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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3308
Acessos: 117   |  Postado em: 15/06/2026

O primeiro passo

Sarah Solano

Durante três minutos, ninguém saiu do Vega.

Três minutos podiam parecer pouco em qualquer outro contexto. No interior de um módulo de pouso recém-chegado a um planeta desconhecido, três minutos eram uma eternidade disciplinada.

Sarah permaneceu de pé junto à escotilha, observando a clareira pela janela frontal. Do lado de fora, Éden-9 continuava aceso.

Não de forma explosiva. Não como alerta. A luz se movia devagar pelo solo, subindo pelos filamentos que atravessavam a terra escura, tocando a base das plantas baixas e desaparecendo entre as raízes das árvores. Era como se a clareira respirasse em ciclos visíveis. Inspirava azul. Expirava dourado. Às vezes, um verde suave atravessava tudo como pensamento.

Atrás dela, Mei desligava os últimos sistemas de descida. Sergey revisava os controles de segurança com a concentração rígida de quem preferia checklist a oração. Samira analisava os dados atmosféricos projetados sobre o painel médico. Roberta estava em silêncio.

Sarah não precisava olhar para saber.

Sentia a presença dela do outro lado do módulo como uma pergunta.

— Aurora, status externo — ordenou Sarah.

A voz da IA respondeu pelo canal do Vega, com leve atraso por causa do processamento orbital.

— Atmosfera local composta por oxigênio, nitrogênio, gases nobres em concentração tolerável e compostos orgânicos suspensos. Pressão atmosférica dentro da faixa suportável para humanos. Temperatura externa: vinte e um graus Celsius. Radiação: baixa. Gravidade: zero vírgula noventa e seis em relação à terrestre.

Samira ampliou a composição do ar.

— O oxigênio é tolerável. A filtragem não seria obrigatória por composição atmosférica.

— E as partículas orgânicas? — perguntou Sarah.

A médica não respondeu de imediato. Continuou avaliando as leituras. Em uma missão comum, Sarah teria pressionado por velocidade. Ali, aprendeu rapidamente que pressa era uma forma de arrogância.

Samira coletou amostras de ar externo através do sistema do módulo. O painel exibiu estruturas microscópicas ampliadas: pequenas partículas translúcidas, com núcleo mineral e filamentos proteicos ao redor. Pareciam pólen, mas não exatamente. Eram mais complexas. Algumas reagiam à luz dos scanners, contraindo-se como organismos minúsculos.

— Não é pólen como conhecemos — disse Samira. — Mas a comparação é útil. Estrutura orgânica suspensa, leve, reativa, provavelmente ligada à comunicação ou reprodução vegetal. Não há toxinas conhecidas, nem sinais de ação corrosiva, neuroativa agressiva ou reação imediata com tecidos humanos simulados.

— Mortífero? — perguntou Mei, tentando soar casual.

— Não — respondeu Samira. — Pelo menos não pelos padrões analisados. O contato prolongado ainda é incerto, mas a exposição respiratória inicial parece segura.

Sergey virou-se para Sarah.

— Recomendo manter máscaras por precaução.

Roberta finalmente falou.

— Se sairmos filtrados, isolados e fechados como ameaça ambulante, talvez o planeta responda ao que estamos demonstrando.

Sergey olhou para ela.

— Estamos demonstrando prudência.

— Para nós. Para ele, talvez estejamos demonstrando medo. Ou rejeição. Ou intenção de isolamento.

— Não baseamos segurança em talvez.

Roberta sustentou o olhar dele.

— Toda essa missão existe por causa de um talvez.

Sarah ergueu a mão antes que o atrito virasse disputa.

— Samira, risco médico real de retirada das máscaras?

A médica avaliou novamente os dados.

— Baixo para exposição inicial controlada. Recomendo manter trajes, sensores dérmicos e bloqueio de contato direto com pele. Mas as máscaras respiratórias podem ser retiradas após cinco minutos de exposição externa monitorada, desde que cada tripulante passe por avaliação em tempo real.

