Primus Impetus
O ar no quarto estava pesado, saturado com a minha respiração descompassada e o som abafado de Isabella tentando conter os próprios soluços. Eu sempre fui a mulher que mantinha a casa em ordem, a delegada que não deixava que nenhuma emoção vazasse pelos poros do uniforme, mas, naquele instante, o controle que eu jurei nunca entregar foi reduzido a nada.
Ela estava sob mim, os olhos fixos nos meus, uma mistura de medo antigo e um novo tipo de rendição. A pele dela era pálida, quase translúcida contra o lençol escuro, e o toque das minhas mãos em seu corpo, evitando com cuidado os hematomas que o inferno que ela viveu deixou, era a única coisa que parecia manter o mundo em silêncio.
Isabella arqueou o corpo quando senti meus dedos traçarem a linha da sua clavícula. Ela não parecia uma vítima naquele momento. Ela era o fogo que me consumia. Eu não deveria estar ali. Eu deveria ser a delegada que guarda distância, que impõe limites, mas cada músculo do meu abdômen, cada batida do meu coração, gritava que a única lei que importava agora era a que ela ditava com o movimento dos seus quadris.
Karol, você está perdendo a razão, minha mente dizia. Mas, ao sentir o perfume amadeirado da minha pele se misturar ao cheiro doce que vinha do cabelo dela, a razão se tornou apenas um detalhe distante.
Eu a beijei, não com a delicadeza de quem cuida de uma protegida, mas com a fome de quem finalmente encontrou um porto. Ela soltou um suspiro que se transformou em um gemido baixo, e senti suas unhas cravarem nos meus ombros, puxando-me para mais perto. Naquele momento, não existia Anthony, não existia delegacia, não existia Roberta ou Janaína. Éramos apenas duas mulheres tentando esquecer que, lá fora, o mundo ainda era um lugar cruel.
Mas para chegarmos àquele ponto de entrega, meses de silêncio, cautela e medo se passaram. Tudo começou muito antes da primeira vez em que a toquei. Tudo começou no calor insuportável de uma tarde de sábado.
…
Dias Atuais
Karol
O Rio de Janeiro fervia sob o sol do meio-dia. Dentro da minha caminhonete, o ar-condicionado no máximo mal dava conta do calor que subia do asfalto. Eu não deveria estar fazendo isso. Não era um caso oficial, não havia registro no sistema e, tecnicamente, eu estava violando o protocolo ao me envolver na segurança pessoal de uma civil. Mas, ao ver a foto de Isabella, algo no meu peito estalou. Não era piedade. Era uma necessidade primitiva de garantir que ninguém mais a tocasse, que ninguém mais a machucasse.
A mansão dos Andrade era uma fortaleza de concreto e vidro, o tipo de lugar que não precisava de delegados, mas de advogados. Estacionei, ajustei o coldre sob a jaqueta de couro e desci. O Sr. Andrade me esperava na entrada, visivelmente tenso. O suor na testa dele denunciava o desespero de quem via a filha se apagar aos poucos.
— Delegada Silva... obrigado por ter vindo. — O Sr. Andrade apertou minha mão com firmeza, mas o tremor discreto em seus dedos denunciava um cansaço que nenhuma noite de sono resolveria. — Minha filha está no quarto. Ela não sai de lá desde o ocorrido.
Assenti apenas com um leve movimento de cabeça.
Assim que atravessei a porta principal da mansão, meus olhos começaram a trabalhar antes mesmo que eu desse o segundo passo. Era um hábito impossível de desligar. Observei as câmeras distribuídas pelos corredores, os sensores de presença discretamente embutidos no teto e os dois seguranças posicionados próximos à escada principal. O imóvel era imponente, decorado com mármore claro, painéis de madeira e obras de arte que, provavelmente, valiam mais do que meu apartamento inteiro. Ainda assim, toda aquela sofisticação transmitia uma falsa sensação de segurança.
A casa era bonita.
Mas estava vulnerável.
Havia pontos cegos nas câmeras, acessos laterais mal monitorados e uma movimentação excessiva de funcionários. Se eu consegui identificar aquilo em poucos minutos, Anthony também conseguiria.
— Reforçou a segurança depois do ocorrido? — perguntei, mantendo os olhos no corredor à minha frente.
O Sr. Andrade suspirou pesadamente.
— Contratei uma empresa nova. Dobrei o número de seguranças.
