa desde a última resposta do planeta. Ao redor, a vegetação formava círculos irregulares, como se a clareira não fosse apenas um espaço aberto, mas uma decisão da própria paisagem.
Roberta aproximou-se da estação científica sem perceber que prendia a respiração. Parte dela queria cair de joelhos, outra queria abrir todos os instrumentos e coletar dados até os dedos doerem e ainda tinha aquela parte mais antiga, a parte criada por uma avó que dizia que a mata não era muda, queria apenas pedir licença.
Essa era a pior e melhor coisa em ser quem ela era: a cientista, a romântica e a mística nunca entravam em fila. Chegavam todas juntas, brigando por interpretação.
A cientista via padrões de resposta luminosa, partículas orgânicas em suspensão, zonas de pouso, risco de contaminação.
A romântica via beleza demais para caber no peito.
A mística via um mundo que talvez estivesse acordado desde antes da chegada deles, ouvindo com raízes, nuvens, águas e luz.
Sarah assumiu o centro do convés.
— Atualização de status.
Mei girou a cadeira de pilotagem, já completamente desperta agora que havia uma descida pela frente.
— Órbita estável. A zona um continua viável, mas a atmosfera perto dela tem variações eletromagnéticas pequenas e irritantes. Nada que impeça pouso, desde que ninguém decida que pilotar é uma atividade democrática.
— Não será — disse Sarah.
— Obrigada.
Asha ampliou a região escolhida.
— A linha luminosa que surgiu após nossa transmissão permanece ativa. Não aumentou, não recuou. Parece delimitar uma faixa de aproximação até a clareira selecionada.
— Como uma pista? — perguntou Samira.
— Essa seria a leitura otimista.
— E a pessimista?
Asha fez uma pausa.
— Como um corredor de contenção.
Sergey imediatamente interveio.
— Recomendo tratar como contenção até prova contrária.
Roberta olhou para a imagem.
A luz era suave, quase delicada. Mas ela sabia que delicadeza não significava segurança. Uma flor podia envenenar. Um rio podia arrastar. Uma lembrança podia abrir uma pessoa ao meio.
— Ou como orientação — disse Roberta.
Sergey virou-se.
— A senhora insiste em atribuir intenção benigna.
— Não. Eu insisto em não atribuir intenção hostil por reflexo.
Sarah ergueu a mão, sem impaciência, mas com autoridade.
— As três hipóteses serão consideradas. Pista, contenção ou orientação. Mei, simule entrada considerando a linha luminosa como limite físico não atravessável.
— Sensato e irritante. Farei.
— Asha, mantenha leitura em tempo real dos pulsos de superfície.
— Sim, capitã.
— Samira, protocolo biológico final.
A médica projetou um esquema dos trajes de descida.
— Todos os integrantes do módulo de pouso usarão traje atmosférico leve com filtragem adaptativa, sensores dérmicos, isolamento respiratório e bloqueio de partículas. Nenhuma exposição direta de pele. Nenhuma coleta manual. Qualquer alteração fisiológica será reportada a mim antes de virar orgulho pessoal.
Mei olhou para Sergey.
— Ela está falando com você.
Sergey não se alterou.
— Eu reporto conforme protocolo.
— Claro que reporta.
Sarah continuou:
— Sergey, módulo de descida.
— Pronto para inspeção final. Sistemas de propulsão, trem de pouso, comunicação de curto alcance, drones de perímetro e retorno emergencial verificados. Recomendo embarque com armamento defensivo completo.
Roberta sentiu o corpo tensionar.
Sarah respondeu antes dela.
— Armamento não letal e ferramentas de contenção. Nada de carga perfurante, térmica ou explosiva na primeira descida.
— Capitã, ambiente desconhecido exige superioridade de resposta.
— Ambiente desconhecido exige não iniciar contato parecendo uma invasão.
Sergey ficou em silêncio.
Roberta olhou para Sarah.
A resposta da capitã fora firme, mas não teatral. Não parecia uma concessão à ciência. Parecia uma decisão de comando.
Isso importou.
Mais do que Roberta queria admitir.
— Doutora Almeida — chamou Sarah.
Roberta endireitou-se.