Sarah processou a decisão.

Era um gesto pequeno. Respirar o ar de Éden-9 sem filtro. Pequeno e enorme. Militarmente, desnecessário. Cientificamente, arriscado em grau aceitável. Diplomaticamente, talvez importante.

Ou talvez Roberta estivesse errada.

Talvez todos estivessem errados.

Mas se o planeta realmente percebia intenção, o primeiro gesto humano em solo precisava dizer algo melhor do que medo armado.

— Saída inicial com máscaras — decidiu Sarah. — Cinco minutos de monitoramento. Se os parâmetros permanecerem estáveis, retirada autorizada por ordem médica. Ninguém toca em nada. Ninguém coleta nada. Ninguém se afasta mais de vinte metros do Vega sem autorização.

Olhou para Sergey.

— Armamento não letal, travado.

Ele assentiu.

— Sim, capitã.

Olhou para Roberta.

— Observação não invasiva. Qualquer interpretação, você comunica antes de agir.

Roberta assentiu também.

— Sim, capitã.

Sarah percebeu a diferença entre as duas respostas.

Sergey obedecia porque a ordem existia.

Roberta concordava porque entendera o limite.

Naquele planeta, talvez essa diferença fosse mais importante do que parecia.

A escotilha abriu com um som baixo.

O ar de Éden-9 tocou o interior do módulo pela primeira vez.

Mesmo com a máscara, Sarah sentiu algo mudar. Não cheiro exatamente. A filtragem impedia. Mas havia uma pressão sutil, uma presença. Como entrar em uma sala onde alguém acabou de parar de falar.

Ela saiu primeiro.

O comandante pisava antes.

O solo cedeu sob sua bota com suavidade úmida, mas não afundou. Era escuro, quase negro, com uma textura entre terra fértil, musgo e cinza mineral. Ao redor da sola, filamentos de luz se acenderam e recuaram, como se o planeta tivesse sentido seu peso e decidido registrá-lo.

Sarah ficou imóvel.

Não por medo.

Por respeito operacional.

Atrás dela, Sergey desceu com a arma não letal presa ao peito e os olhos varrendo a clareira. Depois Samira, com o kit médico portátil. Roberta veio em seguida.

Quando os pés dela tocaram o chão, a luz do solo mudou.

Não muito. O suficiente.

Um tom dourado atravessou os filamentos ao redor de suas botas, espalhando-se em pequenas ramificações. Roberta prendeu a respiração. Sarah percebeu.

— Doutora Almeida?

— Estou bem.

A voz de Roberta veio pelo comunicador, abafada pela máscara.

— Só acho que ele percebeu.

Sergey respondeu:

— Todos nós fomos percebidos.

— Não do mesmo jeito.

Sarah olhou para o solo.

Não gostou de admitir, nem para si mesma, que Roberta talvez estivesse certa.

A clareira era mais ampla do que parecera de cima. De um lado, a vegetação baixa formava um tapete de folhas translúcidas, parecidas com pequenas lâminas de vidro maleável. Do outro, árvores altas se erguiam em arcos naturais. Os troncos eram escuros, quase negros, atravessados por veios luminosos azulados. As copas não tinham folhas comuns, mas estruturas finas, pendentes, como véus vivos que capturavam a luz e a devolviam em pequenos pulsos.

Ao fundo, a faixa luminosa vista da órbita seguia para dentro da mata.

Uma trilha.

Um limite.

Uma provocação.

Sarah ainda não sabia.

No céu, as duas luas apareciam em pleno dia, pálidas e distantes. A atmosfera violeta filtrava a luz da estrela local em tons que Sarah não conseguia associar a nenhuma manhã terrestre. Não era exatamente bonito de forma confortável. Era bonito de forma indomável. Como algo que não precisava da aprovação humana para existir.

