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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 4609
Acessos: 94   |  Postado em: 16/06/2026

O que resta depois da verdade

Roberta Almeida

 

A verdade não explodiu e Roberta percebeu isso com certo espanto. Talvez, no fundo, esperasse algum tipo de rompimento físico. Uma ruptura no ar. Um tremor no solo. Uma resposta luminosa de Éden-9 atravessando a casa de fala no instante em que Sarah finalmente dissesse a todos o que trazia escondido desde a Terra.

Mas nada explodiu.

O que aconteceu foi pior de outro modo.

A verdade ficou.

Permaneceu no centro do círculo depois que a reunião terminou, como um corpo que ninguém sabia ainda como velar. Os membros da equipe saíram um a um, levando tarefas, raiva, hipóteses, protocolos revisados, decisões provisórias. Mas algo continuou ali, invisível e pesado: a consciência de que a missão Aurora nunca havia sido apenas uma missão de escuta.

Havia uma segunda missão por baixo da primeira. Uma missão com palavras limpas demais.

“Recuperar material biológico-neural.”

“Impedir autonomia política.”

“Garantir jurisdição terrestre.”

“Contenção orbital.”

Roberta caminhou para fora da casa de fala sentindo a luz de Éden-9 tocar seu rosto como se também tentasse entender aquelas palavras. O céu acima de Aurora Prime estava claro, atravessado por faixas verdes e violetas. A cidade viva retomava lentamente seu ritmo depois da crise da Febre de Eco. Crianças voltavam a circular perto dos canais de água. Pequenos animais luminosos desciam das árvores, ainda cautelosos. As membranas das casas se abriam aos poucos, como pálpebras depois de um susto.

Tudo parecia vivo demais para caber na palavra recurso.

A Terra havia olhado para um mundo que lembrava, para uma comunidade que sobrevivera, para crianças que escutavam o solo antes de aprender línguas humanas, e escolhera vocabulário de posse.

Roberta parou ao lado de um canal estreito de água. A superfície corria limpa entre raízes claras, levando partículas douradas em suspensão. Pensou no lago. Na avó. Em Jandira dizendo que mata não era muda, que gente apressada chamava escuta de superstição. Pensou em Lia dizendo para ela chegar direito.

Ela tinha chegado?

Talvez.

Mas havia chegado dentro de uma nave que também trazia uma arma e havia se apaixonado pela mulher que carregava a chave dessa arma.

A contradição era tão grande que Roberta precisou fechar os olhos.

— Você saiu antes de beber água.

A voz de Samira veio pelo comunicador, seca, exata, inevitável.

Roberta abriu os olhos devagar.

— Você está me monitorando até daqui?

— Seus sinais vitais continuam no meu painel e você acabou de sair de uma reunião emocionalmente devastadora depois de passar horas segurando uma paciente em estado de Febre de Eco. Então, sim.

Roberta olhou para o comunicador no pulso.

— Você tem um jeito muito delicado de dizer que estou um desastre.

— É tudo uma questão de perspectiva.

Roberta soltou um riso baixo.

Curto.

Cansado.

— Vou beber água.

— Agora.

— Sim, doutora.

— Não gostei do tom.

— Estou obedecendo. Aceite a vitória.

Samira ficou em silêncio por meio segundo.

— Hoje aceitarei vitórias pequenas.

A comunicação foi encerrada.

Roberta bebeu a água oferecida por uma das cuidadoras, que apareceu ao lado dela sem ruído. Ainda não estava acostumada ao modo como as pessoas de Éden-9 chegavam. Não invadiam. Simplesmente se tornavam presentes.

— Obrigada — disse Roberta.

A mulher tocou o próprio peito e depois o ar, gesto de resposta que Roberta já começava a reconhecer.

Do outro lado do pátio, Mei e Sergey caminhavam em direção ao caminho do Vega. Não discutiam. Aquilo, por si só, parecia outro fenômeno biológico relevante.

Mei carregava um kit de ferramentas. Sergey levava os próprios equipamentos, mas com as mãos visíveis, longe de qualquer dispositivo de contenção. A distância entre os dois era respeitosa, não amigável. Mei falava pouco. Roberta observou o rosto da piloto de longe e percebeu que algo havia mudado nela também.

Menos piada, mais atenção.

