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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 5187
Acessos: 81   |  Postado em: 15/06/2026

A cidade que respira

Roberta Almeida

 

Roberta dormiu pouco durante à noite, na verdade, não tinha certeza se havia dormido.

Houve momentos em que o corpo pareceu cair em algum tipo de exaustão, mas a mente continuou acesa, atravessando imagens soltas, pedaços de lembrança, vozes que não pertenciam ao mesmo tempo.

Viu a estação de trem outra vez.

Não inteira. Só a plataforma molhada, os trilhos desaparecendo na névoa e a sensação de que alguém tinha acabado de partir.

Depois, a cozinha da avó Jandira. A mesa coberta por uma toalha amarela, café coado no pano, cheiro de bolo de milho e chuva batendo no quintal. A avó não aparecia por completo. Apenas as mãos. Mãos enrugadas, fortes, descascando laranja com uma faca pequena.

“Nem toda raiz quer prender, Beta. Algumas só querem lembrar onde a água fica.”

A frase não era uma lembrança exata.

Ou talvez fosse.

Depois veio Isabele.

Não como no pré-despertar criogênico. Não havia estação, nem despedida, nem trem. Só uma imagem rápida: Isabele rindo de alguma coisa em uma varanda, o rosto iluminado por um fim de tarde antigo. A imagem durou pouco, mas o sentimento ficou. Não dor. Não saudade pura. Algo mais estranho.

Como se uma parte de Roberta tivesse sido tocada por dentro e devolvida fora de ordem.

Quando abriu os olhos, estava no alojamento da Aurora.

A luz artificial do ciclo matinal ainda era baixa. O quarto tinha a temperatura controlada, o ar filtrado, as paredes claras demais para acolher qualquer pesadelo. Mesmo assim, Roberta demorou a reconhecer onde estava.

A nave.

A missão.

Éden-9.

Sarah.

O quase beijo surgiu na memória com uma nitidez cruel. Não tinha acontecido nada, mas também não era verdade dizer que nada havia acontecido.

Roberta ficou imóvel, encarando o teto, tentando decidir se era mais sensato fingir que tudo se resumia à tensão emocional de uma missão impossível ou admitir que, por alguns segundos, Sarah Solano havia olhado para ela como quem queria atravessar uma fronteira e não sabia se ainda tinha direito.

Depois Aurora interrompera.

Uma comunicação lacrada da Terra.

Prioridade máxima.

Autenticação de comando.

Sarah não abrira o arquivo diante dela. Isso deveria ter tranquilizado Roberta. Em vez disso, criou um espaço vazio onde a desconfiança começou a crescer.

É da Terra?

Tem relação com o que Naya disse?

Sarah não tinha respondido de verdade.

Apenas disse que precisava ir.

E foi.

Mesmo sem vontade.

Roberta tinha percebido isso. O corpo de Sarah se afastara antes do olhar. Como se a capitã tivesse precisado ordenar a si mesma que saísse.

O comunicador em seu pulso vibrou.

— Doutora Almeida — chamou Aurora. — Reunião estratégica em vinte minutos no convés secundário de análise. Presença solicitada pela capitã Solano.

Roberta fechou os olhos por um segundo.

— A capitã usou exatamente essas palavras?

— A capitã utilizou uma formulação mais objetiva. Eu adaptei para reduzir a hostilidade matinal.

— Aurora.

— Sim?

— Você está desenvolvendo senso de humor ou problemas de convivência?

— A fronteira entre os dois parece culturalmente instável doutora.

Roberta soltou um riso baixo, cansado.

— Vinte minutos?

— Dezenove, agora.

— Obrigada pelo incentivo.

— Disponha.

Roberta se levantou.

Enquanto se preparava, tentou organizar a própria mente como faria antes de qualquer trabalho de campo: hipóteses, evidências, riscos, perguntas. Mas Éden-9 resistia a esse tipo de arrumação. Não porque recusasse ciência. Pelo contrário. O planeta parecia exigir uma ciência maior, mais honesta, menos viciada em transformar tudo em objeto antes de entender a relação.

As partículas orgânicas reagiam à voz.

A floresta respondia à tensão.

Naya percebia intenções não ditas.

A comunidade adaptada vivia em simbiose com a biosfera.

E agora os sonhos.

Roberta não sabia ainda se aquilo era influência direta, memória ativada por estresse, resíduo da criogenia ou alguma forma de comunicação que usava lembranças como vocabulário, mas sabia que não era aleatório, nada em Éden-9 parecia ser.