Continuei caminhando ao lado dele.
— Isso não significa que ela esteja protegida.
Ele permaneceu em silêncio.
Subimos a escada principal. O som dos meus passos ecoava pelo piso de mármore polido, contrastando com o silêncio quase absoluto que dominava a casa. Não havia televisão ligada, empregados conversando ou qualquer outro ruído comum em uma residência daquele tamanho. Parecia que todos prendiam a respiração para não perturbar a dor que se escondia atrás daquela porta.
Enquanto caminhávamos pelo corredor, fotografias da família decoravam a parede. Em uma delas, Isabella sorria ao lado dos pais durante uma viagem. Em outra, aparecia abraçada a um homem que reconheci imediatamente pelas fotos do inquérito.
Anthony.
Desviei o olhar.
Não queria que a primeira imagem que tivesse dela fosse ao lado daquele desgraçado.
Eu esperava encontrar uma vítima.
Esperava ver alguém completamente destruída, alguém que precisaria apenas ser escoltada para um lugar seguro enquanto tentava juntar os próprios pedaços. Estava preparada para lidar com o choque pós-traumático, com crises de ansiedade, pais desesperados e toda a burocracia que costuma acompanhar casos como aquele.
Mas nada me preparou para o que encontrei.
Assim que o Sr. Andrade abriu a porta do quarto, o mundo pareceu desacelerar.
Isabella estava sentada perto da janela.
A luz morna da tarde atravessava a cortina de linho e desenhava sua silhueta com delicadeza. O cabelo caía sobre um dos ombros, levemente desalinhado, e ela mantinha as mãos repousadas sobre o colo, como quem já não encontrava motivos para se mover. Por um instante, tive a impressão de estar observando uma pintura, não uma pessoa.
Então ela levantou os olhos.
Nos encaramos.
O tempo pareceu estagnar.
O barulho da rua desapareceu.
O ar-condicionado deixou de existir.
Até o peso do distintivo preso ao meu cinto pareceu sumir.
Eu estava acostumada a entrar em salas de interrogatório e assumir o controle da situação antes mesmo de abrir a boca. Era treinada para intimidar criminosos, conduzir negociações e manter a razão acima de qualquer emoção.
Diante dela...
Senti algo que jamais imaginei sentir.
Vulnerabilidade.
Por um breve segundo, fui eu quem perdeu o equilíbrio.
Respirei discretamente, obrigando meus ombros a relaxarem antes que alguém percebesse. Aquela reação precisava morrer ali. Eu não era Karol, a mulher. Eu era a delegada responsável pela segurança daquela família.
Voltei a respirar no ritmo certo.
O cheiro suave de lavanda misturado ao antisséptico usado para limpar os curativos chegava até mim sempre que a brisa atravessava a janela entreaberta.
Caminhei até o centro do quarto.
Isabella não desviou o olhar nem por um instante.
Ela me observava com uma cautela quase dolorosa, como um animal ferido tentando decidir se deveria fugir ou permanecer imóvel. A maquiagem escondia parte dos hematomas, mas não todos. Um arroxeado insistia em aparecer próximo à maçã do rosto.
Meu estômago revirou.
Não era pena.
Nem atração.
Era raiva.
Uma daquelas raivas silenciosas que aprendemos a controlar durante anos de profissão, reservando-as para o momento certo.
O Sr. Andrade limpou a garganta, claramente desconfortável com o silêncio que se instalara entre nós.
— Delegada... espero que entenda. — Ele lançou um olhar preocupado para a filha antes de continuar. — Ela tem estado muito arredia desde o ocorrido. Quase não fala. Não permite que ninguém se aproxime por muito tempo.
— Ela está fazendo terapia? — perguntei, sem tirar os olhos de Isabella.
— Sim. Todos os dias. Psicóloga, psiquiatra... mas parece que nada alcança ela.
Observei Isabella por mais alguns segundos.
Ela continuava imóvel.
Mas havia algo em seus olhos que nenhuma terapia conseguiria esconder.
Ela não precisava apenas de proteção.
Precisava voltar a acreditar que o mundo ainda podia ser um lugar seguro.
Ignorei o comentário dele e me dirigi diretamente a Isabella, mantendo a voz em um tom grave, porém controlado, o mesmo que costumava usar para acalmar testemunhas antes de um depoimento difícil. Ela permaneceu imóvel perto da janela, os braços cruzados junto ao corpo e os olhos atentos em cada movimento meu, como se ainda tentasse decidir se eu era mais uma estranha ou alguém em quem poderia confiar.
