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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3718
Acessos: 72   |  Postado em: 16/06/2026

A cerca

Sergey Ivanov

 

Sergey estava em casa. A primeira reação foi rejeitar a imagem, ele não podia estar em casa. Estava em Éden-9. Havia desativado o marcador. O solo vibrara. Sarah caíra. Roberta gritara alguma coisa. Depois vieram luz, febre, mãos desconhecidas, uma jovem chamada Naya dizendo que ele estava em dois lugares ao mesmo tempo.

Ele deveria estar em Aurora Prime.

Ou no Vega.

Ou na Aurora.

Não em casa.

Mas a sala diante dele era real demais para ser descartada.

A janela estreita. A luz fria entrando pelas cortinas. O tapete gasto perto da porta. A prateleira torta que ele prometera consertar antes da partida e não consertara. O casaco pequeno de Mikhail pendurado em uma cadeira baixa. Um brinquedo de nave desmontado sobre a mesa.

Sergey respirou.

O ar tinha cheiro de pão escuro, chá forte e metal aquecido pelo inverno.

Casa.

Não a Terra como bandeira.

Não a Terra como missão.

Não a Terra como jurisdição, soberania, comando, protocolo, fronteira.

Casa.

Aquilo o atingiu com uma violência que nenhum campo de batalha jamais conseguira.

— Papai?

A voz veio do quarto.

Sergey virou-se rápido demais.

Mikhail apareceu no corredor usando o casaco azul que sua mãe fizera para ele. Tinha cinco anos. Cabelos bagunçados. Um meia no pé e outra na mão. O rosto sério demais para uma criança tão pequena, o mesmo rosto que fazia quando tentava entender alguma coisa que os adultos diziam como se fosse simples.

Sergey sentiu o peito se abrir e doer ao mesmo tempo.

— Misha.

O apelido escapou antes que ele pudesse controlar.

Mikhail sorriu.

E então o sorriso mudou.

Não desapareceu. Apenas ficou atento. Como se a criança também o escutasse por dentro.

— Você colocou uma coisa no chão — disse o menino.

Sergey olhou ao redor.

A sala de casa tremeu.

Por baixo do tapete, luz azul apareceu em fios finos. Raízes de Éden-9 atravessavam o piso, subindo pelas paredes, envolvendo a mesa, a cadeira, a prateleira torta. O brinquedo de nave desmontado brilhou por dentro, como se tivesse se tornado semente de alguma coisa.

Sergey deu um passo para trás.

— Isso não é real.

Mikhail inclinou a cabeça.

— Você sempre diz isso quando não quer responder.

O coração de Sergey bateu forte.

A frase não era de Mikhail.

Não inteira.

Era dele.

Ou da memória dele.

Ou daquele planeta maldito que aprendia a usar o que encontrava dentro das pessoas como linguagem.

— Onde está sua mãe? — perguntou Sergey.

— Você sabe que ela não está aqui.

— Onde estamos?

Mikhail olhou pela janela.

Do lado de fora não havia a rua de sua casa.

Havia Éden-9.

Florestas prateadas. Céu violeta. Duas luas pequenas. Raízes luminosas atravessando a neve que não deveria existir ali. No horizonte, a cidade de Aurora Prime respirava como se tivesse crescido dentro de sua infância.

— Você está com medo — disse Mikhail.

Sergey fechou os punhos.

— Todo homem sensato sente medo.

— Então por que você finge que não?

A pergunta não tinha crueldade, mas doeu mais.

Sergey se aproximou da janela. A superfície do vidro refletiu seu rosto, mas não o rosto que ele esperava. Não era o homem grisalho, rígido, oficial de segurança da Aurora. Era mais jovem. Muito mais jovem.

Tinha doze anos.

Talvez treze.

Estava no corredor de uma escola militar preparatória, usando um uniforme grande demais nos ombros, segurando uma mala pequena e tentando não olhar para trás.

A cena mudou.

Ele estava lá.

O frio queimava as orelhas. O prédio era cinzento. Outros meninos entravam carregando malas, alguns rindo, outros chorando escondido. Seu pai ajustava a gola do casaco dele com movimentos duros. Sua mãe segurava uma sacola de comida que ele havia recusado levar porque os outros poderiam rir.