Samira começou a leitura dos sensores.

— Frequências cardíacas elevadas, mas esperadas. Nenhuma reação respiratória através das máscaras. Partículas aderindo aos trajes, sem penetração. Pólen local reagindo à nossa presença, mas sem atividade agressiva.

— Defina reagindo — disse Sarah.

— Ele se aproxima e se afasta em ondas. Como se estivesse medindo temperatura, carga elétrica ou composição biológica.

Roberta olhou para os próprios braços cobertos pelo traje.

— Ou nos cheirando.

Mei, pelo canal do Vega, comentou:

— Ótimo. O planeta tem nariz.

A voz de Asha entrou da Aurora:

— Tecnicamente, seria uma rede sensorial atmosférica.

— Piorou — disse Mei.

Sarah ignorou a troca.

Os cinco minutos passaram devagar.

Samira pediu que todos respirassem fundo, mexessem as mãos, fizessem leituras de pulso e respondessem a perguntas simples de orientação cognitiva. Nome. Função. Última lembrança antes do pouso. Nenhuma alteração relevante.

Então ela olhou para Sarah.

— Máscaras podem ser retiradas.

Sergey virou-se imediatamente.

— Doutora, recomendo manter pelo menos a minha.

Sarah encarou-o.

— Não será uma decisão individual. Ou demonstramos postura de contato, ou não demonstramos. Todos retiram, com monitoramento contínuo.

O rosto de Sergey endureceu, mas ele obedeceu.

Um por um, destravaram as máscaras.

Sarah removeu a sua primeiro.

O ar de Éden-9 entrou em seus pulmões.

Ela esperava estranheza. Dor. Algum cheiro agressivo. Algo que confirmasse, pelo menos em parte, a necessidade do medo.

Não veio.

O ar era fresco, úmido, com um perfume mineral e vegetal difícil de separar. Havia nele algo floral, mas não doce. Algo metálico, mas não frio. Lembrava chuva em pedra quente, folhas esmagadas e eletricidade antes de tempestade. Sarah respirou uma segunda vez, mais devagar.

Seu corpo aceitou.

Essa aceitação a perturbou.

Roberta retirou a máscara logo depois. Fechou os olhos ao respirar. Por um instante, toda a postura dela mudou. Não relaxou exatamente. Abriu. Como se o corpo inteiro tivesse reconhecido uma língua sem tradutor.

Sarah desviou o olhar antes que observasse demais.

Aurora falou pelo canal:

— Registros respiratórios estáveis. Nenhuma reação adversa.

Samira confirmou.

— Exposição direta ao ar autorizada por tempo limitado.

Roberta abaixou a máscara e sussurrou, quase sem perceber:

— Licença.

Sarah ouviu.

Sergey também.

Ele não comentou, mas sua expressão disse o bastante.

A primeira vida animal apareceu sete minutos depois. Não veio correndo. Não emitiu rugido. Não saltou da mata. Surgiu como uma ideia saindo da vegetação. Três criaturas pequenas atravessaram as folhas translúcidas à esquerda da clareira. Tinham o tamanho aproximado de raposas, mas corpos alongados, cobertos por uma camada fina de filamentos prateados que se moviam como grama sob vento. As patas eram delicadas e altas, terminando em dedos abertos que tocavam o solo sem esmagá-lo. Nas costas, pequenas membranas luminosas subiam e desciam, lembrando barbatanas feitas de vidro.

Não tinham olhos visíveis, mesmo assim, Sarah teve certeza de que estavam olhando.

Mei, pelo comunicador, falou baixo:

— Eu não sei se isso é fofo ou se vai comer nossa alma.

Asha respondeu:

— Registrei como fauna tipo um. Nome provisório?

Roberta não tirava os olhos das criaturas.

— Véus-de-prata.

Sarah olhou para ela.

— Nome científico depois.

— Foi nome de sobrevivência poética.

