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Gelo Sob o Fogo por Lady Texiana

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Palavras: 2264
Acessos: 634   |  Postado em: 22/06/2026

Capitulo 1 - O Peso das Cartas

 

O inverno de 1870 cobria Boston com uma fuligem cinzenta e úmida que parecia penetrar não apenas nas frestas das janelas de guilhotina, mas na própria espinha dorsal de Judith Brown. Aos vinte e cinco anos, ela mantinha uma postura cuja retidão desafiava a gravidade da escassez de recursos financeiros que enfrentava, junto com o pai e que a obrigava a planejar cada passo, cada compra.

Sabia, com precisão matemática, quanto tempo durava uma saca de carvão se o fogão fosse usado com parcimônia e sabia exatamente quantas vezes podia virar os punhos de suas blusas de algodão antes que o tecido desfiado a traísse e mostrasse para a aristocracia local as condições de penúria em que viviam. Judith não se permitia o desalinho; sua dignidade era medida pela precisão dos vincos nas roupas e pelo cuidado com que arrumava seus cabelos em um coque firme e discreto.

A casa onde nascera, uma estrutura de tijolos escuros em uma rua outrora pujante, agora cheirava a mofo e a uísque de baixa qualidade, que se impregnava nos poucos móveis que ainda não haviam sido vendidos para pagar dívidas e comprar comida. Seu pai, Thomas Brown, passava as horas diurnas imerso em um torpor melancólico e as noites sob a fumaça densa dos salões de jogos clandestinos perto das docas.

Desde o falecimento da mãe de Judith, dez anos antes, Thomas abandonara por completo o exercício da advocacia. A carreira, outrora bem-sucedida, dera lugar à probabilidade cega do pôquer como única ocupação, e a retidão com que liderava a família, fora substituída pela urgência febril de quem crê que a próxima carta será a que lhe garantirá a fortuna.

Naquela manhã de uma terça-feira de um frio novembro, Judith ajustava os punhos de seu vestido cinza-escuro em frente ao espelho manchado do corredor com movimentos medidos, desprovidos de pressa. Seus cabelos castanhos estavam recolhidos em um penteado severo, sem uma única mecha fora do lugar. Era necessário caminhar doze quarteirões até a residência de Arthur Sterling, o homem que, por uma ironia cruel do destino, detinha as rédeas de sua subsistência e, agora, a promessa de seu cativeiro, dada pelo próprio pai.

- Judith... - A voz de Thomas veio do fundo da sala de estar, arrastada, espessa pelo álcool.

Judith suspirou e entrou no cômodo com passos silenciosos, as mãos cruzadas elegantemente à altura da cintura. O pai estava sentado na poltrona puída, com as cartas de um baralho gasto espalhadas pelo tapete desbotado. O rosto de Thomas, outrora imponente, exibia veias rompidas nas bochechas e um tremor constante nas mãos que ele tentava, em vão, ocultar.

- Estou de saída para ministrar as lições, pai - declarou Judith. Sua voz possuía uma cadência perfeitamente modulada, despida de qualquer nota de ressentimento ou fraqueza. Ela aprendera que a emoção era um luxo que consumia muita energia, que ela já não dispunha.

- Sterling procurou-me ontem à noite. No clube.

Thomas ergueu os olhos injetados de sangue, buscando o olhar da filha, que permanecia fixo e altivo.

- Ele é um homem de posses, Judith. Um homem de respeito. Ele não necessita de uma preceptora. Ele necessita de uma esposa. E os filhos dele precisam de uma mãe.

- Os filhos do Sr. Sterling necessitam de disciplina e instrução, pai, coisas pelas quais sou devidamente remunerada. -  respondeu ela, inclinando levemente a cabeça, um gesto de polidez que deixava entrever uma barreira intransponível. - Rogo para que não confunda minhas obrigações profissionais como um negócio de natureza matrimonial. Eu não vou me casar com aquele homem!

- Nós não temos o direito de escolher! Você não tem! - Thomas bateu a mão trêmula na mesa lateral, fazendo uma garrafa vazia tilintar contra a madeira. - Você está com vinte e cinco anos de idade! É uma solteirona! O que quer para o seu futuro? A herança que posso lhe deixar são as notas promissórias que os cobradores apresentam à nossa porta todas as manhãs. O Sr. Sterling ofereceu-se para liquidar meus débitos. Ele já tem a hipoteca desta casa!

Judith não vacilou, embora tenha sentido o estômago contrair-se. Nem um único músculo de seu rosto denunciou o golpe. Ouvir que sua própria existência estava sendo empenhada para cobrir os blefes mal calculados de seu pai era uma humilhação.

- Não unirei meu nome ao do Sr. Arthur Sterling. -  afirmou ela, exasperada, pronunciando cada sílaba com a clareza de um veredicto judicial. - Prefiro exercer o magistério até a exaustão, trabalhar até o limite de minhas forças, mesmo que minhas mãos sangrem, a submeter-me aos desígnios de um homem que me vê como mais um bem a ser adquirido!

