Aurora Prime
Sarah Solano
O caminho permaneceu aceso durante toda a noite local.
Sarah não dormiu, nenhum deles dormiu de verdade.
Depois que Roberta tocou o violão para a clareira e Éden-9 respondeu com uma trilha luminosa até a antiga Colônia Aurora Prime, o Vega se transformou em um centro de análise pequeno demais para a quantidade de perguntas que surgiram. Asha comparou o padrão da trilha com as respostas orbitais. Samira avaliou risco biológico da nova aproximação. Sergey revisou três vezes o armamento não letal e os drones. Mei verificou a rota de decolagem de emergência com o mau humor silencioso de quem não gostava de estar pousada em um planeta que parecia escutar.
Roberta ficou a maior parte do tempo diante da janela frontal.
Não falou muito, Sarah percebeu.
Também percebeu que a astrobióloga segurava o próprio violão como se ainda sentisse nas cordas a resposta do planeta.
A trilha lá fora não os apressava.
Isso incomodava Sarah.
Uma ameaça poderia ser combatida. Um obstáculo poderia ser contornado. Um convite, porém, exigia outro tipo de coragem. Não a coragem de avançar sob fogo, mas a de admitir que talvez alguém, ou algo, estivesse oferecendo passagem.
E passagem sempre vinha com uma pergunta.
Para onde?
Ao amanhecer, se é que aquela palavra servia para Éden-9, a luz da estrela local atravessou a atmosfera violeta em faixas douradas. A clareira perdeu parte do brilho noturno, mas a trilha permaneceu visível, mais discreta, como veias sob uma pele escura. As árvores ao redor do Vega não se moveram com o vento. Inclinavam-se levemente na direção da faixa luminosa, como se também aguardassem a decisão da equipe.
Sarah convocou a saída às seis horas do ciclo interno.
O grupo seria formado por ela, Roberta, Samira e Sergey. Mei ficaria no Vega, pronta para decolagem imediata. Asha permaneceria na Aurora, com comunicação aberta e análise remota. A IA monitoraria todos os sinais vitais, padrões ambientais e alterações eletromagnéticas.
Dessa vez, não usariam máscaras.
A decisão ainda causava desconforto em Sergey, mas Samira havia confirmado novamente: o ar era tolerável, o pólen não era mortífero e a exposição curta permanecia segura. Os trajes leves continuariam obrigatórios. Sensores dérmicos, bloqueio de contato direto com pele e filtros emergenciais no colar cervical, também.
Sarah revisou todos antes da escotilha abrir.
— Regras simples — disse. — Permanecemos na trilha. Ninguém toca em nada sem autorização. Nenhuma coleta. Nenhum avanço individual. Se houver contato visual com sobrevivente ou habitante, ninguém se aproxima sem minha ordem. Comunicação primeiro. Movimento depois.
Olhou para Roberta por uma fração de segundo a mais.
— Curiosidade não substitui protocolo.
Roberta ergueu as sobrancelhas.
— Por que sinto que essa parte foi para mim?
— Porque foi.
Mei, pelo comunicador, soltou uma risada curta.
— Pelo menos a mensagem foi clara.
Roberta olhou para Sarah com uma seriedade quase teatral.
— Curiosidade contida. Protocolo respeitado. Violão em repouso.
— Ótimo.
Sergey ajustou o equipamento preso ao peito.
— Capitã, recomendo que eu siga na frente.
— Negativo. Eu sigo na frente. Você cobre retaguarda. Samira no centro. Roberta ao meu lado.
Sergey demorou meio segundo antes de assentir.
— Sim, capitã.
Sarah notou a pausa.
Pequena, mas existente.
A obediência dele continuava intacta. O problema era descobrir a quem ela pertenceria se, algum dia, as ordens de Sarah colidissem com as da Terra.
A escotilha abriu.
