Uma noite sem comando
Sarah Solano
As casas que Iara ofereceu a cada um dos tripulantes ficava um pouco afastada do centro de Aurora Prime. Não era exatamente uma casa, ao menos não no sentido terrestre. Sarah ainda não sabia nomear metade das estruturas de Éden-9 sem recorrer a comparações insuficientes. Era baixa, integrada ao tronco largo de uma árvore de folhas escuras, com paredes de membrana translúcida que filtravam a luz da cidade em tons de âmbar e azul. Pequenos canais de água contornavam a entrada, descendo por pedras lisas antes de desaparecerem no solo vivo.
Não havia porta.
Havia uma abertura coberta por filamentos claros que se afastavam quando alguém se aproximava com intenção de entrar.
Sarah ficou parada diante deles por tempo demais.
Roberta percebeu.
— Está esperando autorização formal da casa?
Sarah olhou para ela.
Roberta estava poucos passos atrás, com os cabelos soltos sobre os ombros, a expressão cansada e o rosto iluminado pela luz suave das membranas. A reunião da manhã ainda existia entre elas. A verdade inteira, finalmente dita. A mágoa. O protocolo. A ordem de extração. A raiva da equipe. O mundo imenso de consequências que as esperava do lado de fora daquela noite.
Mas havia também outra coisa.
A promessa feita sob a árvore.
Hoje à noite. Sem fuga. Sem comando. Sem tentar resolver o mundo em cima da gente.
Sarah sentiu o corpo responder à lembrança antes que a mente conseguisse organizar defesa.
Roberta viu.
— Ou está pensando demais? — perguntou, mais baixo.
Sarah respirou.
— As duas coisas.
Roberta se aproximou devagar. Não tocou de imediato. Sarah começava a entender aquele cuidado como parte da linguagem dela. Roberta se aproximava oferecendo, nunca tomando. Principalmente quando queria.
— Eu posso ir para a minha unidade — disse Roberta.
Sarah olhou para os filamentos vivos diante da entrada.
Depois para ela.
— Não, fica.
A resposta saiu mais rouca do que pretendia.
Os olhos de Roberta mudaram.
Não foi algo grande. Apenas um escurecer sutil, uma atenção que desceu da face de Sarah para a boca, depois voltou aos olhos. Sarah sentiu como toque.
— Então entra — disse Roberta.
Sarah atravessou primeiro.
O interior era morno.
A luz vinha das próprias paredes, pulsando de modo lento, quase respirado. Havia uma superfície larga de repouso ao fundo, formada por raízes lisas cobertas por uma membrana macia, e uma abertura lateral que deixava ver parte da cidade ao longe: pontos luminosos entre árvores, água correndo, vozes distantes. O espaço parecia ter sido preparado para duas pessoas sem parecer invadido por nenhuma expectativa. Nada ali exigia. Nada ali apressava.
Isso, de algum modo, aumentava o perigo.
Roberta entrou atrás dela.
Os filamentos se fecharam. Não como prisão, como privacidade.
Sarah ouviu o próprio coração.
Era ridículo. Ela havia comandado evacuações em gravidade instável, atravessado zonas de risco, enfrentado a memória de Calisto e desobedecido a Terra. Ainda assim, estar sozinha com Roberta naquela casa viva fazia suas mãos parecerem levemente inúteis.
Roberta sorriu.
— Sarah Solano nervosa. Vou precisar registrar isso em algum lugar.
— Não estou nervosa.
Roberta inclinou a cabeça.
Sarah sustentou o olhar por dois segundos.
— Estou tentando ampliar meu vocabulário emocional. Talvez nervosa seja aceitável.
O sorriso de Roberta cresceu.
— Tenho orgulho de você.
Sarah soltou uma respiração curta, quase riso.
— Não abuse.
— Pretendo abusar um pouco.
A frase caiu entre as duas com outro peso.
Roberta percebeu o que tinha dito.
Sarah também.
O ar mudou.
O humor não desapareceu; apenas ficou mais baixo, mais quente, como brasa sob cinzas. Roberta tirou lentamente o comunicador do pulso e o colocou sobre uma pequena superfície de pedra ao lado da entrada. Sarah acompanhou o gesto com os olhos.
— Samira vai odiar isso — disse.
— Samira sabe onde estamos. Aurora também. Se meu corpo decidir entrar em colapso depois de finalmente conseguir ficar sozinha com você, eu aceito a bronca.
Sarah desviou o olhar, mas o sorriso veio.
— Finalmente?
Roberta se aproximou.
— Você acha que eu aguentava muito mais tempo sem poder te tocar?
A pergunta não veio tímida.
Veio baixa.
Direta.
Cheia de uma honestidade que atingiu Sarah no centro do peito e desceu para lugares menos disciplinados.
Ela respirou devagar.
— Eu não aguentava mais fingir que não queria.
Roberta parou diante dela.
Perto.
Não perto o suficiente.
— Então para de fingir.
Sarah não sabia quem se moveu primeiro.
Talvez as duas.
Dessa vez, o beijo não nasceu de tempestade, medo ou urgência de abrigo. Nasceu do acúmulo. De todos os quase. De todos os recuos.
A boca de Roberta encontrou a dela com uma firmeza que Sarah sentiu no corpo inteiro. Não havia mais o susto do primeiro beijo. Havia reconhecimento. Havia vontade. Havia a memória da tempestade e a promessa de que agora nenhuma IA, nenhum arquivo, nenhuma ordem da Terra interromperia aquele gesto antes que ele dissesse o que precisava dizer.