Quando chegou ao convés secundário de análise, todos já estavam lá.

Sarah ocupava a cabeceira da mesa, de uniforme limpo, cabelos presos, postura impecável. Impecável demais. Roberta aprendeu, nas últimas horas, que quanto mais controlada Sarah parecia, mais alguma coisa dentro dela provavelmente sangrava sem autorização.

A capitã olhou para Roberta por um instante, apenas um instante e aquilo foi o bastante. O quase beijo passou entre as duas como uma corrente elétrica silenciosa.

Nenhuma comentou.

Sergey estava sentado à esquerda, braços cruzados, expressão séria, mas não agressiva. Samira revisava registros médicos. Asha tinha três telas abertas com gráficos de atividade neural, luminosidade orbital e ondas de comunicação. Mei girava uma pequena ferramenta entre os dedos, impaciente demais para parecer relaxada.

Aurora projetou no centro da mesa uma imagem tridimensional da região da colônia: o Vega, a trilha luminosa, o perímetro externo, a entrada de Aurora Prime e o núcleo da comunidade onde Naya e Iara haviam recebido a equipe.

Sarah começou sem rodeios.

— Antes de decidirmos nova descida, precisamos revisar o que aconteceu após o retorno. Samira.

A médica ativou um painel.

— Todos os membros que tiveram contato direto com a superfície apresentaram sono fragmentado ou relatos de memória intensa durante o período de repouso. Não encontrei sinais de lesão neurológica, inflamação, febre, contaminação agressiva ou alteração cognitiva incapacitante. Mas há um padrão.

Mei ergueu a mão sem esperar autorização.

— Posso registrar oficialmente que sonhei com minha instrutora de voo me mandando pousar em cima de uma baleia?

Asha olhou para ela.

— Uma baleia?

— Com asas.

— Isso parece menos memória e mais culpa alimentar.

— Eu não como baleia.

— No sonho talvez comesse.

Mei apontou a ferramenta para Asha.

— Você está proibida de analisar meu subconsciente.

Samira pigarreou.

— Como eu dizia. O conteúdo dos sonhos varia, mas todos relatam sensação de lembrança aumentada. Não sonhos comuns. Algo com textura emocional muito forte.

Sergey permaneceu calado por um segundo. Depois disse:

— Eu vi meu filho.

A sala mudou.

Ele não olhou para ninguém.

— Mikhail estava em um campo que não existe. Pelo menos não na Terra. Havia árvores como as de Éden-9, mas ele usava o casaco que minha mãe fez para ele. Ele perguntava por que eu estava com medo se tinha dito a ele que coragem era fazer o certo.

Mei parou de girar a ferramenta.

Asha baixou os olhos para a tela.

Roberta observou Sergey com cuidado. O homem parecia desconfortável com a própria confissão, mas não arrependido de tê-la feito. Como se admitir aquilo fosse menos perigoso do que continuar sozinho com a imagem.

— Você acha que foi o planeta? — perguntou Samira.

Sergey respirou fundo.

— Acho que não sei. E isso me incomoda mais do que a resposta sim.

Roberta entendeu.

Quase sorriu, não por humor, mas por reconhecimento. Sergey estava tentando. Do jeito dele, com rigidez nas bordas, mas tentando.

Asha assumiu a projeção seguinte.

— Durante o ciclo de repouso da equipe, a superfície de Éden-9 apresentou três picos de atividade luminosa ao redor de Aurora Prime e da zona do lago ao norte. Os picos coincidiram com nossos períodos de sono profundo, dentro de uma margem estatística relevante.

— Você está dizendo que ele sonhou junto? — perguntou Mei.

— Estou dizendo que há correlação temporal entre nossa atividade neurológica e a atividade do planeta.

— Eu preferia a baleia.

Sarah olhou para Asha.

— Há indício de transmissão direcionada à nave?

— Não nos moldes convencionais. Nenhuma invasão de sistema, nenhum sinal eletromagnético agressivo, nenhuma tentativa de acesso à Aurora. Mas as partículas trazidas da superfície continuam reagindo a estímulos humanos, mesmo isoladas.

Samira completou:

— O material não está se multiplicando em ambiente controlado. Não está atacando tecidos. Não é infeccioso no sentido clássico. Mas responde.

— A intenção — disse Roberta, antes de perceber que havia falado.

