O arquivo dos mortos
Sarah Solano
Horas depois de retornar à Aurora, Sarah continuava ouvindo a cidade. Não havia som real, claro.
A nave estava em ciclo noturno reduzido, com os corredores em meia-luz, os sistemas trabalhando em frequência baixa e a tripulação dividida entre repouso, análise de dados e aquela tentativa silenciosa de fingir normalidade depois de um dia que havia alterado a medida de tudo.
Mesmo assim, Sarah ouvia, não com os ouvidos, com algum lugar mais fundo, mais incômodo, menos treinado.
Aurora Prime permanecia nela como um ruído persistente: a água correndo por canais vivos, as raízes conduzindo luz pelo piso antigo da colônia, as crianças atravessando pontes orgânicas com os pés descalços, os círculos de decisão sob árvores imensas, homens e mulheres trabalhando sem que a autoridade precisasse gritar seu próprio nome.
Não era uma utopia.
Sarah não confiava em utopias.
Toda sociedade tinha zonas de sombra. Todo sistema criava seus excluídos, suas tensões, seus silêncios necessários. Iara não havia tentado vender uma perfeição. Ao contrário. Falara de limites, zonas de silêncio, riscos da simbiose, memórias que precisavam de consentimento para serem tocadas. Falara como alguém que sabia que viver em equilíbrio não significava viver sem conflito.
Mas ainda assim, aquilo era diferente.
Diferente da Terra.
Diferente da Frota.
Diferente da arquitetura de comando onde Sarah aprendera a existir.
Na Terra, poder era vertical. Mesmo quando se vestia de conselho, vinha em camadas de autorização, despacho, protocolo e assinatura. A escuta existia, sim, mas quase sempre depois que a decisão já havia encontrado um caminho conveniente. A Terra ouvia para ajustar o discurso. Éden-9 parecia ouvir para alterar a própria conduta.
Isso desorganizava Sarah.
Porque, no fundo, uma parte dela havia sobrevivido acreditando que estrutura era a única barreira entre humanidade e colapso.
Calisto ensinara isso.
Ou ela achava que ensinara.
Sarah estava na sala de observação lateral, sozinha, com Éden-9 ocupando a janela à frente. O planeta brilhava em silêncio, enorme demais para qualquer relatório, paciente demais para qualquer ordem. Sob a luz dele, o reflexo de Sarah no vidro parecia mais pálido, quase estrangeiro.
Ela tocou o relógio antigo no pulso.
O metal estava morno.
O pai consertava relógios porque dizia que o tempo precisava de testemunhas. Sarah nunca entendera inteiramente aquela frase. Agora, olhando para um planeta onde passado, corpo, memória e território pareciam conversar entre si, começava a suspeitar que talvez ele tivesse compreendido algo que a Frota nunca ensinaria.
Uma mensagem lacrada da Terra permanecia no terminal privado dela.
Aberta.
Lida.
Ainda não compartilhada.
Priorizar recuperação de material biológico-neural de Éden-9.
Impedir autonomia política da colônia adaptada.
Garantir jurisdição terrestre sobre qualquer estrutura cognitiva de larga escala.
As palavras voltaram como uma linha de gelo sob a pele.
Não havia menção a escuta. Não havia menção a sobreviventes como pessoas. Não havia menção à comunidade que Sarah vira naquele dia, às crianças rindo sob membranas vegetais, aos círculos de decisão, à medicina sem corte, à água filtrada por organismos vivos, aos homens que cuidavam dos canais, às mulheres que conduziam sem esmagar, à velha governadora que deveria estar morta e parecia carregar décadas como quem carrega raízes.
A ordem da Terra transformava tudo em categoria.
Material.
Autonomia.
Jurisdição.
Estrutura cognitiva.
Sarah conhecia aquela linguagem. Havia sido treinada nela. Sabia como palavras limpas podiam atravessar corpos sem respingar sangue nos relatórios. Sabia como uma decisão violenta podia parecer sensata quando escrita em vocabulário institucional.