O ar de Éden-9 entrou no Vega com o mesmo perfume úmido e mineral da primeira saída. Sarah desceu primeiro. A trilha luminosa reagiu ao peso dela com um pulso azul. Quando Roberta pisou em seguida, o dourado reapareceu, espalhando-se em pequenos ramos de luz antes de se recolher ao caminho principal.
Sarah e Sergey viram.
Roberta fingiu que não percebeu que ambos haviam percebido.
Começaram a caminhar.
A trilha atravessava a clareira e entrava na mata por uma abertura natural entre duas árvores altas. De perto, as árvores eram ainda mais estranhas. Os troncos, negros e lisos, não tinham casca como as da Terra. Pareciam feitos de um material entre madeira, pedra e tecido vivo. Por dentro deles, veios luminosos corriam lentamente, subindo das raízes até as copas em intervalos irregulares.
As folhas pendiam como fios finíssimos, quase transparentes. Quando a equipe passava, elas vibravam sem tocar ninguém, emitindo sons muito baixos, como sinos de vidro molhado. O chão era firme, mas vivo. A cada passo, filamentos se acendiam sob as botas e apagavam em seguida. Não havia a sensação de pisar sobre terra morta. Havia a impressão perturbadora de andar sobre algo que registrava cada presença.
Roberta caminhava em silêncio.
Sarah preferia assim.
O silêncio de Roberta não era vazio. Era atenção. Os olhos dela percorriam cada detalhe: a forma como as raízes evitavam a trilha, os pequenos organismos translúcidos presos aos troncos, o pólen dourado que acompanhava o grupo de longe, a luz que mudava quando Sergey se aproximava com o equipamento de contenção.
Sarah já tinha visto pessoas deslumbradas.
Cientistas diante de descobertas.
Soldados diante de naves.
Civis diante da órbita.
Mas o deslumbramento de Roberta era diferente. Não parecia apropriação. Ela não olhava para Éden-9 como quem pensa “isso é meu porque descobri”. Olhava como quem pensa “isso existe, e eu tive a sorte de chegar perto”.
Era uma diferença perigosa.
Perigosa porque Sarah entendia.
— A trilha está se ajustando — disse Asha pelo comunicador.
Sarah parou.
— Explique.
— A linha luminosa altera intensidade antes de cada bifurcação vegetal. Como se estivesse reduzindo ambiguidade de rota.
Mei entrou no canal:
— O planeta tem sistema de navegação melhor que alguns pilotos que conheci.
— Foque no Vega — disse Sarah.
— Estou focando. Com estilo.
Samira ajoelhou-se perto de uma raiz que cruzava a borda da trilha, sem tocá-la.
— A luz diminui quando nos aproximamos demais e volta quando recuamos. Isso pode ser sistema de limite.
Roberta agachou-se a uma distância segura.
— Ou cortesia.
Sergey olhou para ela.
— Até raízes são educadas agora?
— Talvez mais do que nós.
Sarah virou apenas o rosto.
— Doutora.
Roberta ergueu as mãos.
— Comentário contido.
Continuaram.
A mata não era densa como uma floresta tropical terrestre, mas parecia profunda de outro modo. Havia espaço entre as árvores, corredores naturais, clareiras pequenas e formações de raízes que subiam como arcos. Ainda assim, Sarah tinha a sensação constante de que o caminho se fechava atrás deles, não para prendê-los, mas para guardar o rastro.
A fauna apareceu aos poucos.
Primeiro, os véus-de-prata. Pequenos, silenciosos, sem olhos visíveis, movendo-se entre a vegetação como pensamentos com patas. Depois, criaturas menores, parecidas com insetos de vidro, com asas que não batiam, apenas vibravam em torno de núcleos luminosos. Samira registrou tudo. Roberta deu nomes mentais, Sarah tinha certeza, embora não ousasse dizê-los em voz alta.
Em um galho alto, um planador translúcido abriu as membranas laterais e deslizou sobre eles. Sua sombra passou pelo rosto de Roberta, que olhou para cima com uma expressão tão genuinamente maravilhada que Sarah sentiu um incômodo físico.