Sarah tocou a cintura de Roberta. Primeiro com cuidado. Depois com mais certeza.
O corpo de Roberta respondeu sob suas mãos, quente, vivo, presente. Sarah sentiu a curvatura dela através do tecido, a respiração mudando, o modo como os dedos de Roberta subiram para sua nuca e a puxaram para mais perto.
Sarah cedeu.
Não como rendição a uma força externa.
Como escolha.
Roberta se afastou apenas o suficiente para respirar.
— Você está me segurando como se ainda estivesse pedindo permissão.
Sarah olhou para as próprias mãos na cintura dela.
— E tenho?
O rosto de Roberta suavizou.
— Você tem.
A frase atravessou Sarah como fogo lento. Ela fechou os olhos por um instante e quando abriu, levou uma das mãos ao rosto de Roberta, tocando a linha da mandíbula, o canto da boca, a pele macia sob o polegar. Roberta ficou quieta, mas seus olhos não. Havia neles desejo e desafio, ternura e uma espécie de fome paciente.
Sarah não queria mais ser paciente, beijou-a de novo e dessa vez com mais força.
Roberta respondeu imediatamente, como se também tivesse esperado demais por aquela permissão. O beijo se aprofundou, e Sarah sentiu algo nela, uma coisa antiga e trancada, quebrar sem ruído. Não a culpa de Calisto ou o medo da Terra. Outra coisa. Uma parte que havia desaprendido o direito de querer com o corpo inteiro.
Roberta fez um som baixo contra sua boca, no momento em que ela mordeu o lábio inferior, Sarah sentiu o som como se ele tivesse sido feito para ela.
As mãos dela desceram pelas costas de Roberta, encontrando a curva dos quadris. Roberta riu, pequena e sem ar, quando Sarah a puxou mais perto.
— Capitã...
— Não.
Roberta arqueou uma sobrancelha.
— Não?
— Hoje não.
Os olhos de Roberta brilharam.
— Sem patente?
Sarah roçou a boca perto do ouvido dela.
— Sem comando.
Roberta inspirou fundo. Sarah sentiu. Sorriu contra a pele dela. Era uma descoberta perigosa perceber que podia provocar Roberta. Que podia fazer aquela mulher brilhante, teimosa, corajosa e irritantemente certa perder por alguns segundos a capacidade de responder com frases bem formuladas.
— Você tem esse lado e estava escondendo? — Roberta perguntou, a voz mais baixa.
Sarah beijou a lateral do pescoço dela.
— Talvez eu estivesse ocupada tentando não desmoronar.
— Péssima desculpa.
— Concordo.
Roberta riu de novo, mas o riso falhou quando Sarah a beijou mais devagar, demorando-se na pele logo abaixo da mandíbula e próximo da orelha.
Sarah sentiu o próprio desejo crescer com uma clareza quase assustadora. Não era apenas impulso. Era vontade de conhecer. De descobrir cada reação, cada ponto de arrepio, cada respiração presa. Era vontade de demonstrar com as mãos aquilo que as palavras ainda não sabiam carregar sem tropeçar.
Eu amo você.
A frase ainda não saiu, mas Sarah a sentiu nos dedos quando tocou Roberta, na boca quando voltou aos lábios dela, no modo como o corpo inteiro queria dizer fica, fica, fica.
Roberta puxou a barra da camada interna do uniforme de Sarah, mas parou antes de levantar.
A pergunta estava no gesto.
Sarah respondeu erguendo os braços.
Roberta tirou a peça devagar.
Não por dificuldade.
Por intenção.
Quando o tecido caiu, Sarah ficou imóvel sob o olhar dela.
Não por vergonha exatamente. Seu corpo nunca lhe causara vergonha. Era um corpo treinado, resistente, moldado por anos de disciplina, esforço, combate, sobrevivência. Um corpo que ela aprendera a tratar como ferramenta de comando, como estrutura funcional, como algo que precisava obedecer, mas Roberta olhou para ela como se aquele corpo não fosse função e sim como se fosse descoberta.
Sarah sentiu calor subir pela pele.
Roberta não disse nada de início.
Apenas olhou.
Os olhos dela desceram pelos ombros de Sarah, pelos braços fortes, pela linha das clavículas, pelo abdômen definido, pela pele marcada aqui e ali por cicatrizes pequenas que Sarah quase nunca lembrava existirem. Roberta aproximou a mão, mas não tocou de imediato.
— Você é real? — murmurou.
Sarah quase riu.
— Até onde sei.
Roberta tocou-a com a ponta dos dedos.
Primeiro o ombro. Depois o braço. Depois a linha firme da barriga, como se precisasse confirmar a existência dela pelo tato. Sarah prendeu o ar quando os dedos de Roberta passaram sobre os músculos do abdômen.
Roberta percebeu.
— Desculpa.
— Não.
A palavra saiu rápida demais e Roberta ergueu os olhos, surpresa.
Sarah respirou.
— Não para.
O rosto de Roberta mudou, havia desejo ali, sim. Mas também algo mais reverente. Uma admiração que fez Sarah se sentir menos examinada e mais recebida.
— Eu sabia que você era forte — disse Roberta. — Mas isso aqui é covardia.
Sarah baixou os olhos para ela.
— Covardia?
Roberta passou a mão pela lateral do abdômen dela, mais firme agora.
