Capitulo 14 - Raízes Fortes
A transição do inverno para a primavera nas grandes planícies do Nebraska não aconteceu de forma suave, aliás, nunca acontecia assim. Durante as últimas semanas de fevereiro de 1871, o vento do norte, que antes empurrava a neve contra as toras da cabana isolada, começou a perder sua força gélida, sendo gradualmente substituído por massas de ar úmido vindas do sul. O céu, que por quase três meses mantivera uma tonalidade de chumbo fosco, começou a rasgar-se em faixas de um azul pálido e cortante, permitindo que os primeiros raios de sol de março atingissem a crosta de gelo endurecida na terra.
O degelo transformou a paisagem ao redor da cabana de pinheiro em um cenário de ruídos constantes. O silêncio absoluto do confinamento foi quebrado pelo estalo do gelo se partindo nas encostas dos desfiladeiros e pelo som gotejante da água que escorria continuamente do teto de grama e barro. O riacho próximo, que antes era apenas uma linha branca e sólida sob a neve, rompeu sua carapaça congelada com um barulho constante que ecoou pelo vale numa madrugada clara. Em poucos dias, as águas subiram, turvas de lama e detritos de galhos secos, arrastando os restos do inverno em direção ao curso principal do Rio Loup.
Para Judith Brown, aquele período representou o encerramento de um ciclo de purificação forçada. Seus poucos vestidos de lã, trazidos de Boston com o propósito de vestir uma professora virtuosa e contida, estavam agora marcados pela fuligem da lareira, pelo cheiro de gordura e sangue de cervo e pelo desgaste do trabalho diário. Suas mãos, antes protegidas por luvas de pelica e acostumadas apenas ao manejo de gizes, canetas de tinta e partituras de piano, exibiam calos firmes na base dos dedos e pequenas cicatrizes curadas pelo frio. A rigidez de sua postura desaparecera por completo. Quando se movia pelo espaço que agora se libertava da neve, Judith pisava com o calcanhar firme, equilibrando o peso do corpo com a naturalidade de quem compreendia o terreno sob suas botas.
Jane Catherine, a Kitty, observava a transformação da companheira com a aprovação silenciosa de quem conhece o valor de uma sobrevivência legítima. Durante as manhãs em que o sol começava a secar a lama preta do solo, as duas trabalhavam lado a lado para organizar os poucos pertences que restavam no abrigo. Não havia mais a necessidade de racionar cada lasca de freixo ou cada punhado de farinha de milho; a terra estava se abrindo, e a trilha que descia em direção da cidadezinha ferroviária nascente, começava a desenhar-se novamente entre as colinas de grama rasteira que ressurgiam da neve.
A decisão de Kitty de não retornar à vida errante de batedora fora tomada sem discursos ou promessas grandiosas. Numa das últimas noites diante da lareira, enquanto a infusão de brotos de salgueiro fumegava na caneca de ferro dividida entre ambas, a batedora olhara para as mãos de Judith e dissera simplesmente que o dinheiro guardado no pequeno banco de madeira da cidade seria suficiente para comprar as primeiras matrizes de gado e os cavalos necessários para estabelecer uma criação definitiva. A batedora, que passara a juventude inteira garantindo que os outros encontrassem seus destinos nas planícies, escolhera finalmente o seu próprio chão. E esse chão ficava no Vale do Loup, ao lado dela, da mulher que aprendera a amar o descampado e sua paisagem.
Quando a carroça velha, com as rodas reforçadas por tiras de couro que Kitty ajustara para enfrentar o lodaçal, finalmente deixou os arredores da cabana, o ar cheirava a terra molhada e a brotos de capim que rompiam a superfície úmida. O caminho até a civilização, que antes parecia uma ameaça mortal na nevasca, era agora apenas uma trilha de terra batida que as conduzia para o início de uma nova existência mútua.
