Capitulo 2 - Engrenagens e Memórias
Para que se possa compreender a resiliência com que Judith Brown organizou seus escassos pertences em sua velha mala de lona, que já havia visto dias melhores na época em que sua mãe era viva, na manhã de sua partida, fazia-se necessário compreender como a sociedade de Boston funcionava.
A Boston de 1870 não se limitava a ser um polo de erudição, cultura e finanças; era também uma engrenagem de classes rigidamente estratificada, onde as tecelagens a vapor enriqueciam homens da estirpe de Arthur Sterling à custa da saúde de jovens operárias imigrantes.
Thomas Brown nem sempre correspondera ao sujeito trêmulo e pusilânime que encerrara seus dias atado a uma corda de cânhamo na sala de estar da própria casa. Em seus anos de juventude, ele fora um homem de retórica impecável e ambições legítimas.
Advogado renomado, contraíra, bem jovem, matrimônio com Elizabeth Vance, uma senhora de constituição delicada, oriunda de uma linhagem de comerciantes de tecidos de lã que observavam com desconfiança a obsessão de Thomas por prestígio e dinheiro.
Assim, os primeiros anos da infância de Judith decorreram sob o olhar atento e as notas de piano que sua mãe executava com maestria nas noites de outono, quando a casa reluzia com o fogo na lareira e cheirava a biscoitos de mel recém assados.
Mas a estabilidade daquela morada apoiava-se em alicerces muito frágeis. Thomas padecia de uma falha de caráter grave: o gosto pelos riscos das apostas, primeiro em corridas de cavalos, depois o pôquer clandestino. Quando a febre tifoide ceifou a vida de Elizabeth, o mundo de Thomas ruiu de vez, e com ele, a fachada de sua respeitabilidade.
Judith contava apenas quinze anos quando testemunhou o pai introduzir as primeiras rodadas de pôquer em seu gabinete de estudos, algo que a mãe quando viva não permitia, de modo que ele com frequência era encontrado nas casas de apostas. Inicialmente, tratava-se de "reuniões de cavalheiros" de caráter recreativo. Subsequentemente, as incursões destes cavalheiros na residência tornaram-se cada vez mais frequentes. E não só, haviam reuniões periódicas nos clubes e em outras residências também.
Judith recordava-se, com precisão da noite em que seu pai não regressou. Ela permanecera desperta na biblioteca, alimentando a lareira com os últimos cavacos de lenha, mantendo a postura ereta na cadeira de espaldar alto, apenas para presenciar sua chegada com o alvorecer, as vestes desalinhadas e o olhar brilhando pela euforia.
"A fortuna nos estende os braços, Judith!", exclamara ele, tentando tomá-la pelas mãos em um volteio desajeitado na sala. "As cartas obedecem a uma ordem secreta, e eu finalmente decifrei seu enigma!"
Aquela consistiu na primeira e única grande vitória de Thomas Brown. A partir daquele evento, o jogo converteu-se em uma obsessão crônica. Os compêndios jurídicos foram alienados sucessivamente para pagar o que ele denominava "obrigações de curto prazo". O escritório advocatício foi encerrado. A caleça da família e os dois cavalos foram entregue aos credores, agora cada vez mais insistentes em sua porta.
A cada revés, Thomas tornava-se mais veemente em suas promessas de que a partida subsequente restauraria o patrimônio perdido. Passou a frequentar redutos progressivamente mais obscuros nas cercanias das docas, onde o uísque adulterado era servido a vontade e as frequentes discussões sobre trapaças no pano verde da mesa eram dirimidas por meio de armas de fogo ou facas.
Judith observava aquele declínio com uma impassibilidade que gradualmente se converteu em uma armadura. Aos dezoito anos, assumira a gestão dos parcos recursos remanescentes. Aprendera a receber os cobradores com uma polidez tão gélida que os impedia de elevar a voz, a racionar os alimentos com dignidade e a zelar por suas próprias vestes e as do pai, cada vez mais desleixado.