As criaturas aproximaram-se apenas até a borda da luz ao redor do Vega. Uma delas abaixou a cabeça e tocou o solo com a testa. Os filamentos prateados de seu corpo se iluminaram. O chão respondeu no mesmo tom, e pequenas partículas de pólen se ergueram ao redor dela.

Samira levantou o scanner.

— Elas estão trocando alguma coisa com o solo.

Roberta ajoelhou-se devagar, sem avançar.

— Nutrientes, talvez. Informação. Carga elétrica. Microbioma. Não sei.

As três criaturas viraram a cabeça ao mesmo tempo para Roberta. Sarah deu um passo instintivo na direção dela.

Sergey também se moveu, mas para a arma.

— Mão longe do gatilho — ordenou Sarah.

— Capitã...

— Mão longe.

Ele obedeceu.

As criaturas não fugiram. A maior delas emitiu um som baixo, quase inaudível. Não vinha da garganta. Parecia vibrar nos filamentos do corpo. O solo respondeu com luz.

Então as três se afastaram, desaparecendo na vegetação.

Roberta permaneceu ajoelhada por alguns segundos.

— Elas não pisam no chão — disse.

Sarah olhou melhor.

As marcas deixadas eram mínimas. Quase nenhuma pressão. Como se os corpos delas tivessem evoluído para existir sem ferir o lugar por onde passavam.

— Animais que evitam danificar a rede do solo — disse Samira. — Simbiose locomotora.

— Ou educação planetária — murmurou Roberta.

Sergey ouviu.

— Animais não têm educação.

— Na Terra, muitos humanos também não. Ainda assim insistimos.

Mei soltou um riso pelo canal.

Sarah conteve a própria reação.

— Foco.

Mas, por dentro, algo havia mudado.

Animais.

Éden-9 não era apenas floresta, pólen e consciência abstrata. Havia fauna. Movimento independente. Organismos que pareciam viver não sobre o planeta, mas com ele. Criaturas que tocavam o solo como quem toca pele de alguém amado.

Outras formas começaram a aparecer à distância conforme o tempo passava.

No alto das árvores, seres finos como fitas se deslocavam entre os véus das copas. Tinham corpos translúcidos, quase sem massa, e usavam membranas laterais para planar de um tronco a outro. Quando passavam por regiões luminosas, tornavam-se quase invisíveis, exceto por linhas internas que brilhavam em laranja suave. Pareciam pensamentos escritos no ar.

Asha os chamou de planadores.

Roberta os chamou de cartas-vivas.

Sarah não autorizou nenhum nome oficial ainda.

Mais ao fundo, na borda da mata, uma sombra imensa se moveu entre os troncos.

Dessa vez, todos viram.

Era alta, talvez quatro metros no dorso, com um corpo largo sustentado por seis membros longos. A pele parecia coberta por musgo escuro e placas minerais. Do topo da cabeça desciam estruturas semelhantes a galhos, não chifres, mas ramificações vivas, onde pequenas plantas cresciam. Cada passo era lento. Quando uma das patas tocava o solo, a luz ao redor se apagava por um instante e depois voltava mais forte.

A criatura parou entre as árvores.

Não avançou.

Não fugiu.

Apenas permaneceu ali, enorme e silenciosa, carregando no próprio corpo um pequeno jardim.

Samira falou primeiro:

— Aquilo tem vegetação crescendo nele.

Roberta estava quase sem voz.

— Talvez não crescendo nele. Com ele.

Sarah sentiu um frio subir pela coluna. Aquilo não era animal no sentido terrestre. Não totalmente. Era um ecossistema andando. Um corpo que transportava outras vidas. Um ser que talvez alimentasse plantas, que talvez recebesse delas proteção, camuflagem, sensores, memória.

Na Terra, simbiose era conceito.

Ali, parecia gramática.

Sergey observou a criatura com o rosto fechado.

— Tamanho e estrutura física indicam potencial ameaça.