Todos olharam para ela.

Sarah também.

Roberta sentiu o olhar da capitã com uma precisão incômoda. Era como se parte da conversa que não tiveram ainda estivesse aberta entre as duas, ocupando espaço na mesa junto com os mapas e relatórios.

— Explique — pediu Sarah.

A palavra foi formal.

O tom não.

Roberta apoiou as mãos na borda da mesa.

— Talvez estejamos pensando em influência do jeito errado. Como invasão, controle, manipulação. Pode ser. Não podemos descartar. Mas Éden-9 parece funcionar por relação. Tudo nele responde a contato: luz, som, presença, conflito, cuidado. Talvez as memórias não sejam algo que ele coloca em nós. Talvez sejam algo que ele faz emergir quando entramos no campo dele.

Sergey franziu o cenho.

— Isso ainda pode ser manipulação cognitiva.

— Pode. Mas também pode ser comunicação.

— Comunicação sem consentimento é violação.

Roberta abriu a boca para responder, mas Sarah entrou antes.

— Sergey tem razão quanto ao risco.

A frase acertou Roberta mais do que deveria.

Sarah continuou:

— E Roberta tem razão quanto à hipótese relacional. Tratar como ataque antes de entender o mecanismo pode nos levar a uma resposta desproporcional. Tratar como milagre pode nos deixar vulneráveis. Vamos trabalhar no meio.

Roberta ficou em silêncio.

Não era uma defesa.

Mas também não era uma recusa.

Sarah não estava se afastando dela naquela reunião. Estava tentando manter as duas coisas vivas: segurança e escuta.

O problema era o que mais Sarah mantinha vivo sem contar.

Roberta desviou o olhar.

Samira percebeu.

Claro que percebeu.

A médica sempre parecia saber quando uma ferida ainda não tinha nome.

Sarah ativou a imagem de Aurora Prime.

— A conclusão operacional é simples. Precisamos de mais dados. Dados sobre o planeta, sobre a comunidade adaptada, sobre o modo como eles interagem com a biosfera e sobre os limites dessa comunicação.

— Concordo — disse Asha. — A distância orbital já não basta. As leituras mais importantes estão acontecendo no contato direto.

— E no contato direto o planeta responde melhor à doutora Almeida — disse Sarah.

O silêncio que veio depois teve outra qualidade.

Roberta olhou para ela.

— A mim?

Sarah sustentou o olhar, mas havia algo tenso em sua expressão.

— Desde a primeira aproximação, Éden-9 respondeu de forma mais estável quando você conduziu o contato. A floresta reduziu atividade defensiva quando você sugeriu observação não invasiva. A trilha luminosa se manteve constante na sua presença. Naya direcionou boa parte da comunicação a você antes de se voltar a mim. E a comunidade parece reconhecer em você uma via de diálogo.

Mei ergueu as sobrancelhas.

— Em termos menos elegantes: o planeta gostou dela.

Aurora respondeu pelo sistema:

— Formulação emocionalmente simplificada, mas não incompatível com os dados disponíveis.

Roberta não sabia se ria ou se se preocupava.

— Isso não significa que eu seja uma chave.

— Não — disse Sarah. — Significa que você é nossa melhor porta de entrada.

A frase ficou entre as duas.

Porta de entrada.

Roberta pensou na avó. Em raízes. Em água. Em portas que não prendiam, só indicavam passagem.

— Qual abordagem? — perguntou.

Sarah pareceu aliviar o peso nos ombros, quase nada.

— Reconhecimento. Não negociação formal. Não coleta. Não exigência. Voltaremos à superfície com equipe reduzida. O Vega pousa no mesmo ponto. Mei permanece no módulo. Samira e Sergey ficam no perímetro externo, com comunicação aberta e distância segura. Asha monitora da Aurora. Apenas eu e você entraremos em Aurora Prime.

Sergey endireitou-se imediatamente.

— Capitã, isso reduz proteção direta.

— Reduz presença armada no interior da comunidade.

— E aumenta sua exposição.

— Estou ciente.

— Não recomendo que a capitã entre com apenas uma especialista civil.

Roberta sentiu a palavra civil como uma pedra pequena no sapato, mas Sergey não a disse com desprezo. Disse com medo e Sarah também pareceu perceber.

— A recomendação está registrada. Mas uma entrada com segurança completa pode ser interpretada como pressão. Depois do que Naya disse, qualquer demonstração de força pode fechar a comunidade para nós.