— Você vai aprender disciplina — dizia o pai. — Disciplina faz um homem útil.

A mãe não dizia nada.

Apenas olhava.

Sergey lembrava do esforço para não chorar. Lembrava de ter fixado os olhos na porta da escola como se ela fosse uma missão. Lembrava de pensar que, se entrasse sem olhar para trás, venceria alguma coisa.

Quando deu o primeiro passo, a voz da mãe veio baixa:

— Sergey.

Ele parou.

— Nunca saia de casa após discutir ou despedir-se sem olhar para trás uma vez.

O pai suspirou, impaciente.

— Superstição.

A mãe ignorou.

— Olhe. Só uma vez. Para lembrar que pertence a algum lugar antes de tentar vencer o mundo.

O Sergey de doze anos não olhou.

Entrou.

A porta fechou atrás dele.

A cena congelou.

O Sergey adulto ficou parado no corredor da memória, vendo a si mesmo desaparecer.

— Eu achei que se olhasse, não conseguiria ir — disse.

Mikhail apareceu ao lado dele.

— Você foi.

— Sim.

— E voltou?

Sergey não respondeu.

Porque a pergunta não era sobre a escola.

Era sobre tudo.

As missões. Os treinamentos. As patrulhas. As evacuações. As cerimônias. As bandeiras dobradas sobre caixões. O filho chorando na porta quando ele partiu para a Aurora. Ele havia olhado para trás naquela vez, sim. Como a mãe ensinara. Mas olhara como quem transforma saudade em prova. Como quem diz: estou indo por você, então não me peça para ficar.

Talvez tivesse sido mais fácil chamar aquilo de dever.

Dever era uma palavra limpa.

Saudade era desorganizada.

Amor, pior ainda.

A cena mudou outra vez.

Agora era a sala de treinamento da Frota.

Sergey adulto, mais jovem do que na Aurora, estava diante de um instrutor. Uma simulação tática brilhava na parede. Um assentamento civil cercado por terreno instável. Uma equipe científica presa em uma zona de risco. Três rotas possíveis.

— Regra básica — dizia o instrutor. — Antes de salvar, delimite. Antes de avançar, contenha. Antes de negociar, controle espaço.

Sergey repetiu com os outros cadetes:

— Delimitar. Conter. Controlar.

A frase ecoou pelas paredes.

Delimitar.

Conter.

Controlar.

As palavras se multiplicaram.

A sala de treinamento se misturou à clareira de Éden-9. O marcador de contenção estava preso ao solo. Pequeno. Técnico. Perfeito. Uma baliza passiva. Uma rota segura. Um ponto fixo de retirada.

Ele repetira as justificativas tantas vezes que quase acreditara nelas por inteiro, mas agora, dentro da Febre de Eco, o planeta não permitia quase.

O marcador pulsou.

A terra ao redor ficou cinzenta.

Raízes se afastaram como pele queimada.

Sergey sentiu o horror subir.

— Eu não sabia.

A voz de Naya veio de algum lugar atrás dele.

— Agora sabe.

Ele virou-se.

A jovem estava ali, mas não igual. Talvez fosse Naya. Talvez fosse Éden usando a forma dela porque ela havia sido a última voz que tentou mantê-lo preso ao corpo. Havia luz nos olhos dela, mas também uma paciência humana. Isso, de algum modo, a tornava mais difícil de enfrentar.

— Eu não quis ferir o planeta — disse Sergey.

— Não.

— Eu queria proteger a equipe.

— Sim.

— Então por que isso está acontecendo?

Naya tocou o marcador.

Ele se transformou.

Não fisicamente. Simbolicamente. A baliza cresceu em linhas de luz até virar uma cerca. Depois uma muralha. Depois uma prisão. Depois a porta de uma escola militar. Depois o perímetro de uma base terrestre. Depois as fronteiras desenhadas em mapas que homens mortos haviam chamado de nações. Depois o contorno orbital de Éden-9 no Protocolo Semente Branca.

Sergey recuou.