Não era atração apenas.
Era pior.
Era vontade de proteger aquela expressão.
Sarah voltou o olhar para frente com mais força do que o necessário.
A colônia surgiu depois de quarenta minutos de caminhada.
Primeiro, um reflexo metálico entre as árvores.
Depois, linhas retas demais para pertencerem à floresta.
Depois, a estrutura inteira.
Aurora Prime.
Sarah havia estudado plantas, maquetes, projeções, reconstruções digitais e simulações de dano. Nada daquilo preparava para ver a colônia real integrada ao corpo de Éden-9.
Os módulos principais permaneciam de pé. As paredes metálicas, construídas para suportar clima alienígena, ainda guardavam o cinza fosco da tecnologia terrestre. Mas raízes claras envolviam as estruturas sem esmagá-las. Membranas translúcidas selavam rachaduras nas cúpulas. Torres de comunicação quebradas eram sustentadas por troncos flexíveis, como se a floresta tivesse impedido sua queda. Cabos antigos desapareciam dentro de fibras orgânicas que pulsavam em azul.
A colônia não parecia abandonada ou conquistada, ela parecia cuidada.
Essa era a palavra que Sarah não queria usar.
Cuidada.
Samira falou baixo:
— Não há sinais de incêndio generalizado.
Sergey observava os acessos com rigidez.
— A vegetação compromete visibilidade. Potencial de emboscada elevado.
Roberta não respondeu.
Estava olhando para uma parede lateral do primeiro módulo, onde o antigo emblema da missão Aurora Prime ainda era visível. A Terra estilizada, os arcos orbitais, o nome da colônia. Parte do símbolo havia sido atravessada por filamentos luminosos que não o apagavam. Apenas o completavam de forma estranha.
Roberta se aproximou dois passos.
Sarah a acompanhou imediatamente.
— Devagar.
— Eu sei.
A voz dela estava diferente.
Mais baixa.
Diante do módulo, a trilha se dividia em três caminhos. Um seguia para a entrada principal. Outro contornava a estrutura. O terceiro descia em direção a uma área coberta por vegetação azulada, onde pequenas flores translúcidas cresciam ao redor de uma antiga placa de identificação.
Roberta virou-se para essa área.
Sarah percebeu o interesse antes que ela se movesse.
— Doutora Almeida.
Roberta parou.
— Tem uma variação ali.
— Defina.
— A flora perto da placa é diferente. Menor, mais clara. E está reagindo à nossa presença.
Sergey respondeu:
— Justamente por isso não devemos nos aproximar.
Roberta não desviou os olhos.
— Eu não vou tocar.
Sarah avaliou a distância, os sensores e o comportamento das plantas. A área ficava dentro do perímetro da trilha. O solo estava estável. As flores emitiam pulsos fracos, não agressivos.
— Cinco passos — autorizou Sarah. — Eu vou com você.
Roberta olhou para ela.
— Obrigada.
As duas avançaram.
De perto, as flores pareciam pequenas taças de vidro leitoso, com filamentos internos dourados. Cresciam em torno de uma placa parcialmente coberta por poeira e raízes finas. Sarah limpou a imagem com ampliação do visor.
Laboratório de Xenobotânica
Setor 3
Roberta ficou imóvel.
— Foi daqui que eles pararam de responder na transmissão de Iara.
Sarah lembrava.
“A equipe de xenobotânica não responde desde ontem.”
As palavras antigas atravessaram o espaço entre elas como uma corrente fria.
Roberta agachou-se, mantendo as mãos próximas ao corpo.
— Elas cresceram só aqui.
— Pode ser contaminação local.
— Pode.
— Pode ser marcação de evento.
— Também.
O problema de Roberta era esse. Ela aceitava possibilidades sem transformá-las imediatamente em território de disputa. Sarah estava acostumada a pessoas que usavam hipóteses como armas. Roberta parecia usá-las como portas.
