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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3534
Acessos: 87   |  Postado em: 16/06/2026

Depois da febre

Roberta Almeida

 

Roberta não sabia há quanto tempo estava segurando a mão de Sarah.

Tempo, em Éden-9, havia deixado de ser uma linha obediente. Às vezes parecia se abrir em círculos, como a água do lago depois da música. Às vezes se contraía em segundos cruéis, como o intervalo entre uma respiração e outra quando o corpo de Sarah ficava imóvel demais. Às vezes simplesmente perdia importância, dissolvido em luz, febre, vozes e espera.

Na superfície viva onde Sarah estava deitada, a luminosidade prateada diminuía lentamente.

Não apagava de uma vez.

Recuava.

Como maré.

Como se Éden-9 retirasse os dedos de um lugar muito profundo com o mesmo cuidado com que havia entrado.

Roberta mantinha as duas mãos fechadas em torno da mão de Sarah. Sentia o calor da pele dela, ainda alto demais, mas menos assustador do que antes. O pulso havia voltado a um ritmo mais constante. Samira repetira isso três vezes pelo comunicador, talvez para tranquilizar Roberta, talvez para tranquilizar a si mesma.

— Frequência estabilizando — disse a médica, a voz ainda carregada de tensão. — Temperatura em queda gradual. Atividade neural ainda elevada, mas menos caótica.

Roberta não respondeu.

Tinha medo de que qualquer palavra mudasse o equilíbrio frágil da sala.

Iara estava sentada próxima à cabeceira de Sarah, em silêncio. As cuidadoras mantinham as mãos perto da superfície viva, sem tocar a capitã diretamente. Naya permanecia do outro lado, ao lado de Sergey, que já havia despertado, mas continuava quieto, deitado, olhando para o teto como se a própria respiração exigisse interpretação.

A comunidade ao redor também parecia suspensa.

Aurora Prime não voltara ao seu ritmo comum. As luzes das casas vivas permaneciam baixas. Os canais de água corriam devagar. Crianças ainda estavam nas zonas de silêncio. Os animais simbióticos, antes curiosos e inquietos, não se aproximavam. Era como se a cidade inteira aguardasse Sarah terminar de voltar.

Ou decidir se voltaria.

Roberta afastou esse pensamento com violência.

Não.

Sarah voltaria, ela tinha que voltar.

A mão dela apertou os dedos de Roberta.

Muito pouco.

Mas foi real.

Roberta inclinou-se imediatamente.

— Sarah?

As pálpebras da capitã tremeram.

Samira ouviu pelo canal.

— Roberta, fala com ela. Devagar. Sem excesso de estímulo.

Roberta quase riu.

Excesso de estímulo, como se o próprio planeta não tivesse colocado Sarah diante de todos os fantasmas de Calisto.

Ela respirou fundo, forçando a voz a sair baixa.

— Sarah, sou eu. Você está em Éden-9. Está em Aurora Prime. Está segura.

Os olhos de Sarah se abriram, por um segundo, não focaram.

Roberta sentiu o pânico subir.

Depois Sarah a viu, não como alguém que reconhece uma sala e sim como alguém que encontra uma margem depois de quase se afogar.

— Roberta.

O nome saiu rouco, partido, mas inteiro. Roberta fechou os olhos por um instante., o alívio foi tão forte que quase doeu mais do que o medo.

— Estou aqui.

Sarah respirou, como se aquela frase precisasse atravessar alguma distância dentro dela antes de ser compreendida.

— Você ficou.

Roberta soltou um riso pequeno, instável, quase uma falha de ar.

— Você achou mesmo que eu ia embora?

Sarah piscou devagar.

— Eu não sabia se merecia que você ficasse.

A frase atravessou Roberta com ternura e irritação na mesma medida.

— Sarah.

A capitã fechou os olhos, talvez esperando uma repreensão.

Roberta apertou a mão dela.

— Não começa tentando merecer até o cuidado. Eu estou cansada demais para discutir com esse seu hábito hoje.

Houve um silêncio.

Então algo inesperado aconteceu.

