As filhas de Éden
Roberta Almeida
Roberta levou alguns segundos para aceitar que estava olhando para Iara Mendonza.
Não para uma gravação fragmentada ou para uma imagem estudada em arquivos, analisada em congressos e repetida em documentários sobre o fracasso da primeira colônia.
A mulher estava ali.
Viva.
Respirando o mesmo ar que eles.
E, de alguma forma impossível, parecia carregar menos os trinta e dois anos de silêncio do que uma tristeza antiga demais para ser medida por calendário.
Iara estava no corredor da Colônia Aurora Prime como se pertencesse tanto à estrutura humana quanto às raízes luminosas que tomavam as paredes. Os cabelos longos, mesclados de grisalho e fios quase brancos, desciam sobre os ombros, entrelaçados a pequenos filamentos claros que talvez fossem tecido, talvez fossem parte de Éden-9. A pele acobreada tinha marcas suaves no pescoço e nos braços, desenhos orgânicos que brilhavam discretamente quando as paredes pulsavam.
Os olhos dela, porém, eram o que mais prendia.
Ainda humanos.
Mas não apenas humanos.
Refletiam a luz da colônia como água profunda.
Sarah permanecia um pouco à frente de Roberta, firme, controlada, o corpo inteiro colocado entre a equipe e o desconhecido. Era um gesto quase imperceptível para quem não estivesse prestando atenção. Roberta estava.
Sarah não havia sacado a arma. Também não relaxara. A mão direita permanecia livre, próxima o bastante do coldre para responder rápido, distante o bastante para não transformar o encontro em ameaça.
Roberta sentiu uma estranha admiração por aquela precisão.
Iara olhou para todos, mas seu olhar voltava sempre para Roberta.
— Vocês querem respostas — disse ela.
A voz era mais baixa do que na transmissão. Menos urgente. Mais cansada.
Sarah respondeu:
— Viemos entender o que aconteceu com a colônia.
Iara inclinou a cabeça.
— Essa é uma pergunta da Terra.
— É a pergunta que nos trouxe até aqui.
— Então talvez seja melhor começarmos por ela.
A governadora, ou a mulher que um dia fora governadora, virou-se e caminhou pelo corredor iluminado. Não ordenou que a seguissem. Não pediu que abaixassem armas. Não explicou se estavam seguros.
Apenas caminhou.
As luzes das paredes acendiam antes de seus passos.
Sarah hesitou por uma fração de segundo.
Depois fez sinal para a equipe avançar.
Roberta seguiu logo atrás dela. Samira vinha ao lado, o scanner médico discreto na mão. Sergey fechava o grupo, silencioso. Pela primeira vez desde que haviam chegado ao solo, ele não fez nenhuma observação sobre risco, ameaça ou perímetro. Apenas olhava. E talvez isso o tornasse ainda mais difícil de ler.
O interior da Colônia Aurora Prime parecia uma lembrança que aprendera a crescer.
Os corredores metálicos ainda estavam ali. As placas de identificação, os antigos painéis de comando, os trilhos de transporte interno, as portas pressurizadas. Tudo conservava a geometria humana. Mas entre as linhas retas havia vida. Raízes translúcidas atravessavam cantos, selavam fissuras, sustentavam vigas, substituíam cabos. Pequenas plantas cresciam em nichos onde antes haveria lâmpadas de emergência. As paredes respiravam luz.
Não era abandono.
Roberta tinha certeza agora.
Era adaptação.
Passaram por uma janela interna que dava para um pátio da colônia. Ali, Roberta viu pessoas.
Parou sem perceber.
Havia cerca de vinte, talvez mais, distribuídas pelo espaço aberto. Algumas trabalhavam em estruturas orgânicas que pareciam hortas suspensas. Outras conversavam sentadas sobre bancos cobertos por fibras vivas. Crianças corriam entre colunas tomadas por musgo azul, mas não faziam barulho como crianças da Terra. Não por repressão. Por hábito. Moviam-se com uma atenção leve ao ambiente, desviando de raízes, tocando folhas antes de passar, rindo baixo quando as plantas respondiam com luz.
Eram humanos.
Mas mudados.
A pele de alguns tinha brilho sutil sob a claridade violeta. Os olhos refletiam mais do que deveriam. Os cabelos de muitas mulheres estavam entrelaçados com fibras naturais. Em alguns braços e pescoços havia marcas luminosas semelhantes às de Iara. Não tatuagens. Não exatamente. Pareciam sinais que nasciam de dentro.