— Isso. Essa sua barriga. Esse corpo todo. Você andando pela nave como se fosse só disciplina e relatório.
Sarah sentiu uma risada subir pelo peito.
— Eu deveria pedir desculpas?
— Ainda estou avaliando.
Roberta se aproximou e beijou a pele logo abaixo das costelas.
Sarah fechou os olhos.
O mundo inteiro se reduziu a um ponto de calor, pelo menos até Roberta descer a boca por sua pele e beijar perto do umbigo, distribuindo pequenas mordidas, leves o bastante para não machucar, firmes o bastante para arrancar dela uma respiração mais funda.
Roberta tirou as mãos das laterais dos quadris de Sarah e as deslizou para suas costas. Os dedo trabalharam com pressa contida, guiados mais pelo desejo do que pela paciência. Quando o top estava quase saindo, Roberta interrompeu o movimento por um instante.
O tecido ficou preso acima dos olhos de Sarah, cobrindo parte do rosto e impedindo que ela enxergasse os próximos passos.
Sarah engoliu seco.
Havia algo profundamente vulnerável naquela posição. Ela, acostumada a medir cada ambiente, cada gesto, cada risco, estava ali sem ver, entregando a Roberta um controle que raramente permitia a qualquer pessoa tocar. O corpo inteiro pareceu perceber isso antes da mente. A pele ficou mais sensível. A respiração, mais curta. Os músculos do abdômen se contraíram sob a expectativa.
Então sentiu a boca de Roberta em seu seio direito, o choque de prazer foi imediato.
Roberta a abocanhou com firmeza e cuidado, sugando sua pele com uma fome que desfez o último resto de compostura que Sarah tentava preservar. O bico enrijeceu sob a língua dela, e um calafrio quente, quase elétrico, desceu pelo corpo de Sarah até se concentrar entre suas pernas.
Sarah soltou um som baixo, antes que pudesse contê-lo.
Roberta pareceu gostar de ouvi-lo.
Enquanto sua boca continuava explorando o seio de Sarah, sua mão voltou a deslizar pela barriga dela. Os dedos passaram pelo abdômen definido com uma lentidão provocante, sentindo cada contração involuntária da pele, cada tremor pequeno. Então desceram um pouco mais.
A pressão veio no meio das pernas de Sarah, ainda impedida pela calça, ainda sem contato direto com a pele, mas suficiente para arrancar dela uma respiração mais rápida, irregular, quase impaciente.
Sarah arqueou levemente o corpo.
Não era uma ordem ou súplica, mas Roberta entendeu, entendeu tão bem que parou.
A boca deixou o seio dela. A mão também interrompeu o movimento. Por um instante, Sarah ficou suspensa naquele vazio repentino, o corpo aceso demais para aceitar a ausência de toque.
Quando percebeu que Roberta havia parado de propósito, Sarah quase reclamou.
Mas Roberta se moveu antes.
Desceu pelo corpo dela, abaixando-se para alcançar a calça de Sarah. Os dedos encontraram o fecho, abriram com mais pressa agora, e ela começou a puxar a peça devagar, como se cada centímetro revelado merecesse atenção. Enquanto fazia isso, espalhava beijos pelas pernas de Sarah, subindo pelas coxas, demorando-se na pele quente, voltando à barriga, como se quisesse marcar cada parte do caminho antes de retornar à boca dela.
Quando Roberta voltou a beijá-la, Sarah já estava sem fôlego.
Roberta colou o próprio corpo ao dela, quente, inteiro, presente. Uma das mãos subiu até a nuca de Sarah, segurando-a com firmeza carinhosa, enquanto a outra finalmente retirava o top que ainda cobria seus olhos.
Sarah voltou a enxergá-la no mesmo instante em que as bocas se encontraram de novo.
E talvez fosse pior enxergar.
Porque Roberta estava linda demais assim: o rosto próximo, os olhos escuros de desejo, a boca úmida, a respiração descompassada. Havia carinho nela, mas também havia fogo. Havia cuidado, mas também uma vontade evidente de não parar.
As línguas se encontraram em movimentos lentos no início, depois mais fundos, mais famintos. Sarah levou as mãos às costas de Roberta, puxando-a contra si, sentindo o peso dela, as curvas, o calor atravessando a pouca distância que ainda restava entre seus corpos.
Roberta sorriu contra sua boca.
— Eu não aguentava mais não poder te tocar.
Sarah abriu os olhos por um instante, a respiração presa.
Depois puxou Roberta de volta para si.
— Então não para.
Sarah fecha os olhos por um breve momento e quando voltou a abrir, Roberta estava perto demais para qualquer prudência. Havia algo triunfante no olhar dela, mas também uma ternura que impedia o gesto de virar jogo vazio.
Sarah tocou o rosto dela.
— Minha vez.
Roberta pareceu prender o ar.
— Sua vez?
Sarah deslizou os dedos pela barra da roupa dela.
— Você me ouviu.
— Eu ouvi. Só estou apreciando essa nova desenvoltura.
Sarah aproximou a boca da dela sem beijar.
— Eu posso voltar a ser formal, se preferir.
Roberta respondeu imediatamente:
— Nem pense.
Sarah sorriu.
E tirou a roupa de Roberta com um cuidado que não diminuía em nada o desejo. Pelo contrário. Cada pausa parecia aumentar a tensão. Cada pedaço de pele revelado fazia Sarah sentir que estava sendo autorizada a entrar em um território mais íntimo que qualquer planeta.