O pior era que parte dela ainda entendia o impulso.
Éden-9 era uma inteligência planetária, ou algo próximo demais disso para ser ignorado. Uma biosfera capaz de responder à intenção humana. Uma rede neural viva, possivelmente capaz de afetar memória, sonho, emoção, tomada de decisão. Uma colônia humana adaptada a essa rede, politicamente autônoma, biologicamente modificada e não submetida à Terra há décadas.
Qualquer comando terrestre veria risco, recurso e perda de controle.
Sarah também via e esse era o problema, mas agora via também Roberta tocando uma raiz luminosa com o cuidado de quem pedia licença. Via Naya dizendo que intenção era movimento antes de frase. Via Iara explicando que liderança era carga, não prêmio. Via Sergey olhando para a cidade viva como se tentasse encontrar portas em um mundo feito de travessias.
E via a si mesma quase beijando Roberta na luz artificial da Aurora.
A lembrança veio sem autorização. Roberta perto demais. A respiração dela. A mão erguida, parada antes do toque, oferecendo escolha em vez de tomar espaço.
Sarah quase cedendo.
Quase esquecendo, por um instante, a patente, a missão, Calisto, a ordem da Terra, o arquivo lacrado. Quase permitindo que a vontade fosse mais rápida que o medo.
Aurora interrompera.
Sarah deveria ter sentido alívio, porém sentira perda. Essa era a verdade mais imprudente do dia.
No vidro, o reflexo dela pareceu encará-la com julgamento.
Sarah fechou os olhos.
Não podia se dar ao luxo de querer, não agora ou talvez nunca.
A porta da sala de observação permaneceu fechada. Ninguém a chamou. Nenhum alerta soou. Pela primeira vez em horas, a nave não exigia dela uma decisão imediata.
Isso a deixou sem defesa.
Quando voltou ao alojamento, tentou dormir como quem cumpre ordem médica. Deitou-se, reduziu a luz, autorizou Aurora a manter apenas alertas críticos e fechou os olhos com a disciplina de quem já havia adormecido em zonas de guerra, enfermarias improvisadas e cabines de emergência.
O sono veio rápido.
E trouxe Calisto.
Primeiro, o som.
Não o alarme inteiro. Apenas o início dele. Aquele corte agudo no ar, repetido em intervalos regulares, como se a estação inteira estivesse sendo perfurada por uma agulha invisível.
Depois, o corredor.
Luzes vermelhas. Vapor branco escapando de uma tubulação rompida. Pessoas correndo com os rostos borrados pelo medo. Sarah mais jovem, com o uniforme sujo de cinza e sangue seco no punho, tentando ouvir cinco canais de comunicação ao mesmo tempo.
— Setor C perdeu contenção.
— Radiação subindo.
— Porta oito não responde.
— Ainda tem gente lá dentro.
— Capitã, precisamos selar.
Na época, ela ainda não era capitã da Aurora, mas já comandava o suficiente para que a decisão caísse sobre ela.
No sonho, tudo era mais lento, mais cruel. Ela via detalhes que, acordada, a memória costumava esconder por misericórdia: um copo flutuando em gravidade instável, girando perto do teto; uma criança desenhada em uma fotografia presa à lateral de um armário; a mão de um técnico tremendo enquanto tentava estabilizar a energia da porta; o olhar de uma oficial chamada Rhee, que entendeu a ordem antes que Sarah a dissesse.
Oito pessoas estavam no setor comprometido. Trinta e duas estavam do outro lado, esperando evacuação. O sistema de contenção falhara parcialmente. Se Sarah mantivesse a passagem aberta por mais quatro minutos, talvez conseguisse retirar dois, três, talvez cinco dos que estavam presos.
Talvez.
Se fechasse imediatamente, salvaria os outros trinta e dois.
Não havia tempo para heroísmo.