Uma menina pequena colocou a mão sobre uma parede viva, fechou os olhos e sorriu.
A parede respondeu.
Roberta sentiu o peito apertar.
— Meu Deus — sussurrou.
Sarah olhou para ela rapidamente.
Não a repreendeu.
Talvez porque, pela primeira vez, até Sarah parecesse sem frase pronta.
Iara parou diante da entrada do pátio.
— A primeira coisa que aconteceu foi o medo — disse ela. — Não o ataque. Não a morte. O medo. O planeta percebeu antes de nós.
Samira se aproximou um pouco.
— Quantas pessoas sobreviveram?
Iara observou o pátio.
— Depende do que você chama de sobreviver.
A resposta atravessou Roberta com desconforto.
Sarah não se moveu.
— Quantos colonos originais ainda estão vivos? — perguntou a capitã.
— Quarenta e três.
Sergey levantou os olhos pela primeira vez com expressão clara de choque, mas não falou.
Samira respirou fundo.
— Isso é impossível sem intervenção biológica profunda.
— Sim — respondeu Iara.
A simplicidade dela era perturbadora.
Roberta olhou novamente para as pessoas no pátio.
— E os outros?
Iara demorou um pouco antes de responder.
— Alguns morreram. Alguns escolheram integração profunda. Alguns nasceram aqui. Alguns já não cabem nas categorias que vocês trouxeram.
A frase parecia absurda.
Mas, naquele lugar, soava menos como delírio e mais como limitação de idioma.
Uma jovem se aproximou do grupo.
Tinha cerca de dezessete anos, talvez menos, talvez mais. Em Éden-9, idade começava a parecer uma informação pouco confiável. A pele dela era morena, com um brilho discreto nas têmporas. Os cabelos longos, castanho-escuros, estavam presos em tranças finas adornadas com pequenas sementes luminosas. Os olhos tinham uma cor difícil de definir, entre âmbar e verde úmido.
Ela olhou primeiro para Roberta.
Depois para Sarah.
— Esta é Naya — disse Iara. — Nasceu depois do silêncio.
Naya inclinou a cabeça, em um cumprimento que não era reverência nem timidez.
— Vocês vieram da Terra.
Sarah respondeu:
— Sim.
— A Terra ainda fala alto?
Roberta sentiu a pergunta como uma pedra jogada em água parada.
Sarah não pareceu entender de imediato.
— Em que sentido?
Naya olhou para o teto vivo, depois para Sergey, depois para os equipamentos presos aos trajes.
— Em todos.
Roberta quase sorriu.
Não por deboche.
Por reconhecimento.
Aquela menina, nascida em um planeta que escutava, havia resumido a humanidade com precisão cruel.
Iara fez um gesto para que seguissem para o pátio. Sarah avaliou o espaço antes de autorizar com um aceno. Entraram devagar.
As pessoas pararam o que faziam, mas não correram. Não gritaram. Não se esconderam. Observavam com uma calma que Roberta achou mais inquietante do que hostilidade aberta. Era como se a chegada deles já fosse conhecida. Ou, pior, esperada.
Uma mulher mais velha tocou o ombro de uma criança, impedindo que ela se aproximasse demais. Um homem de cabelos prateados abaixou uma ferramenta orgânica que parecia feita de osso, madeira e metal reaproveitado. Duas adolescentes trocaram palavras em uma língua que Roberta não reconheceu por completo. Havia raízes latinas, fragmentos de espanhol, inglês, português, talvez algo novo.
Naya percebeu sua atenção.
— Nossa fala mudou.
Roberta olhou para ela.
— Eu percebi.
— As primeiras mães diziam que língua rígida quebra quando encontra mundo vivo.
— Primeiras mães?
Iara respondeu:
— Foi como passamos a chamar as mulheres que conduziram a transição depois do corte de comunicação. Não por pureza. Não por superioridade. Por responsabilidade.
Sarah acompanhava cada palavra.
Sergey também, quieto. Os olhos dele se moviam de rosto em rosto, registrando posições, saídas, comportamentos. O silêncio dele não era paz. Era cálculo.
Roberta voltou-se para Iara.
— A sociedade de vocês é matricêntrica?
A palavra pareceu tocar o ambiente. Algumas pessoas próximas olharam para ela com mais atenção.
Iara sorriu de leve.
— Essa é uma palavra da Terra tentando entender algo que nasceu aqui.
— Eu sei. Mas talvez ajude a começar.
Iara assentiu.
— Então sim, se você usar a palavra com cuidado.