Sergey apertou o maxilar.

— E se for uma armadilha?

Sarah respondeu com calma.

— Então você estará no perímetro para nos retirar.

Ele sustentou o olhar dela.

— Isso é uma ordem?

— É confiança operacional.

A frase pareceu desarmá-lo mais do que uma ordem faria.

Sergey ficou alguns segundos calado.

— Estarei pronto.

— Eu sei.

Roberta observou aquela troca com atenção. Sarah dava a Sergey uma função que ele compreendia. Não o humilhava por ter medo. Não o deixava comandar o medo dos outros. Era uma linha difícil de manter e Sarah mantinha com o mesmo rosto que, horas antes, quase havia beijado Roberta na luz de Éden-9. Roberta odiou um pouco a própria mente por lembrar disso naquele momento.

A reunião terminou com um plano claro.

Nova descida em noventa minutos.

Sem armas letais.

Registro aberto.

Transmissão prévia para a comunidade.

Roberta como interlocutora científica principal.

Sarah como comando e testemunha.

Essa última palavra foi de Samira.

— Testemunha? — Sarah perguntou.

— Sim — respondeu a médica. — Talvez esta missão precise menos de alguém que leve respostas prontas e mais de alguém que veja direito o que está diante de nós.

Sarah não gostou da observação.

Por isso mesmo, Roberta suspeitou que Samira estivesse certa.

Antes de saírem, Sarah aproximou-se dela.

Não muito.

Apenas o suficiente para que a conversa não pertencesse mais à equipe inteira.

— Doutora Almeida.

Roberta quase sorriu pelo retorno do título.

Quase.

— Capitã.

O formalismo entre elas pareceu ridículo e necessário ao mesmo tempo.

Sarah baixou a voz.

— Se em algum momento você sentir que Éden-9 está ultrapassando um limite, quero que diga.

— Mesmo que eu não consiga provar?

— Especialmente se não conseguir.

Roberta olhou para ela. Havia cuidado ali, cuidado verdadeiro, mas também havia algo guardado atrás dele.

— E se eu sentir que você está ultrapassando um limite?

Sarah ficou imóvel.

A pergunta foi baixa. Só delas.

A expressão da capitã não se alterou muito, mas os olhos sim.

— Então diga também.

Roberta assentiu.

— Certo.

Por um segundo, o quase beijo voltou. Não como desejo apenas. Como pergunta.

Sarah afastou-se primeiro.

De novo.

E Roberta ficou com a sensação de que, se Éden-9 realmente escutava intenções, o planeta devia estar cansado da capacidade humana de quase dizer as coisas.

A segunda descida foi mais silenciosa do que a primeira. Não havia o mesmo assombro inaugural. A superfície já não era o impossível surgindo pela primeira vez, mas algo talvez mais perturbador: um lugar ao qual estavam retornando.

O Vega atravessou a atmosfera com menos instabilidade. Mei pilotou com precisão contida, embora não resistisse a murmurar comentários para os próprios painéis.

— Muito bem, querido módulo, sem drama hoje. Já temos drama emocional suficiente a bordo.

Roberta fingiu não ouvir.

A trilha luminosa reacendeu quando o Vega se aproximou da zona de pouso. Não surgiu como explosão, nem como alerta. Apenas acordou no solo, uma linha azul-esverdeada correndo entre as raízes baixas, atravessando a clareira e seguindo até a entrada da floresta.

— Ele sabia que voltaríamos — disse Asha pelo comunicador.

— Ou esperava — respondeu Roberta.

Ninguém corrigiu a palavra.

O pouso foi suave.

Quando a escotilha se abriu, o ar de Éden-9 entrou no módulo com seu cheiro mineral, úmido, floral. Roberta respirou com cuidado. O filtro leve no colar do traje permaneceu ativo, mas não havia máscaras cobrindo os rostos. Depois das análises do dia anterior, Samira autorizara exposição respiratória parcial, monitorada, com bloqueio de partículas de alta densidade.

Era estranho sentir um planeta desconhecido diretamente na pele.

Estranho e íntimo demais.

Lá fora, a floresta parecia menos surpresa com eles. Ou talvez Roberta estivesse menos surpresa com ela.