Foi essa mesma armadura e a necessidade cada vez mais urgente, que a conduziu a aceitar o encargo na mansão da família Sterling.
Arthur Sterling conhecera Thomas Brown nos tempos de bonança, e ao reencontrá-lo anos mais tarde, degradado nos salões obscuros das docas, divisou uma oportunidade de aumentar mais ainda seu patrimônio. Sterling era um homem que não se limitava a adquirir propriedades imobiliárias; ele se utilizava das vulnerabilidades alheias, principalmente as que eram amealhadas através da jogatina desenfreada.
Ao enviuvar, sua vasta residência, antes controlada rigidamente por sua falecida esposa, converteu-se em um foco de insubordinação. Seus cinco filhos eram o reflexo exato de sua própria tirania: negligenciados pelo pai e temidos pelos serviçais, e que se renovava a cada nova crise, a cada nova tutora que ele lhes arranjava.
No primeiro dia em que Judith adentrou a mansão dos Sterling na qualidade de preceptora, ela mensurou a dificuldade de seu trabalho. Edward, o primogênito de doze anos, herdara a arrogância do pai. No encontro inaugural na sala de estudos, o jovem cuspiu ostensivamente no piso de madeira diante de Judith, asseverando que não se submeteria às ordens de uma mulher.
Judith não se alterou. Caminhou até o jovem com passos compassados, manteve as costas rigidamente alinhadas e fixou nele um olhar severo.
- O Sr. seu pai remunera meus serviços para que eu lhe ministre lições de latim, matemática e, acima de tudo, educação, Edward. - declarou ela, com voz baixa e pausada. - Se o seu pai opta por despender seus recursos com a sua instrução, sugiro que apresente a ele suas objeções. Até que o faça, recolha o que depositou no chão com o lenço e abra o volume de latim na página dez. Vamos prosseguir as lições da semana passada com a conjugação dos verbos irregulares.
Edward, atônito diante de uma governanta que não recorria a lágrimas como as outras ou a queixas e lamúrias sobre seu comportamento a seu pai, obedeceu com um resmungo de frustração.
Os embates com a linhagem de Sterling, contudo, eram de ocorrência diária. As gêmeas, Mary e Florence, de nove anos, exerciam pequenas vilanias planejadas com esmero: escondiam os manuais de Judith, depositavam alfinetes em seu assento e simulavam crises de pranto para atrair a intervenção do pai. Arthur Sterling, por sua vez, se utilizava de tais episódios para ratificar seus interesses cada vez mais crescentes e explícitos por Judith.
Uma semana antes do pai se suicidar, entrou no recinto que servia como sala de estudos sem prévio aviso, seus sapatos de couro inglês ecoando no ambiente, e desautorizou as diretrizes de Judith perante os filhos.
- Uma dama dotada de maior... flexibilidade de espírito saberia como conduzir crianças sem a necessidade de recorrer a métodos tão severos, Srta. Brown, - ponderava Sterling, com um sorriso velado, após Mary alegar falsamente que foi posta de castigo sem comer.
- Minha severidade, Sr. Sterling, é a única forma de competir com a mais completa ausência de civilidade por parte dos seus filhos. - replicava ela, sem desunir as mãos postas defensivamente em frente ao próprio corpo.
- Talvez se a senhorita estivesse voltada ao cuidado de sua própria prole, sob o amparo de um marido provedor, compreenderia a natureza das crianças. - Sterling aproximava-se, alterando o tom profissional para o de um pretendente. - Minha proposta de matrimônio é irrecusável para uma mulher nas condições em que a senhorita se encontra. Pense bem, seus dias de trabalho por um salário modesto cessariam. Sua propriedade seria preservada. Seu pai veria suas promissórias e dívidas de jogo todas quitadas e ainda contaria com uma mesada substancial para suas despesas mensais.