Roberta sentiu Sarah olhar para ela, como se esperasse a explicação. Ela falou devagar, escolhendo termos que não traíssem o que via:
— Uma sociedade matricêntrica não é simplesmente uma sociedade onde mulheres mandam e homens obedecem. Não deveria ser o inverso do machismo. Matricêntrico significa que a organização social se estrutura em torno do princípio materno, não necessariamente biológico, mas simbólico: cuidado, continuidade, escuta, preservação, vínculo e responsabilidade coletiva. O centro não é dominar. É sustentar.
Iara a observou com interesse.
Roberta continuou, agora menos acadêmica:
— Na Terra, isso quase sempre foi confundido, apagado ou romantizado. Aqui parece... prático.
Naya sorriu.
— Aqui, quem não escuta não conduz.
Sarah olhou para ela.
— E quem decide?
A jovem respondeu sem pressa:
— Quem escuta melhor o todo.
— E isso costuma ser definido por quem?
Naya olhou para Iara antes de responder.
— Pelo próprio todo.
Sarah ficou imóvel.
Iara interveio:
— Nos primeiros anos, percebemos que algumas pessoas ouviam o planeta com mais clareza. Não como voz. Não no início. Era sensibilidade aos ciclos, às mudanças do solo, à resposta das partículas, ao humor das águas. A maioria eram mulheres. Não todas. Nunca todas. Mas muitas.
Roberta sentiu a pele arrepiar.
— Por quê?
— Ainda não sabemos completamente — disse Iara. — Biologia, talvez. História emocional. Forma de socialização. Menor treinamento para ignorar cuidado. Maior tolerância ao vínculo. Ou talvez Éden tenha escolhido primeiro quem chegou menos armado por dentro.
A frase ficou no pátio como uma coisa viva. Roberta não precisou olhar para Sergey para saber que ele ouvira.
Dessa vez, ele não respondeu. Apenas observou Iara com uma rigidez mais profunda.
Sarah perguntou:
— Homens não lideram?
Iara olhou para um homem sentado perto de uma estrutura de água. Ele conversava com duas crianças enquanto ajustava canais por onde um líquido escuro e luminoso passava.
— Lideram quando escutam. Cuidam quando sabem cuidar. Decidem quando a decisão não nasce do desejo de possuir. Mas aqui aprendemos que autoridade sem escuta é doença social.
Naya completou:
— Na Terra, vocês chamavam de força.
Roberta sentiu um riso triste quase escapar.
Sarah não sorriu.
Mas Roberta viu algo se mover no rosto dela.
Não concordância completa.
Não resistência.
Atenção.
Isso, em Sarah, era muito.
Iara os conduziu até uma estrutura no centro do pátio. Parecia uma mesa circular, mas não feita de metal. Era formada por raízes entrelaçadas, cobertas por uma superfície lisa, parecida com pedra clara. Ao redor dela, marcas luminosas se acendiam em resposta à aproximação.
— Aqui fazemos círculos de decisão — disse Iara. — Ninguém fala de cima. Ninguém decide sem ouvir quem será afetado. Isso não nos tornou perfeitos. Não confundam. Tivemos disputas, medo, perda, violência. A diferença é que Éden responde ao que fingimos esconder.
Roberta olhou para a superfície da mesa.
— Ele sente mentira?
Naya respondeu:
— Sente desalinhamento.
— Qual a diferença?
A jovem pensou por um momento.
— Mentira é palavra contra fato. Desalinhamento é corpo contra intenção.
Roberta guardou a frase como quem guarda uma chave.
Sarah ficou mais rígida.
Roberta percebeu.
Havia algo ali. Algo que a capitã carregava e que, talvez, Éden-9 já tivesse percebido. A lembrança veio rápida, como uma de seus sonhos na criogênia: Naya olhando para Sarah no roteiro que Roberta ainda não vivera, dizendo que ela trouxera uma ordem não contada. Aquilo ainda não havia acontecido, mas a tensão já existia, como uma sombra à frente.
Iara voltou-se para Sarah.
— Você trouxe perguntas oficiais. Faça uma.
Sarah sustentou o olhar dela.
— Por que cortaram comunicação com a Terra?
O pátio pareceu ficar mais silencioso, até as crianças diminuíram o movimento.
Iara apoiou as mãos na mesa viva.
— Porque a Terra não queria apenas saber se estávamos vivos.
— A Terra recebeu uma transmissão de emergência.
— Recebeu uma advertência.
— E depois silêncio.
— Silêncio também é resposta.