Sarah concordava e, ao mesmo tempo, não concordava.

A criatura não demonstrava hostilidade. Mas hostilidade era uma palavra humana, limitada demais. Um animal daquele tamanho não precisava querer matar para ser perigoso. Bastava existir perto demais.

— Todos permaneçam próximos ao Vega — disse Sarah. — Sem aproximação. Sem movimentos bruscos.

Roberta sussurrou:

— Ela está nos avaliando.

Sarah não perguntou por que Roberta usara ela.

A criatura inclinou a cabeça.

As ramificações vivas em seu dorso acenderam em verde. Do solo, a mesma cor respondeu. Depois, lentamente, o ser se virou e desapareceu na mata, deixando atrás de si uma trilha breve de luz.

Mei falou pelo canal, sem humor:

— Ok. Isso foi grande.

— Registro de fauna tipo três — disse Asha. — A criatura parece atuar como vetor móvel de vegetação simbiótica.

Roberta ainda olhava para a mata.

— Um bosque andando.

Sarah repetiu a expressão mentalmente.

Bosque andando.

Era bonita.

Era também uma péssima categoria operacional.

— Vamos estabelecer perímetro inicial — disse Sarah, obrigando a si mesma a retornar ao comando. — Samira, amostras atmosféricas apenas por coleta passiva. Sergey, drones em baixa altitude. Nada ultrapassa a faixa luminosa sem minha ordem. Roberta, análise visual da vegetação e comportamento da fauna. Mei, mantenha o Vega pronto para decolagem imediata.

— Eu nasci pronta — respondeu Mei.

— Nasceu modesta também? — perguntou Asha.

— Isso eu terceirizei.

O humor leve ajudou, ele não eliminou o medo, mas ajudou.

A equipe trabalhou pelos minutos seguintes com cuidado extremo. Os drones saíram do Vega em silêncio, pequenos, redondos, programados para baixa interferência. Um deles se aproximou da borda da vegetação e imediatamente foi cercado por partículas de pólen. Não caiu. Não perdeu sinal. Apenas ficou envolto por uma nuvem luminosa que acompanhava cada movimento.

— Ele está sendo examinado — disse Roberta.

— Ou marcado — disse Sergey.

— Talvez os dois — respondeu Samira.

Sarah observou as leituras.

O drone enviava imagens da mata além da clareira. Raízes aparentes formavam arcos sobre o solo. Pequenos cursos de água escura atravessavam o caminho, refletindo pontos de luz que não vinham do céu. Plantas se fechavam quando o drone se aproximava demais e voltavam a abrir quando ele recuava. Não como reflexo simples. Como decisão.

A antiga colônia aparecia ao longe, parcialmente visível entre as árvores.

Aurora Prime.

O motivo oficial da missão.

Sarah sentiu o peso do Protocolo Semente Branca em algum lugar atrás de seus pensamentos.

Se havia sobreviventes, tudo mudava.

Se não havia, tudo também mudava.

Roberta aproximou-se, mantendo distância regulamentar.

— Capitã.

Sarah olhou para ela.

— Diga.

— O planeta está aceitando nossa presença por enquanto.

— Isso é avaliação científica?

— É uma avaliação inicial baseada em resposta ambiental. A luz não retraiu. A fauna observou, mas não avançou. O pólen interagiu sem agressão. A vegetação responde a aproximação, mas não ataca. Eu diria que ele está cauteloso.

— Ele.

Roberta percebeu.

— Ainda não sei que palavra usar.

Sarah olhou para a floresta.

— Nenhuma parece segura.

— Talvez essa seja a parte honesta.

Sarah voltou o olhar para ela.

O ar de Éden-9 tocava o rosto de Roberta. Sem máscara, ela parecia mais vulnerável e, ao mesmo tempo, mais inteira. Os olhos estavam brilhantes, não apenas de emoção, mas de atenção profunda. Sarah pensou que algumas pessoas olhavam para o desconhecido querendo vencê-lo. Roberta olhava como quem queria ser digna de entrar.