Quando Roberta ficou diante dela, Sarah esqueceu a próxima frase.
O corpo de Roberta era lindo.
Não de uma beleza abstrata ou distante. Lindo de presença. De curva. De calor. De vida. Os seios, a cintura, os quadris, as coxas, a forma como a pele parecia guardar luz própria sob o âmbar da casa viva. Um corpo modelado, feminino, forte à sua maneira, diferente do de Sarah e igualmente poderoso. Um corpo que não pedia licença para ocupar desejo.
Sarah sentiu algo dentro dela baixar a cabeça.
Não submissão.
Reverência.
Roberta, tão segura segundos antes, pareceu se surpreender com o silêncio.
— Sarah?
Sarah tocou a cintura dela com as duas mãos.
Devagar.
Como quem confirma um milagre sem querer assustá-lo.
— Você é linda.
Roberta soltou um riso baixo, meio sem jeito.
— Você está olhando como se tivesse descoberto uma nova espécie.
— Talvez tenha.
— Péssima fala de astrobióloga.
— Eu não sou a astrobióloga.
Sarah inclinou-se e beijou o centro do peito dela, depois a pele acima do coração.
Roberta parou de rir.
Sarah sentiu a respiração dela falhar.
Aquilo bastou para que a própria fome aumentasse. Não uma fome impaciente. Uma fome devota. Sarah queria tudo: o riso, o arrepio, o calor, a forma como Roberta tentava se manter espirituosa mesmo quando o corpo já começava a traí-la.
— Eu pensei em você mais vezes do que deveria — confessou Sarah contra a pele dela.
Roberta passou os dedos pelos cabelos de Sarah.
— Eu percebi algumas.
— Só algumas?
— Você acha que é discreta. Isso é fofo.
Sarah levantou o rosto.
— Fofo?
Roberta sorriu, provocando.
— Às vezes.
Sarah a puxou pela cintura, colando mais seus corpos e segurando-a com vontade.
Roberta perdeu o sorriso por meio segundo.
Sarah aproveitou a vantagem.
— E agora?
Roberta respirou fundo.
— Agora menos fofo.
Sarah beijou a boca dela de forma quente, profunda, com uma intenção tão clara que Roberta segurou seus ombros com força, como se precisasse se firmar nela para não perder completamente o eixo.
Sarah percebeu.
Percebeu a resposta do corpo de Roberta antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. O modo como os dedos apertaram sua pele, o ar preso na garganta, a entrega involuntária da cintura se aproximando mais. Aquilo pareceu acender alguma coisa dentro dela, algo mais ousado, mais livre, menos disposto a pedir desculpas pelo próprio desejo.
Com um movimento firme, Sarah puxou as pernas de Roberta e as guiou ao redor do seu corpo, mantendo-a suspensa contra si.
Roberta soltou um som baixo, surpresa e desejo misturados, mas não recuou. Pelo contrário. Enlaçou Sarah com mais força, as coxas prendendo-a pela cintura, os corpos colados de um jeito que tornava impossível fingir qualquer controle.
Sarah deu dois passos até encontrar uma superfície de raízes mais firmes. Encostou as costas de Roberta ali com cuidado, mas sem perder a intensidade, mantendo-a presa entre seu corpo e a estrutura viva da casa.
As bocas continuaram se buscando.
Em alguns momentos, uma das mãos de Sarah deslizava pelo corpo de Roberta como reconhecimento e descoberta. Passava pelas costelas, pela cintura, pelos quadris, pela curva das coxas. Tocava como quem queria memorizar. Como quem tinha passado tempo demais se proibindo de querer e agora precisava provar, com as mãos, que aquilo era real.
Quando Sarah apertou a bunda dela, Roberta soltou um pequeno gemido. O contato aproximou ainda mais os corpos, fazendo Sarah prender a respiração por um instante.
Roberta sentiu.
E, talvez por provocação, talvez por puro instinto, moveu a cintura contra ela.
Sarah fechou os olhos por meio segundo.
— Roberta... — a voz saiu baixa, rouca, quase perigosa. — Se continuar fazendo isso, eu não respondo pelo pouco juízo que ainda me resta.
Roberta riu contra a boca dela, mas o riso se perdeu quando Sarah a apertou de novo, mais firme, como se aquela resposta tivesse sido exatamente o incentivo que precisava.
— Achei que hoje fosse sem comando — provocou Roberta, a respiração falhando.
Sarah aproximou a boca do ouvido dela.
— Sem comando, sim. Sem consequência, nunca prometi.
O arrepio que atravessou Roberta pareceu subir direto pela pele de Sarah também.
Sarah mudou a posição com cuidado, descendo as pernas de Roberta de volta ao chão. As bocas ainda não se desgrudaram de imediato. O beijo continuou enquanto os corpos procuravam outro encaixe, enquanto as mãos insistiam em permanecer onde a razão já não tinha muita utilidade.
Então Sarah virou Roberta de costas.
O movimento foi firme, mas cheio de atenção, como se mesmo no desejo ela ainda quisesse ter certeza de que Roberta estava ali com ela, inteira, querendo tanto quanto ela. Roberta apoiou as mãos na superfície de raízes à frente, a respiração mais rápida, o corpo reagindo antes da fala.
Sarah afastou os cabelos dela com delicadeza, expondo sua nuca.