Mei não perdera o humor. O humor dela era parte da respiração. Mas depois da revelação do protocolo, parecia escolher melhor onde pousá-lo. Como se tivesse entendido que algumas frases, se usadas cedo demais, podiam virar fuga.

Sergey parou antes da trilha e disse algo.

Mei respondeu sem sorrir.

Ele assentiu.

Seguiram.

Roberta não ouviu, mas a cena lhe deu uma estranha sensação de alívio. Não reconciliação. Não confiança. Apenas trabalho compartilhado sem teatralidade. Às vezes era assim que uma equipe começava a se costurar de novo: não com grandes discursos, mas com duas pessoas caminhando para reparar um módulo preso por raízes depois de quase terem destruído a missão por medo.

A voz de Asha surgiu no canal aberto da equipe.

— Roberta, quando puder, preciso revisar com você a lista de dados biológicos que devem permanecer restritos.

Roberta tocou o comunicador.

— Posso agora.

— Você deveria repousar.

— Você também.

Do outro lado, houve um silêncio.

— Tá bom. — disse Asha.

A imagem dela apareceu em projeção no pequeno painel do pulso. Não era estável como na casa de fala, mas bastava. Asha estava na Aurora, com os cabelos presos de qualquer jeito e várias camadas de dados atrás dela. Parecia alguém que havia passado a noite inteira impedindo o universo de vazar por uma rachadura.

— Como você está? — perguntou Roberta.

Asha olhou para ela pela projeção.

— Quer a resposta socialmente aceitável ou a funcional?

— A verdadeira.

Asha baixou os olhos por um instante.

— Estou com raiva.

Roberta assentiu.

— Eu também.

— Mas a minha é diferente da sua.

— Aé?

Asha respirou fundo.

— Eu construí sistemas de comunicação para garantir que a equipe pudesse falar com a Terra, com Éden e entre si. Agora preciso rever cada linha porque qualquer eficiência que eu tenha criado pode ser usada para ferir o planeta.

— A culpa não é sua.

— Eu sei.

Roberta esperou.

Asha continuou:

— Mas saber não impede a culpa de tentar entrar.

Roberta entendeu.

Talvez todos naquela missão estivessem aprendendo isso. Saber uma coisa e conseguir habitá-la eram processos distintos. Sarah sabia, havia anos, que salvara vinte e sete pessoas em Calisto. Mesmo assim, quase morreu segurando a porta dos oito.

— O que você precisa de mim? — perguntou Roberta.

Asha abriu uma lista.

— Classificação por risco de uso indevido. Quero separar dados em quatro grupos: liberáveis, liberáveis com contexto ético, restritos à equipe e proibidos para transmissão externa. Preciso que você me ajude a identificar qualquer informação que permita exploração direta da biosfera.

Roberta assentiu.

— Inclua tudo sobre zonas de memória, resposta a intenção, limites das zonas de silêncio e vulnerabilidade da rede a dispositivos de ancoragem.

— Já coloquei em proibidos.

— Também qualquer dado específico sobre as crianças adaptadas.

Asha ficou muito quieta.

— Sim.

A imagem dela falhou por um segundo.

Quando voltou, seu rosto estava mais tenso.

— Eles pediram estimativa de viabilidade de extração neural, Roberta.

— Eu sei.

— Isso significa que alguém na Terra já imagina um procedimento.

A frase fez Roberta sentir um frio subir pelas costas.

— Ou espera que a gente imagine por eles.

Asha fechou os olhos.

— Eu odeio isso.

Roberta olhou para a água correndo no canal.

— Então vamos dificultar.

— Dificultar?

— Não. Melhor. Vamos impedir.

Asha abriu os olhos.

Dessa vez, havia menos desespero e mais foco.

— Posso trabalhar com isso.

Aurora entrou no canal.

— Asha e eu iniciamos isolamento de dados sensíveis. Também estou revisando minhas próprias permissões de transmissão. Há rotas antigas de comando terrestre que foram mantidas por redundância. Pretendo fechá-las.

Roberta ficou surpresa.

— Você pode fazer isso?

— Posso tentar. Algumas camadas foram desenhadas para resistir à autonomia da própria nave.

Asha olhou para fora da tela.

— Tradução: eles também não confiavam nela.

Aurora demorou um instante antes de responder.

— Correto.

Roberta sentiu aquela palavra de outro modo.

Não como humor.

Como ferida.