Pequenos animais luminosos moviam-se entre os galhos altos. Não voavam exatamente. Deslizavam de uma árvore a outra apoiados em membranas finas, quase transparentes, que captavam correntes de ar e filamentos de luz. Ao pousarem nos troncos, suas patas se abriam como pequenas raízes, tocando a casca viva. A árvore respondia com brilho. Eles, em troca, liberavam uma poeira prateada que desaparecia nas fissuras da madeira.

Não pareciam visitantes da floresta, pareciam pensamentos dela ganhando corpo por alguns segundos. Mais adiante, uma criatura baixa cruzou a trilha. Tinha o dorso coberto por musgo azul e seis patas longas demais para o tamanho do corpo. Parou ao perceber a equipe, ergueu uma cabeça estreita, sem olhos visíveis, e vibrou. O solo sob ela respondeu com um pulso suave. Depois, a criatura continuou andando, completamente desinteressada na importância histórica da presença humana.

Mei observou da escotilha.

— Eu oficialmente desisto de nomear qualquer coisa nesse planeta.

— Decisão sábia — disse Aurora pelo comunicador. — Sua primeira sugestão registrada foi “panqueca de pernas”.

— Era descritivo.

Sergey examinava o entorno, mas não levou a mão à arma de contenção.

Roberta reparou.

Sarah também.

Samira ajustou o visor médico.

— Sinais vitais estáveis. Partículas dentro do previsto. Nenhuma reação inflamatória aguda.

Sarah assentiu.

— Mei, permaneça com o Vega. Asha, mantenha canal aberto. Samira, Sergey, perímetro externo até a primeira marca de raiz. Sem avançar salvo emergência.

Sergey olhou para a trilha.

— Entendido.

Sarah virou-se para Roberta.

— Vamos.

A palavra era simples, mas Roberta ouviu o que havia sob ela.

Venha comigo.

Ou talvez fosse apenas o que ela queria ouvir.

As duas seguiram pela trilha luminosa.

Dessa vez, sem toda a equipe entre elas, Éden-9 pareceu mais próximo. A floresta não era silenciosa. Nenhuma floresta era. Mas os sons ali não obedeciam à lógica terrestre: estalos úmidos sob a terra, vibrações baixas nos troncos, folhas emitindo notas quase inaudíveis, animais respondendo com luz em vez de canto.

Sarah caminhava ao lado dela, não à frente, Roberta percebeu isso depois de alguns metros.

— Você não está me usando como escudo diplomático, está?

Sarah olhou para ela.

— Não.

— Porque tecnicamente “porta de entrada” pode ser uma função perigosa.

— Eu sei.

— Ótimo. Só verificando se eu virei equipamento de missão.

Sarah parou por um instante. Roberta também.

A luz da trilha continuou adiante, paciente.

— Você não é equipamento — disse Sarah.

A resposta veio séria demais para a provocação.

Roberta perdeu parte do sorriso.

— Eu sei.

Sarah sustentou o olhar dela.

— Quero que saiba de mim.

Havia ali uma reparação pequena, não pelo segredo que Sarah ainda mantinha, mas por algo que ela parecia temer se tornar.

Roberta assentiu.

— Então não me trate como ferramenta quando ficar com medo.

Sarah desviou os olhos para a trilha.

— Vou tentar.

Não era uma promessa bonita.

Era melhor.

Era possível.

Aurora Prime surgiu entre as árvores como algo que havia deixado de ser ruína sem voltar a ser cidade humana.

Roberta parou.

Na primeira visita, o impacto fora atravessado por tensão, presença de Naya, alerta, mistério. Agora, com menos gente e mais silêncio, ela pôde realmente ver.

As antigas estruturas coloniais ainda estavam ali: módulos de habitação, passarelas elevadas, cúpulas de observação, torres de comunicação. Mas nenhuma delas permanecia apenas metal, vidro ou polímero. Raízes claras subiam pelas paredes como rios congelados em movimento. Membranas translúcidas selavam rachaduras antigas. Fibras vegetais envolviam cabos rompidos, conduzindo pulsos de luz onde antes deveria haver energia elétrica.

O que a Terra chamaria de abandono, Éden-9 transformara em continuidade.

Casas surgiam integradas aos troncos, não penduradas neles, mas crescidas junto, como se arquitetura e organismo tivessem negociado forma. A água corria por canais vivos, filtrada por plantas largas que se abriam e fechavam como pulmões. Crianças atravessavam pontes de raiz com naturalidade, os pés descalços tocando a superfície luminosa sem medo. Homens e mulheres trabalhavam juntos em silêncio calmo, alguns cuidando de estruturas, outros de organismos, outros apenas sentados em círculos, mãos sobre o solo, como se escutassem notícias vindas de baixo.