Essa foi a frase que Keller disse depois.
Não havia tempo para heroísmo, mas havia tempo para ouvir vozes e no sonho, Sarah ouviu todas.
— Capitã, mais dois minutos.
— Por favor.
— Estamos na porta.
— Solano, não fecha.
— Ainda dá.
— Sarah.
A última voz era a pior porque não gritava, só dizia seu nome.
No sonho, Sarah viu a própria mão sobre o comando de selagem. Viu os olhos da tripulação que ainda podia salvar, fixos nela. Viu os olhos dos que ficariam para trás, pela câmera instável do setor C.
Não havia escolha limpa. Nunca houve.
Então Sarah escolheu a escolha que deixava mais vivos do que mortos.
Acionou o bloqueio.
A porta oito fechou devagar demais.
Rápido demais.
As travas caíram uma a uma, como martelos.
Depois veio o silêncio.
Não imediato, isso era o que os relatórios não diziam. Antes do silêncio houve batidas. Houve comunicação cortada no meio de uma palavra. Houve alguém chamando a mãe. Houve Sarah parada, mão ainda sobre o painel, enquanto os sobreviventes atrás dela choravam de alívio e horror ao mesmo tempo.
No sonho, ela tentou tirar a mão, não conseguiu. A porta fechada continuou sob seus dedos como pele fria.
Então a cena mudou.
A porta de Calisto virou uma raiz de Éden-9.
Luminosa.
Viva.
Pulsando sob sua palma.
Do outro lado, não havia alarme, havia água.
Uma voz infantil perguntou:
— Você ainda está segurando a porta?
Sarah acordou sentada.
A respiração curta.
A pele fria.
O alojamento escuro.
Por um segundo, não soube se estava em Calisto, na Aurora ou dentro de alguma memória que Éden-9 havia puxado dela sem pedir.
— Capitã Solano — disse Aurora, em volume baixo. — Frequência cardíaca elevada. Deseja assistência médica?
Sarah apoiou a mão no peito.
— Não.
— Recomendo hidratação e registro do episódio.
— Não agora.
— O episódio parece compatível com memória traumática intensificada.
Sarah fechou os olhos.
— Aurora.
— Sim?
— Silêncio.
A IA obedeceu.
Mas, depois de alguns segundos, acrescentou:
— Permanecerei disponível.
Sarah não respondeu.
Ficou sentada no escuro, com o sonho ainda grudado na pele.
“Você ainda está segurando a porta?”
Na manhã artificial seguinte, Sarah desceu novamente a Éden-9.
A decisão havia sido tomada antes do sonho, mas agora parecia diferente. Menos técnica. Mais inevitável.
A equipe foi a das demais vezes: Sarah, Roberta, Samira e Sergey no Vega; Mei pilotando; Asha na Aurora com monitoramento contínuo. Ao chegarem à superfície, Sergey permaneceu no perímetro externo com Samira, como acordado. Não protestou. Apenas revisou os canais, confirmou a rota de retirada e olhou para Sarah uma vez.
— Capitã.
— Sergey.
— Se precisar, eu entro.
— Eu sei.
Ele hesitou.
— E se não precisar, eu fico.
Sarah entendeu o que aquela frase custava a ele.
— Obrigada.
Roberta observou a troca, mas não comentou.
Entre as duas, o silêncio da noite anterior continuava vivo. Sarah não sabia se era pior ter quase beijado Roberta ou ter ido embora depois. Talvez as duas coisas formassem uma terceira, mais difícil: uma porta aberta pela metade.
A trilha até Aurora Prime reacendeu sob os pés delas. Iara as aguardava no pátio central. Naya estava a alguns passos, conversando com duas crianças menores. Quando viu Roberta, sorriu com a naturalidade de quem reconhece alguém que ainda está chegando.
— Hoje vocês fazem perguntas separadas — disse Iara.
Sarah olhou para Roberta.
— Você sabe para onde vai?