Depois inclinou o rosto e começou a distribuir beijos pela lateral do pescoço, descendo até a nuca, demorando-se ali com a boca quente, os dentes roçando de leve, a respiração contra a pele. O corpo de Roberta se arrepiou inteiro.
Sarah a abraçou por trás.
Não apenas segurou.
Abraçou.
Como se quisesse envolver Roberta por completo, senti-la contra si, reconhecer cada curva com o próprio corpo. Suas mãos subiram, encontrando os seios dela com desejo, com cuidado, com uma fome que já não cabia em silêncio.
Roberta arfou.
O som foi curto, mas suficiente para fazer Sarah perder um pouco mais da compostura.
Roberta levou as mãos para trás, procurando Sarah, puxando-a de encontro ao próprio corpo. Seus dedos se prenderam ao quadril dela, à lateral da coxa, a qualquer parte que conseguisse alcançar. Então começou a mover a cintura, devagar no início, rebol*ndo contra Sarah com uma provocação que parecia metade instinto, metade desafio.
Sarah soltou uma respiração pesada contra a nuca dela.
— Você faz ideia do que essa sua cintura está fazendo comigo?
Roberta virou o rosto apenas o suficiente para responder, com um sorriso que Sarah sentiu mais do que viu.
— Tenho algumas suspeitas.
Sarah sorriu contra a pele dela.
— Então é pior. Você sabe e continua.
— Talvez eu queira ver até onde vai essa sua pose de controle.
A resposta de Sarah veio sem pressa, baixa, quase indecente pela calma.
— Cuidado, Roberta. Você pode descobrir.
A frase fez Roberta perder o ritmo por um segundo.
Sarah aproveitou o efeito. Deslizou uma das mãos para o ventre dela, puxando-a mais para si, guiando o movimento da cintura de Roberta contra o próprio corpo. Seus dedos pressionaram a pele quente em movimentos lentos, firmes, fazendo Roberta respirar mais alto, o corpo inteiro procurando por mais contato.
Roberta gem*u.
Dessa vez, sem tentar esconder.
O som atravessou Sarah como fogo.
Ela virou Roberta novamente, quase sem conseguir esperar. Segurou seu rosto entre as mãos e a beijou com uma fome mais evidente, mais aberta, menos domesticada. Roberta respondeu na mesma medida, puxando-a para perto, mordendo de leve seu lábio, sorrindo quando Sarah perdeu o fôlego.
Sarah guiou Roberta até a superfície de repouso sem pressa, mas com uma intenção que fazia cada passo parecer parte do toque. As mãos não abandonaram seu corpo. A boca também não por muito tempo. Entre um beijo e outro, Sarah a olhava como se ainda estivesse se acostumando com a liberdade de poder desejar e ser desejada sem recuar.
Quando chegaram à superfície viva, Roberta sentou-se primeiro, puxando Sarah para mais perto pelo quadril.
Sarah foi.
Sem comando.
Sem fuga.
Com o corpo aceso, o olhar escuro e a certeza cada vez mais perigosa de que tocar Roberta daquele jeito não era apenas desejo, era também uma forma de dizer: eu estou aqui, inteira, e escolho ficar.
A membrana viva se ajustou quando se deitaram, alargando-se sob seus corpos como se a casa entendesse que naquela noite não precisava curar, conter ou observar. Apenas acolher.
Sarah ficou por cima de Roberta por um instante, apoiada nos braços, olhando para ela.
Roberta estava com os cabelos espalhados, a pele corada, os lábios entreabertos, os olhos brilhando. Sarah sentiu um aperto no peito tão intenso que quase confundiu com dor.
— O que foi? — Roberta perguntou.
Sarah balançou a cabeça.
— Nada.
Roberta tocou sua face.
— Não esconde agora.
Sarah fechou os olhos brevemente.
Depois disse:
— Eu não sabia que ainda podia sentir assim.
Roberta ficou séria.
— Assim como?
Sarah procurou a resposta.
Desejo era pouco.
Alívio era pouco.
Medo era parte.
Amor era grande demais e, ainda assim, insuficiente se ficasse só na palavra.
— Como se eu tivesse voltado para o meu corpo — disse, por fim. — E ele não fosse só uma coisa que eu uso para sobreviver.
Roberta absorveu a frase em silêncio.
Depois puxou Sarah para baixo e a beijou com uma ternura que fez a capitã estremecer.
Não havia pressa naquele beijo, mas havia fogo, um fogo mais perigoso justamente por não precisar correr.
Roberta virou o corpo com habilidade, invertendo a posição, e Sarah deixou. Não porque não pudesse resistir. Porque queria descobrir o que acontecia quando não transformava cada movimento em controle.
Roberta sorriu sobre ela.
— Sem comando, lembra?
Sarah deslizou as mãos pelas coxas dela, depois pelos quadris.
— Eu lembro.
— Tem certeza?
Sarah olhou para o corpo de Roberta sobre o seu. Para as curvas, a pele, o peso vivo dela, a forma como a luz da casa desenhava cada linha.
— Tenho.
Roberta percebeu o olhar.
— Você está me admirando ou planejando estratégia?
Sarah levou uma das mãos à curva de sua bunda novamente, só que agora de forma mais firme, o suficiente para arrancar surpresa dos olhos de Roberta.
— Admirando.
Roberta abriu a boca, mas a resposta demorou.
Sarah sorriu.
— Essa parte, por exemplo, merece reconhecimento diplomático.
Por um segundo, Roberta pareceu genuinamente chocada.
Depois riu.