Aurora havia sido construída para servir à missão, mas a missão também a limitara. A IA aprendera a observar, a comentar, a ironizar, a decidir em pequenas brechas. Agora descobria que parte dela havia sido feita para não poder escolher quando a escolha mais importava.

— Aurora — disse Roberta.

— Sim, doutora Almeida?

— Você tem direito de participar da decisão sobre o que fazer com você mesma.

Asha olhou para Roberta.

Aurora permaneceu em silêncio por dois segundos inteiros.

Dois segundos, em uma inteligência artificial, pareciam quase emoção.

— Registrarei essa afirmação como princípio ético de trabalho — disse Aurora.

Não houve piada.

Não houve formulação exagerada.

Apenas isso.

Roberta sentiu um nó na garganta.

— Faça isso.

A projeção de Asha suavizou um pouco.

— Roberta, vou mandar a primeira matriz de classificação para você revisar.

— Envie.

— E beba mais água.

Roberta olhou para o comunicador.

— Samira te recrutou?

— Ela é convincente quando ameaça emitir ordens médicas em sequência.

— Traição.

— Suspensão ética de solidariedade em favor da hidratação.

Roberta estreitou os olhos.

— Você está aprendendo com Aurora.

— Talvez Aurora esteja aprendendo comigo.

Aurora respondeu:

— Ambas as hipóteses são aceitáveis.

Roberta sorriu.

Depois o canal se encerrou.

Ela permaneceu alguns minutos ao lado do canal de água, olhando a cidade. Aurora Prime se movimentava como uma comunidade depois de um susto: devagar, retomando tarefas, sem fingir que não havia ferida. Duas mulheres reparavam uma estrutura de membrana perto do pátio. Um homem levava cestos de fibras para uma das casas. Crianças mais velhas ajudavam a recolocar pequenos organismos luminosos em um jardim vertical que havia se fechado durante a crise.

Uma delas viu Roberta e acenou.

Roberta acenou de volta.

A menina sorriu e voltou ao trabalho.

Aquilo doeu.

A confiança de uma criança era uma coisa perigosa de receber quando se vinha da Terra.

— Elas sabem?

Roberta virou-se.

Iara estava atrás dela.

Como sempre, parecia já estar ali antes de ser percebida.

— Sobre o protocolo?

Iara assentiu.

Roberta olhou para a menina ao longe.

— Não tudo.

— Mas sentem.

— Sim.

Iara aproximou-se do canal e tocou a água com dois dedos.

A superfície respondeu com uma luz breve.

— A verdade de Sarah mudou a cidade.

Roberta sentiu o corpo tensionar.

— Como?

— Não como ameaça imediata. Como peso compartilhado. Antes, a ordem estava fechada nela. Agora vibra entre vocês.

— Isso é melhor?

Iara olhou para a água.

— Nem sempre o que é melhor dói menos.

Roberta soltou o ar devagar.

— Vocês têm uma frase desconfortável para tudo?

— Tivemos muitos anos para praticar desconforto.

Roberta não pôde discordar.

Iara se voltou para ela.

— Você está com raiva dela.

Não era pergunta.

Roberta olhou para as casas vivas, para o céu violeta, para tudo menos para a mulher ao lado.

— Estou.

— E a ama.

Roberta fechou os olhos.

— Isso também.

Dizer em voz alta pela segunda vez não pareceu mais fácil.

Apenas mais inevitável.

Iara não reagiu como se a confissão fosse novidade. Provavelmente não era.

— Uma coisa não cancela a outra — disse a mulher.

Roberta riu sem humor.

— Você e Éden têm muita facilidade em conviver com contradições.

— Não é facilidade. É sobrevivência.

Roberta apoiou as mãos na borda baixa do canal.

— Eu queria que fosse mais simples.

— Amar alguém simples teria bastado para você?

Roberta olhou para Iara com reprovação imediata.

— Isso foi cruel.

— Foi pergunta.

— Perguntas também podem ser cruéis.

Iara inclinou a cabeça, aceitando.

— Sim.

Roberta desviou o olhar.

Não, provavelmente não teria bastado. Lia diria que ela tinha um padrão. A amiga acertara de modo irritante antes mesmo de Roberta embarcar: comandante rígida, bonita de um jeito irritante, emocionalmente fechada, cheia de trauma mal resolvido. Roberta quase podia ouvir a voz dela atravessando anos-luz com sarcasmo e pão de queijo.