Roberta assentiu, embora parecesse tão inquieta quanto curiosa.
— Naya vai me levar ao Círculo de Escuta.
Sarah queria dizer cuidado, queria dizer não se afaste demais, queria dizer se algo parecer errado, me chame.
Disse apenas:
— Mantenha o canal aberto.
Roberta percebeu tudo que ficou por baixo.
— Você também.
As duas se separaram.
Sarah seguiu Iara para o interior de uma construção antiga integrada a uma árvore imensa, a mesma que haviam visitado no dia anterior. Dessa vez, porém, Iara a conduziu para uma passagem lateral, onde o metal original da colônia ainda era visível sob camadas de fibras vivas. A luz ali era mais baixa. Não hostil, mas contida.
— Este era o núcleo administrativo de Aurora Prime — disse Iara.
Sarah observou as marcas nas paredes: antigos símbolos da Terra, códigos de setor, placas quase apagadas pelo tempo. Algumas haviam sido preservadas. Outras estavam cobertas por organismos translúcidos que pulsavam devagar.
— Por que manter isso? — perguntou Sarah.
— Porque apagar uma prisão não ensina ninguém a reconhecer a próxima.
Sarah sentiu a frase entrar mais fundo do que gostaria.
Iara tocou uma superfície orgânica junto à parede. Os filamentos se afastaram, revelando um painel humano antigo. Sarah reconheceu a tecnologia imediatamente: armazenamento criptografado de missão, anterior à perda de contato. A estrutura havia sido preservada de forma improvável. Cabos rompidos estavam conectados a raízes condutoras.
— Isso ainda funciona?
— Não sozinho — respondeu Iara. — Éden aprendeu a sustentar partes dele. Nós aprendemos a pedir sem deixar que ele engolisse tudo.
O painel acendeu.
Arquivos surgiram no ar em projeção instável.
Sarah viu datas, selos, assinaturas, códigos de autorização terrestre.
E, então, contratos.
Não relatórios científicos.
Contratos.
Biotecnologia neural.
Mapeamento de minerais orgânicos.
Potencial de defesa cognitiva.
Aplicações farmacológicas de simbiose planetária.
Sarah permaneceu imóvel eIara ficou ao lado dela, silenciosa.
O primeiro arquivo aberto mostrava a missão original de Aurora Prime descrita em duas camadas. A pública era conhecida: colonização científica, estudo ecológico, viabilidade de longo prazo, construção de posto avançado. A segunda era restrita.
Avaliar potencial de integração neurobiológica da biosfera local para uso estratégico terrestre.
Sarah sentiu a boca secar.
Abriu outro.
Relatórios iniciais indicavam que a Terra já suspeitava da existência de uma rede cognitiva planetária antes mesmo da fundação completa da colônia. Não sabia sua extensão, mas sabia o bastante para esconder da maior parte dos colonos. Sabia o bastante para enviar equipes com treinamento militar disfarçado de logística. Sabia o bastante para anexar cláusulas de apropriação futura sobre qualquer “estrutura cognitiva não humana, híbrida ou emergente”.
A palavra híbrida fez Sarah pensar em Naya.
Em Iara.
Nas crianças da praça.
— Eles sabiam — disse Sarah.
A voz saiu baixa.
Iara não respondeu.
Não precisava.
Sarah avançou nos arquivos.
Havia mensagens da governadora Iara Mendonza para a Terra, inicialmente formais, depois urgentes. Pedidos de revisão ética. Relatos de que a biosfera respondia a dano físico com sofrimento coordenado. Alertas de que a integração humana estava acontecendo de forma espontânea em parte da população. Solicitações para suspender protocolos extrativos.
As respostas da Terra eram frias.
Solicitação recebida.
Aguardem instruções.
Mantenham coleta.
Não interrompam mapeamento.
Não divulguem à população civil.
Sarah abriu um vídeo.