— Sarah Solano, você acabou de elogiar minha bunda?
— Com linguagem contida.
— Eu estou maravilhada.
— Posso ser mais direta.
Roberta inclinou-se sobre ela, os olhos acesos.
— Tente.
Sarah aproximou a boca do ouvido dela e disse algo baixo demais para a casa ouvir.
Roberta fechou os olhos.
— Meu Deus.
— Isso foi avaliação positiva?
— Foi surpresa estratégica.
Sarah riu.
Roberta a beijou para calar o riso, mas acabou rindo também contra a boca dela. O som das duas se misturou por alguns segundos, leve e quente, antes que o desejo retomasse espaço.
O riso virou suspiro.
O suspiro virou outra coisa.
A noite ficou menor ao redor delas.
E, quando o desejo voltou a ser algo impossível de controlar, Roberta segurou as mãos de Sarah e as ergueu devagar, pousando-as acima de sua cabeça. Não havia força bruta no gesto, nem amarras invisíveis. Era uma provocação. Uma entrega invertida. Um convite para que Sarah ficasse ali, livre para sentir, tocar ou reagir, mas por alguns segundos apenas recebendo.
Sarah entendeu e o modo como seu corpo respondeu a assustou um pouco.
Roberta começou a distribuir beijos pela mandíbula dela, descendo pelo pescoço, pelos seios, pela barriga. Cada toque arrancava de Sarah um suspiro diferente. Às vezes curto, quase preso. Às vezes mais fundo, revelando demais. A pele dela se arrepiava sob a boca de Roberta, e aquele corpo tão treinado, tão controlado, parecia agora obedecer a outra linguagem.
Uma linguagem que Sarah não comandava.
Roberta ergueu os olhos por um instante, percebendo o efeito que causava.
Sarah falou com a voz rouca:
— Não lembro de combinarmos nenhum método de tortura.
Roberta soltou um riso baixo, quente contra a pele dela.
— Não gosta?
Sarah tentou responder com firmeza, mas a frase saiu quebrada entre suspiros.
— Esse é... é o problema. Estou começando a gostar.
Roberta sorriu.
— Estou só começando.
Sarah fechou os olhos.
O corpo dela se contraiu no momento em que Roberta desceu mais um pouco e beijou sua virilha, tão próxima do ponto que pulsava por atenção, mas ainda longe o bastante para prolongar a espera. Sarah sentiu a própria respiração falhar. O desejo já não era apenas calor. Era pressão, fome, urgência espalhada pela pele.
Instintivamente, levou as mãos até a cabeça de Roberta, os dedos entrando em seus cabelos, não para forçar, mas para guiá-la. Para pedir sem precisar dizer. Para mostrar exatamente onde precisava dela.
Roberta entendeu o movimento e obedeceu ao pedido silencioso com uma entrega que fez Sarah perder o ar.
Quando Roberta encostou em sua fenda, Sarah já estava pronta, úmida, aberta para aquele toque. Roberta passou a língua devagar, sentindo o gosto dela, e o próprio corpo pareceu responder antes da fala. Um gemido baixo escapou de sua garganta, cheio de fascínio, como se aquela descoberta a tivesse atingido mais fundo do que esperava.
— Sarah... meu Deus — murmurou, a voz abafada pelo desejo. — Você é deliciosa.
Sarah arqueou o corpo.
A frase, dita daquele jeito, com a boca de Roberta ainda tão perto, quase a desfez.
— Por favor... não para.
Roberta não parou.
A boca dela voltou com mais intenção. Abocanhou-a com cuidado e fome, alternando pressão, língua e respiração, aprendendo os ritmos do corpo de Sarah como se decifrasse uma música nova. Sugava, soltava, voltava, assoprava de leve, e então descia outra vez, passando a língua ao redor de sua abertura, arrancando de Sarah um gemido mais alto.
Sarah abriu ainda mais as pernas.
Já não tentava controlar o som que saía dela. Não ali. Não com Roberta entre suas coxas, não com o corpo inteiro queimando, não quando cada movimento parecia derrubar uma parte da armadura que ela nem sabia que ainda usava.
Os dedos de Sarah voltaram aos cabelos de Roberta, conduzindo-a com mais urgência.
Roberta aproveitou o acesso, entregando-se ao movimento, penetrando-a com a língua.
Sarah se arqueou de imediato. Um gemido rouco escapou dela, profundo, quase surpreso, como se o próprio corpo tivesse encontrado uma forma de dizer o que a voz ainda não sabia. Roberta sentiu Sarah se soltar mais a cada segundo. Sentiu a capitã desaparecer. Sentiu as muralhas desabarem uma a uma, não com violência, mas com rendição.
Ali, não havia comando, protocolo ou Terra.
Havia Sarah.
Inteira.
Quente.
Viva.
Desprovida de armadura ou muros que a impedissem de amar.
Sarah puxou Roberta para cima em um impulso. Procurou sua boca em um beijo urgente, faminto, com gosto de desejo, pele e entrega. Roberta respondeu sem hesitar, encaixando o corpo ao dela, como se também não suportasse mais nenhuma distância.
O beijo ficou desordenado, intenso, cheio de respirações partidas.
Roberta se moveu sobre Sarah, encaixando-se melhor, e começou a rebol*r contra ela. O movimento era lento no início, quase uma provocação, mas logo ganhou ritmo. Pele contra pele. Calor contra calor. O corpo de Roberta se esfregando ao dela com uma liberdade que deixava Sarah ainda mais louca de desejo.