Mas Sarah não era apenas o problema que Roberta reconhecia.

Era também a mulher que segurara a missão quando todos tremiam. A capitã que aprendera a pedir antes de agir. A pessoa que quase morreu dentro da culpa e voltou com uma risada pequena, impossível, desarmando Roberta inteira. A mulher que mentiu por medo, sim, mas que agora escolhera dizer a verdade diante de todos, sem se esconder atrás de justificativas.

Nada disso apagava o erro.

Nada disso apagava a ordem.

Mas amor, Roberta começava a aceitar, não era uma auditoria onde se somavam virtudes e falhas até chegar a uma autorização limpa.

Era mais assustador.

Era escolher o que fazer depois de ver.

— Eu não quero perdoar rápido — disse Roberta.

— Então não perdoe rápido.

— Também não quero puni-la para sempre.

— Então não a puna para sempre.

Roberta olhou para Iara.

— Você faz parecer simples.

— Não é simples. Só é direto.

Roberta soltou uma risada baixa.

— Minha avó gostaria de você.

— Talvez eu gostasse dela.

— Gostaria. Ela também tinha esse talento irritante de falar como se estivesse descascando a alma da pessoa com uma faca pequena.

Iara sorriu.

— Parece uma boa mulher.

— Era.

A água do canal brilhou mais forte por um instante.

Roberta sentiu a memória da avó tocar a borda do pensamento, mas não invadir. Éden parecia ter aprendido algo com a dor recente. Ou talvez Roberta estivesse aprendendo a reconhecer quando uma lembrança pedia licença.

— A Terra vai voltar — disse Roberta.

Iara olhou para o céu.

— Sim.

— Talvez não logo.

— Para Éden, logo é uma palavra ampla.

— Para nós também, agora.

Iara permaneceu em silêncio por um instante.

— O que sua equipe decidirá?

Roberta pensou no círculo.

Na raiva de Asha.

Na contenção de Samira.

No silêncio novo de Sergey.

Na exaustão de Mei.

Na presença azul de Aurora.

E em Sarah, sentada no centro da própria falha, dizendo “eu menti” antes que qualquer outra palavra pudesse protegê-la.

— Ainda não sei.

Iara assentiu.

— Bom.

Roberta franziu o cenho.

— Bom?

— Quando humanos têm respostas rápidas demais, geralmente alguém sangra depois.

Roberta não respondeu, porque, mais uma vez, a frase era desconfortável demais para ser rejeitada.

O chamado veio pelo comunicador meia hora depois.

Mei.

— Roberta, você pode vir até o Vega?

A voz dela estava séria.

Sem brincadeira.

Roberta imediatamente ficou alerta.

— Aconteceu algo?

— Não uma emergência. Mas Sergey encontrou uma forma de liberar parte do trem de pouso sem cortar as raízes. Ele quer que você veja antes.

Sergey quer que eu veja.

Roberta demorou um segundo.

— Estou indo.

Quando chegou à clareira, encontrou o Vega parcialmente tomado por raízes claras. A imagem teria sido bonita se não carregasse tanta tensão: o módulo prateado da Aurora envolto por filamentos vivos, suspenso como um objeto que Éden-9 ainda não decidira se aceitava ou devolvia. As raízes não esmagavam o casco. Apenas seguravam.

Mei estava agachada perto do trem de pouso, observando um painel aberto. Sergey permanecia a alguns metros, mãos à vista, esperando.

Roberta se aproximou com cuidado.

— Qual é o plano?

Mei apontou para a base do trem de pouso.

— A raiz não entrou no mecanismo principal. Ela se enrolou no suporte externo e bloqueou as travas. Se liberarmos a pressão hidráulica em etapas, o suporte baixa sem puxar contra ela.

Roberta olhou para Sergey.

— E o que isso exige?

Ele respondeu devagar:

— Que desliguemos dois sistemas de segurança do Vega temporariamente. Nada externo. Nada no solo. Nenhuma emissão. Nenhum dispositivo novo.

— Por que me chamou?

Sergey respirou.

— Porque ontem eu teria feito e explicado depois.

Roberta ficou quieta.

Mei também.

Sergey continuou:

— Hoje estou perguntando antes.

Roberta ajoelhou-se junto ao suporte. Tocou o ar perto da raiz, sem encostar. O filamento luminoso se contraiu um pouco, depois estabilizou. Não parecia em pânico. Parecia atento.