— Isso não é meu.

— Parte é.

— Eu não ordenei o protocolo da Terra.

— Não.

— Eu não quero destruir Éden.

— Não.

— Então para.

Naya olhou para ele.

— Você ainda acha que a pergunta é o que você quer.

Sergey sentiu raiva.

A raiva era familiar. Útil. Dava forma ao medo.

— Intenção importa. Foi isso que vocês disseram.

— Importa.

— Minha intenção era proteção.

— Era.

— Então por que me tratam como invasor?

Naya não respondeu de imediato.

A clareira ao redor mudou.

Agora havia Mikhail atrás da cerca.

O menino segurava o brinquedo de nave quebrado. Do lado de Sergey, havia ferramentas, mapas, armas de contenção, protocolos, rotas de evacuação. Tudo organizado. Tudo seguro.

Mikhail tentou passar pela abertura da cerca.

Ela se fechou.

— Não — disse Sergey, avançando.

A cerca respondeu ao movimento dele, engrossando.

Mikhail olhou para ele do outro lado.

— Você disse que era para me proteger.

Sergey agarrou as barras.

— É.

— Então por que eu não consigo chegar perto?

Ele tentou quebrar a cerca.

As barras queimaram sua mão.

— Mikhail!

Naya apareceu ao lado dele.

— Proteção que impede encontro vira posse.

— Ele é meu filho.

— Ele é uma pessoa.

A frase atravessou Sergey como lâmina.

— Eu sei disso.

— Sabe?

Ele virou-se para ela.

— Não me fale do meu filho.

Naya não recuou.

— Então fale você.

Sergey respirava pesado.

A cerca continuava ali.

Mikhail esperava do outro lado.

— Ele tem cinco anos — disse Sergey. — Gosta de motores. Odeia sopa. Finge que não tem medo do escuro, mas deixa a luz do corredor acesa. Quando eu parti, tentou parecer corajoso. Eu disse a ele que coragem era fazer o certo mesmo com medo.

A voz falhou.

— Eu queria que ele se orgulhasse de mim.

Naya observou.

— E se ele precisasse de você mais do que de orgulho?

Sergey fechou os olhos.

A pergunta não era justa.

Nada ali era justo.

— Eu não podia ficar.

— Por quê?

— Porque fui convocado.

— Por quê?

— Porque a missão era importante.

— Por quê?

— Porque Éden-9 poderia representar risco para a Terra.

— Por quê?

Sergey abriu os olhos.

— Porque não entendíamos o planeta.

Naya permaneceu em silêncio.

Ele ouviu a própria resposta.

Não entendíamos.

E ainda assim chegaram com protocolos de contenção, ordens secretas, cadeia militar, marcadores, mapas, balizas, extrações possíveis, avaliações de soberania, nomes prontos para o que não conheciam.

A cerca brilhou mais fraca.

Mikhail se aproximou dela.

— Você me ensinou que quando a gente não entende uma máquina, não deve bater nela.

Sergey soltou um riso doloroso.

— Eu disse isso?

— Quando eu quebrei o regulador da cozinha.

— Você enfiou uma colher dentro dele.

— Eu estava investigando.

— Você quase incendiou a mesa.

— Mesmo assim, você disse.

Sergey apoiou a testa nas barras.

— Eu não sei fazer isso.

— O quê?

— Proteger sem cercar.

A frase saiu antes que pudesse ser contida.

A cerca tremeu.

Naya olhou para ela.

— Agora estamos em algum lugar.

Sergey sentiu a garganta apertar.

— Eu fui ensinado que, se há risco, você controla o espaço. Se há ameaça, cria perímetro. Se há incerteza, reduz variáveis. Se há algo que não responde ao comando, estabelece contenção.

— E se houver vida?

— Vida também pode ser ameaça.

— Sim.

Ele olhou para ela, surpreso pela concordância.

Naya continuou:

— Vida fere. Vida invade. Vida toma espaço. Éden também pode ferir. Nós aprendemos isso. Por isso existem limites. Zonas de silêncio. Círculos de decisão. Pedidos antes do toque.

Ela apontou para a cerca.