Iara apareceu mais jovem, rosto cansado, olhos vermelhos, diante de uma câmera instável.
— Eles não entendem — dizia ela. — Ou entendem e isso é pior. Éden não é depósito. Não é arma. Não é matriz biológica esperando patente. Há resposta, há dor, há escolha. E agora há crianças nascendo conectadas a essa rede. Se a Terra vier com os protocolos atuais, não virá buscar sobreviventes. Virá reivindicar propriedade.
O vídeo falhou por alguns segundos.
Quando voltou, Iara estava mais perto da câmera.
— Nós cortamos a comunicação porque eles viriam pelo motivo errado.
Sarah sentiu como se a frase, antes vista em fragmento, agora se fechasse dentro dela.
O motivo errado.
Ela pensou na mensagem lacrada.
No Protocolo Semente Branca.
Na ordem aberta em seu terminal.
A Terra não havia mudado tanto quanto gostava de dizer.
— Por que está me mostrando isso? — perguntou Sarah.
Iara a observou.
— Porque você ainda acredita que pode obedecer sem escolher.
Sarah virou-se para ela. A frase foi certeira demais.
— A senhora não sabe o que eu acredito.
— Não completamente.
— Então não presuma.
Iara não se intimidou.
— Eu não presumo. Eu escuto o modo como você se parte antes de falar.
Sarah sentiu raiva. Não explosiva. Uma raiva fria, defensiva, treinada.
— Isso é invasivo.
— Sim — disse Iara.
A resposta a desarmou um pouco.
Iara continuou:
— É por isso que criamos limites. É por isso que ensinamos nossas crianças a pedir antes de tocar certas memórias. É por isso que temos zonas de silêncio. É por isso que não fingimos que Éden é inofensivo. Mas também é por isso que sabemos reconhecer quando alguém carrega uma ordem que não nasceu dela e, ainda assim, pode matá-la por dentro.
Sarah desviou o olhar para os arquivos.
— A ordem existe para proteger a Terra.
— Talvez.
— A Terra tem bilhões de pessoas.
— Éden também tem vida.
— Não estou negando isso.
— Ainda não sei o que você está fazendo.
Sarah também não. Essa era a parte mais insuportável.
Ela finalizou a coleta de dados em silêncio. Copiou os arquivos permitidos para o módulo seguro da Aurora, registrou metadados, validou autenticidade preliminar e marcou trechos para análise de Asha. Iara não a impediu. Não tentou conduzir sua conclusão. Apenas permaneceu ali, como testemunha.
Quando o processo terminou, Sarah sentia o corpo cansado de um jeito que não vinha da caminhada.
— Roberta ainda está no Círculo? — perguntou.
Iara assentiu.
— Sim.
— Vou encontrá-la.
— Antes, há alguém querendo lhe mostrar uma coisa.
Sarah franziu a testa.
Uma criança apareceu na entrada do arquivo.
Devia ter sete ou oito anos. Talvez menos. Em Éden-9, Sarah já não confiava inteiramente na aparência como medida de tempo. A menina tinha pele morena com um brilho sutil nas mãos e olhos escuros que refletiam pontos de luz do ambiente. Usava uma túnica curta feita de fibras vegetais e carregava uma pequena criatura arredondada junto ao peito, algo entre animal e fruto, coberto por penugem translúcida.
— Esta é Liora — disse Iara.
A criança avaliou Sarah com uma franqueza desconcertante.
— Você faz muito barulho.
Sarah piscou.
— Eu não disse nada.
— Por dentro.
Iara não sorriu, mas seus olhos suavizaram.
— Liora ainda está aprendendo a suavizar.
Sarah pensou em Naya, parecia um traço cultural perigoso.
— Imagino que seja comum por aqui.
A menina se aproximou sem medo.
— Você quer ouvir errado ou ouvir um pouco?
Sarah olhou para Iara.
— Isso é seguro?
— Ela não tocará memória. Apenas vibração de superfície. Você pode recusar.