— Sim.
— Avaliação científica final antes da descida.
Ela respirou fundo e colocou na tela suas anotações.
— A zona um apresenta menor densidade vegetal, mas não é biologicamente neutra. O solo parece conter filamentos conectivos em baixa profundidade. A atmosfera possui partículas orgânicas ativas. A luz que marca a faixa de aproximação pode representar resposta ao nosso plano de pouso. Minha recomendação: descida lenta, sem emissão de sinal agressivo, drones em baixa altitude, nenhum pouso fora da área indicada e uma nova transmissão antes de entrar na atmosfera.
— Conteúdo? — perguntou Asha.
Roberta olhou para Sarah antes de responder.
— Algo simples. Repetir que vamos descer, que não faremos coleta, que buscamos observação e contato. Se ele entende intenção, talvez a forma importe menos do que a honestidade. Mas a forma ainda é o que temos.
Sarah permaneceu em silêncio por um instante.
— Aurora, preparar mensagem conforme orientação da doutora Almeida. Ajustar para baixa potência e transmissão ampla.
— Preparando — respondeu a IA.
Sergey franziu o cenho.
— Estamos informando manobra antes de executá-la?
Sarah olhou para ele.
— Estamos tentando não surpreender um planeta que respondeu à nossa presença.
— Isso pressupõe que ele compreenda.
— Não. Pressupõe que nós não compreendemos o bastante para agir com arrogância.
Roberta abaixou os olhos para a tela, escondendo a reação.
Não era exatamente orgulho ou admiração, era algo mais perigoso porque vinha misturado com respeito.
O módulo de descida chamava-se Vega.
Era menor do que Roberta esperava, embora ainda parecesse sofisticado demais para ser chamado apenas de módulo. Tinha paredes internas claras, assentos anatômicos, janelas laterais estreitas, telas de navegação e compartimentos para equipamentos de solo. Levaria na primeira descida Sarah, Roberta, Samira e Sergey. Mei pilotaria. Asha permaneceria na Aurora com a IA, monitorando comunicação e rota de retorno.
Roberta entrou no Vega com a sensação estranha de atravessar outra fronteira dentro da própria nave.
Não era mais apenas chegar.
Era descer.
Era tocar a beirada de algo que talvez os estivesse tocando de volta.
Samira ajustou os sensores do traje de Roberta.
— Frequência cardíaca elevada.
— Seria preocupante se não estivesse?
— Muito.
— Então estou colaborando com a medicina.
— Sua generosidade será registrada.
Roberta sorriu.
Ao lado, Sergey verificava seu equipamento com precisão quase cerimonial. Cada trava, cada sensor, cada compartimento. Havia nele uma calma que não era exatamente tranquilidade. Era fé na ordem. Roberta já conhecera pessoas assim na Terra: gente que acreditava que, se cada regra fosse obedecida, o mundo deixaria de ser imprevisível.
Ela quase invejou.
Quase.
Sarah entrou por último.
O traje dela parecia uma extensão natural do corpo. Nada sobrava, nada distraía. Ela caminhava com a firmeza de quem sabia que todos olhariam para ela quando alguma coisa desse errado. Roberta percebeu isso com mais clareza naquele momento: Sarah não comandava apenas porque tinha autoridade. Comandava porque assumia o peso de ser observada no exato instante em que os outros talvez desmoronassem.
Mei virou-se no posto de pilotagem do Vega.
— Todos confortáveis?
— Conforto não é prioridade — disse Sergey.
— Era uma pergunta social, Ivanov.
— Então não.
Mei sorriu.
— Viu? Progresso.
Sarah prendeu-se ao assento de comando do módulo.
— Foco.
A palavra bastou.
Aurora liberou a transmissão preparada. A mensagem seguiu para Éden-9 em voz, pulso e dados básicos. Roberta escutou a própria sugestão transformada em linguagem oficial:
— Aqui é a equipe de descida da nave Aurora. Iniciaremos aproximação atmosférica em baixa velocidade. Não realizaremos coleta física, perfuração ou interferência intencional. Buscamos observação, segurança e contato. Se houver resposta, estamos ouvindo.