— Mas limite não é o mesmo que posse.

Sergey olhou para Mikhail.

O menino colocou a mão pequena sobre uma das barras.

— Eu queria que você voltasse — disse Mikhail.

Sergey sentiu o peito ruir.

— Eu também.

— Mas se você voltar só sabendo mandar, eu não vou conseguir te contar as coisas.

— Que coisas?

Mikhail deu de ombros, como criança.

— As minhas.

A simplicidade da resposta quase o matou.

As minhas.

Não as que Sergey queria ensinar.

Não as lições de dever, bandeira, coragem, missão.

As coisas de Mikhail.

Os medos dele. Os erros dele. As perguntas dele. As alegrias sem utilidade. O jeito como ele talvez crescesse para discordar do pai, amar outras coisas, escolher outros caminhos, não caber na ideia de patriotismo que Sergey levava consigo como armadura.

Sergey percebeu, com horror, que parte dele havia vindo para a missão não apenas para ensinar o filho sobre dever, mas para se tornar uma história tão grande que a ausência parecesse menos abandono.

O herói distante.

O pai em missão.

O homem que foi primeiro.

Mais bonito do que: o homem que teve medo de não saber ficar.

Ele caiu de joelhos.

A cerca diminuiu.

— Eu não sabia como ficar — disse.

Mikhail também se ajoelhou do outro lado.

— Então aprende.

Sergey chorou.

Não como na superfície, perdido em febre, chamando o filho. Chorou ali, dentro da própria estrutura, diante de uma criança que talvez fosse memória, talvez fosse Éden, talvez fosse o futuro que ele temia não merecer. Chorou sem postura, sem função, sem testemunha militar. Chorou como um homem que descobria tarde demais que a fortaleza que construiu para proteger o amor também impediu que ele respirasse.

Naya esperou.

O planeta esperou.

A cerca terminou de desaparecer.

Mikhail avançou e abraçou o pescoço dele.

Sergey sentiu o peso pequeno do corpo do filho, o cheiro de cabelo infantil, o calor das mãos nas costas. Sabia que não era real. Sabia que Mikhail estava na Terra, anos e anos distante, talvez já mais velho pelo tempo da missão, talvez carregando a ausência do pai de formas que Sergey nunca conseguiria reparar completamente.

Mas também era real.

Éden não devolvia os mortos, nem os vivos, como presença perfeita. Devolvia relação.

E aquela relação estava ali, tocando o centro exato da ferida.

— Eu quis te ensinar coragem — sussurrou Sergey.

A voz infantil respondeu perto do ouvido:

— Então aprende uma nova.

A sala de casa voltou ao redor deles.

Dessa vez, sem cerca.

As raízes de Éden-9 continuavam atravessando o piso, mas não pareciam invasão. Pareciam costura. A janela mostrava a floresta e a rua de sua casa ao mesmo tempo. Dois mundos sobrepostos, ambos exigindo cuidado.

A mãe de Sergey apareceu junto à porta.

Ele não se surpreendeu tanto quanto deveria.

Ela parecia como no dia da escola militar, mais jovem do que ele a vira pela última vez antes da partida. Segurava a mesma sacola de comida que ele recusara. O rosto era firme, mas os olhos tinham aquela tristeza paciente das pessoas que amam alguém treinado para transformar carinho em constrangimento.

— Você nunca olhava — disse ela.

Sergey levantou devagar.

Mikhail desapareceu aos poucos, não como morte, mas como lembrança voltando ao lugar certo.

— Eu olhei quando deixei Mikhail — disse Sergey.

A mãe se aproximou.

— Olhou para transformar dor em dever. Não para deixar que ela existisse.

Sergey respirou fundo.

— Todos aqui falam como terapeutas cruéis.

— Deve ser o planeta. Ou talvez você finalmente esteja escutando.

Ele quase sorriu.

Quase.

A mãe tocou o rosto dele.

— Seu pai achava que disciplina era parede. Eu achava que era ponte. Nenhum dos dois estava totalmente certo.

— O que é, então?

— Depende do que você faz com ela.

A frase pareceu simples.

Sergey odiou a simplicidade.

