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Gelo Sob o Fogo por Lady Texiana

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Palavras: 3702
Acessos: 273   |  Postado em: 11/07/2026

Capitulo 13 - O Despertar do Amor

 

O terceiro dia de nevasca transformou a cabana de pinheiro em um bloco gelado de isolamento. O acúmulo de neve do lado de fora cobriu a porta de entrada e a janela até a metade, reduzindo a entrada da claridade diurna a um feixe pálido que mal alcançava o centro do cômodo. O vento do norte continuava a soprar com uma força regular, empurrando a neve fresca contra as toras de madeira.

Dentro do abrigo, o tempo passou a ser medido pelas tarefas necessárias para manter a sobrevivência de ambas. Judith e Jane Catherine criaram um ritmo próprio para dividir o espaço exíguo de pouco mais de quatro metros quadrados. A convivência forçada, que nos primeiros momentos daquela aventura trazia o peso da desconfiança mútua e das diferenças sociais, tornou-se uma forma prática de sobrevivência e sobretudo uma experiência avassaladora para Judith, os sentimentos aflorando cada vez mais pela batedora.

A rotina começava cedo, quando as brasas da lareira começavam a perder o brilho avermelhado. Kitty, cujo corpo respondia de forma quase automática à mudança de luz, levantava-se primeiro para reavivar o fogo. Ela não colocava as botas no primeiro momento; caminhava com as meias de lã grossa pelo chão de madeira, adicionando nós de pinheiro e lascas de freixo a lareira até que a fumaça cinzenta voltasse a subir em direção às tiras de carne de cervo penduradas nas vigas.

Judith acompanhava os movimentos da batedora debaixo do casaco de pele de bisão. Seu corpo já se acostumara ao rigor do clima e à dureza do catre, com a palha que pinicava a pele. O cansaço que sentia nos primeiros dias no Nebraska dera lugar a uma flexibilidade muscular nova, moldada pelo trabalho de esfregar o chão, carregar os baldes de água morna e ajudar no manejo dos mantimentos.

Por volta do meio-dia, as duas se reuniam ao redor do caixote de pinheiro que servia de mesa para preparar a única refeição quente do dia. A carne do cervo, exposta ao sal e à fumaça, começara a ganhar a consistência firme e a cor escura características daquele tipo de conservação.

Kitty pegou um dos coelhos que trouxera do riacho e que estavam suspensos no canto frio da parede norte. Com o canivete afiado, retirou o couro com três movimentos precisos, limpando os tendões e cortando a carne em pedaços pequenos direto na panela de ferro.

- Hoje vamos usar a gordura do toucinho para engrossar o caldo - Kitty explicou, cortando uma fatia fina do toucinho bem gordo de porco salgado que estava guardado na prateleira. - A carne de coelho é muito magra, não tem sustentação sozinha para quem precisa manter o corpo quente num frio desses. Se você não põe um pedaço de banha ou toucinho no fundo, o estômago vai reclamar logo por mais alimento.

Judith aproximou-se com o pote de farinha de milho. Ela já sabia como misturar o cereal com a água morna e uma pitada de sal para formar a massa grossa do pão de caçador, que cozia direto na borda da lareira, sobre uma velha pedra plana que Kitty encontrara nas coisas do velho Vance e limpara para essa finalidade.

- Em Boston, os livros de culinária diziam que a carne de caça precisava ser marinada em vinho por doze horas para perder o gosto forte - Judith comentou, mexendo o caldo na panela com uma colher de madeira comprida. - Mas o cheiro desse ensopado com o do freixo da lareira parece melhor do que qualquer prato que comi nas melhores casas da costa leste.

- O vinho serve para quem tem tempo de ficar esperando a comida amolecer enquanto conversa na sala - Kitty rebateu com o meio sorriso de canto de boca. - Aqui, o melhor tempero é o fato de que, se você não comer tudo o que está na panela, o frio consome as suas forças antes do dia seguinte. O corpo não quer saber de gosto refinado, Judith; ele quer saber de gordura e sal para aguentar o vento e a neve.

Trabalhavam em silêncio durante o cozimento, mudando de posição conforme a fumaça da lareira mudava de direção devido às lufadas de vento na chaminé. Havia uma nova cumplicidade física estabelecida entre as duas, um entendimento de que cada movimento dentro daquele espaço reduzido precisava ser coordenado para evitar o desperdício de calor e de energia, sobretudo o exercido pelos corpos de ambas, que sempre acabavam por buscar o contato, seja em um abraço seguido de um beijo, seja pelo leve roçar das mãos.