Sarah riu.

Não foi uma gargalhada completa. Ainda não. Era baixa, fraca, rouca pela febre. Mas era riso. Um som verdadeiro, sem disciplina suficiente para se esconder a tempo.

Roberta ficou imóvel.

Aquele som parecia impossível.

Não porque Sarah nunca tivesse sorrido. Ela já tinha. Pouco, controlado, sempre como se o rosto precisasse pedir autorização ao comando antes. Mas aquilo era diferente. A risada tinha passado por alguma rachadura nova e escapado antes que Sarah pudesse prendê-la.

— O quê? — perguntou Sarah, abrindo os olhos.

Roberta percebeu que estava encarando.

— Nada.

— Você está olhando como se eu tivesse desenvolvido uma segunda cabeça.

— Não. Uma segunda cabeça seria menos surpreendente.

Sarah respirou com dificuldade, mas havia um brilho cansado nos olhos.

— Estou tão ruim assim?

— Está horrível.

— Obrigada.

— De nada. Achei importante manter a honestidade.

Do outro lado da sala, Samira falou pelo comunicador:

— Como médica, aprovo a honestidade, porém como estou monitorando vocês há horas e de longe, peço que a paciente não ria demais antes de estabilizar completamente.

Sarah virou o rosto um pouco na direção do som.

— Doutora?

— Sim, capitã. Estou viva, irritada, na Aurora, e profundamente contrariada por ter acompanhado uma emergência neuropsíquica planetária por dados remotos.

— Isso parece frustrante.

— Sua capacidade de observação sobreviveu. Excelente sinal.

Roberta sentiu outra vontade absurda de rir e chorar ao mesmo tempo.

Sarah estava ali, pálida, fraca, exausta, marcada por algo que Roberta ainda não compreendia inteiramente, mas ali.

Iara aproximou-se.

— Bem-vinda de volta, Sarah Solano.

Sarah olhou para ela. Por um segundo, a antiga defesa voltou aos olhos da capitã, um reflexo, uma tentativa de recompor autoridade. Mas passou rápido. Muito mais rápido do que teria passado antes.

— Eu vi Calisto — disse Sarah.

A sala ficou mais silenciosa.

Roberta sentiu a mão dela tremer.

— Eu sei.

Sarah olhou para Roberta.

— Você me chamou.

— Muitas vezes.

— Não só daqui.

Roberta não entendeu de imediato.

Sarah engoliu em seco.

— Eu ouvi você. Lá dentro.

Roberta sentiu a garganta fechar.

Não perguntou o quanto Sarah ouvira. Não perguntou se ouvira a confissão que escapara dela diante de Iara e de Éden. Talvez não fosse hora. Talvez Sarah soubesse. Talvez não. Talvez algumas verdades pudessem permanecer vibrando entre as duas até encontrarem uma forma menos ferida de serem ditas.

— Eu tentei — respondeu Roberta.

Sarah fechou os olhos por um instante.

— Obrigada.

Não era um agradecimento simples.

Roberta sentiu isso, aquilo era por ter ficado. Por ter chamado. Por não ter transformado a raiva em abandono. Por ter segurado a mão dela enquanto Éden a levava até a porta que ela mantivera fechada por anos.

Roberta não soube responder então apenas levou a mão de Sarah aos lábios e beijou seus dedos. Foi um gesto breve. Delicado. Nada parecido com o abrigo no Mar Escuro. Nada de fome, nem urgência, nem tempestade. Mas havia intimidade ali. Mais crua, talvez. Mais perigosa. Porque desejo era uma forma de verdade, mas cuidado também era. E às vezes o cuidado despia mais.

Sarah a observou com os olhos úmidos.

Não recuou.

Iara, discretamente, afastou-se.

Naya foi até Sergey.

O russo havia virado o rosto para o lado, observando Sarah e Roberta sem a rigidez habitual. Parecia menor, não fisicamente, mas porque a armadura havia sido retirada e ainda não havia outra no lugar. Havia marcas de cansaço profundo em seu rosto. Os olhos estavam vermelhos. Não parecia envergonhado de chorar. Parecia surpreso por ainda existir depois disso.