— Eu feri Éden.

— Sim.

— Coloquei a equipe em risco... a capitã.

— Sim.

— E ainda assim eu achava que estava protegendo.

A mãe assentiu.

— Homens da nossa família sempre foram bons em fazer coisas perigosas parecerem cuidado.

Sergey fechou os olhos.

— Eu queria ser diferente.

— Então seja.

Ele riu com amargura.

— Como se fosse simples.

— Não é simples. Mas é mais simples do que morrer repetindo.

A sala tremeu.

Ao longe, veio o som de uma voz.

Naya.

Não a Naya da memória, mas a real, talvez sentada ao lado do corpo dele em Aurora Prime.

— Diga onde está.

Sergey olhou para a mãe.

Ela assentiu.

— Éden-9 — respondeu ele.

A voz veio outra vez.

— Diga o que fez.

Ele fechou os punhos.

— Marquei o solo.

— Diga por quê.

Sergey olhou para a janela.

A floresta parecia observá-lo.

Não com raiva.

Com espera.

— Porque tive medo.

— De quê?

Dessa vez, ele respondeu sem se esconder.

— De perder todos. De não saber salvar ninguém se não pudesse controlar tudo. De voltar para meu filho como um homem que falhou. De descobrir que toda a minha coragem era só obediência com bom uniforme.

A casa ficou silenciosa.

A mãe sorriu de leve.

— Melhor.

— Isso é melhor?

— É a verdade.

Sergey olhou para as próprias mãos.

Ainda havia marcas de queimadura das barras que não existiam.

— Eu não sei o que fazer quando acordar.

A mãe caminhou até a porta.

— Sabe sim.

Ela abriu.

Do lado de fora, não havia mais a escola militar, nem a rua de casa, nem a floresta. Havia a clareira do marcador. O dispositivo desligado coberto por raízes. O Vega preso ao longe. Sarah caída. Roberta segurando a mão dela. Mei falando demais para não enlouquecer. Asha tentando manter dados vivos. Samira comandando de longe com raiva médica. Iara e Naya sustentando o que a Terra não ensinara.

A equipe.

Não como unidade operacional.

Como pessoas.

— Você volta — disse a mãe. — E, dessa vez, olha.

Sergey caminhou até a porta.

Parou.

O corpo inteiro quis perguntar se Mikhail ficaria bem, se a Terra o odiaria, se Sarah o perdoaria, se Roberta algum dia deixaria de vê-lo como risco, se Éden-9 voltaria a aceitá-lo, se ele ainda tinha lugar em uma missão que ele mesmo quase destruiu tentando proteger.

Mas talvez aquela fosse a armadilha de sempre.

Querer garantias antes de fazer o certo.

Ele olhou para trás.

A mãe estava junto à mesa.

Mikhail sentado no chão, remontando a nave de brinquedo.

Dessa vez, Sergey olhou.

Não para se prender.

Para lembrar.

A mãe tocou o próprio peito e depois apontou para a porta.

O mesmo gesto de despedida que as pessoas de Éden faziam.

Sergey respirou.

E saiu.

A luz o atravessou.

Por um instante, não houve casa, nem floresta, nem memória. Havia apenas uma sensação ampla, difícil de suportar: a consciência de Éden-9 tocando sua intenção sem destruí-la.

Sergey esperou acusação.

Recebeu dor.

Não a própria apenas.

A do solo queimado pelo marcador. A das raízes que recuaram. A dos organismos simbióticos assustados. A da comunidade recolhendo crianças para zonas de silêncio. A de um planeta que já vira máquinas chegarem com nomes técnicos para feridas antigas.

Ele tentou pedir desculpa.

Não havia boca.

Tentou formular relatório.

Não havia idioma.

Então fez a única coisa que restou.

Sentiu.

A dor de Éden não o perdoou.

Mas também não o expulsou.

Perdão podia encerrar uma história. Permanência obrigava a viver depois dela.

A voz de Naya voltou, agora mais perto:

— Sergey.

Ele abriu os olhos.

A primeira coisa que viu foi o teto vivo da enfermaria de Aurora Prime.

A segunda foi Naya.

