Capitulo 8
Entre lembranças e presença
Laura deixou a bolsa sobre o sofá da sala e caminhou automaticamente até a cozinha.
Ainda conseguia sentir o calor febril da pele de Helena nas mãos.
Aquilo a incomodava de um jeito estranho.
Ou talvez não fosse incômodo exatamente.
Talvez fosse outra coisa. Algo que ela ainda não sabia nomear.
Abriu os armários procurando chá enquanto tentava organizar os próprios pensamentos.
Não havia parado realmente para pensar no que estava fazendo.
Na verdade, desde que chegara ao Rio, parecia funcionar muito mais por impulso emocional do que por lógica.
Helena.
Laura lembrava muito pouco dela.
Na época da faculdade, era apenas uma adolescente circulando ocasionalmente pelos corredores da universidade onde sua mãe havia sido reitora.
Helena e Eleanor eram inseparáveis. Todos comentavam isso.
Mas para Laura, Helena era apenas: “a melhor amiga da minha irmã.”
Nada além disso.
Só que agora…
Agora via outra coisa.
Uma mulher silenciosa. Elegante mesmo fragilizada. Com olhos cansados que pareciam esconder dores profundas demais para serem verbalizadas.
Sabia que ja na sua,época de faculdade sabia de,artigos de Helena, porém quase nao lembrava , pois a faculdade de direito era para agradar ao pai e já havia concluído de administracao.
Laura apoiou as mãos na bancada por um instante.
E inevitavelmente, como quase sempre acontecia, sua mente voltou para Natália.
Conhecera a esposa ainda na faculdade também.ambas cursam administracao
Lembrou do primeiro café. Do primeiro toque de mãos. Da facilidade absurda com que Natália ocupava os espaços da sua vida.
A saudade veio rápido. Dolorosa.
O apito da chaleira rompeu seus pensamentos.
Laura respirou fundo antes de desligar o fogo.
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Com a bandeja nas mãos, Laura atravessou o corredor silencioso da casa.
Parou diante do quarto de Helena e bateu levemente na porta.
— Pode entrar.
A voz veio baixa. Cansada.
Laura abriu a porta devagar.
Helena estava sentada em uma chaise próxima à janela, coberta por uma manta clara.
A iluminação suave do abajur deixava o ambiente acolhedor demais para alguém tão acostumada à solidão quanto ela.
Por um instante, Laura apenas observou.
Helena parecia frágil. Mas havia alguma dignidade silenciosa nela que chamava atenção involuntariamente.
Laura aproximou-se sem dizer nada e colocou a bandeja sobre a pequena mesa lateral.
Então serviu o chá cuidadosamente antes de entregá-lo em suas mãos.
Os dedos das duas se tocaram de leve.
Outra vez o mesmo arrepio atravessou Laura sem aviso.
Ela imediatamente desviou o olhar.
— Toma… e tenta descansar.
Helena segurou a xícara com cuidado.
— Você não precisava fazer isso.
Laura soltou uma pequena respiração pelo nariz, quase um sorriso cansado.
— Acho que nessa casa todo mundo cuida de você agora.
Helena abaixou os olhos para o chá fumegante.
E por algum motivo aquilo a emocionou mais do que deveria.
Porque fazia muito tempo… muito tempo… que alguém fazia algo simples por ela sem parecer obrigado.
Laura percebeu o silêncio prolongado e se virou discretamente para sair.
Mas antes que alcançasse a porta, ouviu Helena chamá-la baixinho.
— Laura?
Ela virou-se.
Helena sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de falar:
— Sua esposa… ela que fez o jardim, não foi?
Laura sentiu o peito apertar imediatamente.
Mas diferente de antes… não doeu como uma ferida aberta.
Doía como memória.
Ela assentiu devagar.
— Natália adorava flores.
O silêncio que veio depois foi suave.
Quase íntimo.
Então helena disse, com sinceridade tranquila:
— Dá pra perceber que ela foi muito amada aqui.
Laura ficou imóvel por um instante.
Porque aquela talvez tivesse sido a primeira vez em três anos que alguém falou de Natália sem pena. Sem desconforto. Sem tentar mudar de assunto.
Apenas reconhecendo o amor que existiu.
E isso mexeu com ela de uma forma perigosamente bonita.
A conversa daquela noite permaneceu nas duas mulheres muito depois do silêncio ocupar a casa.
Helena acabou sorrindo ao lembrar algumas histórias antigas da adolescência de Laura.
Das vezes em que Eleanor levava a irmã mais nova para a faculdade. Da menina séria demais para a idade. Das roupas absurdamente coloridas que Laura insistia em usar aos quinze anos. Da forma como vivia escondida atrás de livros enormes para evitar conversar com desconhecidos.
Laura ouviu tudo entre risos baixos e vergonha genuína.
E, pela primeira vez em muito tempo, falar de Natália não pareceu apenas dor.
Ainda doeu. Sempre doeria.