— Capitã — disse ele, a voz rouca.

Sarah virou a cabeça.

— Sergey.

Ele tentou se sentar.

Naya o impediu com uma mão no ombro.

— Ainda não.

Ele obedeceu.

Roberta percebeu.

Sarah também.

A obediência, nele, parecia diferente agora. Menos reflexo militar. Mais aceitação de limite.

— O marcador? — perguntou Sarah.

— Contido — respondeu Iara. — Desligado e isolado pela rede. O solo ao redor precisará de tempo.

Sergey fechou os olhos.

— Eu sinto muito.

Ninguém respondeu de imediato.

Roberta sentiu o impulso de dizer que não bastava.

Porque não bastava.

Mas também percebeu que, naquele momento, a frase não buscava absolvição. Sergey não parecia pedir que alguém retirasse dele a responsabilidade. Parecia apenas, talvez pela primeira vez, deixá-la existir sem cobri-la com relatório.

Sarah observou-o por alguns segundos.

— Você quase matou a missão.

Ele abriu os olhos.

— Sim.

A resposta veio sem defesa.

Sarah continuou:

— Colocou a comunidade em risco.

— Sim.

— Colocou Roberta, Mei, Asha, Samira, a Aurora e a mim em risco.

— Sim.

Roberta esperou a justificativa.

Ela não veio.

Sergey apenas olhou para Sarah e disse:

— Eu pensei que estava construindo uma saída. Mas era uma cerca.

Sarah ficou em silêncio.

Roberta sentiu aquela frase entrar na sala como algo que não consertava nada, mas mudava o ar.

Naya olhou para Sergey com uma tristeza satisfeita. Não alegria. Satisfação talvez fosse a palavra errada. Era mais como quando alguém vê uma pessoa finalmente tocar o próprio ferimento e parar de chamá-lo de armadura.

Sarah respirou com cuidado.

— Então aprenda a reconhecer a diferença.

Sergey assentiu.

— Sim, capitã.

Dessa vez, a frase não soou como obediência automática.

Soou como escolha.

Samira interrompeu pelo canal:

— Antes que todas comecem a transformar recuperação crítica em sessão filosófica, preciso de exames completos. Sarah, Sergey, ambos permanecem em repouso. Roberta, você também.

Roberta levantou a cabeça.

— Eu?

— Sim, você. Sua frequência cardíaca tem se comportado como se estivesse correndo uma maratona emocional, o que, admito, pode ser descrição literal. Ainda assim, repouso.

— Estou bem.

— Essa frase foi banida da missão.

Mei entrou no canal do Vega:

— Apoio a proibição. “Estou bem” nunca precedeu nada bom nesta tripulação.

Aurora acrescentou:

— Estatisticamente, a frase “estou bem” foi seguida por queda, febre, confronto emocional ou decisão questionável em setenta e quatro por cento das ocorrências recentes.

Sarah, ainda fraca, fechou os olhos.

E riu outra vez.

Dessa vez, um pouco mais.

Não alto. Mas riu.

Roberta olhou para ela como se o planeta tivesse acabado de produzir outra espécie impossível.

— Você riu de uma estatística da Aurora?

Sarah tentou conter o sorriso.

Falhou.

— Foi uma boa estatística.

Mei ficou em silêncio por um segundo.

Depois sua voz veio pelo canal, indignada:

— Espera. A capitã riu? Alguém confirmou visualmente? Roberta, preciso de relatório.

Roberta olhou para Sarah.

Sarah desviou o rosto, mas ainda sorria.

— Confirmo — disse Roberta. — Evento raro, mas documentado.

Aurora respondeu:

— Registrando como marco psicológico relevante.

— Aurora — advertiu Sarah, sem força real.

— Sim, capitã?

— Apague.

— Negativo. Registros históricos não devem ser manipulados para preservar reputações de comando.

Mei soltou uma risada.

Até Asha, pelo canal, riu baixo.