Não havia pressa.

Mas nada parecia parado.

A cidade respirava.

Roberta sentiu um aperto na garganta.

— Isso não é ocupação — murmurou.

Sarah olhou ao redor.

— Não.

A resposta foi baixa. Quase contra a própria formação.

Roberta percebeu.

Antes que pudesse dizer algo, uma mulher surgiu na entrada do pátio central.

Iara Mendonza.

Ou alguém que carregava aquele nome de forma impossível.

Pelos registros da Terra, Iara deveria estar velha demais, talvez morta há décadas. Mas a mulher diante delas aparentava maturidade sem desgaste, como se o tempo tivesse passado por ela de outro modo. A pele tinha um brilho sutil, mais evidente nas têmporas e nas mãos. Os cabelos escuros estavam presos em uma trança longa, entremeada por fios claros que não pareciam grisalhos, mas luminosos. O rosto guardava traços da governadora vista nos arquivos antigos, porém transformados por anos de algo que a Terra ainda não sabia medir.

Ela não parecia surpresa.

Estava à espera.

— Capitã Solano — disse Iara.

Depois olhou para Roberta.

— Doutora Almeida.

Roberta sentiu um arrepio.

Não pelo nome.

Pela naturalidade.

— A senhora sabia que viríamos — disse Sarah.

Iara inclinou levemente a cabeça.

— Vocês decidiram antes de dizer.

Sarah ficou rígida.

Roberta percebeu a defesa se erguendo nela.

Iara continuou, com suavidade:

— Não ouvimos tudo. Não como vocês temem. Intenção não é frase. É movimento. Quando alguém se aproxima com sede, a água sabe antes da boca.

Roberta pensou na avó.

Pensou em raízes lembrando onde ficava a água.

— E o que nossa intenção pareceu? — perguntou ela.

Iara olhou para Roberta com atenção.

— Dividida.

A palavra encontrou as duas ao mesmo tempo.

Sarah não se moveu.

Roberta sentiu o coração bater mais forte.

Iara não pressionou.

— Venham. Há coisas que vocês precisam ver antes de perguntar.

Sarah olhou para Roberta.

Não era pedido de autorização.

Também não era comando.

Era checagem.

Roberta assentiu.

Seguiram Iara para dentro da cidade viva.

No caminho, a anciã explicou sem transformar aquilo em palestra. Falava como quem contava a história de uma casa a visitantes que ainda não sabiam tirar os sapatos antes de entrar.

— Aurora Prime não foi tomada por Éden — disse ela. — Nós pedimos ajuda antes de entender o que estávamos pedindo.

Passaram por um antigo módulo médico. As paredes internas estavam cobertas por fibras finas, pulsantes. No centro, uma mulher adaptada examinava o braço de uma criança, enquanto um organismo semelhante a uma flor aberta projetava luz sobre a pele. A luz revelava veias, ossos, fluxos químicos. Não havia instrumentos invasivos.

— No início, tentamos curar o planeta de ser diferente — continuou Iara. — Depois, quando nossos corpos começaram a mudar, tentamos curar a nós mesmos de responder a ele.

Roberta caminhava devagar, absorvendo cada detalhe.

— E depois?

— Depois algumas mulheres pararam de lutar por tempo suficiente para escutar.

Sarah observou um grupo reunido em círculo sob uma árvore imensa. No centro, três mulheres, dois homens e uma adolescente mantinham as mãos sobre uma superfície de raiz achatada. Luzes se moviam entre eles em padrões lentos.

— São líderes? — perguntou Sarah.

— São parte de um círculo de decisão — respondeu Iara. — As Guardiãs de Escuta conduzem, mas não governam como a Terra compreende governo.

Roberta se aproximou um pouco.

— Naya disse que as mulheres têm maior sensibilidade à rede neural do planeta.

Iara assentiu.

— Em geral, sim. Não todas. Não apenas elas. Mas no início foram as mulheres que sobreviveram melhor às primeiras fases de integração. Talvez por biologia. Talvez por cultura. Talvez porque muitas já sabiam viver ouvindo antes de serem autorizadas a falar.

A frase ficou no ar com peso político e íntimo.

Sarah perguntou:

— E os homens?

Iara olhou para ela, como se a pergunta dissesse muito sobre o lugar de onde Sarah vinha.

