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In Vinculis por OutroMundoLA123

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Palavras: 3140
Acessos: 68   |  Postado em: 14/07/2026

A La Niña que Fui

Isabella

A primeira coisa que percebi quando entrei no quarto foi que ele não parecia preparado para receber uma visita.

Parecia preparado para receber alguém que precisava ficar.

A diferença era pequena, mas eu notei.

Não havia nada ali tentando impressionar. Não existiam objetos escolhidos para criar uma determinada imagem, nem aquela preocupação em deixar tudo perfeito para que alguém de fora aprovasse. Era um quarto simples, organizado e funcional. A cama estava arrumada, algumas roupas estavam dobradas sobre a cadeira, havia produtos de higiene no banheiro e um caderno com uma caneta sobre a mesa.

Karol tinha pensado em coisas que eu provavelmente esqueceria.

E aquilo me deixou desconfortável.

Não porque fosse ruim.

Mas porque eu ainda não estava acostumada com alguém fazendo algo por mim sem que existisse uma cobrança escondida.

Durante muito tempo eu aprendi a procurar a segunda intenção nas coisas.

Com Anthony, quase tudo começava de uma forma que parecia normal.

Ele perguntava se eu tinha chegado bem.

Se eu precisava de alguma coisa.

Se eu estava cansada.

No começo eu via aquilo como cuidado.

Depois percebi que algumas perguntas vinham acompanhadas de outras.

Onde você está?

Com quem?

Que horas vai voltar?

Por que não me avisou?

A diferença entre preocupação e controle nem sempre aparece no início. Às vezes ela só fica clara quando você percebe que não tem mais liberdade para responder diferente do esperado.

Sentei na cama e observei o quarto.

Eu tinha imaginado muitas vezes como seria sair da casa de Anthony.

Na minha cabeça, sempre parecia um momento definitivo. Eu imaginava que sentiria apenas alívio quando finalmente estivesse longe dele.

Mas não foi isso que aconteceu.

Eu sentia alívio.

Mas também sentia medo.

Medo do que viria depois.

Porque durante meses minha única preocupação tinha sido conseguir passar pelo dia seguinte. Eu não tinha pensado em como seria quando eu realmente fosse embora.

Eu tinha saído.

Mas ainda precisava entender como viver depois disso.

Peguei o celular novo que Karol havia me dado.

A tela acendeu.

Poucos contatos.

Nenhuma foto.

Nenhuma conversa.

Nenhum aplicativo além do necessário.

Era estranho olhar para um aparelho completamente vazio.

Meu antigo celular carregava anos da minha vida. Fotos de eventos, mensagens da minha família, conversas antigas, registros de momentos que eu nem lembrava mais.

Aquele novo parecia pertencer a uma pessoa que ainda não tinha história.

Talvez fosse por isso que ele me incomodava.

Eu estava olhando para algo que representava exatamente o que tinha acontecido.

Eu tinha deixado uma vida inteira para trás.

Abri a mochila e encontrei a caixa dos medicamentos.

Fiquei alguns segundos parada olhando para ela.

Minha relação com aquilo nunca tinha sido simples.

Não porque eu tivesse vergonha de fazer tratamento. Eu sabia por que precisava de acompanhamento e sabia que existiam momentos em que meu corpo reagia de uma forma que eu não conseguia controlar sozinha.

O problema era que Anthony tinha transformado uma coisa que deveria ser minha em mais uma forma de ter influência sobre mim.

No início, ele parecia preocupado.

Ele lembrava dos horários.

Perguntava se eu tinha tomado.

Dizia que queria ajudar.

Eu achei aquilo normal.

Até perceber que ele sabia detalhes demais.

Ele sabia quando eu estava mais cansada.

Sabia quando eu tinha consultas.

Sabia quando eu estava em um período mais difícil.

E começou a usar isso contra mim.

Nunca de uma maneira que parecesse absurda.

Esse era o problema.

Anthony era cuidadoso demais para deixar algo óbvio.

Quando eu discordava dele, dizia que eu estava muito nervosa.