***
A chegada à pequena cidade ferroviária que nascia nos limites do território do Nebraska deu-se no início de uma tarde em que o sol conseguira secar as trilhas principais, transformando o lodaçal central em uma crosta de poeira cinzenta e marcas profundas de ferraduras e rodas de carretas carregadas. A cidadezinha não mudara em sua estrutura rústica: uma fileira de fachadas de tábuas de pinheiro, o teto de zinco da estação de trem refletindo a claridade forte e o movimento barulhento de colonos, caçadores e comerciantes que aproveitavam a abertura das trilhas e estradas para repor seus estoques ou comercializar seus produtos.
Kitty conduziu a parelha de mulas com a calma habitual, parando a carroça em frente ao armazém de secos e molhados que ficava a poucos passos da rua principal. O contraste entre as duas mulheres e o restante da população que flutuava pela rua poeirenta era evidente. Judith usava um casaco de viagem desgastado sobre a saia de lã que mostrava a bainha desfiada pelo uso contínuo na cabana, mas seus olhos continham uma clareza e uma altivez que não pertenciam mais à jovem assustada que descera do trem meses atrás. Kitty, com seu chapéu de abas largas inclinado sobre a testa e os revólveres Colt firmemente alojados nos coldres de couro gasto na cintura, mantinha o olhar atento, correndo os olhos por cada indivíduo que transitava pelas calçadas de madeira.
- Nós temos muito o que fazer antes que o sol caia - Kitty disse, segurando as rédeas com uma das mãos enquanto se virava para Judith. - Eu preciso ir até o pequeno banco local retirar as economias que juntei nos anos de serviço para o exército e nas caravanas de mustangues. O gerente, o velho Sr. Burt, guarda os meus papéis e os dólares em um cofre de ferro nos fundos do escritório. Além disso, preciso passar pelo posto do telégrafo. Vou mandar uma mensagem ao meu irmão avisando de minha decisão, para que Thomas saiba que decidi criar raízes aqui com você no vale e expandir nossos negócios de forma definitiva. Com o dinheiro, também passo no curral do Steve pra escolher os cavalos de lida, as matrizes de gado de corte e as ferramentas para consertar o curral e todo o necessário.
Judith assentiu, ajeitando a echarpe de lã ao redor do pescoço.
- Enquanto você faz isso, eu vou até a loja de tecidos e aviamentos - Judith respondeu, sorrindo levemente ao tocar os dedos de Kitty que estavam sobre o banco da carroça. - Nós precisamos de roupas novas, Kitty. Roupas de lida que aguentem o trabalho no rancho, tecidos grossos de brim e camisas de flanela que não rasguem nas atividades diárias. Vou usar minhas últimas economias. Minha vida agora está ligada a este vale, e vou providenciar o que nos falta para o trabalho pesado.
- Vá com cuidado, meu amor - Kitty respondeu, o tom de voz baixando para que apenas Judith ouvisse, a palavra de afeto saindo natural por entre seus lábios. - Esta cidade está cheia de gente que acabou de descer dos vagões de carga e não tem respeito por quem anda sozinha pelas calçadas, especialmente mulheres. Se precisar de mim, estarei entre o banco, o telégrafo e o curral.
Judith desceu da carroça com movimentos firmes, segurando a bolsa de couro onde guardava suas poucas moedas que totalizavam os últimos sete dólares e cinquenta cents e os papéis pessoais. Ela caminhou em direção à loja de tecidos, sentindo o olhar de alguns passantes sobre suas roupas castigadas pelo inverno, mas sem se importar com a opinião daquela gente. Ela sabia exatamente quem era e o que viera fazer ali.
Kitty observou a professora afastar-se até entrar na porta da loja de tecidos. Em seguida, amarrou as rédeas na trave de madeira em frente ao armazém, ajustou o cinturão de couro na cintura e caminhou em direção à estrutura de madeira que ostentava a placa pintada a óleo: Bank of Nebraska - Agência Local. O chão de tábuas rangeu sob suas botas pesadas. O processo no banco foi rápido, embora burocrático; o gerente, um homem idoso com óculos de metal na ponta do nariz, reconheceu a batedora imediatamente e providenciou a contagem das moedas, dos dólares e das notas do tesouro que Kitty acumulara com o suor e o sangue de sua juventude na fronteira, as economias de uma vida inteira.