A jovem estava ao lado dele, segurando suas mãos. Parecia cansada. Muito cansada. As marcas luminosas nos braços dela estavam mais fracas, e havia suor na testa. Por um instante, Sergey sentiu vergonha de ter exigido tanto de uma menina.

Não.

Não menina.

Naya era jovem, mas não era menor que ele naquele lugar.

— Você voltou — disse ela.

Sergey tentou falar.

A garganta estava seca.

Naya levou um copo aos lábios dele. A água tinha gosto de minerais e folhas.

Ele bebeu pouco.

O suficiente.

Do outro lado da sala, Sarah ainda estava inconsciente.

Roberta permanecia junto dela, as duas mãos fechadas ao redor de uma das mãos da capitã. Iara estava próxima. Samira falava pelo comunicador com voz dura. Sergey não conseguia ouvir tudo, mas ouviu o bastante para entender que Sarah ainda estava dentro de sua própria travessia.

Culpa de Calisto.

Ele sabia pouco sobre aquilo o bastante para compreender que alguns corredores eram piores do que campos de batalha.

Tentou se levantar.

Naya colocou a mão em seu peito.

— Ainda não.

O reflexo antigo quase o fez contestar.

Em vez disso, respirou e obedeceu. Não à autoridade, ao cuidado.

— O marcador? — perguntou, a voz rouca.

— Contido.

— O Vega?

— Preso. Inteiro.

— A comunidade?

Naya olhou para ele por um instante.

— Ferida. Estável.

Sergey fechou os olhos.

A palavra ferida ficou dentro dele.

— Eu pensei que estava construindo uma saída.

Naya não respondeu.

Ele abriu os olhos.

— Mas era uma cerca.

A jovem inclinou a cabeça.

Não parecia satisfeita.

Parecia triste.

— Sim.

Sergey aceitou a palavra.

Sim.

Sem justificativa.

Sem defesa.

Sem relatório anexado.

Ele virou o rosto para a direção de Roberta.

Ela o olhava agora.

O rosto dela estava marcado por exaustão, medo e algo que talvez fosse raiva suspensa por falta de espaço. Sergey não a culpava. Não sabia se algum dia ela o perdoaria. Não sabia se deveria esperar isso.

— Doutora Almeida — disse ele.

Roberta sustentou seu olhar.

— Não agora.

A resposta foi baixa.

Firme.

Ele assentiu.

Não agora.

Pela primeira vez, não tentou forçar a passagem.

Olhou para Sarah.

— Ela vai voltar?

Roberta apertou a mão da capitã.

— Vai.

A resposta não parecia certeza científica.

Parecia vontade.

E, em Éden-9, Sergey começava a entender que algumas vontades eram forças reais, ainda que não bastassem sozinhas.

Iara aproximou-se dele.

— Você atravessou a primeira camada.

Sergey riu sem humor. A garganta doeu.

— Haverá mais?

— Sempre há.

— Ótimo.

Naya quase sorriu.

— Você está aprendendo humor com Mei.

— Deus me livre.

Roberta soltou um som mínimo.

Não foi riso completo.

Mas foi algo.

Sergey fechou os olhos por um segundo, cansado demais para sustentar mais mundo. Quando os abriu, Sarah se moveu.

Todos se voltaram para ela.

A luz prateada ao redor da capitã começou a mudar. O rosto dela, antes preso em sofrimento profundo, suavizou quase nada. Uma lágrima escorreu pela lateral da têmpora.

Roberta aproximou-se.

— Sarah?

Sergey prendeu a respiração. Naya segurou sua mão de novo, não por contenção, mas por lembrança, ele estava ali, em Éden-9, na comunidade que ferira, na missão que quase comprometera, perto da capitã que talvez carregasse uma ordem tão perigosa quanto sua cerca e, pela primeira vez em muito tempo, Sergey não procurou um protocolo antes de sentir medo.

Apenas sentiu.

E ficou.

Porque talvez coragem, a verdadeira, começasse exatamente ali: não avançar, não cercar, não comandar.

Ficar diante do que se quebrou e esperar sem transformar a espera em arma.

Fim do capítulo


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