— Isabella, eu me chamo Karol Silva. Estou aqui porque seu pai me pediu ajuda, mas, acima de tudo, estou aqui porque ninguém mais deveria passar pelo que você passou. O que aconteceu na sua casa, o que aquele homem fez, não vai se repetir...
Não consegui terminar a frase. Fui interrompida pela voz dela, que surgiu em um sussurro quase inaudível, carregado de uma incredulidade que eu conhecia bem. Era o tipo de pergunta feita por quem já tinha ouvido promessas demais e visto todas elas serem quebradas.
— Você realmente acha que pode parar ele?
Sustentei o olhar dela por alguns segundos. Não havia espaço para hesitação. Mantive a expressão firme, embora por dentro sentisse o peso daquela responsabilidade se instalar sobre os meus ombros.
— Não é uma questão de achar. Eu vou parar ele. — Minha resposta saiu calma, firme e sem qualquer exagero. Não era uma promessa feita para confortá-la, mas a convicção de alguém que já havia enfrentado homens como Anthony e sabia exatamente do que ele era capaz.
— Descanse, Isabella. Amanhã o pesadelo começa a ficar para trás.
Ela sustenta o olhar dela por mais um segundo, como se quisesse ter certeza de que aquelas palavras encontrariam algum espaço entre tanto medo. Então se vira e deixa o quarto, fechando a porta com cuidado atrás de si.
O corredor parece ainda mais silencioso.
O Sr. Andrade, que aguardava do lado de fora desde o início da conversa, aproxima-se imediatamente. A preocupação estampada em seu rosto dispensa qualquer apresentação.
— Delegada Silva... como ela está? Ela disse alguma coisa?
Começo a caminhar pelo corredor, fazendo um gesto para que ele me acompanhe. Não fazia sentido conversar ali.
— Ela está exausta, Sr. Andrade. E está com medo. O que é perfeitamente normal.
Descemos a escada principal em silêncio. Meus olhos percorriam cada detalhe da casa enquanto conversávamos. As câmeras cobriam quase toda a área interna, mas ainda existiam pontos cegos. A equipe de segurança parecia numerosa, porém mal distribuída. Funcionários cruzavam os corredores sem qualquer controle de acesso.
Aquilo me incomodava.
— Mas preciso ser muito franca com o senhor. A segurança desta casa não é tão eficiente quanto parece.
Ele parou no último degrau.
— O que quer dizer com isso?
Parei ao lado da porta principal e retirei um pequeno invólucro plástico do bolso interno da jaqueta.
Dentro dele havia um rastreador.
— Encontrei isto preso na parte inferior do veículo da sua filha.
O rosto do Sr. Andrade perdeu a cor.
— Meu Deus...
— O seu genro não é apenas um homem violento. Ele é metódico. Enquanto todos acreditavam que Isabella estava escondida, ele acompanhava cada deslocamento dela.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Do lado de fora, o vento fazia as folhas das palmeiras balançarem lentamente no jardim.
— Amanhã, às oito horas, quero Isabella pronta. Sem malas grandes. Apenas roupas, documentos e o indispensável. Nada de celulares antigos, tablets ou qualquer eletrônico que possa ser rastreado.
Ele assentiu quase imediatamente.
— Tudo bem.
— E há mais uma coisa.
Esperei que um dos funcionários atravessasse o hall antes de continuar.
— Nem a equipe de segurança deve saber para onde vamos. Se Anthony tiver alguém monitorando esta casa, precisamos desaparecer antes que ele perceba.
— Pode deixar. Vou providenciar tudo.
Assenti.
Sem dizer mais nada, atravessei o jardim em direção à caminhonete.
Antes de entrar, ergui os olhos por instinto.
A janela do quarto permanecia aberta.
Mesmo à distância, consegui distinguir a silhueta de Isabella parada atrás da cortina.
Por um breve instante, nossos olhares voltaram a se encontrar.
Depois liguei o motor.
A caminhonete deixou a mansão lentamente e desapareceu pelo portão principal.
Isabella
Continuei exatamente onde ela havia me deixado.
A porta fechada não mudou. Eu fiquei olhando para ela por tempo demais, esperando algum sinal de que aquilo ainda estava sob controle. Não estava.