***

À medida que os dias avançavam sem que a tempestade desse sinais de trégua, os sentimentos entre as duas mulheres começaram a ganhar contornos mais profundos e permanentes. A intimidade física, que começara como uma sucessão de lições práticas de sex* e controle dirigidas por Kitty, transformou-se em uma necessidade mútua de afeto.

Judith percebeu que sua mente já não buscava as referências de sua vida antiga para validar e entender o que sentia. A presença de Kitty passara a ser o eixo ao redor do qual sua nova realidade se organizava. Quando a batedora se afastava para checar a segurança da porta ou para mexer na lenha, Judith sentia uma falta física daquele calor físico e da voz rouca que ditava as regras de sobrevivência naquelas paragens.

O desejo que antes surgia sob o estímulo direto das mãos ou da boca de Kitty passou a se manifestar nos pequenos gestos diários. O modo como Kitty segurava seu braço para evitar que ela tropeçasse no balde de ferro com agua quente, ou o toque rápido de seus dedos na nuca de Judith enquanto dividiam o casaco de bisão, geravam uma tensão apaixonada que permanecia ativa durante as horas que passava acordada, suspiros brotando por entre seus lábios com cada vez mais frequência.

Na tarde do quarto dia, enquanto o ensopado terminava de cozer, Kitty sentou-se na beirada do catre, observando Judith organizar os poucos talheres de metal sobre a mesa de pinheiro. A professora trazia os cabelos castanhos presos em uma trança grossa que caía sobre o ombro esquerdo, e suas bochechas estavam coradas devido ao calor que vinha diretamente da lareira.

- Você mudou de postura, Judith - Kitty observou, a voz saindo mais baixa do que o normal, cortando o som do vento exterior. - Quando descemos daquela carroça na estação, você andava pisando devagar, como se a terra do Nebraska fosse quebrar sob as suas botas. Agora, você se move com firmeza. Seus ombros estão mais retos, mais firme.

Judith parou o que estava fazendo e olhou para a batedora. Caminhou até o catre e sentou-se ao lado de Kitty, deixando que suas saias de lã se sobrepusessem às calças de couro da outra.

- A terra não ia quebrar, Kitty. Quem ia quebrar era eu se continuasse a tentar viver de aparências - Judith respondeu, estendendo a mano para tocar os dedos calejados da batedora, que repousavam sobre seu joelho. - Eu passei anos em Boston ensinando regras de comportamento para meninas que só queriam encontrar um marido rico para garantir o futuro. Eu achava que a vida era aquela repetição de lições de moral e recato. Mas aqui dentro, com o vento tentando derrubar as paredes e com você me mostrando o que o corpo sente de verdade, percebi que aquela segurança da cidade era uma mentira.

Kitty virou a mão, entrelaçando seus dedos compridos e firmes nos de Judith. A pressão do toque foi imediata, transmitindo o calor que recuperara após o trabalho braçal.

- A cidade grande cria cercas e regras para tudo, Judith - Kitty disse com seriedade, aproximando o rosto do dela. - Eles criam cercas para a terra, cercas para os animais e cercas para o que as pessoas podem ou não sentir. Quem passa a vida toda dentro dessas cercas acha que o mundo inteiro funciona daquele jeito. Mas quando você sai para o descampado das grandes planícies, percebe que as cercas são fracas. O vento derruba todas elas. O que sobra é só o que você tem por dentro e quem está do seu lado para dividir a coberta em um dia frio.

Judith inclinou-se para a frente, encostando a testa na de Kitty. O cheiro de resina de pinheiro e o calor da pele da batedora preencheram seus sentidos, dissipando a sensação de frio.

- Eu não quero voltar para dentro daquelas cercas, Jane Catherine - Judith sussurrou, usando o nome completo da batedora como uma forma de selar o compromisso entre as duas. - O que sinto por você aqui dentro é mais real do que qualquer coisa que deixei para trás.

Kitty não respondeu com palavras. Segurou a nuca de Judith com a mão direita, trazendo-a para um beijo demorado e firme. Não havia a urgência do desejo puramente físico naquele momento; era um contato que buscava firmar a presença mútua, uma aceitação mútua de que o isolamento do vale criara um vínculo que ia além da necessidade de proteção contra o rigor do inverno, que podia ser mortal.