A palavra ouvindo pareceu permanecer no ar por mais tempo do que deveria.
Roberta fechou os olhos por um segundo.
Na memória, a avó Jandira sorria.
Aurora informou:
— Transmissão concluída. Padrão luminoso de superfície estável.
Mei iniciou separação do módulo.
O Vega se soltou da Aurora com um movimento suave.
A nave-mãe começou a se afastar na tela traseira. Roberta sentiu o estômago cair de forma quase infantil. A Aurora, que até então parecia imensa e absoluta, agora ficava para trás como qualquer lugar deixado.
À frente, Éden-9 crescia.
A descida começou silenciosa, depois vieram as vibrações. Primeiro leves, como dedos tamborilando na fuselagem. Depois mais intensas, quando o Vega tocou as camadas superiores da atmosfera. As janelas laterais se encheram de luz violeta. Faixas verdes correram pelo casco como reflexos líquidos. Os sensores começaram a emitir alertas controlados.
— Entrada atmosférica dentro dos parâmetros — disse Mei. — Um pouco instável, mas nada que humilhe minha reputação.
Asha respondeu pelo comunicador:
— Atividade eletromagnética aumentando ao redor do módulo.
— Eu percebi. Ela está dançando no meu painel.
Sarah falou:
— Ajuste de rota?
— Pequeno. Ainda dentro da faixa luminosa.
Roberta olhou pela janela.
E esqueceu todo o resto.
As nuvens de Éden-9 não eram como as da Terra. Tinham profundidade, camadas de cores que se misturavam em violeta, prata e azul escuro. Algumas pareciam conter pontos de luz por dentro, como cardumes de estrelas nadando no vapor. À medida que o Vega descia, as nuvens se abriam em corredores naturais, revelando a superfície em pedaços.
Florestas imensas. Rios negros cortando vales luminosos. Montanhas com encostas cobertas por vegetação prateada. Planícies onde organismos gigantes, parecidos com flores e antenas, se inclinavam lentamente na direção do vento.
Ao longe, uma massa escura se moveu sob a copa das árvores. Grande demais para ser animal conhecido. Lenta demais para parecer ameaça imediata. Roberta segurou o ar.
— Vocês viram aquilo? — perguntou.
Samira olhou para a tela lateral.
— Movimento biológico de grande porte a leste. Sem aproximação.
Sergey tocou o painel de segurança.
— Recomendo marcação como risco potencial.
— Tudo aqui é risco potencial — disse Mei.
— Exato.
Roberta continuou olhando.
As luzes da superfície respondiam à passagem do módulo. Não todas. Algumas. Como se o planeta acompanhasse a descida por pontos espalhados. A faixa luminosa escolhida permanecia abaixo deles, um traço vivo serpenteando até uma clareira ampla, cercada por vegetação baixa e árvores altas de troncos escuros.
O medo dela não desapareceu, mas mudou de forma.
Na Terra, ela aprendera a temer aquilo que podia ferir. Ali, começava a temer aquilo que podia compreender.
O Vega atravessou outra camada de nuvens. A turbulência aumentou.
Um alerta amarelo acendeu.
— Interferência no estabilizador lateral — disse Mei.
Sarah virou-se.
— Gravidade?
— Compensando.
— Sergey?
— O sistema responde com atraso.
Mei soltou uma risada curta, tensa.
— O estabilizador que eu mandei revisar. Que surpresa deliciosa.
O módulo inclinou mais do que deveria.
Roberta sentiu o corpo ser puxado contra o cinto. A janela lateral se encheu de floresta, depois de céu, depois de floresta outra vez.
Samira agarrou o apoio do assento.
Sergey já estava trabalhando em um painel auxiliar.
Sarah manteve a voz firme.
— Mei, controle manual.
— Já estou nele.
— Sergey, estabilização secundária.
— Ativando.
— Asha, leitura atmosférica.
A resposta veio da Aurora:
— A interferência não é apenas atmosférica. Há resposta eletromagnética vindo da superfície, acompanhando o módulo.
Roberta olhou para a faixa luminosa abaixo.
Ela pulsava mais rápido agora.
— Sarah — disse, antes de lembrar o título.
A capitã olhou para ela.