Uma das flores se abriu.
O movimento foi tão rápido e delicado que Sarah quase não reagiu. Primeiro, a taça translúcida se expandiu. Depois, um filamento dourado saiu do centro, fino como fio de cabelo, flutuando no ar.
— Roberta, recue.
A astrobióloga começou a se mover, mas o filamento chegou antes.
Tocou o dorso da mão dela, acima da luva.
A reação de Sarah foi imediata.
Ela segurou o antebraço de Roberta e puxou-a para trás, colocando o próprio corpo entre ela e a planta. A arma não letal saiu do coldre em menos de um segundo, apontada para o chão, não para a flor, mas pronta.
— Samira!
A médica correu até elas.
Sergey já havia levantado o equipamento de contenção.
— Afastar! — ordenou ele.
— Ninguém dispara — disse Sarah, a voz dura.
Roberta estava atrás dela, respirando rápido.
A flor não avançou.
O filamento dourado permaneceu suspenso por um instante, depois recolheu-se lentamente para dentro da taça. As outras flores ao redor começaram a acender em sequência, uma luz suave, quase tímida.
Samira segurou a mão de Roberta e passou o scanner pela luva.
— Integridade do traje preservada. Sem perfuração. Sem alteração térmica. Sem transferência química detectável. Roberta, sente alguma coisa?
Roberta olhou para a própria mão.
— Não. Quer dizer... não dor. Não queimor. Só...
— Só?
Roberta olhou para as flores.
— Vibração.
Sarah virou-se para ela.
— Vibração onde?
— Na mão. Como quando você encosta em uma caixa de som muito baixa. Mas já passou.
Samira continuou a leitura.
— Nenhuma reação fisiológica grave. Frequência cardíaca elevada, mas isso pode ser do susto.
— Definitivamente do susto — disse Roberta, ainda olhando para Sarah.
Havia algo nos olhos dela que Sarah não esperava.
Não apenas medo.
Admiração.
E isso a deixou quase mais exposta do que o susto.
— Eu mandei recuar — disse Sarah, mais ríspida do que pretendia.
Roberta piscou.
— Eu estava recuando.
— Lento demais.
— A flor é que foi rápida demais.
— Essa não é uma justificativa tranquilizadora.
— Não tentei tranquilizar.
Sarah percebeu que ainda segurava o antebraço dela.
Soltou.
Rápido demais.
Samira observou o gesto, mas teve a gentileza profissional de não comentar.
Sergey se aproximou, irritado.
— Capitã, essa é exatamente a razão pela qual contato não autorizado deve ser tratado como risco. A doutora Almeida se aproximou de um organismo desconhecido e provocou interação.
Roberta virou-se.
— Eu não provoquei. Eu observei.
— Sua observação resultou em contato.
— A planta se moveu.
— Então era ameaça.
Sarah entrou antes que Roberta respondesse.
— Não houve dano. Não houve perfuração. Não houve reação agressiva. O incidente será registrado e o perímetro ao redor da flora será restrito.
Sergey pareceu conter uma objeção.
— Sim, capitã.
Sarah não gostou da forma como ele disse.
Roberta se aproximou novamente da placa, mas parou dentro do limite que Sarah indicou.
— Ela não tentou me ferir.
— Você não sabe disso.
— Não. Mas eu senti.
Sarah deu um passo em sua direção.
— Sentir não basta.
Roberta olhou para ela.
— Eu sei. Mas também não dá para ignorar.
As flores continuavam acesas. A luz delas pulsava no mesmo ritmo da trilha que os levara até ali. Pequenas partículas douradas subiam e desapareciam antes de alcançar a altura do rosto.
Roberta falou mais baixo:
— Na Terra, existem plantas que respondem ao toque. Existem organismos que liberam sinais químicos quando ameaçados. Mas isso... foi quase uma pergunta.
— Você está dizendo que a flor perguntou algo?