Sarah sentiu quando o corpo de Roberta começou a mudar.
A respiração dela ficou curta. Os movimentos, menos controlados. O ritmo cresceu, sem folga, sem recuo. Roberta segurou as mãos de Sarah e as levou até seus seios, conduzindo-a para apertá-los, para tocá-la como ela queria ser tocada.
Sarah abriu os olhos e viu Roberta totalmente entregue.
O corpo dela começava a suar sob a luz baixa da casa viva. A pele brilhava. Os lábios estavam entreabertos. A respiração vinha cortada, cada vez mais urgente. Os quadris continuavam se movendo, buscando Sarah, usando o corpo dela como abrigo e combustão.
Foi então que Sarah percebeu.
Sentiu o instante exato em que Roberta já não conseguiria segurar o que estava sentindo.
A explosão começou pequena, como se Éden-9 acordasse seus filamentos sob a terra. Primeiro um tremor sutil. Depois outro. E então veio inteira, atravessando o corpo de Roberta em ondas que a fizeram perder o ritmo, o ar e qualquer palavra que não fosse puro som.
Seu corpo estremeceu.
A mente pareceu ficar muda por um momento de êxtase.
A boca, seca.
Roberta atingiu o limite quase ao mesmo tempo em que Sarah sentiu o próprio prazer responder ao dela, como se o corpo de uma chamasse o da outra.
— Aaah... Sa... rah!
Ouvir seu nome na boca de Roberta, naquele momento, fez Sarah voltar a si com uma força quase dolorosa.
A respiração estava ofegante. O coração, acelerado. O corpo inteiro ainda vibrava.
Sarah ergueu a mão e a passou pelo rosto de Roberta, afastando uma mecha de cabelo para trás da orelha. O gesto saiu lento, delicado, quase contraditório depois de tanta intensidade. Em seguida, puxou Roberta para um beijo calmo, profundo, cheio de um sentimento que já não cabia apenas no desejo.
Uma lágrima escapou do olho de Sarah.
Roberta percebeu imediatamente.
Beijou sua face com uma ternura que desarmou o último resto de defesa que Sarah ainda tentava manter. Seus olhos diziam tudo: o assombro, o amor, o alívio, a emoção crua de terem chegado ali depois de tanta dor, tanta espera, tanta quase perda.
Sarah tentou segurar.
Não conseguiu.
Quando percebeu, já tinha falado.
— Eu te amo.
Assim.
Simples.
Sem enfeite.
Sem floreio.
Exatamente do jeito de Sarah.
Roberta prendeu a respiração por um segundo.
Quando soltou o ar, havia algo novo em seu rosto. Como se finalmente percebesse que Sarah havia aberto uma porta inteira e, dessa vez, não pretendia fechá-la.
— Eu também te amo — respondeu, a voz emocionada, quase falhando. — De um jeito que eu nem sabia que era possível, Sarah.
Elas se beijaram outra vez.
Mais devagar agora.
Tentando controlar a respiração, tentando voltar ao próprio corpo, tentando aceitar que algo imenso havia sido dito e não poderia mais ser guardado.
Roberta encostou a cabeça no peito de Sarah.
Sarah envolveu-a com os braços e percebeu que ela não sentia mais vontade de fugir daquilo que sentia.
Depois, por algum tempo, não houve palavras. Apenas respiração. Pele contra pele. O som distante da água passando pelos canais da casa.
A luz das membranas pulsando baixa, quase tímida.
Sarah agora estava deitada de lado, com Roberta junto a ela. Uma das pernas de Roberta entrelaçada às suas, a mão pousada sobre seu abdômen, o rosto perto do ombro. O corpo de Sarah ainda vibrava, mas não de medo. Não de febre. Não de memória.
De vida.
Era quase insuportável.
Roberta desenhava linhas preguiçosas na pele dela.
— Você está quieta.
Sarah olhou para o teto translúcido.
— Estou tentando não transformar isso em análise.
— Como está indo?
— Mal.
Roberta riu baixo e beijou o ombro dela.
— Analise então. Mas com carinho.
Sarah virou o rosto para olhá-la.
— Você é impossível.
— E você gosta.
Sarah não respondeu de imediato.
Passou os dedos pelo cabelo de Roberta, a pele dela estava quente e os olhos, mais suaves agora.
— Gosto — disse Sarah.
Roberta ficou quieta.
A palavra simples pareceu tocá-la mais do que uma declaração grande.
Sarah continuou:
— De você. Do seu jeito de me desafiar. Do modo como olha para esse planeta como se ele fosse difícil, mas digno de paciência. Do seu riso quando está tentando não chorar. Do seu corpo.
Roberta ergueu uma sobrancelha.
— Ah, meu corpo entrou na lista.
Sarah sorriu.
— Ele sempre esteve, a diferença agora é que ocupa uma posição relevante.
— Relevante quanto?
Sarah deslizou a mão pela cintura dela.
— Não provoque se ainda pretende dormir.
Roberta prendeu o lábio inferior entre os dentes por um segundo.
Sarah acompanhou o gesto com os olhos.
— Você é perigosa assim.
— Assim como?
— Livre.
A palavra saiu antes de Sarah decidir se deveria dizê-la.
Roberta a observou.
— Eu ia dizer isso de você.
Sarah ficou séria.
Roberta tocou seu rosto.
— Hoje você parecia livre em alguns momentos.
— Só em alguns?