Ao sair da agência com uma pequena bolsa de lona pesada escondida sob o casaco, Kitty caminhou até o posto do telégrafo da estação e ditou ao operador a mensagem destinada ao irmão Thomas, relatando sua escolha definitiva de estabelecer o rancho no Vale do Loup ao lado de Judith. Sentindo o peso material e o propósito de seu futuro, a batedora direcionou-se de volta à rua principal.
No entanto, antes de dirigir-se ao curral para encontrar Steve, o cheiro de tabaco barato e uísque de centeio que saía pelas portas de duas folhas do Saloon chamou sua atenção. Mais do que o cheiro, foi a visão de um cavalo magro e maltratado, amarrado ao poste de madeira, que fez a batedora parar no meio da calçada. Ela conhecia aquela marca no lombo do animal e conhecia, principalmente, o tipo de homem que deixava uma montaria sem água após uma cavalgada na lama. Era o rastro de Reese, o sujeito que havia roubado os cinco dólares de Judith, aproveitando-se do desespero e da fragilidade de uma recém-chegada.
Kitty parou diante do Saloon, o meio sorriso de canto de boca surgindo com uma frieza perigosa. A hora de acertar as contas daquela trilha com aquele rato havia chegado.
***
O interior do Saloon era sombrio e abafado, impregnado pelo odor de fumaça de cachimbo, cerveja choca e serragem úmida espalhada pelo chão para absorver a lama das botas dos clientes. Poucos homens ocupavam as mesas de pinheiro àquela hora da tarde; a maioria era composta por jogadores de cartas fracassados, mineiros que haviam descido das colinas e sujeitos que viviam de pequenos golpes na esteira da expansão da linha ferroviária.
Quando as portas de duas folhas se abriram e a silhueta esguia de Kitty bloqueou a luz do sol que vinha da rua, o barulho de conversas baixas diminuiu ainda mais no recinto. A reputação da batedora como uma das guias mais eficientes e perigosas do território da União não era segredo para os frequentadores daquela região. Ela caminhou com passos lentos, o olhar fixo no balcão de madeira escura onde Reese estava de pé, com um copo de uísque barato na mão direita e uma expressão de satisfação cínica no rosto magro e barbado.
Reese percebeu a aproximação de Kitty pelo espelho manchado que ficava atrás das garrafas do bar. Ele tentou manter a postura, virando-se devagar e apoiando as costas contra o balcão, exibindo um sorriso amarelo que tentava disfarçar o desconforto que sentia ao ver a batedora avançar em sua direção.
- Ora, se não é a grande Jane Catherine, a guia dos soldados e pioneiros - Reese disse em tom de deboche, elevando a voz para que os outros homens no Saloon ouvissem. - Sobreviveu ao inverno no vale, batedora? Ouvi dizer que ficou entocada como um urso numa cabana velha. Veio gastar as suas moedas no balcão ou veio apenas procurar encrenca com quem está quieto cuidando da própria vida?
Kitty parou a dois passos dele. Sua postura era relaxada, mas a mão direita permanecia suspensa a poucos centímetros da coronha de marfim de seu revólver.
- Eu não vim beber, Reese - Kitty disse, a voz saindo rouca, baixa e firme, ecoando no silêncio que se instalara no Saloon. - E você sabe exatamente o que vim buscar. No dia em que a nevasca começou, você arrancou cinco dólares da bolsa da professora de Boston que descera na estação. Usou de artimanhas e do medo de uma mulher que não conhecia as regras e os perigos destas terras, para roubar o único dinheiro que ela tinha para os primeiros dias. Eu disse naquela tarde que a trilha era longa, mas que o mundo era pequeno. Vim cobrar os cinco dólares de Judith.
Reese soltou uma risada frouxa, olhando para o taberneiro que limpava um copo com um pano sujo atrás do balcão, buscando alguma cumplicidade que não encontrou. O dono do bar recolheu as mãos e deu um passo para trás, sabendo que não era prudente intervir nos negócios de Kitty.