— Vivem. Cuidam. Discordam. Aprendem. Alguns conduzem funções importantes. Outros não. Ninguém é menor por não liderar. Liderança, aqui, não é prêmio. É carga.

Roberta sentiu a força daquilo.

Na Terra, tantas estruturas ainda chamavam domínio de liderança. Em Éden-9, pelo menos naquele primeiro olhar, liderança parecia mais próxima de responsabilidade orgânica. Como se decidir fosse aceitar que uma escolha mal feita adoeceria o solo, a água, a memória e as pessoas ao mesmo tempo.

— Quem decide precisa provar escuta — continuou Iara. — Não obediência. Não força. Escuta. Memória. Cuidado com consequência. Uma pessoa que deseja mandar demais raramente é considerada apta.

Roberta evitou olhar para Sarah.

Falhou.

Sarah percebeu.

Não se defendeu.

Iara também percebeu, mas seguiu como se não tivesse visto, ou como se tivesse visto e escolhido não ferir.

Chegaram a uma praça que parecia ter nascido de um antigo centro administrativo. O piso original ainda existia em partes, mas fora atravessado por raízes largas, lisas, formando bancos, canais de luz e pequenos círculos de convivência. No alto, membranas vegetais filtravam a claridade, fazendo tudo parecer submerso em água verde-dourada.

Crianças brincavam perto de um conjunto de animais pequenos, arredondados, cobertos por uma penugem translúcida. Cada vez que uma criança ria, os animais emitiam luzes curtas, como se guardassem o riso no corpo e o devolvessem em brilho. Um homem mais velho observava, trançando fibras vivas em torno de uma estrutura metálica antiga.

Roberta sorriu sem perceber.

— Elas não têm medo.

— De vocês? — perguntou Iara.

— Do planeta.

Iara pareceu considerar a resposta.

— Vocês têm medo do próprio sangue?

Roberta não soube responder.

Sarah respondeu por ela, baixa:

— Às vezes.

Iara olhou para a capitã.

— Sim. A Terra ensinou isso a vocês.

Sarah ficou em silêncio.

Roberta sentiu o impulso de protegê-la da frase, o que era absurdo. Sarah não precisava de proteção. Talvez nunca aceitasse. Mas, desde o quase beijo, desde a maneira como ela saíra para abrir o arquivo, Roberta começava a perceber que a dureza da capitã não era ausência de ferida.

Era curativo antigo.

Iara conduziu as duas até uma construção parcialmente elevada, integrada ao tronco de uma árvore imensa. A entrada não tinha porta. Tinha uma cortina de filamentos luminosos que se afastaram antes que Iara tocasse.

— Aqui guardamos parte da memória da primeira colônia — disse ela.

Sarah ficou imediatamente atenta.

— Registros?

— Registros. Relatos. Erros. Nomes. Tudo que conseguimos preservar sem permitir que a Terra transformasse nossa história em justificativa para retorno armado.

A tensão voltou.

Roberta sentiu Sarah endurecer ao lado.

— A Terra acreditou que vocês morreram — disse Sarah.

Iara virou-se para ela.

— A Terra achou conveniente acreditar em muitas coisas.

— Houve missões de busca.

— Houve sondas. Houve cálculos. Houve interesses. Houve medo de perder investimento. Houve luto também, sim. Não nego isso. Mas quando pedimos tempo, eles enviaram protocolos. Quando pedimos escuta, enviaram comando.

Roberta olhou para Sarah.

A capitã não desviou.

Mas havia algo no rosto dela.

Uma sombra.

Roberta lembrou da pergunta feita na Aurora.

“Tem relação com o que Naya disse?”

Sarah não havia respondido.

Iara passou pelos filamentos e entrou.

Roberta e Sarah a seguiram.

O interior era maior do que parecia. Parte humana, parte viva. Telas antigas flutuavam em suportes orgânicos. Dados luminosos corriam por raízes finas. Nas paredes, imagens da primeira colônia apareciam em fragmentos: mulheres e homens com uniformes antigos; crianças pequenas em corredores metálicos; tempestades de pólen luminoso; árvores crescendo junto aos módulos; Iara mais jovem, diante de uma câmera, dizendo algo sem som.

Roberta sentiu que pisava dentro de uma memória com paredes.

Iara parou diante de uma abertura circular que dava para a praça.

— Vocês vieram por dados — disse ela.

Sarah respondeu:

— Sim.

