Capitulo 7 o jardim das ausencias
— O jardim das ausências
Dois dias se passam e Helena já descia mais frequentemente
Naquele dia
O almoço ainda demoraria um pouco.
A casa estava silenciosa naquele início de tarde, embalada apenas pelo som distante das ondas e pelo vento suave atravessando as árvores da Urca.
Helena resolveu caminhar um pouco pelo jardim.
Ainda precisava respeitar os limites do próprio corpo depois das sessões de quimioterapia, mas o ar fresco ajudava a diminuir a sensação constante de sufocamento que a acompanhava nos últimos meses.
A propriedade era bonita. Aconchegante. Viva.
Muito diferente da casa fria e vazia para a qual voltava antes de Eleanor aparecer novamente em sua vida.
Helena caminhava devagar entre os canteiros quando avistou uma figura feminina parada mais adiante.
Alta. Elegante.
Os cabelos escuros em um corte moderno moldavam um rosto bonito demais para carregar tanta tristeza.
Porque foi isso que Helena percebeu primeiro: a melancolia.
A mulher observava em silêncio um pergolado tomado por dipladênias floridas.
Amarelas. Rosas. Vermelhas. Brancas.
As flores desciam delicadamente pela estrutura de madeira como se abraçassem o espaço inteiro.
Helena diminuiu os passos sem perceber.
Havia algo quase íntimo naquela cena.
Então seus olhos encontraram a pequena placa de metal presa discretamente na entrada do pergolado.
“Para a melhor cunhada do mundo. Natália S. Brandão.”
Helena sentiu o peito apertar suavemente.
A mulher diante das flores levou a mão ao rosto rapidamente.
Só então Helena percebeu as lágrimas.
Talvez pela presença inesperada atrás dela, talvez pelo susto de ser vista vulnerável, a mulher virou-se depressa.
Os olhos avermelhados encontraram os de Helena apenas por um instante.
E Helena viu.
Aquela tristeza profunda. Antiga. Quase permanente.
A mulher enxugou o rosto rapidamente, claramente constrangida por ter sido flagrada chorando.
Então saiu apressada em direção à casa sem dizer uma única palavra.
Helena permaneceu imóvel por alguns segundos.
O coração estranhamente apertado.
Ela voltou a olhar para o pergolado florido.
Havia amor naquele lugar.
Um amor tão grande que parecia ainda ocupar o espaço mesmo depois da morte.
Helena sentiu vontade de entrar ali. De tocar as flores. De entender quem havia sido Natália.
Mas algo dentro dela disse que aquele ainda era um território sagrado demais.
Então apenas voltou lentamente para dentro da casa.
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Ao entrar pela cozinha, encontrou Eulália organizando algumas travessas sobre a bancada.
A governanta ergueu os olhos imediatamente e sorriu com gentileza.
— A senhora precisa de alguma coisa, dona Helena?
Helena hesitou por um instante antes de perguntar:
— Quem fez aquele pergolado do jardim?
O sorriso de Eulália suavizou imediatamente.
— Ah… aquilo ali foi dona Natália.
Helena apoiou a mão discretamente sobre a bancada.
— A esposa da Laura?
Eulália assentiu.
— Era apaixonada por flores. Passou meses cuidando daquele cantinho.
A governanta suspirou baixinho.
— Dizia que queria deixar a casa mais feliz.
Helena ouviu em silêncio.
— Ela faleceu há três anos.
A voz de Eulália agora carregava tristeza genuína.
— Um acidente muito grave.
Helena sentiu o corpo inteiro ficar atento.
— Laura estava junto?
— não ! Dona natália estava só
Eulália abaixou os olhos por um instante.
— a menina Laura ficou … mas nunca mais foi a mesma depois daquilo.
O silêncio que veio depois pareceu pesado demais.
Helena lembrou imediatamente do olhar daquela mulher diante das flores.
Agora entendia.
A tristeza que tinha visto não era recente.
Era luto.
Um luto que ainda morava dentro dela todos os dias.
Uma semana se passou desde o primeiro encontro silencioso entre Laura e Helena no jardim.
Desde então, as duas convivem através de pequenas presenças:
cafés rápidos pela manhã,
cumprimentos discretos,
conversas curtas no jantar,
olhares que demoravam um pouco mais do que deveriam.
Nada íntimo.
Mas também já não eram completamente estranhas.
Na sexta-feira, Eleanor precisou participar de uma festividade corporativa de uma das empresas que administrava e pediu ajuda à irmã.
A gerente da cafeteria do Shopping Tijuca havia sofrido uma perda familiar repentina e precisaria se afastar por alguns dias.
Laura assumiu o fechamento da unidade sem reclamar.
Antes de sair, Eleanor ainda pediu:
— Em vez de voltar pra sua casa hoje… dorme aqui. Amanhã a gente precisa alinhar algumas estratégias das empresas.
Laura apenas assentiu.
Já estava acostumada à forma como Eleanor tentava mantê-la por perto.
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Era exatamente 1h15 da madrugada quando Laura estacionou em frente à casa da irmã.
O corpo inteiro doía de cansaço.
Ela entrou pela cozinha em silêncio, acreditando que todos já estavam dormindo.
A casa permanecia mergulhada na penumbra, iluminada apenas pela pequena luz amarelada sobre a bancada.
Então Laura viu o movimento próximo ao chão.
O susto veio imediato.
— Meu Deus…
Helena estava sentada no piso frio da cozinha, apoiada contra o armário.
Pálida. Fraca demais até para tentar levantar sozinha.
Laura largou imediatamente a bolsa sobre a bancada e correu até ela.
— Ei… ei, olha pra mim. Você está bem?
Ao tocar o braço da advogada, Laura sentiu duas coisas ao mesmo tempo.
A primeira: Helena queimava em febre.
A segunda: um arrepio intenso atravessou seu corpo inteiro com aquele contato.
Tão inesperado que Laura precisou respirar fundo por um instante.
Helena manteve os olhos baixos, claramente constrangida.
— Me desculpa…
A voz saiu fraca.
— Eu não queria dar trabalho… sendo tão frágil assim.
A frase atingiu Laura de maneira estranha.
Porque havia tanta vergonha naquele pedido de desculpas que algo dentro dela imediatamente se desarmou.
— Ei.
Laura segurou o rosto dela delicadamente para fazê-la erguer os olhos.
— Você não está dando trabalho.
O silêncio entre as duas durou apenas alguns segundos.
Mas algo mudou nele.
Laura passou um braço cuidadosamente pela cintura de Helena e ajudou-a a se levantar.
Helena vacilou levemente ao ficar de pé, e Laura a segurou com firmeza imediata.
Devagar, conduziu-a pelo corredor até o quarto.
Os passos lentos. O calor do corpo febril contra o seu. A respiração cansada da mulher ao seu lado.
Tudo parecia estranhamente íntimo.
Quando chegaram à porta do quarto, Helena soltou o ar devagar, já claramente exausta pelo pequeno esforço.
Laura ajeitou uma mecha curta de cabelo que havia caído sobre o rosto dela sem sequer perceber que fazia aquilo.
— Descansa.
A voz saiu mais suave do que pretendia.
— Eu vou preparar um chá pra você.
Helena observa Laura por um instante em silêncio.
Como se tentasse entender aquela mulher.
A tristeza constante em seus olhos. A delicadeza quase involuntária. E o cuidado silencioso que parecia sempre surgir quando ninguém estava olhando.
Então Helena assentiu de leve.
— Obrigada, Laura.
E pela primeira vez desde que se conheceram verdadeiramente… Laura sentiu seu nome diferente na voz dela.
Fim do capítulo
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