Judith experimentou uma repulsa profunda, que ela sepultou sob sua habitual máscara de gelo polido. Compreendia perfeitamente o propósito de Sterling: desejava uma mulher instruída, de linhagem respeitável, que atuasse como um ornamento em suas recepções, que gerisse sua criadagem com eficiência e sem ônus, e que permanecesse sob sua total tutela. Mulheres, para sujeitos como Sterling, atendiam a estes únicos propósitos.
- Sr. Sterling, já que deixou suas intenções bem claras vou deixar minha resposta também muito clara: e a minha resposta é não!
Sterling avançou em sua direção, encurralando-a contra a mesa de carvalho. Ergueu a mão direita e segurou seu queixo com força desmedida, obrigando-a a encará-lo.
- Então sua permanência nesta casa, neste emprego que garante a comida na sua mesa, vai depender do acordo e da palavra do seu pai, que para seu conhecimento perdeu os títulos de sua residência ontem à noite. Ele apostou seus últimos bens contra mim e perdeu. Neste exato momento, vocês são meros inquilinos meus. A senhoria aceitará e faremos a recepção de noivado no próximo mês, ou determinarei que seus pertences sejam depositados na via pública. Fui claro?
Judith sentiu a proximidade física de Sterling. Uma aversão, uma repulsa percorreu seu ser. A perspectiva de pertencer legalmente a um homem, de ser submetida ao seu toque e de ter sua existência tutelada pareceu-lhe um destino mais terrível do que a miséria absoluta. Ela recuou um passo com rigidez, desvencilhando-se do toque dele com firmeza inabalável.
- Minha preferência recai sobre a via pública, Sr. Sterling. - proferiu ela, com a voz destituída de qualquer tremor.
O desfecho daquela recusa formal na semana anterior e novamente a recusa na terça feira, materializou-se na corda que ceifou a vida de Thomas Brown. Quando o pai tomou ciência de que Judith repelira novamente a investida de Sterling e que o despejo era irrevogável, o último esteio de seu orgulho desmoronou.
Agora, na manhã de sua partida definitiva para o Oeste e o que esperava ser seu novo lar, Judith inspecionava pela última vez a sala de estar. O mobiliário ostentava as marcas numéricas, marcações feitas pelo leiloeiro oficial. Ela portava sua única mala de lona, que continha três vestidos sóbrios, mudas de roupa íntima perfeitamente passadas, o volume de poesias de sua falecida mãe e o despacho telegráfico de Nebraska devidamente acondicionado no interior de sua pequena bolsa de mão.
Caminhou em direção à estação ferroviária de Boston sob uma névoa densa que obstruía a visão do topo dos edifícios de alvenaria. Adquiriu uma passagem de terceira classe com destino a Chicago, de onde faria a conexão para Omaha e, subsequentemente, para a linha férrea que a aproximaria de Grand Island. Sabia que seriam jornadas extenuantes em vagões insalubres, saturados pelo carvão da fornalha, partilhando o espaço exíguo com imigrantes e aventureiros que, assim como ela, buscavam o futuro nas extensões inóspitas do Oeste.
Enquanto a locomotiva emitia seu silvo característico e as rodas de ferro iniciavam o movimento, distanciando-se da silhueta cinzenta de Boston, Judith observou a paisagem através do vidro da janela. Não experimentava temor diante do isolamento ou da rudeza geográfica descrita pelo causídico no telegrama recebido. Sentia apenas uma determinação obstinada. O Leste intentara subjugá-la, mercantilizá-la e consumi-la por intermédio das fraquezas de homens como seu pai e dos costumes que os amparavam legal e socialmente.
Seria no Oeste, com seus dois centos de acres de solo do seu rancho esquecido no Vale do Rio Loup, que iria configurar uma página em branco em sua vida. E, pela primeira vez em seus vinte e cinco anos de existência, Judith Brown sentia que detinha o controle absoluto da pena com que escreveria seu futuro.
Fim do capítulo
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