Sarah deveria recusar. Tinha arquivos suficientes. Tinha dados suficientes. Tinha motivos suficientes para não permitir que mais nada em Éden-9 atravessasse suas defesas, mas a pergunta do sonho voltou.
“Você ainda está segurando a porta?”
Sarah olhou para a menina.
— O que preciso fazer?
Liora pareceu satisfeita.
— Parar de mandar no ouvido.
Sarah não soube como responder.
A criança apontou para o chão.
— Ajoelha.
Iara, atrás dela, disse apenas:
— É uma forma de aproximação. Não de submissão.
Sarah hesitou.
Depois se ajoelhou.
O piso vivo sob seus joelhos era morno. Não pulsava como as áreas externas da floresta, mas havia uma vibração baixa ali, quase imperceptível. Liora sentou-se diante dela e colocou a pequena criatura no chão. O animal-fruto abriu filamentos finos sob o corpo, prendendo-se de leve à raiz achatada entre as duas.
— Mão aqui — disse a menina.
Sarah colocou a palma sobre a superfície indicada.
A primeira reação foi nada.
Apenas textura.
Calor.
Umidade suave.
Sarah esperou uma instrução técnica.
Liora franziu o nariz.
— Você está tentando entender.
— Esse é o objetivo.
— Não agora.
— Então qual é?
— Sentir primeiro. Entender depois.
A frase era simples demais.
Irritante demais.
Roberta teria gostado.
O pensamento veio com tanta rapidez que Sarah quase retirou a mão.
Liora tocou a raiz ao lado dela.
— Pensa em água.
— Água?
— Não a palavra. A água.
Sarah fechou os olhos, contra a própria vontade. Tentou pensar em água. Veio um copo metálico da Aurora.
Não.
Veio uma simulação de fluxo.
Não.
Veio chuva batendo contra a janela de um apartamento antigo na Terra, quando ela era pequena e o pai consertava relógios à mesa. Sarah lembrava do som. Lembrava do cheiro de poeira molhada. Lembrava da mão do pai levantando um mecanismo pequeno contra a luz.
O chão sob sua palma vibrou.
Muito pouco.
Quase nada.
Mas vibrou.
Sarah abriu os olhos.
Liora sorriu como quem vê um adulto tropeçando no primeiro passo.
— Viu?
— Eu não ouvi nada.
— Eu não disse que você ia ouvir... Ok, eu disse um pouco.
Sarah olhou para a própria mão.
A vibração continuava. Não era mensagem. Não era idioma. Não era imagem. Não trazia frase, ordem ou memória clara.
Era sensação.
Uma onda minúscula saindo de um ponto profundo e se espalhando por algo grande demais para ser medido pela palma de uma mão.
Sarah pensou em uma pedra caindo no mar, pequena, quase insignificante.
Mas a água não ignorava o impacto só porque ele era pequeno. O círculo nascia, encontrava outros círculos, atravessava distâncias, mudava de forma, retornava como outra coisa. Em algum lugar, uma pedra podia cair sem ruído e, na outra ponta do oceano, transformar a maré.
A vibração subiu pelo braço dela, não como invasão, estava mais para um convite.
Sarah sentiu uma emoção que não soube nomear.
Não era paz.
Não era medo.
Não era culpa.
Era reconhecimento.
Como se, por um instante mínimo, algo vivo tivesse dito: eu sei que você está fechada.
Aqui não abriu suas portas, não arrombou nada, apenas tocou a maçaneta.
Sarah puxou a mão.
Não de forma brusca, mas rápido demais para parecer natural.
Liora inclinou a cabeça.
— Muito barulho de novo.
Sarah respirou.
— Desculpe.
A menina deu de ombros.
— Adulto é assim.
Iara, atrás delas, finalmente deixou escapar um pequeno sorriso.
Sarah se levantou com dificuldade estranha, como se o corpo tivesse voltado mais pesado da experiência.