— Não com palavras.
— Roberta.
Ela respirou fundo.
— Eu sei como soa. Mas pense: ela não tocou minha pele. Tocou a luva. Tocou a barreira entre nós. Como se quisesse entender o que nos separa.
A frase ficou entre elas.
Sarah olhou para a própria luva.
Depois para a flor.
Depois para a placa do laboratório.
Setor 3.
O lugar onde, talvez, os primeiros cientistas humanos tivessem tentado fazer o que Roberta estava fazendo agora: chegar perto o suficiente para entender, não longe o suficiente para dominar.
E algo havia dado errado.
Ou certo demais.
— Samira, marque essa flora como organismo de contato sensível. Coleta proibida. Monitoramento remoto.
— Registrado.
— Asha, recebeu tudo?
A voz da navegadora veio da Aurora:
— Recebi. O padrão luminoso após o toque foi semelhante a reconhecimento de barreira. Não tenho tradução melhor.
Sergey falou:
— Isso é especulação.
Asha respondeu:
— Sim. Mas é especulação baseada em dados. A sua também.
Mei, do Vega, murmurou:
— Finalmente alguém disse.
Sarah cortou o canal secundário antes que a discussão se espalhasse.
— Vamos seguir para a entrada principal.
Roberta ainda olhava para as flores.
Sarah se aproximou um pouco, o bastante para falar apenas com ela.
— Você está bem?
A pergunta saiu antes que ela pensasse em formulá-la de modo mais impessoal.
Roberta olhou para Sarah com suavidade.
— Estou. Obrigada por agir rápido.
— Era minha função.
— Eu sei.
Roberta sorriu de leve.
— Mas nem todo mundo faz a própria função parecendo que arrancaria uma floresta do caminho se fosse preciso.
Sarah não soube o que responder.
A frase deveria ser exagerada.
Talvez fosse.
Mesmo assim, atingiu um lugar que Sarah preferia manter em silêncio.
— Não romantize reação de emergência — disse, por fim.
O sorriso de Roberta cresceu apenas um pouco.
— Vou tentar.
— Tente mais.
Roberta desviou o olhar, mas Sarah percebeu que ela ainda sorria.
A irritação que sentiu não era irritação.
Isso foi pior.
A entrada principal da Aurora Prime estava aberta.
A porta externa, projetada para resistir a tempestades e impacto, havia sido parcialmente deslocada. Não parecia arrombada. Raízes claras passavam por suas bordas e a mantinham suspensa em um ângulo seguro, como se a floresta tivesse decidido que aquela passagem deveria permanecer disponível.
Sarah entrou primeiro.
O interior da colônia era frio e úmido.
Não abandonado.
Essa impressão voltou com força.
Corredores metálicos se estendiam à frente, cobertos por finas camadas de vegetação luminosa. Os painéis de energia estavam apagados, mas algumas luzes orgânicas acompanhavam o teto, oferecendo claridade suficiente para caminhar. Havia objetos humanos no chão: uma caneca presa por raízes, uma prancheta digital sem energia, um brinquedo infantil parcialmente envolvido por membranas translúcidas.
O brinquedo fez Samira parar por um segundo.
Sarah também viu.
Um pequeno animal de pano.
Azul.
Muito antigo para estar tão preservado.
— A colônia tinha crianças — disse Roberta.
— Tinha famílias — respondeu Samira.
Sergey examinava as laterais do corredor.
— Sem corpos.
Essa era a parte que ninguém queria dizer. Não havia corpos. Não havia sinais de massacre nem desespero visível.
Havia ausência organizada.
Asha enviou um mapa parcial para os visores.
— O núcleo administrativo fica a cento e vinte metros. Laboratório de xenobotânica à esquerda, mas a passagem está bloqueada. Centro de comunicações mais adiante.
Sarah olhou para o corredor principal.
— Seguimos para o núcleo administrativo. Nada de salas laterais.