***

A noite caiu de vez sobre o vale, trazendo um declínio ainda maior na temperatura. Kitty adicionou três nós grandes de pinheiro ao fogo, garantindo que a lareira mantivesse o calor concentrado ao redor do catre de palha. Elas haviam jantado o ensopado de coelho, e agora dividiam uma caneca de ferro com uma infusão de brotos de salgueiro que servia para substituir o café que começava a escassear.

Sentadas lado a lado, cobertas pelo pesado casaco de pele de bisão, o silêncio da cabana foi preenchido pela voz de Kitty. Judith havia perguntado sobre as cicatrizes que vira nos antebraços da batedora durante o manejo da carne, e esse questionamento abriu caminho para uma narrativa que Kitty raramente partilhava com os viajantes que guiava pelas planícies ou mesmo com qualquer outra pessoa.

- Essas marcas não vieram da guerra, Judith - Kitty começou, estendendo o braço esquerdo na direção da luz do fogo para mostrar uma linha esbranquiçada e irregular que ia do pulso até a dobra do cotovelo. - Essa aqui eu ganhei quando tinha quinze anos, em um rancho pequeno perto do Rio Niobrara, bem mais ao norte daqui, quase na divisa com o território dos Lakota.

A batedora ajeitou a colcha sobre as pernas de Judith e continuou a falar com o tom direto e sem rodeios que caracterizava sua fala.

- Meu pai era um homem que não conseguia ficar parado no mesmo lugar por mais de dois invernos - Kitty explicou. - Ele comprou aquela terra com o dinheiro que sobrou de uma criação de ovelhas que faliu no Missouri, porque ele realmente não sabia trabalhar com esses animais, suas necessidades. Construiu uma casa de toras de carvalho que era menor do que esta cabana e tentou criar gado de corte para venda ao governo. Mas a terra lá em cima é arenosa, a grama é curta e o inverno chega dois meses antes. Quando percebeu que o trabalho ia exigir mais do que ele estava disposto a dar, ele simplesmente pegou o melhor cavalo da cocheira, recolheu os poucos dólares que guardávamos no pote de ferro e foi embora durante a noite. Nunca mais soubemos dele.

Judith moveu-se sob o casaco de pele, aproximando-se ainda mais para ouvir a história.

- Ele deixou vocês sozinhos? - Judith perguntou, sentindo o peso daquela realidade sobre uma família desassistida naquelas terras hostis.

- Deixou - Kitty respondeu com a voz firme, sem qualquer sinal de auto piedade. - Deixou minha mãe, a mim e ao meu irmão mais novo, Thomas, que na época tinha apenas nove anos. Ficamos nós três com duas mulas velhas, duas vacas leiteiras e dois cavalos de sela que ele não talvez decidiu não levar para não dar mais trabalho. Minha mãe era uma mulher da Virgínia, criada em cidade, mas que teve que aprender a usar a enxada e a manejar o rifle de um tiro só para não nos ver morrer de fome.

Kitty fez uma pausa, tomou um gole da infusão quente e olhou fixamente para as chamas da lareira, como se estivesse revendo as imagens daquele inverno de 1846.

- No segundo ano depois que ele foi embora, a fome bateu forte na região - a batedora continuou. - Três homens que haviam sido expulsos de um acampamento de mineiros nas Black Hills desceram pelo rio procurando o que roubar. Eles sabiam que o nosso rancho estava isolado e que só havia uma mulher e duas crianças cuidando dos animais. Eles chegaram numa tarde de céu cinzento, parecida com esta de hoje, só que com menos neve no solo.

A voz de Kitty manteve o ritmo regular, descrevendo a violência com a precisão de quem relata uma tarefa doméstica qualquer.

- Minha mãe tentou barrar a entrada deles na porteira do curral com a espingarda velha de caça, mas o líder do bando, um homem alto com o rosto marcado pela varíola, arrancou a arma da mão dela com um golpe. Thomas correu para dentro de casa chorando. Eu estava no celeiro, terminando de amarrar a ração das mulas. Peguei o velho revólver Colt Paterson de cinco tiros, calibre .28, que meu pai havia esquecido debaixo de um caixote de ferramentas e saí pela porta dos fundos.