Essa diferença a atingiu de forma inconveniente.

— Você disse licença ao sair — falou Sarah.

Roberta ficou surpresa.

— Disse.

— Por quê?

Ela olhou para o solo iluminado.

— Minha avó dizia que a gente não entra na casa dos outros batendo a porta. Mata, rio, terreiro, quarto de hospital, tanto faz. Todo lugar tem alguma coisa que estava lá antes da gente.

Sarah ficou em silêncio.

— Não é procedimento científico — acrescentou Roberta.

— Eu sei.

— Mas também não atrapalha.

Sarah quase sorriu.

— Isso ainda será avaliado.

Roberta sorriu de volta, pequeno e breve.

Antes que qualquer coisa pudesse permanecer entre elas, Sergey chamou:

— Capitã. Drone dois captou estrutura à frente.

A imagem abriu na tela portátil.

A colônia.

Mais nítida agora.

Um corredor externo da Aurora Prime surgia entre troncos e membranas vegetais. A estrutura metálica estava coberta por filamentos vivos, mas preservada. Havia marcas antigas do emblema terrestre na parede. Parte dele tinha sido tomada por raízes claras que brilhavam suavemente.

O drone avançou alguns metros.

A imagem tremeu.

— Interferência — disse Asha pelo canal.

O vídeo oscilou. Por um instante, mostrou apenas luz, depois estabilizou.

Sarah aproximou-se da tela.

No fim do corredor da colônia, havia uma figura.

Humana.

Ou quase.

Parada na sombra de uma estrutura tomada pela vegetação.

A distância impedia detalhes. A pessoa parecia alta, envolta por tecido claro ou fibras naturais. Os cabelos longos se confundiam com os filamentos luminosos atrás dela. Não se movia.

Apenas observava.

O canal ficou silencioso.

Samira foi a primeira a falar:

— Isso é uma pessoa.

Sergey levantou a arma não letal.

— Recuar para o Vega.

Roberta deu um passo à frente.

— Espera.

Sarah ergueu a mão.

Todos pararam.

Na tela, a figura inclinou a cabeça.

O drone perdeu sinal.

A imagem desapareceu.

A clareira ao redor do Vega diminuiu a luminosidade.

Não apagou.

Apenas escureceu um pouco, como se o planeta tivesse prendido a respiração junto com eles.

Sarah sentiu cada pessoa esperando sua ordem.

Sergey queria recuar.

Roberta queria compreender.

Samira queria avaliar.

Mei queria manter a saída pronta.

Asha queria dados.

E Éden-9, de algum modo impossível, parecia querer ver o que Sarah faria com aquela primeira evidência de vida humana.

Ela respirou o ar do planeta sem máscara.

Úmido.

Mineral.

Vivo.

— Ninguém avança — disse Sarah. — Ninguém atira. Ninguém corre. Retornamos ao Vega, enviamos nova mensagem e aguardamos resposta.

Sergey pareceu aliviado pelo recuo.

Roberta pareceu frustrada pela espera.

Ambos obedeceram.

Sarah manteve os olhos na floresta enquanto a equipe se movia de volta para o módulo. A primeira saída durara menos de uma hora. Tempo suficiente para respirar outro mundo. Ver animais que caminhavam como pactos vivos. Descobrir que o planeta não apenas acendia, ele observava.

E, talvez, lembrar que a Colônia Aurora Prime não estava vazia.

Antes de entrar no Vega, Sarah olhou uma última vez para a mata.

Na borda das árvores, onde a grande criatura simbiótica havia desaparecido, uma luz verde se acendeu.

Depois outra.

Depois nada.

Sarah entrou e fechou a escotilha.

Do lado de fora, Éden-9 permaneceu vivo.

E, agora, não havia mais como fingir que a missão era apenas investigação.

Fim do capítulo


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