Roberta olhou para o corredor que levava ao laboratório.
Sarah percebeu.
— Nem pense.
— Eu não disse nada.
— Seu rosto disse.
— Meu rosto tem pouca disciplina militar.
— Estou percebendo.
Roberta quase riu.
O som ficou preso quando uma voz surgiu no corredor.
Baixa.
Feminina.
Distante.
Não veio do comunicador.
Não veio da Aurora.
Veio de dentro da colônia.
— Vocês demoraram.
Todos pararam.
Sergey ergueu a arma.
Sarah levantou a mão, impedindo qualquer avanço.
No fim do corredor, as luzes orgânicas começaram a se acender uma a uma.
Uma figura apareceu na passagem, era humana, ou quase humana.
Alta, de pele acobreada, cabelos muito longos entrelaçados com fios claros que poderiam ser tecido ou filamentos vivos. Vestia uma roupa feita de fibras naturais, em tons de marfim e verde escuro. Os olhos refletiam a luz do corredor de um modo que não era inteiramente humano.
Mas o rosto era humano.
Cansado, sereno e familiar por causa dos arquivos.
Samira sussurrou:
— Iara Mendonza.
Sarah sentiu o mundo estreitar.
A governadora da última transmissão. A mulher que deveria estar mais de três décadas mais velha. A líder da colônia perdida.
Iara olhou para Sarah, depois para Sergey, depois para Samira.
Por fim, seus olhos pousaram em Roberta.
A luz das paredes mudou.
Não muito.
O suficiente.
— A que pediu licença — disse Iara.
Roberta ficou imóvel.
Sarah deu um passo à frente, colocando-se parcialmente entre ela e a figura.
— Governadora Iara Mendonza?
A mulher sorriu com tristeza.
— Esse era meu título quando eu ainda acreditava que títulos explicavam alguma coisa.
Sergey falou baixo, tenso:
— Capitã, recomendo recuo imediato.
Iara olhou para ele.
— O soldado ainda fala antes do medo.
Sergey enrijeceu.
Sarah manteve a voz firme.
— Somos a tripulação da nave Aurora. Viemos investigar a perda de contato com Aurora Prime e confirmar sobreviventes.
Iara observou o corredor ao redor, como se a palavra sobreviventes tivesse muitas camadas.
— Vocês sempre chegam com palavras pequenas para coisas grandes.
Roberta deu um passo mínimo ao lado de Sarah.
— A colônia está viva?
Iara olhou para ela.
— A colônia mudou.
— E as pessoas?
A pergunta saiu mais emocional do que Roberta pretendia.
Iara inclinou a cabeça.
— Também.
Sarah sentiu cada sistema de alerta dentro de si acender.
Não era ameaça clara, aquilo era confirmação de que a missão havia atravessado uma fronteira sem saber o preço.
— Precisamos conversar — disse Sarah.
Iara sorriu.
— Eu sei.
As luzes do corredor se acenderam até o fundo, revelando uma passagem que seguia para o interior da colônia.
Como a trilha na floresta. Como a resposta à música. Como se Éden-9, desde o começo, não estivesse apenas permitindo que eles avançassem, estivesse escolhendo quando.
Sarah olhou para Roberta por um instante.
A astrobióloga parecia assustada, deslumbrada e profundamente presente.
Depois olhou para Iara.
— Antes de qualquer movimento, preciso garantir a segurança da minha equipe.
Iara assentiu.
— Então venha devagar, capitã.
A forma como ela disse o título fez Sarah sentir que a mulher sabia mais do que deveria.
— É assim que este mundo entende quem ainda pode aprender.
Sarah não respondeu.
Apenas manteve a mão afastada da arma, a postura firme e os olhos atentos.
Atrás dela, Roberta respirava o mesmo ar.
À frente, a colônia perdida aguardava.
E nas paredes, as raízes luminosas pulsavam como se Aurora Prime tivesse um coração próprio.
Fim do capítulo
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