Quando eu insistia em alguma coisa, dizia que talvez eu não estivesse pensando direito naquele momento.

Quando eu ficava magoada, dizia que eu precisava lembrar que minha ansiedade podia alterar a forma como eu interpretava as situações.

Algumas coisas que ele dizia tinham uma parte de verdade.

Eu realmente tinha ansiedade.

Eu realmente tinha momentos difíceis.

Mas ele pegava uma dificuldade minha e transformava em uma justificativa para que minha opinião tivesse menos valor.

Com o tempo, comecei a questionar minhas próprias reações.

Eu me perguntava se estava exagerando.

Se tinha entendido errado.

Se talvez ele estivesse tentando me ajudar e eu fosse incapaz de perceber.

Essa era uma das coisas que mais me assustava quando pensava sobre aqueles meses.

Não era apenas o que Anthony fazia.

Era o quanto eu comecei a duvidar de mim mesma.

Guardei a caixa novamente.

Eu não queria pensar nisso naquele momento.

Eu precisava descansar.

Tomei banho e vesti uma das roupas que Karol havia separado.

Era uma camiseta simples e uma calça confortável.

Fiquei alguns segundos diante do espelho.

Não porque não gostasse da roupa.

Mas porque percebi algo que parecia pequeno demais para importar.

Eu não tinha escolhido nada.

Durante muito tempo, minhas escolhas passaram por uma pergunta silenciosa:

"O que Anthony vai achar?"

A roupa que eu usava.

A maquiagem.

O jeito como eu falava.

Os lugares que frequentava.

As pessoas com quem mantinha contato.

No começo, eu achava que estava apenas tentando construir uma vida ao lado de alguém.

Depois percebi que eu estava me adaptando tanto a ele que já não sabia diferenciar o que eu queria do que eu tinha aprendido a aceitar.

Apaguei a luz e deitei.

A casa estava completamente silenciosa.

No início, tentei aproveitar aquilo.

Mas depois percebi que eu não estava acostumada com silêncio.

Eu estava acostumada com atenção constante.

Com a necessidade de perceber mudanças no ambiente.

Com a obrigação de entender o humor de Anthony antes que ele dissesse qualquer coisa.

Durante meses, eu dormia sabendo que poderia ser acordada por uma discussão, uma cobrança ou simplesmente pelo fato de ele decidir que alguma coisa precisava ser resolvida naquele momento.

Agora não havia nada.

E, mesmo assim, meu corpo continuava esperando.

Olhei para o relógio algumas vezes.

Tentei fechar os olhos.

Tentei não pensar.

Mas quanto mais eu tentava dormir, mais percebia que ainda estava alerta.

Eu sabia que estava segura.

Sabia que Anthony não sabia onde eu estava.

Sabia que Karol estava na casa.

Mas saber não significava conseguir relaxar.

Por volta das duas da manhã, acordei assustada.

Durante alguns segundos não reconheci o quarto.

O coração acelerou antes que eu conseguisse lembrar onde estava.

Procurei a porta.

Depois a janela.

Depois o celular.

Foi automático.

Só quando minha visão começou a se ajustar percebi que não estava na casa de Anthony.

Eu estava em outro lugar.

Eu estava segura.

Mas meu corpo ainda demorou alguns minutos para entender isso.

Eu tentei voltar a dormir, mas meu corpo parecia não entender que aquela noite tinha acabado e que eu estava em um lugar seguro. Quanto mais eu fechava os olhos, mais minha cabeça voltava para pequenos detalhes que eu não queria lembrar. Não eram grandes acontecimentos. Eram justamente as coisas pequenas que mais me incomodavam. O jeito como Anthony fechava uma porta quando estava irritado. O silêncio dele antes de uma discussão. A forma como ele conseguia fazer uma pergunta simples parecer uma acusação.

Eu tinha passado tanto tempo tentando perceber mudanças no comportamento dele antes que elas acontecessem que meu cérebro parecia continuar fazendo aquilo mesmo sem motivo.

Abri os olhos novamente e encarei o teto.