Mas naquela noite existiu algo além da ausência.
Talvez porque Helena escutasse sem pressa. Sem pena. Sem aquele desconforto silencioso que normalmente surgia quando alguém mencionava sua esposa.
Quando finalmente se recolheram, algo parecia diferente dentro das duas.
Laura demorou a dormir.
Chorou novamente pela saudade de Natália. Mas não da forma desesperada dos últimos anos.
Era uma saudade mais silenciosa. Quase terna.
Como se, pela primeira vez, alguém tivesse permitido que o amor continuasse existindo sem transformar sua memória em tragédia.
E para Helena também foi uma noite diferente.
Porque fazia muito tempo que não se sentia acolhida dentro de uma conversa.
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Na manhã seguinte, Helena seguia ao lado de Eleanor no carro em direção ao hospital oncológico.
O trânsito carioca avançava lentamente enquanto o rádio tocava baixo ao fundo.
Eleanor mantinha as mãos firmes no volante, mas Helena percebeu a inquietação nela imediatamente.
— Querida… eu preciso ir a uma reunião importante hoje.
Helena virou o rosto devagar.
— Eu vou te deixar no hospital e volto pra te buscar depois. Mas não vou conseguir acompanhar a sessão.
Havia culpa na voz dela.
Helena imediatamente segurou sua mão sobre o câmbio.
— Leo… você já faz muito por mim.
Eleanor desviou os olhos rapidamente para a amiga.
— Eu só não queria que você ficasse sozinha lá.
Helena apertou levemente sua mão.
— Eu vou ficar bem. E se eu me sentir mal, descanso um pouco até melhorar.
Ela tentou sorrir de leve.
— Vai pro seu compromisso.
Eleanor suspirou fundo.
Mesmo assim, a angústia permaneceu nela até depois de deixar Helena no hospital.
Tanto que, ainda dirigindo pela avenida, pegou o telefone e ligou para Laura.
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Laura ainda tomava café quando o celular tocou.
— Oi, Leo.
— Irmã… preciso de um favor.
Laura imediatamente percebeu a tensão na voz dela.
— Claro. O que houve?
Eleanor hesitou apenas um instante.
— Preciso que você vá ao hospital ficar com a Helena hoje. É dia da quimioterapia… e eu não vou conseguir acompanhá-la.
Laura permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Não por rejeição.
Mas porque algo dentro dela reagiu imediatamente ao nome de Helena.
— Ela não pode ficar sozinha — Eleanor completou.
Laura olhou distraidamente pela janela da cozinha.
Então respondeu, mais baixo:
— Me manda os dados pra eu me identificar como acompanhante.
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Cerca de uma hora depois, Laura atravessava a antessala da quimioterapia.
O ambiente tinha o cheiro característico de hospital: antisséptico, frio, silenciosamente triste.
Ela observou discretamente as poltronas espalhadas até encontrar Helena.
A advogada já estava ligada à medicação.
Mesmo à distância, Laura percebeu imediatamente: ela não estava bem.
Os olhos avermelhados. O rosto abatido. E lágrimas silenciosas escorrendo enquanto tentava discretamente enxugá-las.
Laura sentiu algo apertar forte dentro do peito.
Aproximou-se sem fazer barulho.
Colou o adesivo de acompanhante na própria blusa. Puxou a cadeira ao lado dela. Sentou-se.
E simplesmente abriu uma revista.
Ajustou os óculos no rosto e começou a ler em silêncio.
Sem perguntas. Sem comentários. Sem invadir o sofrimento dela.
Helena virou o rosto lentamente.
E apenas observou.
Porque ninguém tinha feito aquilo antes.
As pessoas: tentavam animá-la, tentavam conversar, tentavam minimizar sua dor.
Laura não.
Laura apenas ficou.
E aquelas duas horas pareceram estranhamente íntimas justamente por causa disso.
Em alguns momentos Helena fechava os olhos tentando suportar os efeitos da medicação. Em outros, observava discretamente Laura virando páginas da revista como se sua presença ali fosse a coisa mais natural do mundo.
E talvez fosse exatamente isso que tornava tudo tão bonito.
Quando a sessão terminou, Helena tentou se levantar sozinha.
O corpo vacilou imediatamente.
Laura largou a revista no mesmo instante.
— Calma.
Segurou-a pela cintura antes mesmo de pensar no gesto.
O contato fez ambas prenderem a respiração por um segundo.
Então Laura ajudou Helena até a cadeira de rodas sem comentar nada.
Conduziu-a pelos corredores do hospital até a ala de consultas.
Naquele dia também haveria avaliação médica.
Já sentadas na área de espera, Laura agachou-se levemente diante dela.
A voz saiu suave.
— Você quer alguma coisa? Um suco… um café… um lanche?
Helena a observou em silêncio por alguns segundos.
E percebeu algo perigoso.
Pela primeira vez desde que adoecera… ela não se sentia sozinha.
Fim do capítulo
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