Sarah respirou devagar.
— Para quem perdeu contato com uma colônia humana, silêncio é ameaça.
— Para quem viu o que a Terra faz com tudo que chama de recurso, silêncio foi proteção.
As palavras não foram ditas com raiva e isso as tornou mais fortes.
Roberta observou Sarah. A capitã não recuou, mas havia tensão no maxilar. Ela não parecia ofendida. Parecia dividida entre concordar e cumprir o papel de quem não podia concordar rápido demais.
Samira falou com cuidado:
— A biosfera modificou vocês?
Iara virou-se para ela.
— Sim.
— Com consentimento?
A pergunta era médica, ética e humana ao mesmo tempo.
Iara demorou.
— No início, não entendíamos o bastante para consentir. Nem para recusar. Estávamos morrendo de pequenas formas. Infecções, rejeições, falhas de adaptação, medo. Éden reagia aos nossos corpos e nós aos dele. Houve perdas. Houve erros. Depois aprendemos a pedir menos e escutar mais.
— E as crianças? — perguntou Roberta.
Naya respondeu antes de Iara:
— Nós nascemos depois do acordo.
— Que acordo?
Naya tocou a mesa. A luz sob seus dedos se espalhou em círculos suaves.
— Viver sem arrancar do mundo mais do que podemos devolver.
Roberta fechou os olhos por um instante.
Era simples.
Quase ingênuo.
E, ao mesmo tempo, talvez fosse a frase mais avançada que uma civilização poderia produzir.
Sarah perguntou:
— Existe governo?
Iara sorriu.
— Ainda precisamos organizar gente. Então sim. Mas não como vocês esperam.
— Explique.
— Temos círculos. Círculo de alimento, de memória, de nascimento, de cura, de passagem, de defesa e de escuta. As Guardiãs de Escuta conduzem decisões maiores, mas não mandam como generais. Elas interpretam impactos. O poder aqui não é prêmio. É desgaste. Quem decide carrega a consequência.
Roberta pensou na Terra.
Em homens e mulheres usando cargos como tronos, nos conselhos assinando protocolos a anos-luz de distância e em Sarah carregando o peso de uma ordem que talvez nem fosse dela.
— E quem escolhe as Guardiãs? — perguntou.
Iara olhou para Naya.
— Às vezes nós. Às vezes Éden nos mostra quem já está ouvindo antes de aceitar.
Naya desviou o olhar, e Roberta percebeu que aquela frase tinha algo pessoal.
— Você é uma delas? — perguntou Roberta.
A jovem riu baixo, pela primeira vez parecendo adolescente.
— Ainda não. Eu erro muito.
— Isso nunca impediu líderes na Terra — disse Roberta.
Naya pareceu achar graça.
Sarah olhou para Roberta de lado.
— Comentário registrado como diplomacia arriscada.
Roberta murmurou:
— Mas historicamente defensável.
Foi rápido.
Quase nada.
Mas Sarah quase sorriu.
Roberta viu.
E aquilo a atingiu com a precisão de uma pequena luz acendendo em lugar escuro.
Iara observou as duas.
Roberta percebeu.
Sentiu o rosto aquecer e desviou a atenção para a mesa.
A mulher mais velha não comentou. Apenas fez um gesto para Naya.
— Mostre a elas.
Naya colocou as duas mãos sobre a superfície viva. As marcas luminosas se espalharam pela mesa, subiram em pequenos arcos e formaram imagens no ar.
Não eram hologramas.
Eram luz orgânica.
Memórias.
Primeiro, a chegada da colônia original. Módulos pousando em uma paisagem intacta. Pessoas celebrando. Crianças olhando pela primeira vez para o céu violeta. Cientistas coletando amostras. Máquinas perfurando solo. Robôs cortando raízes para análise.
Depois, a resposta de Éden-9.
Plantas escurecendo, partículas se acumulando, animais desaparecendo da região. Logo humanos começaram a adoecer, não por ataque direto, mas por incompatibilidade, por ruptura de equilíbrio, por contato mal compreendido.
Roberta levou a mão à boca.
As imagens mudaram.
Mulheres reunidas em torno de uma criança febril.
Iara mais jovem, desesperada.
Uma floresta inteira acendendo ao redor da colônia.
Um lago escuro.
Pessoas colocando ferramentas no chão.
Não como rendição.
Como pedido.
A luz da mesa enfraqueceu.
Naya retirou as mãos, cansada.
Samira se aproximou instintivamente.
— Você está bem?