- Você está ficando louca, batedora - Reese negou cinicamente, cruzando os braços sobre o peito. - Eu não peguei dinheiro de professora nenhuma. O que aquela mulher me deu foi o pagamento por informações, e além do mais, não apareceu no horário marcado. Foi um negócio limpo. Se ela foi chorar as mágoas para você, o problema é seu e dela. Eu não devo cinco centavos a nenhuma mulherzinha da cidade grande e muito menos a você. Saia do meu caminho antes que eu perca a paciência.
A negação cínica foi o limite para a paciência de Kitty. Antes que Reese pudesse esboçar qualquer movimento de defesa ou desviar o corpo, a batedora avançou com a rapidez de um bote de cascavel. Sua mão esquerda fechou-se como uma prensa de ferro na gola do casaco de brim sujo de Reese, enquanto sua mão direita desferiu um soco direto no estômago do sujeito.
O impacto fez o ar sair dos pulmões de Reese em um som surdo. Ele dobrou-se para a frente, mas Kitty não interrompeu o movimento. Utilizando o impulso do próprio corpo e a força de seus braços calejados pela lida com os mustangues, ela o arrastou aos safanões em direção à saída. O corpo de Reese bateu contra duas mesas, derrubando cadeiras e espalhando copos pelo chão de serragem. Os poucos clientes se afastaram rapidamente, colando-se contra as paredes para não serem atingidos pela fúria da batedora, se por acaso ela resolvesse sacar os revólveres.
- Saia do meu Saloon, Reese! Resolvam essa sujeira na rua! - o taberneiro gritou, aliviado por ver a confusão se mover para fora de seu estabelecimento.
Kitty empurrou Reese com violência contra as portas de duas folhas, que se abriram com estrondo. O corpo do trapaceiro rolou pela calçada de madeira e caiu direto no meio da rua de terra, levantando uma pequena nuvem de poeira cinzenta, batendo o rosto com força no chão. Ele tossiu, cuspindo um pouco de saliva misturada com sangue da boca, e tentou se levantar apoiando-se nos joelhos. O sol da tarde bateu direto em seus olhos, aumentando seu desespero ao ver Kitty descer os três degraus da calçada com uma lentidão calculada e implacável.
- Você cometeu um erro grave ao achar que eu perdoo ladrões de estrada, Reese - Kitty disse, parando no meio da rua, a pouca distância dele. - Entregue os cinco dólares agora ou o preço vai ser cobrado em chumbo.
Apavorado e humilhado diante dos poucos moradores que começavam a se juntar nas calçadas para assistir à cena, Reese deixou que a raiva e o orgulho ferido dominassem o pouco juízo que lhe restava. Com os dentes cerrados, ele gritou uma imprecação e levou a mão direita em direção ao coldre velho que trazia na lateral da calça, tentando puxar o revólver de cano longo para atirar na batedora.
A reação de Kitty foi instantânea e precisa. Ela não precisou puxar o revólver até a altura do peito; seu movimento foi um reflexo puro de anos de sobrevivência e emboscadas na fronteira do Missouri. O som do disparo de seu Colt ecoou pela rua principal como um estalo de chicote seco e ensurdecedor.
O projétil de chumbo atingiu com precisão absoluta a mão direita de Reese bem no momento em que seus dedos tocavam o gatilho de sua arma. O impacto quebrou os ossos dos dedos e arrancou o revólver de seu punho antes que ele pudesse disparar, jogando a arma na poeira a dois metros de distância.
Reese soltou um grito agudo de dor que ecoou pelas fachadas de pinheiro da rua. Ele caiu de joelhos novamente, segurando a mão ferida contra o peito, o sangue vermelho e vivo escorrendo por entre seus dedos sujos e misturando-se com a terra seca da estrada. Ele tremia dos pés à cabeça, o rosto pálido de puro pavor ao olhar para cima e ver o cano do Colt de Kitty ainda apontado na direção de sua testa, a fumaça cinzenta saindo lentamente da boca do metal.