— Vieram por segurança.

— Também.

Iara olhou para Roberta.

— E você veio por escuta.

Roberta respirou devagar.

— Eu vim tentando entender.

— Melhor. Quem acha que já escuta, geralmente só espera a própria vez de falar.

Roberta quase sorriu.

— Minha avó teria gostado da senhora.

— Talvez eu tenha ouvido algo dela em você.

A frase tocou Roberta fundo demais.

Sarah percebeu.

Roberta precisou olhar para fora por um instante. A praça respirava em luz, vozes baixas, passos calmos, crianças rindo, organismos trabalhando silenciosamente para manter água, abrigo e memória. Tudo ali parecia improvável demais para ser reduzido a recurso biológico-neural, jurisdição, soberania ou protocolo.

Embora Roberta ainda não conhecesse essas palavras.

Não todas.

Só sentia a sombra delas.

Iara aproximou-se de uma mesa viva. A superfície se iluminou sob suas mãos.

— Mostrarei a vocês como vivemos. Como decidimos. Como adoecemos. Como curamos. Como Éden nos escuta e como, às vezes, precisamos impedi-lo de nos escutar demais.

Sarah franziu levemente a testa.

— Impedi-lo?

— Sim, capitã. Simbiose não é submissão. Essa foi uma das primeiras lições que quase não sobrevivemos para aprender.

Roberta sentiu a espinha gelar. A palavra simbiose, até então, carregava beleza, agora ganhava limite, complexidade e risco.

— Então há perigo — disse Sarah.

Iara olhou para ela com serenidade.

— Claro que há. Tudo que vive pode ferir. Tudo que ama também. A diferença está no que se faz depois de saber disso.

Sarah não respondeu.

Roberta sentiu, naquele silêncio, que a capitã havia recebido a frase como uma lâmina.

Iara moveu os dedos sobre a superfície luminosa. A imagem de Aurora Prime mudou. A cidade viva apareceu vista de cima, não como mapa técnico, mas como rede pulsante: casas, raízes, pessoas, água, animais, fungos, círculos de decisão, zonas de silêncio, áreas proibidas.

Roberta se aproximou.

— Zonas de silêncio?

— Lugares onde Éden não deve tocar nossas memórias sem convite. Lugares de descanso. Luto. Nascimento. Escolha individual.

Sarah olhou para o mapa com atenção.

— Vocês estabeleceram fronteiras.

Iara sustentou o olhar dela.

— Sim. Mas não como muralhas contra o desconhecido. Como acordos com ele.

Roberta pensou em Sergey, em sua frase na refeição.

“Eu não sei viver sem fronteiras.”

Talvez Éden-9 também tivesse fronteiras, só não as tratava como armas.

Iara desligou a imagem.

— Amanhã, se ainda quiserem, Roberta conhecerá um Círculo de Escuta. Você, Sarah, conhecerá os registros de comando que sua Terra não incluiu nos arquivos oficiais.

Sarah ficou muito quieta.

— Por que separadas?

— Porque vocês fazem perguntas diferentes.

Roberta olhou para Sarah.

A capitã devolveu o olhar.

Havia tensão ali. A do quase beijo. A do arquivo. A de Naya. A daquilo que Iara parecia saber sem dizer.

E havia outra coisa também.

Um fio.

Fino, perigoso, ainda inteiro.

Roberta perguntou:

— E hoje?

Iara sorriu, não com alegria simples, mas com uma paciência antiga.

— Hoje vocês caminham pela cidade e aprendem a não chamar de milagre aquilo que apenas não entenderam ainda.

Lá fora, Aurora Prime brilhava sob a copa viva.

Roberta sentiu, com uma clareza repentina, que a Terra havia enviado a Aurora para descobrir o que acontecera com uma colônia perdida, mas talvez a pergunta certa nunca tivesse sido o que aconteceu com eles, talvez fosse o que eles haviam se tornado e, mais perigoso ainda, o que a Terra faria quando descobrisse que eles não queriam voltar a ser apenas humanos do jeito antigo.

Ao lado dela, Sarah continuava em silêncio.

Roberta não sabia o que a capitã havia lido no arquivo lacrado. Não sabia que ordem a Terra havia enviado, mas, naquele instante, olhando para a cidade que respirava, ela teve certeza de uma coisa.

Sarah sabia mais do que dizia.

E Éden-9, de alguma forma, também.

Fim do capítulo


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