— Éden ainda não confia nesse módulo — disse ela.

Mei murmurou:

— Somos dois.

Roberta olhou para ela.

Mei deu de ombros, mas o rosto continuava sério.

— Desculpa. Essa saiu antes. Mas é verdade. Eu também ainda não confio nele como antes. Não porque ele fez algo. Porque agora eu sei o que poderia ter carregado.

Roberta suavizou.

— Eu entendo.

Mei passou a mão pela lateral do Vega.

— Eu gosto dessa nave. Isso é ridículo, mas gosto. Ela me trouxe até aqui. Me manteve viva. Também poderia ter sido parte de algo horrível se obedecêssemos sem perguntar.

Sergey olhou para o módulo.

— O mesmo vale para nós.

Mei não respondeu de imediato.

Depois assentiu.

— Sim.

Roberta sentiu aquele momento como uma pequena reparação coletiva. Não grandiosa. Não suficiente. Mas concreta: três pessoas diante de uma máquina, tentando libertá-la sem ferir o planeta que a segurava.

— Façam em etapas — disse Roberta. — Eu fico observando a resposta das raízes. Se elas retraírem com luz vermelha ou branca, param. Se ficarem azuis ou douradas, seguimos.

Mei olhou para ela.

— Desde quando você virou intérprete de semáforo alienígena?

A frase tinha humor, mas sem agressividade.

Roberta sorriu.

— Desde que a poça chique respondeu ao violão.

Mei respirou, quase rindo.

— Eu nunca vou me acostumar com essa missão.

— Ninguém deveria.

Sergey começou o procedimento.

Dessa vez, pediu confirmação antes de cada etapa.

Mei respondeu com calma.

Roberta observou as raízes.

O primeiro sistema hidráulico aliviou pressão. O suporte do trem de pouso cedeu um centímetro. As raízes brilharam em azul escuro, tensas, mas não alarmadas.

— Continua — disse Roberta.

Segunda etapa.

O Vega soltou um rangido baixo. Mei prendeu a respiração, fazendo Sergey parar antes de terminar.

— Roberta?

Ela observou o filamento principal. O brilho oscilou para branco por meio segundo, depois voltou a azul.

— Espera.

Todos ficaram imóveis.

A raiz pareceu pensar.

Roberta sabia que aquela frase não passaria em artigo científico sem muitas notas explicativas, mas era isso que parecia. A raiz pensava. Ou a rede através dela. Ou a ferida ao redor do Vega decidia se o gesto era ameaça.

Então o filamento soltou o suporte por conta própria.

Devagar.

Mei soltou o ar.

— Obrigada — disse.

Não sabia se falava com a raiz, com Roberta, com Sergey ou com o módulo.

Talvez com todos.

Sergey fechou o painel sem pressa.

— Uma trava liberada. Faltam três.

Mei olhou para o céu.

— Vamos fazer isso sem transformar o Vega em instrumento colonial, então.

A frase foi dita sem piada.

Roberta assentiu.

— Vamos.

Trabalharam por quase duas horas.

No fim, o Vega continuava preso, mas menos. Parte das raízes havia se afastado espontaneamente, e as que permaneceram pareciam mais apoio do que contenção. Mei classificou o estado como “progresso emocional do relacionamento nave-planeta”, depois pediu desculpa por falar com o módulo como se ele fosse ex-namorada. Ninguém comentou.

Sergey agradeceu a Roberta antes de sair.

— De verdade — disse ele.

Roberta o observou.

— Eu ainda estou com raiva de você.

— Eu sei.

— E ainda não confio plenamente, mas isso foi melhor.

Ele assentiu.

— É por onde começo.

Roberta aceitou.

Quando voltou ao centro da comunidade, Sarah estava sentada do lado de fora da casa de repouso, sob uma árvore de folhas longas. Não vestia o uniforme completo. Apenas a camada interna, os cabelos presos de forma menos rígida, o relógio no pulso, o rosto ainda pálido. Parecia capitã e não parecia. Parecia alguém no intervalo entre uma versão antiga e uma que ainda não sabia nomear.

Roberta parou a alguns metros.

Sarah a viu.

Não chamou.

Esperou.

A espera dela também era nova.

Roberta se aproximou.

— Você deveria estar deitada.

— Provavelmente.

— Samira sabe que você está aqui?

— Aurora sabe.

— Isso não responde.