Roberta corrigiu:
— Capitã. A luz está acelerando junto com a instabilidade.
Sergey respondeu:
— Pode ser tentativa de interferir no pouso.
— Ou pode estar reagindo ao nosso descontrole.
Sarah processou a informação rápido.
— Mei, reduza emissão externa não essencial.
— Posso cortar trinta por cento sem perder leitura.
— Corte.
— Cortando.
— Sergey, nada de contramedida ativa.
Ele virou-se.
— Capitã...
— Nada de contramedida ativa.
A ordem saiu mais dura.
Sergey obedeceu.
O Vega tremeu mais uma vez. Depois, lentamente, a vibração começou a diminuir.
As luzes na superfície desaceleraram.
Mei soltou o ar.
— Estabilidade retornando. Ainda descendo. Minha reputação está ferida, mas viva.
Roberta percebeu que estava com os dedos cravados no assento.
Soltou devagar.
Sarah olhou para ela.
— Boa observação.
Duas palavras.
Simples.
Roberta sentiu mais do que deveria.
— Obrigada.
A clareira se aproximava.
Agora era possível ver detalhes do solo: uma superfície escura, úmida, atravessada por filamentos luminosos muito finos. A vegetação ao redor não balançava com o vento. Inclinava-se na direção do módulo, como se acompanhasse sua chegada. Árvores altas formavam um círculo irregular. Seus troncos eram negros, mas havia luz azul correndo sob a casca, como sangue em veias transparentes.
Ao fundo, além da floresta, Roberta viu as primeiras estruturas da Colônia Aurora Prime.
Distantes, parcialmente encobertas.
Humanas e não humanas ao mesmo tempo.
Módulos metálicos envolvidos por raízes claras. Torres sustentadas por troncos vivos. Cúpulas rachadas seladas por membranas translúcidas.
A imagem do prólogo, mas real.
O passado da Terra dentro do corpo de outro mundo.
Mei iniciou a sequência final.
— Trem de pouso liberado. Velocidade reduzida. Solo firme segundo sensores, embora eu odeie a palavra firme neste contexto.
Sarah respondeu:
— Pouso autorizado.
Roberta fechou os olhos por um segundo. No escuro, viu novamente a estação de trem, Isabele entrando no vagão, a avó Jandira dizendo que a mata não era muda. Lembrou de Lia mandando-a chegar direito e da mãe dizendo que às vezes o milagre era só uma verdade sem idioma.
Então o Vega tocou o solo.
O impacto foi leve, quase delicado. Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Aurora, distante na órbita, confirmou:
— Módulo Vega em solo. Integridade estrutural preservada. Comunicação estável.
Mei encostou a cabeça no assento.
— Pousamos.
Samira fechou os olhos, talvez em agradecimento.
Sergey imediatamente começou a revisar os sistemas.
Sarah permaneceu imóvel, olhando pela janela frontal.
Roberta seguiu o olhar dela.
Lá fora, a clareira inteira começou a acender.
Não de repente.
Não como ameaça.
Uma luz suave nasceu no solo, espalhou-se pelos filamentos, subiu pelas plantas baixas, alcançou os troncos das árvores e passou de uma copa a outra. O círculo ao redor do Vega brilhou em azul, verde e dourado.
Como se o planeta respirasse em volta deles.
Como se dissesse:
Chegaram.
Roberta sentiu uma lágrima descer pelo rosto e dessa vez, não tentou esconder.
Sarah falou, sem tirar os olhos da floresta:
— Ninguém abre a escotilha até minha ordem.
A voz dela era firme.
Mas Roberta percebeu o que talvez os outros não percebessem.
A capitã também estava maravilhada.
Assustada.
Humana.
E, pela primeira vez desde que a conhecera, Roberta sentiu que Sarah Solano talvez não estivesse apenas comandando a descida.
Talvez estivesse, junto com todos eles, tentando entender como se pisa em um mundo que acende para receber você.
Lá fora, Éden-9 continuou brilhando.
E dentro do módulo, entre medo, ciência e encantamento, Roberta soube que a viagem realmente havia terminado.
O contato estava prestes a começar.
Fim do capítulo
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