- Não atire! Pelo amor de Deus, não me mate, Kitty! - Reese implorou, as lágrimas de dor e medo traçando linhas em suas bochechas sujas de poeira. - O dinheiro está aqui... está no meu bolso esquerdo! Pegue tudo, mas não me mate!
Com a mão esquerda, que tremia de forma descontrolada, Reese enfiou os dedos no bolso do casaco e puxou uma nota amassada de cinco dólares, junto com algumas moedas de metal que caíram na terra. Ele estendeu o papel em direção à batedora como se fosse um escudo para salvar sua própria vida.
Kitty deu dois passos à frente, recolheu a nota de cinco dólares com um movimento rápido da mão esquerda e guardou-se no bolso de sua camisa de flanela. Em seguida, baixou o cão do seu revólver e o alojou novamente no coldre com um estalo seco.
- Pegue o seu cavalo e suma desta cidade antes que o sol se ponha atrás das colinas, Reese - Kitty ordenou, o tom de voz frio como o gelo do inverno que recém terminara. - Se eu encontrar o seu rastro novamente em qualquer trilha do Vale do Loup, não vou mirar na sua mão. Vou mirar no meio dos seus olhos.
Segurando a mão ensanguentada contra o estômago, emitindo gemidos baixos de dor, Reese levantou-se com dificuldade. Ele correu de forma desajeitada em direção ao vavalo amarrado em frente do Saloon, sem olhar para trás. Em menos de dois minutos, batendo os calcanhares nos flancos do animal com desespero, saiu em disparada pela estrada do sul sob uma nuvem de poeira, desaparecendo da vista de todos.
Os moradores que assistiam à cena começaram a dispersar-se em silêncio, compreendendo que a justiça implacável daquelas terras fora aplicada mais uma vez. Kitty permaneceu no meio da rua por alguns instantes, limpando a poeira de suas calças de couro, quando um som diferente chamou sua atenção. Não era o barulho de cascos ou de conversas, mas um choro baixo, abafado e agudo que vinha do espaço estreito entre a parede lateral do Saloon e o depósito de lenha.
Kitty caminhou em direção ao vão escuro entre os dois edifícios de madeira, onde a luz do sol não conseguia penetrar por completo. Afastando um feixe de ripas de pinheiro secas, seus olhos claros encontraram uma figura que não pertencia àquele ambiente de violência e sujeira. Escondida atrás de um caixote vazio, encolhida com os joelhos junto ao peito, estava uma menina pequena. Ela não devia ter mais de cinco anos de idade. Seus cabelos loiros estavam emaranhados e cheios de ciscos de serragem, e o vestido de algodão cru que usava estava rasgado nas mangas e severamente manchado de lama seca. Seus olhos, grandes e redondos, estavam vermelhos pelo choro contínuo, e as pequenas mãos tentavam abafar a boca para que nenhum som alto revelasse seu esconderijo.
A batedora, cujo corpo e mente haviam sido moldados para enfrentar bandidos e guerrilheiros na guerra civil, parou diante da criança. A rigidez de sua postura desapareceu instantaneamente. Ela ajoelhou-se na terra úmida do vão, retirando o chapéu de abas largas com a mão esquerda para que a menina pudesse ver seu rosto por inteiro, sem a sombra do couro.
- Ei, pequena... - Kitty disse, modulando a voz rouca para o tom mais suave que conseguia produzir, o mesmo que usava para acalmar os cavalos selvagens nos cânions do Rio Platte. - Não precisa ter medo de mim. O homem ruim já foi embora. Ninguém vai machucar você aqui.
A menina olhou para a mão estendida de Kitty. Os dedos da batedora eram calejados e traziam vestígios de pólvora do disparo recente, mas o gesto era de uma firmeza acolhedora que a criança parecia não ver há muito tempo. Devagar, soltando um suspiro trêmulo, a pequena estendeu sua mãozinha suja e segurou o polegar de Kitty, permitindo que a batedora a puxasse delicadamente para fora do esconderijo escuro.