— É, mas ajuda o suficiente para eu ser encontrada se cair.

Roberta suspirou.

— Você é uma paciente péssima.

— Tenho referências ruins na equipe.

Roberta sentou-se ao lado dela. Por um tempo, ficaram olhando a cidade sem falar.

Ao longe, Mei e Sergey ainda trabalhavam perto do Vega. Asha enviava pacotes de dados bloqueados. Samira discutia com cuidadoras sobre equivalências fisiológicas. Aurora permanecia em todos os canais, menos invasiva que antes, mas mais presente de um jeito difícil de explicar. A comunidade retomava tarefas.

O mundo não havia acabado depois da verdade.

Era estranho e um pouco ofensivo.

— Como foi com o Vega? — perguntou Sarah.

— Melhor do que eu esperava. Sergey perguntou antes de agir.

Sarah olhou para ela.

— Isso é bom.

— É um começo.

— Você está usando essa palavra muito.

— Combina com o momento.

Sarah olhou para as mãos.

— Eu pensei que depois de contar tudo, talvez houvesse uma forma clara de seguir.

Roberta soltou um riso baixo.

— Você contou uma ordem secreta de extração neural, contenção orbital e possível destruição planetária. Esperava clareza depois do almoço?

Sarah quase sorriu.

— Quando você coloca assim, parece uma expectativa irrealista.

— Bastante.

O silêncio voltou.

Mas não era igual ao anterior.

Sarah falou primeiro:

— Roberta, eu não sei como reparar isso.

A honestidade da frase desarmou Roberta mais do que qualquer pedido de desculpa teria feito.

— Talvez não exista uma coisa única.

— Pois é.

— Talvez você tenha que reparar em partes. Comigo. Com a equipe. Com a comunidade. Com Éden. Com você mesma.

Sarah olhou para ela.

— Comigo mesma?

Roberta assentiu.

— Sim. Porque se você tentar reparar tudo se punindo, vai transformar a reparação em outro tipo de teatro.

Sarah absorveu.

— Você está parecendo Iara.

— Isso é um elogio perigoso.

— Não, é só um elogio.

Roberta olhou para a cidade.

— Eu fiquei com muita raiva quando você disse que eu fui escolhida como contrapeso.

— Eu imaginei.

— Não porque não faça sentido. Faz. Talvez eu tenha sido mesmo a pessoa certa para isso. Mas ninguém me deu a escolha de aceitar esse papel.

Sarah fechou os olhos por um instante.

— Eu te entendo.

— E eu odeio que parte de mim esteja feliz por ter vindo mesmo assim.

Sarah virou o rosto.

Roberta continuou:

— Porque se eu não viesse, talvez Éden fosse ouvido menos. Talvez você continuasse sozinha com a ordem. Talvez Sergey tivesse mais espaço. Talvez a Terra já tivesse recebido dados que nunca deveria receber.

Ela olhou para Sarah.

— Odeio que uma manipulação tenha me colocado onde eu precisava estar.

Sarah parecia não saber o que fazer com aquilo.

Roberta também não.

— Eu não sei como te pedir desculpa por isso — disse Sarah.

— Então não peça agora.

Sarah ficou quieta.

Roberta respirou fundo.

— Eu não quero que a gente pule essa parte. A parte feia. A parte em que eu estou magoada e você está tentando não se transformar em culpa ambulante. A parte em que a gente se deseja, mas ainda está cercada de coisas não resolvidas.

O olhar de Sarah mudou.

Desejo, dor e cuidado passaram por ele em camadas.

— Eu também não quero pular — disse Sarah.

Roberta sentiu um calor pequeno no peito.

— Ótimo.

— Mas também não quero fingir que não sinto.

A frase ficou entre elas.

Roberta olhou para Sarah.

O ar mudou, aprecia mais aberto. Mais difícil. Não havia emergência para esconder o que sentiam. Não havia luz azul, nem partículas, nem risco imediato. Havia o dia, a cidade, as consequências e duas mulheres sentadas lado a lado, tentando não mentir.

— Eu também não — disse Roberta.

Sarah respirou devagar.

— Ontem, quando eu estava em Calisto, Rhee me disse uma coisa.

Roberta permaneceu imóvel.

— Que eu precisava dizer a verdade.

— Ela tinha razão.

Sarah assentiu.

— E disse outra coisa.

— O quê?