Judith prendeu a respiração, segurando o braço de Kitty com força.

- O que você fez?

- O homem da varíola estava tentando soltar os nossos dois únicos cavalos de sela da cerca - Kitty explicou, demonstrando uma frieza que impressionou a professora. - Sem aqueles animais, nós não conseguiríamos buscar mantimentos no Trading Post do velho Bill que ficava a trinta milhas de distância; seria a nossa morte no inverno. Eu não pensei em regras ou no que era certo fazer, Judith. Aproximei-me por trás da pilha de lenha, apoiei o cano do revólver na madeira para dar firmeza ao tiro e puxei o gatilho. O tiro pegou direto no meio das costas dele. Ele caiu na hora, sem dar um grito.

Kitty passou o polegar pela cicatriz do antebraço.

- Os outros dois homens começaram a atirar na minha direção. Um dos projéteis lascou a madeira do caixote onde eu estava e um pedaço de ferro da braçadeira cortou o meu braço de fora a fora; é daí que vem essa marca. Mas eu continuei atirando até o tambor do revólver ficar vazio. Acertei o segundo homem na coxa e o terceiro, vendo que a situação estava perdida, subiu no cavalo e fugiu arrastando o companheiro ferido. Nós enterramos o corpo do líder atrás do chiqueiro dos porcos antes que a terra congelasse de vez. Foi o meu primeiro aprendizado sobre o valor da vida na fronteira: ou você atira e acerta para garantir a sua vida e o seu sustento, ou vira o corpo que os outros enterram na vala.

A narrativa de Kitty avançou pelos anos seguintes, revelando a longa e dura transição de uma jovem de rancho para uma batedora experiente que servira ao exército durante o conflito que dividiu o país, a Guerra de Secessão.

- Minha mãe resistiu por mais quatro anos depois daquele ataque - Kitty relatou, mudando a posição das pernas para aliviar a rigidez do couro. - O corpo dela não aguentou o esforço diário. Ela contraiu uma inflamação nos pulmões no outono de 1850 e morreu em menos de uma semana. Thomas e eu ficamos sozinhos no rancho. Ele tinha treze anos e eu dezenove. Percebi que aquela terra não ia nos dar o suficiente para pagar as despesas e comprar as ferramentas e os insumos que precisávamos para manter o rancho de pé.

Judith ouvia com atenção, percebendo a complexidade da vida da batedora.

- E como vocês sobreviveram?

- Deixei Thomas cuidando das vacas leiteiras e da horta com a ajuda de um vizinho idoso que morava a dez milhas de distância, e fui para o sul, perto da bacia do Rio Platte - Kitty explicou. - Aliei-me a um grupo de caçadores que pegava cavalos selvagens, os Mustangues, que corriam pelas planícies abertas. O meu trabalho era ajudar a cercar as tropas no meio dos cânions, laçar os animais mais fortes e quebrar a resistência deles, amansando na marra até que pudessem ser vendidos para os comboios de pioneiros que iam para o Oregon.

Kitty sorriu ao lembrar daquele longo período de esforço físico intenso nas planícies abertas.

- Passei mais de dez anos vivendo em cima de uma sela de couro cru, de 1850 a 1861, dormindo no chão da planície com o céu por cobertura, Judith. Foi nessa época inteira no descampado das planícies que eu realmente aprendi a ler os sinais da grama amassada, a direção do vento que traz o cheiro de água ou de fumaça e a distinguir o rastro de um grupo de pioneiros do rastro de bandidos de estrada. Fiquei calejada pelo sol e pelo gelo antes de qualquer soldado pisar aqui. Por isso, quando a Guerra de Secessão começou, em 1861, o Exército da União veio para o oeste procurando justamente os poucos que conhecessem as trilhas profundas para servirem de guias e batedores contra as guerrilhas confederadas na fronteira com o Missouri que tentavam cortar as linhas de telégrafo e roubar os carregamentos de ouro e suprimentos.

A batedora ajeitou o casaco de bisão sobre os ombros de Judith, garantindo que o calor não se perdesse.