Kitty pegou a criança no colo, acomodando o peso leve contra o peito com uma naturalidade que surpreendeu a si mesma. Caminhou de volta para a calçada do Saloon, onde o taberneiro aparecera com uma vassoura para limpar os restos de vidro quebrado dos copos e serragem da entrada.
- De quem é essa menina? - Kitty perguntou diretamente ao dono do bar, mantendo os olhos fixos no homem enquanto a criança escondia o rosto no seu pescoço, assustada com a claridade da rua.
O taberneiro parou o movimento da vassoura, olhou para a menina e soltou um suspiro de descontentamento, balançando a cabeça.
- Ela chegou com Reese ontem à noite, Kitty - o homem explicou, apoiando o cabo da vassoura no chão. - Reese passou a noite inteira bebendo e jogando cartas com o dinheiro que não tinha. Ele disse para quem quisesse ouvir no balcão que a menina era filha dele, fruto de uma mulher que o abandonou em um acampamento de mineiros nas Black Hills no outono passado. Ele reclamava o tempo todo que a garota era apenas um estorvo, uma boca a mais para alimentar que ele não queria de jeito nenhum. Estava tentando ver se algum criador de ovelhas ou dono de estalagem ficava com ela em troca de algumas garrafas de uísque. Como ninguém quis a menina, ele a largou aí fora antes de entrar para beber esta tarde. É uma alma perdida nessa terra, batedora. Se ninguém ficar com ela, vai acabar morrendo de fome na primeira vala de estrada, ou coisa ainda pior.
Kitty apertou a menina contra o corpo com mais força, sentindo o coração pequeno da criança bater rápido contra si. O sentimento de indignação que sentira contra Reese transformou-se em uma determinação profunda e silenciosa.
Nesse momento, o som de passos firmes na calçada de madeira anunciou a chegada de Judith. A professora trazia os braços ocupados por dois grandes pacotes embrulhados em papel pardo e amarrados com barbante, contendo as camisas de flanela, as calças de brim e os tecidos que comprara na loja de confecções e atrás dela, um carregador bem jovem vinha com o carregamento de outros embrulhos. Suas bochechas estavam coradas pela caminhada rápida e seus olhos traziam a vivacidade de quem cumprira sua missão de repor o estoque de vestimentas. No entanto, ao ver a pequena multidão que ainda se dispersava e a cena de Kitty segurando uma criança suja e chorosa no colo em frente ao Saloon, Judith parou, deixando que os pacotes escorregassem ligeiramente em seus braços. O carregador correu para segurar os pacotes que caiam ao chão, entregando-os novamente a ela e levando os que ele carregava para a carroça.
- Kitty... o que aconteceu aqui? - Judith perguntou, aproximando-se rapidamente, os olhos correndo da batedora para a menina e depois para as marcas de sangue que ainda manchavam a terra da rua central. - Eu ouvi um disparo vindo da direção do banco enquanto estava escolhendo as roupas. O que houve?
Kitty deu um passo à frente, saindo da sombra do Saloon. Ela enfiou a mão esquerda no bolso e puxou a nota de cinco dólares amassada, estendendo-a para a professora com o meio sorriso de canto de boca que Judith tanto amava.
- Vim buscar o que era seu, meu amor - Kitty explicou com simplicidade. - Encontrei Reese no balcão gastando o que não era dele. Tivemos uma conversa na rua e ele resolveu que era uma boa ideia devolver os seus os cinco dólares antes de pegar o cavalo e sumir para o sul. Ele não vai mais incomodar ninguém por essas bandas.
Judith olhou para a nota de cinco dólares, ouvindo sobre a mão ferida de Reese que o taberneiro terminava de comentar com um vizinho na calçada. Ela compreendeu o que acontecera, mas sua atenção foi imediatamente capturada pela garotinha que agora espiava por cima do ombro de Kitty. Os olhos castanhos de Judith amoleceram instantaneamente ao ver o estado de abandono daquela pequena criatura.