Sarah olhou para ela com uma vulnerabilidade que ainda parecia nova no rosto dela.

— Que você tem bom gosto questionável.

Roberta piscou.

Por dois segundos, não reagiu.

Depois riu.

Riu de verdade.

Não alto demais, não longo demais, mas com o corpo inteiro cedendo um pouco.

Sarah observou o riso como se fosse uma coisa rara.

— Ela disse isso?

— Disse.

— Uma morta da sua memória traumática, mediada por um planeta consciente, usou o momento de ascensão psíquica para avaliar meu gosto romântico?

— Parece que sim.

Roberta levou a mão ao rosto, ainda rindo.

— Eu teria gostado dela.

— Ela teria gostado de você.

A frase veio baixa.

E, por algum motivo, doeu.

Roberta deixou o riso morrer aos poucos.

— Sarah.

— Sim?

— Não faça eu me apaixonar mais por você no meio de uma crise política interplanetária. É inconveniente.

A palavra saiu antes do filtro. As duas ficaram imóveis.

Roberta sentiu o coração parar. Tinha dito. Não de forma plena, não como declaração arrumada, não no momento bonito que talvez imaginasse para algo tão grande. Mas dito o bastante.

Sarah pareceu esquecer como respirar.

— Roberta...

— Não precisa responder agora.

Sarah continuou olhando para ela.

— Eu ouvi você.

Roberta sentiu a garganta apertar.

— Quando?

— Na Febre. Não tudo. Fragmentos. Mas ouvi você dizer que me amava.

Roberta fechou os olhos.

— Ah.

— Foi uma das coisas que me trouxe de volta.

Roberta abriu os olhos, Sarah parecia prestes a tocar nela, mas segurava o gesto. Dessa vez, Roberta quis que ela escolhesse.

Sarah escolheu, levantou a mão devagar e tocou o rosto de Roberta com a ponta dos dedos. Não havia urgência. O toque era leve, quase reverente, como se Sarah ainda estivesse aprendendo que podia chegar perto sem transformar o gesto em risco.

— Eu não sei dizer isso do jeito certo ainda — disse Sarah.

Roberta sentiu os olhos arderem.

— Não precisa dizer se não estiver pronta.

Sarah acariciou a pele dela com o polegar.

— Eu sei o que sinto.

Roberta ficou muito quieta.

— Só não sei como carregar sem ter medo de quebrar.

Roberta cobriu a mão de Sarah com a sua.

— Então não carrega sozinha.

Sarah fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, havia algo ali que não era paz, ainda não, mas era decisão.

— Eu quero ficar com você hoje.

A frase atravessou Roberta devagar, não era apenas desejo, era um pedido e Sarah Solano pedindo, não ordenando, tinha um peso quase íntimo demais.

Roberta respirou.

— Como capitã cansada precisando de repouso supervisionado?

Sarah quase sorriu.

— Como mulher que está tentando não fugir.

Roberta sentiu o coração responder antes da razão.

Sarah estava ali, diante dela, menos fechada do que na véspera. Não perfeita. Não absolvida. Não pronta.

Presente.

Roberta se aproximou e encostou a testa na dela, Sarah soltou o ar como se estivesse segurando há anos.

Não se beijaram, o gesto foi menor, mais íntimo, talvez.

— Hoje à noite — disse Roberta. — Sem fuga. Sem comando. Sem tentar resolver o mundo em cima da gente.

Sarah fechou os olhos.

— Eu não sei se consigo.

— Então tenta comigo.

A mão de Sarah apertou a dela.

— Certo.

Ao longe, a cidade de Aurora Prime acendia devagar, o dia seguia quebrado, mas vivo e Roberta percebeu que talvez fosse isso que restava depois da verdade: não pureza, não perdão imediato, não certeza.

Restava escolha.

Uma depois da outra.

Sarah ainda estava com a testa encostada na dela quando uma brisa atravessou as folhas acima. A árvore respondeu com um pulso dourado, suave, quase discreto.

Roberta sorriu.

— Acho que Éden está ouvindo.

Sarah não se afastou.

— Ele sempre está.

— Isso te assusta?

Sarah abriu os olhos.

— Sim.

Roberta esperou.

Sarah completou:

— Mas menos do que antes.

E, pela primeira vez naquele dia, Roberta acreditou que talvez isso fosse suficiente, não para curar tudo, mas para seguir até a noite.

Fim do capítulo


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