— Estou.
Roberta percebeu que Sarah não olhava apenas para a memória. O rosto da capitã estava fechado, mas os olhos revelavam outra coisa.
Reconhecimento.
Talvez porque, nas imagens, a colônia também tomara decisões tarde demais.
Roberta quis tocar o braço dela.
Não tocou.
Ainda não.
Sergey continuava em silêncio. Estava pálido, mas atento. O silêncio dele agora parecia menos obediência e mais choque controlado. Roberta quase teve compaixão. Para alguém que acreditava na ordem como defesa contra o caos, Éden-9 era uma afronta viva: um mundo inteiro funcionando por relações que nenhum regulamento terrestre conseguia conter.
Sarah falou:
— Precisamos confirmar a segurança da minha equipe e reportar à Aurora.
Iara assentiu.
— Sim.
— Também precisamos saber se vocês desejam contato formal com a Terra.
O pátio inteiro pareceu prender a respiração.
Naya olhou para Iara.
Iara olhou para Roberta e depois para Sarah.
— A Terra já está aqui, capitã. Em vocês.
Sarah não respondeu.
— A pergunta é qual Terra vocês escolherão representar.
Roberta sentiu a frase atravessar a equipe.
Samira abaixou os olhos.
Sergey ficou imóvel.
Sarah manteve o rosto controlado, mas Roberta já começava a perceber as pequenas falhas na armadura: a mão direita relaxando e fechando de novo, a respiração medida, o olhar que não desviava porque desviar seria revelar demais.
— Não posso responder por toda a Terra — disse Sarah.
Iara sorriu com tristeza.
— Ninguém deveria. Mas muitos tentam.
A luz da mesa apagou.
O pátio voltou aos poucos ao seu movimento anterior. Crianças recomeçaram a brincar. Pessoas retomaram tarefas. Mas agora todos observavam a equipe com outro tipo de atenção.
Não medo.
Avaliação.
Roberta pensou na definição de Naya.
Desalinhamento é corpo contra intenção.
Perguntou-se o que Éden-9 via nela.
Perguntou-se o que via em Sarah.
Iara caminhou até a borda do pátio, onde um corredor seguia para a parte mais interna da colônia.
— Vocês podem permanecer por pouco tempo. O primeiro contato cansa o corpo e a memória. Depois, devem voltar à nave de descida.
Sarah assentiu.
— Concordo.
Roberta sentiu uma ponta de frustração. Queria ficar. Queria perguntar mais. Queria entender os círculos, as Guardiãs, as crianças, os organismos, a mesa viva, a língua, os mortos, os que haviam escolhido integração profunda.
Queria saber tudo.
Sarah olhou para ela.
— Doutora Almeida.
Roberta respirou fundo.
— Eu sei. Curiosidade não substitui protocolo.
— Estou vendo que aprende rápido.
— Eu finjo bem.
Dessa vez, Sarah sorriu.
Roberta sentiu a resposta do próprio corpo antes de autorizar qualquer interpretação. O pulso acelerou. O calor subiu pelo pescoço. E, por um segundo absurdo, no meio de uma colônia perdida, diante de uma sociedade transformada por uma consciência planetária, ela pensou apenas que Sarah Solano sorrindo era uma coisa perigosa.
Naya apareceu ao lado dela.
— Você ouviu a mesa.
Roberta voltou a si.
— Ouvi.
— E teve medo.
— Tive.
— Bom.
Roberta olhou para a jovem.
— Vocês gostam mesmo de medo por aqui.
— Não. Mas medo honesto faz menos estrago que coragem mentirosa.
Roberta ficou sem resposta.
Naya sorriu de leve.
— Você pode voltar. A que pediu licença pode voltar.
— E os outros?
Naya olhou para Sarah.
— A capitã pode voltar quando parar de tentar carregar uma porta fechada dentro do peito.
Roberta sentiu o sangue gelar.
Sarah, que estava a poucos passos, ouviu.
O rosto dela não mudou.
Mas Roberta percebeu que a frase acertara.
Sergey também ouviu.
Dessa vez, seus olhos foram para Sarah, não para Naya.
Iara interveio com suavidade:
— Naya.
A jovem abaixou o olhar, mas não pareceu arrependida.
— Desculpe. Às vezes eu falo antes de suavizar.
Roberta quase riu, nervosa.
— Isso também existe na Terra.
Naya olhou para Roberta por um instante, como se tivesse entendido alguma coisa que ninguém ali havia dito. Depois, voltou os olhos para Sarah.