- E essa menina, Kitty? De onde ela veio? - Judith perguntou, largando os pacotes sobre o caixote de pinheiro que ficava ao lado da porta do armazém, aproximando-se para tocar os cabelos emaranhados da garota com extrema doçura.
- O taberneiro diz que ela é filha de Reese, deixada para trás como se fosse um saco de farinha velho - Kitty respondeu, o tom de voz sério, os olhos fixos nos de Judith. - Ele tentou vendê-la por bebida ontem à noite e a abandonou no vão entre o Saloon antes da confusão. Ela não tem ninguém no mundo, Judith. Se ficar aqui, esta terra vai esmagar essa vida antes que ela aprenda a falar o próprio nome com firmeza.
Judith olhou para a garotinha, que agora correspondia ao olhar da professora com uma curiosidade tímida, parando de chorar ao sentir o toque suave da mão de Judith em sua bochecha manchada pelas lágrimas. A professora de Boston, que passara anos ensinando regras abstratas em salas de aula frias e bem estruturadas das famílias ricas, percebeu que a verdadeira lição de humanidade estava ali, naquela rua de terra batida, diante de uma escolha que mudaria suas vidas para sempre. Ela olhou para Kitty, encontrando na batedora a mesma certeza silenciosa que as unira na cabana durante a nevasca.
- Nós não podemos deixá-la aqui, Jane Catherine - Judith disse, a voz firme, cheia de uma determinação que não aceitava contestação. - Nós estamos voltando para o vale para construir um rancho, para criar raízes e começar algo novo. Uma casa precisa de vida dentro dela. Se nós temos espaço para os cavalos e os outros animais, nós temos espaço para salvar essa menina, dar um lar a ela.
Kitty sorriu por inteiro, um sorriso raro que iluminou suas feições firmes e calejadas pelo tempo. Ela inclinou a cabeça na direção de Judith, sentindo um orgulho imenso da coragem da companheira.
- Eu sabia que você ia dizer isso, meu bem - Kitty sussurrou, passando a menina para os braços de Judith. - Pegue a pequena e leve-a até o armazém. Use um pouco da água do barril para limpar o rosto dela e compre um pedaço de doce ou um biscoito para distraí-la enquanto eu vou ao curral do Steve acertar a compra dos cavalos e das matrizes. Nós temos uma longa viagem antes do anoitecer.
Judith segurou a menina com firmeza, sentindo o calor do corpo pequeno ajustar-se ao seu peito com a mesma naturalidade com que aceitara o destino no Nebraska. Ela caminhou em direção ao armazém, conversando em voz baixa com a criança, cujo choro cessara por completo, substituído pelo sentimento de segurança de que agora não estaria mais sozinha no mundo.
Duas horas mais tarde, a paisagem ao redor da pequena cidade ferroviária começou a ser substituída pelas colinas abertas e ondulações suaves que caracterizavam a entrada do Vale do Loup. O sol do fim de tarde começava a descer no horizonte, pintando o céu com faixas de ouro, cobre e violeta que refletiam nas poças de água resultantes do degelo da primavera. O ar estava fresco, trazendo o cheiro limpo da grama nova e da terra que despertava do longo confinamento do inverno.
A comitiva que avançava pela estrada de terra batida era o retrato do recomeço. À frente, atados por cordas de couro cru à traseira da carroça principal, seguiam quatro cavalos de lida novos - duas éguas tordilhas de músculos fortes e dois cavalos castanhos de peito largo -, animais escolhidos a dedo por Kitty no curral do Steve para formar a base do rebanho de trabalho do rancho. A carroça estava carregada com sacos de sementes, ferramentas de ferro brilhantes, provisões de farinha, sal, toucinho e os novos pacotes de roupas que Judith selecionara na cidade. O gado de corte seria enviado na próxima semana, por dois peões do curral, que também receberiam para realizar os trabalhos de reparo mais urgentes que a cabana e o estábulo necessitava.