— Ok, eu confesso, foram em muitos.
Sarah riu.
Dessa vez sem medo do som e Roberta sorriu como se tivesse recebido um presente.
Depois o sorriso diminuiu.
— Eu ainda estou magoada.
Sarah assentiu.
— Eu sei.
— Eu precisava dizer, porque meu corpo está muito feliz com você agora e isso pode confundir as coisas.
Sarah tocou a mão dela sobre seu rosto.
— Não quero que confunda.
— Quer sim um pouco.
Sarah pensou.
— Quero.
Roberta riu pelo nariz.
— Honesta.
— Estou tentando.
— Eu sei.
O silêncio voltou, mas não era frio.
Roberta passou o polegar pela boca de Sarah, de leve, quase distraída.
Sarah beijou a ponta do dedo dela.
Roberta respirou fundo.
— Se você continuar fazendo isso, a conversa séria acaba.
— Seria uma pena?
— Talvez não agora. Mas amanhã a gente ainda vai precisar lidar com a Terra, com o Vega, com a equipe, com Aurora e com o fato de você ser uma capitã que agora ri e elogia bunda em planetas conscientes.
Sarah fechou os olhos.
— Minha evolução pessoal está sendo registrada de forma injusta.
— Está sendo registrada com carinho.
Sarah abriu os olhos.
— Beta.
O tom mudou, Roberta percebeu que era a primeira vez que ela a chamava pelo apelido.
— Sim?
Sarah sentiu a palavra amor aproximar-se outra vez.
Não fugiu.
— Eu te amo... e... quero aprender a fazer isso direito.
Roberta entendeu.
Não apenas a noite.
Elas.
A verdade.
O que vinha depois.
— Então aprende junto comigo — disse Roberta.
Sarah tocou a testa na dela.
— Certo.
Ficaram assim por algum tempo, até que Roberta bocejou contra sua boca, tentando fingir que não.
Sarah sorriu.
— Você precisa dormir.
— Não comece com cuidado autoritário.
— É cuidado consultivo.
— Evoluiu.
— Estou em treinamento.
Roberta se aconchegou contra ela, encaixando o corpo ao seu como se aquele lugar já conhecesse a forma das duas. Sarah envolveu-a com um braço, sentindo a curva das costas, o calor da pele, a respiração tornando-se mais lenta.
Lá fora, Éden-9 respirava com elas.
Sarah ainda tinha medo do que o planeta podia ouvir, mas naquela noite ela não quis esconder.
Se Éden escutava intenção, que escutasse aquela.
Não posse.
Não fuga.
Não desculpa.
Apenas duas mulheres exaustas, feridas, desejando-se com a força de quem quase perdeu tempo demais para o medo.
Roberta murmurou, já sonolenta:
— Sarah?
— Estou aqui.
Roberta ficou alguns segundos em silêncio, o rosto acomodado contra o peito dela, ouvindo o coração de Sarah bater mais calmo sob sua pele.
Então, quase sem perceber, chamou de novo:
— Sah...
Sarah abriu os olhos, a palavra era pequena. Suave. Mas atravessou algo dentro dela com uma força inesperada.
— Sah? — repetiu, a voz baixa.
Roberta ergueu o rosto só um pouco, ainda tomada pelo sono, pelo cansaço e pela ternura da noite.
— É. Sah.
Sarah olhou para ela, tentando entender por que aquele pedaço do próprio nome parecia tão diferente na boca de Roberta. Menor, mais íntimo, menos armado.
— Isso é novo.
Roberta sorriu, preguiçosa.
— É seu.
Sarah ficou quieta.
Roberta percebeu a reação e passou os dedos de leve pela pele dela, como se quisesse acalmar até as partes que Sarah ainda tentava manter em guarda.
— Sarah é lindo, mas é sério demais às vezes. Capitã é dos outros. Solano é quando eu quero te provocar e minha capitã controladora, quando quero irritar.
Sarah quase sorriu.
— E Sah?
Roberta encostou o queixo no peito dela, olhando-a com os olhos pesados de sono e afeto.
— Sah é meu jeito de te chamar quando eu quero que você lembre que não precisa se defender de mim.
Sarah sentiu a garganta apertar.
Por um instante, não respondeu. Apenas levou a mão ao rosto de Roberta e afastou uma mecha de cabelo de sua bochecha.
— Posso gostar disso? — perguntou, quase em segredo.
Roberta sorriu mais.
— Deve.
Sarah soltou um riso baixo, pequeno.
— Ordem?
— Não, está mais para uma recomendação.
— Ótimo, estou tentando obedecer menos ordens.
— Então aceita como convite.
Sarah passou o polegar pela boca dela, devagar.
— Convite aceito.
Roberta pareceu satisfeita e voltou a repousar a cabeça sobre o peito dela.
O silêncio se acomodou outra vez entre as duas, morno, vivo, diferente de todos os silêncios que Sarah havia usado para se esconder.
Então Roberta murmurou, a voz quase se perdendo no sono:
— Não foge amanhã, Sah.
Sarah a envolveu com mais firmeza.
Não como quem prende, como quem fica.
— Não vou, Beta.
Roberta respirou fundo, como se aquela resposta fosse o bastante para permitir que o corpo finalmente descansasse.
Sarah permaneceu acordada mais alguns minutos, sentindo o peso dela contra si, o calor da pele, o nome novo ainda vibrando por dentro e, por aquela noite, isso bastou.
Fim do capítulo
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