A capitã sustentou o olhar dela sem se mover.
Naya não parecia irritada. Não parecia assustada. Havia apenas uma tristeza antiga em sua expressão jovem.
— Você trouxe uma ordem que ainda não contou a elas.
O silêncio que veio depois não pertenceu apenas à equipe.
A floresta também pareceu escutar.
Roberta sentiu o ar mudar ao redor. Não era vento. Era outra coisa. Um recolhimento sutil das folhas, um apagar quase imperceptível das luzes sob o solo, como se Éden-9 tivesse prendido a respiração junto com eles.
Sarah não respondeu de imediato.
Seu rosto permaneceu controlado, mas Roberta percebeu a tensão no maxilar, o modo como os dedos dela se fecharam por um segundo ao lado do corpo. Era pouco. Em Sarah Solano, porém, quase nada costumava significar muito.
Sergey deu meio passo à frente, instintivo, mas não sacou nenhuma arma. Apenas olhou para Sarah, esperando uma ordem que recolocasse o mundo em alguma forma reconhecível.
Samira observava Naya com atenção médica e humana ao mesmo tempo. Asha, pelo comunicador, permaneceu em silêncio. Até Mei, que quase sempre encontrava alguma frase para quebrar a tensão, não disse nada.
Sarah respirou uma vez.
Quando falou, sua voz saiu baixa, firme e cuidadosamente neutra.
— Vamos retornar à Aurora.
Não foi uma resposta para Naya.
Foi uma contenção.
Roberta entendeu isso antes mesmo de aceitar. Sarah não estava encerrando a conversa porque a frase não importava. Estava encerrando porque importava demais.
Naya não insistiu.
Ao lado dela, Iara também permaneceu em silêncio. As duas não pareciam satisfeitas, nem decepcionadas. Apenas observavam, como se soubessem que certas verdades não precisavam correr atrás de ninguém.
A equipe começou a se mover.
Roberta quis perguntar se Sarah estava bem, mas a pergunta morreu antes de chegar à boca. Não porque faltasse coragem. Porque, naquele instante, qualquer cuidado poderia soar como invasão.
Seguiram de volta pelo corredor vivo e ao passar pela entrada, Roberta olhou uma última vez para o pátio. Naya estava ao lado de Iara. As duas não acenaram. Apenas observaram.
Na saída da colônia, a floresta parecia mais clara.
Ou talvez Roberta estivesse diferente.
A trilha luminosa até o Vega reacendeu sob seus pés. Dessa vez, as árvores não pareciam apenas abrir passagem. Pareciam acompanhar.
Sergey continuou calado durante todo o retorno.
Sarah também.
Samira registrava dados, mas seu rosto estava pensativo.
Roberta caminhava com a sensação de que havia entrado em Éden-9 como cientista e saía, pela primeira vez, como alguém que também estava sendo estudada.
Quando o Vega apareceu entre as árvores, a nave pareceu pequena demais.
Humana demais.
Metálica demais.
Sarah parou antes da escotilha e olhou para a colônia ao longe.
Roberta parou ao lado dela.
Por alguns segundos, ficaram assim, sem se encarar.
— Ela sabia algo sobre você — disse Roberta, com cuidado.
Sarah não olhou para ela.
— Naya é observadora.
— Não foi só observação.
— Então é mais uma razão para cautela.
Roberta aceitou a resposta, mas não a distância que havia nela.
— Cautela não precisa ser solidão.
Dessa vez, Sarah virou o rosto. O olhar dela era claro, firme e cansado.
— Em comando, quase sempre precisa.
Roberta sentiu a frase como se Sarah tivesse fechado uma porta devagar.
Mas não trancado.
Ainda não.
Antes que pudesse responder, Aurora entrou pelo comunicador:
— Vega, comunicação com a Aurora está estável. Solicito relatório de retorno.
Sarah afastou o olhar.
— Prepararemos relatório após descontaminação.
— Entendido.
A escotilha abriu.
Antes de entrar, Roberta olhou uma última vez para a floresta.
Uma das pequenas criaturas prateadas estava na borda da trilha, imóvel. Sem olhos visíveis, ainda assim parecia vê-la.
Roberta pensou na avó.
Pensou em Isabele.
Pensou em Sarah.
Pensou na Terra falando alto demais.
Então entrou no Vega.
Atrás dela, Éden-9 apagou lentamente a trilha, não como despedida, mas como quem fecha uma porta com cuidado, esperando que a próxima visita venha com perguntas melhores.
Fim do capítulo
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