Aquele som pequeno, vindo de vários pontos diferentes — Aurora Prime, Vega preso, nave em órbita — atravessou Roberta como água limpa, ela não podia ainda se sentir totalmente bem, o Vega continuava preso. A comunidade estava ferida. A Terra exigia respostas. O Protocolo Semente Branca ainda não havia sido revelado à equipe inteira. Sarah ainda carregava uma ordem capaz de destruir a confiança que começava a reconstruir. Sergey ainda teria que responder pelo que fez. Éden-9 ainda tremia em camadas que os sensores não entendiam, só que pela primeira vez desde o pulso de contenção, a sala parecia habitável.

Não segura.

Habitável.

Como se fosse possível respirar dentro do desastre sem se tornar parte dele.

As cuidadoras iniciaram os exames locais. Usavam organismos luminosos que se abriam sobre a pele sem tocá-la, projetando linhas internas em luz suave. Samira orientava do comunicador, entre fascínio e frustração, pedindo equivalências, dados, traduções. Uma das cuidadoras respondia com paciência, explicando que “o calor da memória ainda estava saindo” e que “o corpo precisava lembrar que tinha bordas”.

— Eu preciso de medidas — disse Samira.

— Ela deu uma medida — respondeu Mei, do Vega. — Só que linda e inútil.

— Não é inútil — murmurou Asha. — Talvez “bordas” se refira à reintegração sensorial pós-episódio.

Aurora completou:

— Proponho termo provisório: restauração de limite somático-cognitivo.

A cuidadora mais velha inclinou a cabeça.

— Corpo lembrando bordas.

Aurora ficou em silêncio por meio segundo.

— A formulação local é mais eficiente.

Mei soltou um som de vitória.

— A planta médica venceu a IA.

— A cuidadora não é uma planta — disse Asha.

— Neste planeta, isso é mais uma opinião do que um fato.

Roberta teria rido se não estivesse tão cansada.

Sarah, ainda deitada, olhou para ela.

— Você está exausta.

— Você quase morreu. Eu tenho direito.

— Eu quase morri?

Roberta congelou.

Samira respondeu antes, firme:

— Seu pulso ficou ausente por aproximadamente três segundos, mas retornou espontaneamente e eu ainda estou decidindo se vou gritar com você por isso.

Sarah ficou quieta.

Roberta sentiu a mão dela apertar a sua.

Os três segundos voltaram.

O escuro.

O pulso ausente.

A palavra não presa na garganta.

Não.

Sarah percebeu.

— Desculpa.

Roberta balançou a cabeça imediatamente.

— Não.

— Roberta...

— Não pede desculpa por quase morrer. Eu não tenho estrutura emocional para responder isso com educação.

Sarah olhou para ela.

Dessa vez não riu.

A mão dela subiu devagar, fraca, até tocar o rosto de Roberta.

O gesto era leve demais.

Mesmo assim, Roberta fechou os olhos.

— Eu voltei — disse Sarah.

Roberta engoliu seco.

— Eu sei.

— Eu deixei a porta aberta.

Roberta abriu os olhos, não perguntou, na verdade ela não precisava perguntar tudo naquele momento.

— Isso é bom?

Sarah olhou para o teto vivo de Aurora Prime. As luzes acima dela pulsavam devagar, como se escutassem.

— Acho que sim.

— Você acha?

— Estou praticando ainda.

Roberta soltou um riso emocionado.

— Nossa. Éden quebrou você mesmo.

Sarah sorriu.

— Talvez só tenha aberto uma trava emperrada.

Roberta olhou para ela por tempo demais.

A vontade de beijá-la veio forte, mas não como no abrigo. Agora havia outra espécie de desejo misturado ao alívio: tocar para confirmar, aproximar-se para agradecer ao corpo dela por continuar, beijar porque algumas pessoas voltavam da beira do impossível e o mundo deveria marcar isso de algum modo.

Mas a sala estava cheia, Zarah estava fraca e ainda havia segredos grandes demais para serem ignorados em nome do alívio.

Roberta ficou onde estava e Sarah pareceu entender, talvez ela também quisesse e mesmo assim, soubesse que ainda não era o momento.