— Obrigada — disse à criança.
Liora pegou a criatura no colo. O pequeno organismo emitiu um brilho dourado, quase satisfeito.
— Você ouviu torto. Mas ouviu.
Sarah não soube se aquilo era elogio.
Decidiu aceitar.
— Vou praticar.
A menina pareceu duvidar.
— Vai pensar demais.
Sarah quase sorriu.
— Provavelmente.
Despediu-se de Liora e seguiu pelo corredor vivo em direção à área do Círculo de Escuta.
Mas algo nela havia mudado.
Não uma transformação completa.
Não uma revelação confortável.
Só uma fissura.
Uma muralha interna que não caíra inteira, mas perdera uma pedra importante. E Sarah sabia, melhor do que ninguém, que estruturas aparentemente invencíveis raramente desmoronavam de uma vez. Primeiro vinha uma rachadura. Depois outra. Depois o peso começava a se redistribuir. Um dia, algo pequeno tocava o ponto certo.
E o colapso parecia repentino apenas para quem não vinha ouvindo os estalos.
Ela caminhou procurando Roberta, tentando entender a vibração que ainda parecia morar em sua mão.
Não havia mensagem ali.
Não havia ordem.
Havia apenas a memória física de ter sentido um mundo vivo sem comandá-lo e isso a desconcertava mais do que qualquer ameaça.
O comunicador vibrou em seu pulso.
A voz de Asha entrou baixa, comprimida por canal seguro.
— Capitã, preciso falar com você antes do retorno.
Sarah parou.
— Relatório.
— Detectei uma transmissão criptografada saindo de um terminal secundário do Vega para a Aurora. Não passou pelo fluxo de comando.
O corpo de Sarah voltou imediatamente à disciplina.
— Origem?
Asha hesitou meio segundo.
— Assinatura operacional compatível com Sergey.
Sarah fechou os olhos por um instante, o dia ainda não havia terminado de abrir portas.
— Conteúdo?
— Parcialmente bloqueado. Mas os metadados indicam relatório de risco sobre a comunidade adaptada, menção a influência cognitiva e recomendação de elevar prontidão de segurança.
Sarah olhou adiante, ao longe, pela abertura entre as raízes, viu Roberta. Ela estava sentada em um círculo baixo, ao lado de Naya e de outras duas mulheres. A luz do solo subia devagar ao redor delas. Roberta parecia concentrada, vulnerável, inteira de uma forma que Sarah ainda não sabia ser.
A vibração em sua mão pareceu retornar.
Pequena.
Persistente.
Uma pedra no mar.
Sarah baixou a voz.
— Não confronte Sergey ainda. Isole a transmissão. Impeça reenvio externo sem minha autorização.
— Já fiz.
— Bom trabalho.
— Capitã?
— Sim.
— O que ele está fazendo?
Sarah manteve os olhos em Roberta.
Depois pensou nos arquivos de Iara, na ordem da Terra, em Calisto, em Liora, na cidade que respirava e no homem que sentia falta do filho e ainda assim procurava segurança no único lugar que conhecia: o protocolo.
— Ele está tentando salvar a missão do jeito que aprendeu — disse Sarah.
Asha ficou em silêncio por um segundo.
— E isso é um problema?
Sarah olhou para Éden-9 ao redor. Para a cidade viva. Para as raízes que conduziam luz onde antes havia cabos partidos. Para Roberta, que começava a ouvir um mundo que Sarah mal conseguira sentir.
— Pode se tornar.
Desligou o comunicador e seguiu em frente.
Pela primeira vez, não sabia se caminhava para proteger a Terra de Éden-9.
Ou Éden-9 da Terra.
Talvez, pensou, enquanto Roberta levantava os olhos e a encontrava à distância, a pergunta mais difícil fosse outra.
Talvez Sarah precisasse descobrir se ainda era possível proteger alguém sem fechar a porta.
Fim do capítulo
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