- Você ditará nossa ruína. -  sussurrou Thomas, os ombros cedendo, a fúria dissipando-se para dar lugar à autocomiseração covarde que Judith considerava a mais grave das fraquezas. - Ele executará as dívidas. Ele possui os títulos, Judith. Se recusar... não teremos sequer um teto sob o qual nos abrigar. Iremos parar na rua. Na rua! Você entende isto?!

Judith não estendeu a discussão. Virou as costas, pegou suas luvas cuidadosamente remendadas, seu caderno de caligrafia e os livros de poesia e retirou-se para a rua gelada. O ar de Boston cortou seus pulmões, mas era preferível à atmosfera asfixiante daquela casa.

A caminhada até a mansão Sterling, no bairro de Beacon Hill, foi um exercício de disciplina física. Enquanto as carruagens elegantes salpicavam lama congelada, Judith mantinha o queixo erguido, os passos firmes e medidos. Quando cruzou os portões de ferro dos Sterling, o contraste foi violento. Ali, o dinheiro comprava o conforto; as lareiras rugiam com lenha de carvalho e o odor de cera de abelha e canela impregnava os corredores suntuosos.

Arthur Sterling a aguardava no topo da escadaria interna. Era um homem de quarenta e cinco anos, de cabelos grisalhos cortados com rigor e um bigode severo que ocultava os lábios finos. Seus olhos eram pequenos, escuros e avaliadores como de uma fuinha. Enviuvara dois anos antes, e sua residência transformara-se em um campo de batalha governado por cinco crianças sem rédeas.

- Srta. Brown... -  pronunciou ele, sua voz ressoando com a autoridade de quem comandava as três maiores tecelagens de Boston. - A Srta. está atrasada.

- O acúmulo de gelo nas calçadas acabou atrapalhando, Sr. Sterling. - respondeu Judith, retirando sua capa com movimentos graciosos e depositando-a sobre o braço.

- Espero que para o trabalho esteja mais ágil do que sua caminhada hoje. Meus filhos testaram a paciência dos serviçais logo cedo. Richard quebrou um vaso de porcelana na biblioteca. -  Sterling deu dois passos em sua direção, diminuindo a distância de forma que Judith considerou uma intrusão indelicada. O aroma de tabaco importado e lavanda emanava dele. - Seu pai falou com a senhorita?

Judith sustentou o olhar, mantendo as mãos unidas à frente do corpo.

- Ele mencionou suas... pretensões, senhor.

- E qual a sua resposta?

- Minha postura permanece inalterada em relação à semana passada, Sr. Sterling. Sou imensamente grata pela oportunidade de exercer minhas funções como preceptora, todavia, não estou disponível para um matrimônio.

O semblante de Sterling endureceu. A polidez desapareceu, revelando o homem que esmagava concorrentes.

- A altivez é uma virtude atraente em uma dama de posses, Srta. Brown. Em uma mulher de sua condição, beira a insensatez. Seu pai é um homem insolvente. Um indivíduo cuja palavra e assinatura não possui valor nenhum. Ofereci uma saída honrosa. Pondere com sensatez. A tolerância de um credor é bem limitada...

- Se a sua tolerância enquanto credor de meu pai dependem da minha capitulação, sugiro que execute as hipotecas e os títulos. -  Judith proferiu, mantendo o tom de voz imperturbável, embora seu coração golpeasse o peito. - Agora, se me der licença senhor, vou iniciar as lições de latim e aritmética com seus filhos, pelo qual estou sendo paga para fazer.

Sob o olhar maligno de Sterling, ela virou as costas antes que ele pudesse replicar e subiu para o terceiro andar com passos medidos, onde a sala de estudos exalava o caos. Os cinco filhos de Sterling - com idades compreendidas entre os quatro e os doze anos - pareciam obstinados a provar que nenhuma governanta ou preceptora sobreviveria ao cargo. Edward, o primogênito, lançava bolinhas de gude contra o rodapé de carvalho; as gêmeas, Mary e Florence, digladiavam-se pelos cabelos; e os menores, Richard e Henry, rompiam em choro por um brinquedo disputado.

Aquele dia constituiu um teste de resistência mental. Judith aplicou sua habitual rigidez; sua voz jamais se elevava acima do tom protocolar, mas mantinha uma cadência de autoridade e frieza que, paulatinamente, dobrava a resistência dos pupilos. No entanto, enquanto inspecionava os numerais caligrafados por Edward, ela não conseguia apartar da mente as promessas do pai e as ameaças veladas de Sterling.

Quando o carrilhão da igreja em frente assinalou quatro horas da tarde, indicando o término de seu dever, Judith sentia o peso da exaustão. Arthur Sterling não se fez presente para as despedidas formais, momento em que sempre fazia questão de lhe interrogar sobre como foram as lições e o desempenho dos filhos, o que ela interpretou como um augúrio sombrio, um sinal de que as coisas poderiam ficar bem piores logo.