No banco da frente, Kitty conduzia a parelha de mulas com a segurança habitual. Ela usava uma de suas camisas novas de flanela xadrez, cujas mangas estavam dobradas até os antebraços, deixando exposta a velha cicatriz esbranquiçada que agora representava apenas o lembrete de um passado superado. Ao seu lado, Judith mantinha-se sentada com as costas retas, segurando as rédeas de apoio com uma das mãos, o rosto sereno voltado para o descampado que se estendia até onde a vista podia alcançar.
Entre as duas mulheres, acomodada sob o casaco de pele de bisão que fora limpo da fuligem da lareira, estava a menina. Seu rosto estava limpo, revelando bochechas rosadas e pequenas sardas perto do nariz. Ela usava uma camisa de flanela que Judith improvisara dobrando as mangas, e seus dedos pequenos seguravam com firmeza um biscoito de mel que o dono do armazém lhe dera antes da partida. A garotinha olhava para as orelhas das mulas que se moviam ritmicamente e depois para o céu colorido, soltando uma risada baixa cada vez que a carroça passava por um solavanco mais forte na trilha.
- Você acha que o seu irmão Thomas responderá bem à mensagem que enviou a ele? - Judith perguntou, quebrando o silêncio confortável da viagem, sem desviar os olhos da estrada.
Kitty olhou para a professora, o meio sorriso surgindo em seus lábios.
- Ele ficará surpreso por eu decidir parar de rodar pelas trilhas, Judith - Kitty respondeu, soltando uma risada leve que flutuou no vento da tarde. - Mas tenho certeza que me desejará sorte e que a terra no norte vai lucrar muito com a nossa parceria aqui no vale. Tenho certeza de que apoiará totalmente a decisão. Ficará satisfeito em saber que finalmente encontrei o meu lugar e que vamos expandir a criação de gado de carne. Pedi para ele mandar mais matrizes boas e ferramentas extras no próximo comboio. Assim teremos tempo para arrumar tudo o que falta.
- Vai ser bom ter a estrutura pronta nas pastagens que vamos delimitar ao lado do riacho, meu amor - Judith disse, estendendo a mão esquerda para cobrir a mão de Kitty que repousava sobre o banco de madeira. A pressão do toque foi imediata, transmitindo o calor firme e a cumplicidade que haviam sido temperados no frio da tempestade. - E essa pequena aqui vai precisar aprender a ler antes que as novas cabeças de gado comecem a dar cria no próximo ano.
A menina, ouvindo a menção à sua pessoa, olhou para cima e sorriu para as duas mulheres, aninhando-se mais perto do corpo de Judith, que a abraçou protetoramente com o braço esquerdo.
- Qual vai ser o nome dela, Judith? - Kitty perguntou, olhando rapidamente para a criança antes de ajustar a guia das mulas. - Ela não pode continuar sem um nome.
Judith olhou para a vastidão da planície, onde as primeiras sementes de capim começavam a romper a terra preta e úmida sob o sol que se punha, criando uma linha de vida que ia do horizonte até as toras da cabana que as esperava no vale.
- O nome dela será Ruth - Judith decidiu, a voz saindo clara e cheia de um afeto profundo. - Ruth Catherine Brown. É um nome que significa a força da terra onde ela vai crescer livre.
- É um bom nome, meu bem - Kitty concordou, o tom de voz firme e satisfeito. - Ruth vai aprender a laçar um bezerro e a ler os sinais do tempo antes de completar dez anos. Ela tem o sangue forte das planícies, é uma sobrevivente como você e eu.
A carroça continuou seu avanço lento e constante em direção ao Vale do Loup. À medida que as sombras da noite começavam a se estender pelas colinas de grama rasteira, o contorno da cabana de pinheiro surgiram ao longe como um ponto de calor seguro e definitivo no meio do descampado. Não havia mais o medo da tempestade e da incerteza dos dias futuros. Ali, na estrada de terra batida do território do Nebraska, sob a proteção do céu aberto e do amor que fora forjado no rigor do inverno, as duas mulheres e a criança seguiam juntas, prontas para fincar as raízes de suas vidas naqueles dois centos de acre de terra fértil.
Fim do capítulo
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