Depois de algum tempo, Iara autorizou a transferência de Sarah e Sergey para uma zona de repouso próxima, ainda dentro de Aurora Prime. O Vega continuaria preso até que a rede se estabilizasse completamente. Mei reclamou por dez minutos, mas quando Iara explicou que tentar forçar a liberação poderia ferir o solo e danificar o módulo, ela parou.

— Certo — disse a piloto pelo comunicador. — Eu e o vaso interplanetário aguardaremos maturidade emocional da floresta.

Aurora respondeu:

— O Vega informa que não se identifica como vaso.

— O Vega agora tem opinião?

— Eu transmiti minha interpretação do estado estrutural dele.

— Você está ficando sentimental.

— Estou ficando contextual.

Roberta ajudou a acompanhar Sarah até a zona de repouso, embora as cuidadoras fizessem a maior parte do trabalho. A estrutura era uma casa baixa integrada a uma árvore larga, com paredes de membrana translúcida e luz morna. Havia dois espaços separados por uma divisória viva: um para Sarah, outro para Sergey. Não era prisão, mas também não era liberdade completa. As cuidadoras explicaram que eles precisavam permanecer próximos à rede até que a Febre de Eco terminasse de “fechar a superfície da ferida”.

Roberta decidiu não discutir a linguagem, estava cansada demais para brigar com metáforas que talvez fossem anatomia.

Sergey foi instalado primeiro. Antes de a divisória se fechar parcialmente pelas raízes, ele chamou Sarah.

— Capitã.

Ela virou o rosto.

— Sim?

Ele pareceu procurar palavras.

Não encontrou muitas.

— Obrigado por vir.

Sarah ficou quieta.

— Você teria feito o mesmo.

Sergey baixou os olhos.

— Antes, talvez pelo motivo errado.

Sarah observou-o por um instante.

— E agora?

Ele respirou.

— Ainda não sei todos os motivos certos.

Sarah assentiu.

— Comece por não agir sem autorização.

A frase era dura, mas havia algo quase seco no tom dela. Não humor exatamente. Uma forma mínima de retorno à vida.

Sergey aceitou.

— Sim, capitã.

A divisória se fechou.

Sarah foi acomodada na superfície de repouso. Roberta ficou ao lado até as cuidadoras terminarem os ajustes. Quando todas se afastaram, o espaço ficou quase privado. Do lado de fora, vozes baixas da comunidade circulavam. Ao longe, água corria. A casa viva respirava em luzes suaves.

Roberta sentou-se no chão ao lado dela.

— Samira vai me matar por não repousar.

— Provavelmente — disse Sarah.

— E eu tenho certeza que Asha vai ajudar a esconder o corpo se for por eficiência.

— Mei fará piadas no funeral.

— Aurora registrará como evento estatisticamente evitável.

Sarah sorriu de leve.

— Minha equipe é terrível.

— Sua equipe te ama.

A frase saiu natural demais.

Sarah olhou para Roberta.

O silêncio entre elas mudou.

Roberta sentiu o coração acelerar, mas não recuou da frase.

— Ama do jeito disfuncional de uma tripulação que atravessou o espaço e foi quase adotada por um planeta consciente — acrescentou, tentando suavizar.

Sarah continuou olhando.

— E você?

Roberta ficou imóvel.

A pergunta era baixa, frágil demais para ser provocação e forte demais para ser ignorada. A confissão feita diante de Iara voltou inteira.

“Ele sabe que eu amo essa mulher?”

“Sarah ouvira?”

“Não ouvira?”

Roberta poderia responder ali. Poderia dizer. Poderia abrir a palavra entre elas e deixar que ela mudasse tudo de vez, mas Sarah estava recém-chegada de Calisto. A verdade do protocolo ainda precisava ser dita. A equipe ainda estava dividida por feridas novas. O amor, naquele instante, não precisava ser usado como peso a mais.

Roberta tocou a mão dela.

— Eu estou aqui.

Sarah sustentou o olhar por um segundo.