O regresso foi efetuado sob uma nevasca que se intensificava a cada passo dado. Ao dobrar a esquina de sua rua, Judith notou uma quietude suspeita. Não havia claridade nas janelas de sua residência. A porta principal encontrava-se destrancada, oscilando levemente sob o impacto do vento.

- Pai?, chamou ela, adentrando o vestíbulo escuro com passos firmes.

O odor de uísque apresentava-se mais denso que o habitual, entremeado a algo com cheiro de ferrugem. Ela acendeu a lamparina a óleo com dedos que, subitamente começaram a tremer. O feixe de luz amarelada cortou a penumbra da sala de estar e revelou o horror.

Thomas Brown encontrava-se suspenso da viga central do teto, suas botas gastas oscilando a trinta centímetros do assoalho. A cadeira que servira de apoio estava caída lateralmente. No chão, logo abaixo de seus pés inertes, jaziam dois elementos: o infame baralho de pôquer, disperso como folhas secas, e uma nota promissória com a assinatura de Arthur Sterling, rasgada ao meio.

Judith não emitiu qualquer som. O choque parou o grito sua garganta, sua postura permaneceu rígida. Ela deu um único passo para trás, estancando o tremor da lamparina que ela segurava, por pura força de vontade. Seu pai escolhera a forca a tentar encontrar uma solução digna, legando-lhe a ruína absoluta como testamento.

***

Três dias decorreram até o sepultamento, que se deu de forma célere, assistido unicamente por Judith e pelo pároco local, sob uma chuva congelada no setor reservado aos indigentes -  a paróquia recusara o sepultamento no local principal em decorrência do suicídio. Arthur Sterling não compareceu, fazendo-se representar por seu procurador legal.

No quarto dia subsequente a morte do pai, Judith encontrava-se sentada na cozinha desprovida de calor, circundada por caixotes vazios. O mandado de despejo repousava sobre a mesa, ordenado pelo magistrado local a requerimento de Sterling.

Ela dispunha de apenas quarenta e oito horas para desocupar o imóvel. A totalidade do mobiliário seria submetida a leilão público para diluir uma fração ínfima da monumental dívida de Thomas. Encontrava-se sem ocupação, sem moradia, desprovida de cartas de recomendação e com algumas escassas moedas em sua bolsa de couro e uns poucos dólares, que haviam sobrevivido ao vício do pai, porque ela os escondera bem.

Foi quando três batidas urgentes na porta principal ecoaram pela casa desabitada.

Judith abriu a porta, com a altivez, esperando deparar-se com os oficiais de justiça. Em vez disso, encontrou um jovem mensageiro da Western Union, que batia os pés contra o frio, portando um envelope pardo.

- Srta. Judith Brown? - inquiriu o estafeta.

- Com efeito. -  respondeu ela.

- Um despacho telegráfico para vossa senhoria. Proveniente do Território do Nebraska. Solicito sua assinatura neste livro de registros, por favor.

Ela assinou o documento com caligrafia impecável e firme, entregou uma de suas últimas moedas ao jovem como gratificação e fechou a porta. Retornou à mesa da cozinha e, valendo-se de um abridor de cartas, rompeu o envelope. As linhas eram concisas, escritas na linguagem telegráfica que taxava cada vocábulo:

THOMAS BROWN / JUDITH BROWN - INFORMO FALECIMENTO SILAS VANCE TIO MATERNO JUNHO ÚLTIMO STOP SEM SUCESSORES DIRETOS STOP DOIS CENTOS ACRES TERRA RANCHO VALE DO RIO LOUP NEBRASKA REGIÃO INÓSPITA DECLARADOS PROPRIEDADE JUDITH BROWN COMO ÚNICA PARENTE VIVA STOP COMPARECER CARTÓRIO COUNTY SEAT DE GRAND ISLAND PARA REIVINDICAÇÃO ATÉ INÍCIO PRÓXIMO ANO STOP JOSIAH HIGGINS ADVOGADO.

Judith leu o telegrama por três vezes consecutivas. Silas Vance. Recordava-se vagamente de ouvir sua mãe aludir a um irmão de hábitos excêntricos que partira para as fronteiras do oeste antes da Guerra de Secessão, um homem que rompera os vínculos com a família do Leste para se aventurar com caçadores e colonos.

Dois centos de acres. Um rancho. No centro de uma região inóspita e selvagem, distante das ruas pavimentadas e iluminadas de Boston, longe dos olhares predatórios de Arthur Sterling e livre da sombra da viga onde seu pai se enforcara.

Ela fitou o mandado de despejo e, em seguida, o telegrama. O leste confiscara lhe todas as esperanças: sua mãe, a honra de seu pai, sua estabilidade e seu futuro. O oeste acenava com imprecisões, perigos e o mais absoluto isolamento. Contudo, para uma dama que já não possuía bens, a incerteza figurava, pela primeira vez na existência, como a mais pura definição de autonomia e liberdade

 

Fim do capítulo


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