- Eu já tinha trinta anos quando a guerra estourou, Judith. E ai eles não queriam saber se eu usava saias ou calças de couro; precisavam de alguém que conseguisse guiar uma coluna de duzentos cavaleiros no meio de uma nevasca sem perder o rumo e sem deixar que fossem emboscados nas passagens dos rios. Alistei-me como batedora civil para um regimento de cavalaria. De 1861 a 1865, vi o pior que os homens podem fazer uns contra os outros. Sobrevivi a duas emboscadas na fronteira do Missouri e tive que abater mais homens do que gosto de lembrar para garantir que as mensagens e suprimentos chegassem aos postos avançados. Quando o conflito terminou, eu estava com trinta e quatro anos e uma reputação que me garantiu trabalho fixo nas caravanas.

- Deve ter sido um ambiente hostil para uma mulher - Judith comentou, tocando o rosto de Kitty com suavidade, sentindo a rigidez do maxilar da outra diminuir com o carinho.

- Embora esta terra não costuma escolher o sex* para cobrar o preço, meu bem, pra as mulheres com certeza as coisas são muito mais duras - Kitty afirmou com seriedade. - Mas então, se você demonstra fraqueza ou se hesita em puxar o gatilho, você não sobrevive para contar história. O exército me pagava em dólares de ouro, e cada moeda que recebi foi enviada para Thomas, lá no nosso rancho. Foi esse dinheiro de sangue que garantiu que a nossa terra não fosse tomada pelo governo pelas hipotecas vencidas e que garantiu que o meu irmão pudesse comprar matrizes boas de gado para recomeçar a criação.

Kitty terminou a narrativa explicando a situação atual de sua família e o motivo de continuar exercendo aquela profissão de risco agora, em 1870, aos trinta e nove anos.

- O rancho continua no mesmo lugar, Judith - Kitty disse com um tom de satisfação na voz. - Hoje em dia, Thomas é um homem de trinta e três anos, casado, tem dois filhos e cuida da terra com uma firmeza que me dá orgulho. Ele lida com o manejo diário das pastagens e com a estrutura das cercas, mas nós continuamos sendo parceiros no negócio de criação de gado para carne, com o qual o governo manda para abastecer as reservas indígenas.

A batedora explicou a dinâmica da sociedade que mantinha com o irmão através das distâncias do território.

- Eu não sirvo para ficar presa em um rancho cuidando de hortas ou contando cabeças de gado no curral todos os dias, Judith. Meu corpo acostumou-se com o espaço aberto e com o movimento das trilhas. O que eu faço agora como batedora independente é usar os contatos que tenho nos postos avançados e nas estações para comprar cavalos novos e mulas de carga no sul, trazê-los para o norte e revendê-los com lucro para os colonos. Parte desse lucro vai direto para o caixa do rancho, e Thomas usa o dinheiro para expandir as pastagens. Somos dois irmãos que dividem a direção da mesma vida, cada um no seu lugar.

Judith ouviu as últimas palavras, sentindo uma admiração profunda pela trajetória da mulher ao seu lado. A imagem da batedora fria e dura que encontrara na cidadezinha fora substituída pela realidade de uma mulher que moldara a própria existência através da violência e da necessidade de sobrevivência, mas que mantivera a lealdade à sua família e à sua própria natureza.

- E onde eu entro nessa sua trilha, Kitty? - Judith perguntou com sinceridade, olhando nos olhos claros da batedora na penumbra da cabana.

Kitty olhou para ela com o meio sorriso de canto de boca, aproximando o rosto até que seus lábios roçassem na bochecha quente da professora.

- Você já entrou, meu amor - Kitty sussurrou, apertando o abraço sob o casaco de pele de bisão. - Você sobreviveu às primeiras lições e aprendeu a sobreviver no meio da tempestade. Agora, quando este vento do norte ceder e a trilha abrir de volta, nós vamos descer até a cidade para resolver as coisas que restam. E se você concordar, eu volto com você. Eu ainda tenho muitas lições para mostrar a você, e acho que você tem o sangue forte o bastante para aprender todas elas.

Judith fechou os olhos, aceitando a afirmação com uma tranquilidade que surpreendeu a si mesma. O barulho da nevasca do lado de fora continuou seu ritmo monótono contra as toras de pinheiro, mas ali dentro, no espaço delimitado pelo calor da lareira e pelo corpo firme de Jane Catherine, o futuro parecia uma estrada aberta e segura, pronta para ser percorrida pelas duas, sem as cercas e sem as regras que haviam ficado para trás na costa leste.

 

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