Depois assentiu, como se compreendesse que aquela era a resposta possível. Talvez não a completa. Mas verdadeira.

— Eu também estou — disse Sarah.

E aquilo, vindo dela, significava muito.

Por algum tempo, ficaram em silêncio.

Roberta ouviu a casa viva. A água. A respiração de Sarah. A própria pulsação diminuindo aos poucos. Sentiu o cansaço finalmente subir pelo corpo inteiro, ocupando os ossos, a pele, os olhos.

Sarah percebeu.

— Deita um pouco.

Roberta riu.

— Você está dando ordem médica agora?

— Estou praticando cuidado de forma autoritária.

— Ainda precisa de ajustes.

Sarah olhou para o espaço ao lado dela na superfície de repouso. Não era uma cama comum, nem havia exatamente lugar previsto para duas pessoas, mas a membrana viva se alargou um pouco, como se tivesse ouvido a intenção antes da decisão.

Roberta olhou para a superfície.

Depois para Sarah.

— Isso foi você ou Éden?

— Não fui eu.

— Claro.

Sarah parecia quase constrangida.

Roberta deveria recusar por questões de prudência e compostura, em vez disso, tirou as botas leves e se deitou ao lado dela, com cuidado para não pressionar sensores, membranas ou feridas invisíveis. Não se abraçaram. Não de início. Ficaram lado a lado, ombro quase tocando ombro, olhando para o teto translúcido da casa viva.

Depois Sarah moveu a mão.

Devagar.

Os dedos dela encontraram os de Roberta, ela não apertou, apenas ficaram ali.

Roberta fechou os olhos.

— Não conta para Samira que eu obedeci você.

— Minha reputação de paciente difícil depende disso?

— Exatamente.

Sarah soltou outro riso baixo.

Roberta sorriu sem abrir os olhos, aquele som poderia viciar uma pessoa.

Do lado de fora, Aurora Prime parecia recuperar lentamente seu ritmo. As luzes da cidade subiam, uma a uma. O sofrimento coletivo não havia desaparecido, mas havia atravessado a pior parte. O Vega continuava preso. A Terra continuava esperando. A verdade continuava pendente, mas Sarah estava viva e, por alguns minutos, isso foi tudo, uma respiração depois da queda.

Roberta sentiu o sono começar a puxá-la e antes de ceder, ouviu Sarah dizer muito baixo:

— Amanhã.

Roberta abriu os olhos parcialmente.

— O quê?

Sarah olhava para o teto.

— Amanhã eu conto. Para todos. Não deixo mais a verdade esperando uma emergência.

Roberta estudou o perfil dela.

Havia cansaço. Fragilidade. Mas também algo novo.

Não leveza completa.

Não paz.

Mas espaço.

Como se a culpa tivesse deixado de ocupar todos os cômodos.

— Certo — disse Roberta.

Sarah virou o rosto.

— Você vai estar lá?

Roberta apertou os dedos dela.

— Vou.

— Com raiva?

Roberta pensou.

— Menos do que ontem.

Sarah pareceu aceitar aquilo como presente.

— Com medo?

— Sim.

— Vai me defender?

Roberta sorriu de leve.

— Não começa.

Sarah sorriu também.

— Eu lembro.

Roberta fechou os olhos outra vez.

— Para garantir que a verdade não seja enterrada de novo.

— Justo.

O sono veio mais perto. Sarah não soltou sua mão. Em algum lugar da cidade viva, uma criança riu pela primeira vez desde a crise. O som atravessou a membrana da casa, pequeno e claro. Sarah ouviu e, surpreendentemente, riu de novo.

Roberta abriu os olhos, maravilhada e exausta.

— O que foi?

Sarah olhou para ela.

O sorriso ainda estava ali, pequeno, cansado, real.

— Nada. Só... ouvi.

Roberta sentiu o peito apertar, não de dor, de outra coisa, algo diferente, pensou em nomear de esperança, mas também poderia ser amor, depois entendeu, era as duas coisas aprendendo a dividir o mesmo nome.

Fim do capítulo


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