Quando percebi, meu corpo ainda estava parado no mesmo lugar. Só depois de alguns segundos é que notei o tremor leve nas pernas.
Não era forte. Era constante.
Respirei pelo nariz, devagar, como eu tinha aprendido a fazer quando precisava evitar piorar o que já estava acontecendo dentro de mim.
Não adiantou muito.
O corpo continuava em alerta.
Fui até a porta e encostei a mão nela.
Fria.
Fechada.
Ela realmente tinha ido embora.
Eu fiquei ali mais um instante, sem conseguir decidir o que fazer em seguida. Não era exatamente dúvida. Era mais como se eu tivesse perdido a referência do que vinha depois de uma situação assim.
Voltei para o centro do quarto.
O silêncio parecia diferente agora. Não era o mesmo de antes. Não tinha mais expectativa imediata de algo ruim acontecendo naquele momento. Mesmo assim, meu corpo não relaxava.
Ele não sabe relaxar.
Eu sentei na cama devagar.
Sentei porque ficar em pé começou a parecer mais difícil do que deveria.
Olhei para a mala aberta.
Poucas coisas.
Eu sempre tive poucas coisas. Isso facilitava. Menos coisa para carregar, menos coisa para ser usada contra mim, menos coisa para explicar.
Comecei a dobrar as roupas sem muita atenção. Era mais um movimento automático do que qualquer outra coisa.
Enquanto isso, a cabeça não parava.
A mulher.
Karol.
Ela falou comigo de um jeito direto. Sem hesitar. Sem suavizar o que estava dizendo.
Eu não estou acostumada com isso.
As pessoas normalmente falam comigo como se eu fosse frágil ou como se eu precisasse ser controlada. Ela não fez nenhum dos dois. Só falou o que precisava ser feito.
Isso me deixou confusa, não confortável.
O pai dela também. Tudo muito organizado, muito certo, como se fosse possível resolver isso de forma simples.
Mas não era simples.
Nada sobre isso era simples.
Eu parei por um momento com uma peça de roupa na mão.
Segurança.
Essa palavra sempre aparece em situações assim. Sempre aparece antes de alguma coisa dar errado de novo.
Eu já ouvi antes.
E nunca significou o que parecia significar.
Voltei a dobrar a roupa.
O movimento ajudava a não ficar presa no que estava pensando.
Ela disse que amanhã eu ia sair daqui.
Sair.
Isso não me parecia seguro.
Sair sempre significou mudança de problema, nunca fim de problema.
Terminei de arrumar a mala aos poucos.
Não tinha muito o que organizar.
Deixei tudo pronto e sentei na cama de novo.
Olhei ao redor.
O quarto era igual ao de sempre, mas não parecia mais um lugar onde eu devia ficar muito tempo.
Ou talvez nunca tivesse sido. A verdade era que aquelas paredes, por mais sólidas e luxuosas que fossem, tornaram-se permeáveis ao medo. Eu sentia o peso do isolamento como uma segunda pele, uma barreira que me separava do mundo, mas que não impedia que o pavor se infiltrasse pelas frestas. Deitei-me, sentindo o lençol frio contra o rosto, e demorei a fechar os olhos, ouvindo o estalo quase imperceptível dos móveis e o silêncio que, paradoxalmente, gritava nos meus ouvidos.
Meu corpo permanecia em um estado de vigília constante, uma herança maldita de meses vivendo sob o olhar de Anthony. Cada músculo parecia tensionado, esperando o próximo golpe, a próxima palavra ríspida, o próximo cerco. No entanto, a imagem de Karol Silva insistia em retornar à minha mente. Havia algo na crueza da sua postura, na firmeza da sua voz que não tentava me moldar ou me consolar, que causava um curto-circuito na minha percepção. Ela não me via como uma peça quebrada a ser consertada, mas como alguém que precisava de estratégia e ação.
Essa constatação me deixava vulnerável de uma forma nova, menos física e mais visceral. O ambiente ao meu redor não mudava o que pulsava dentro de mim; a segurança era uma promessa que meu instinto de sobrevivência ainda não sabia como processar. Eu continuava ali, suspensa em um alerta que não se dissipava, compreendendo que o "depois" não era um porto seguro imediato, mas uma travessia longa e sombria por um mar de incertezas, onde a única luz parecia ser o brilho severo nos olhos daquela delegada.
Fim do capítulo
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