Eu sabia onde estava.

Sabia que Anthony não estava ali.

Sabia que a casa era segura.

Mas a parte racional da minha mente parecia estar muito distante daquilo que meu corpo sentia.

Levantei devagar e caminhei até a porta.

Foi um movimento automático.

Eu precisava verificar.

Precisava ter certeza.

Minha mão segurou a maçaneta e eu girei.

A porta abriu.

O alívio veio por alguns segundos.

Depois veio o pensamento contrário.

Se estivesse fechada, eu teria entrado em pânico.

Se estivesse aberta, eu também não conseguia relaxar.

Eu percebi naquele momento que o problema nunca tinha sido a porta.

Era o fato de eu ter passado tempo demais vivendo como se qualquer coisa pudesse mudar a qualquer momento.

Voltei para a cama e tentei respirar mais devagar.

Não funcionou.

Meu peito começou a apertar.

No início achei que era apenas ansiedade.

Eu conhecia aquela sensação.

Mas daquela vez ela veio mais forte.

Tentei inspirar profundamente.

O ar entrou pouco.

Tentei novamente.

Nada.

Meu coração começou a bater mais rápido e uma sensação de medo começou a crescer sem que eu conseguisse identificar exatamente do que eu estava com medo.

Foi isso que mais me assustou.

Eu não estava lembrando de uma situação específica.

Eu não estava vendo Anthony.

Eu estava simplesmente ali.

E mesmo assim parecia que alguma coisa ruim estava prestes a acontecer.

Levantei da cama rapidamente.

Andei até a janela.

Depois até a porta.

Depois voltei.

Eu não conseguia ficar parada.

Minha respiração estava cada vez mais curta.

Eu coloquei uma mão sobre o peito tentando controlar.

— Calma.

Minha própria voz saiu baixa.

Mas não adiantou.

As lágrimas começaram antes que eu percebesse.

Eu fiquei irritada comigo mesma.

Não queria chorar.

Não ali.

Não naquela casa.

Eu tinha acabado de sair.

Eu deveria estar aliviada.

Eu deveria estar feliz.

Mas meu corpo não parecia entender que a parte mais difícil tinha passado.

Sentei no chão ao lado da cama porque minhas pernas começaram a tremer.

Foi quando as lembranças vieram.

Não como uma sequência organizada.

Apenas pedaços.

Anthony parado na porta do quarto perguntando por que eu não tinha respondido uma mensagem.

Anthony olhando para o meu celular.

Anthony dizendo que eu estava exagerando.

Anthony dizendo que eu não lembrava das coisas direito.

Anthony dizendo que eu precisava confiar nele porque ele sabia o que era melhor para mim.

Eu tentei afastar aquelas imagens.

Não queria pensar.

Mas quanto mais eu tentava parar, mais elas apareciam.

Eu lembrei das vezes em que fiquei em silêncio durante discussões porque sabia que qualquer resposta poderia piorar tudo.

Lembrei das vezes em que ensaiei conversas na minha cabeça antes de falar com ele.

Lembrei da quantidade de energia que eu gastava tentando escolher as palavras certas.

E o pior era perceber que eu tinha começado a fazer aquilo sem perceber.

Eu tinha começado a medir cada reação.

Cada opinião.

Cada pedido.

Até chegar ao ponto em que eu não sabia mais se estava evitando conflitos ou evitando ser eu mesma.

Minha respiração ficou ainda mais descontrolada.

Tentei puxar ar, mas parecia que meu peito não abria completamente.

O medo aumentou.

Eu sabia que aquilo era uma crise.

Sabia que eu não estava realmente sem ar.

Mas saber não fazia a sensação desaparecer.

Passei a mão pelo rosto tentando limpar as lágrimas.

Não adiantava.

Eu estava chorando de uma forma que eu não conseguia controlar.

E isso me deixou ainda mais desesperada.

Porque eu sempre consegui controlar.

Era uma das coisas que eu mais tinha aprendido a fazer.

Controlar minha expressão.

Minha voz.

Minha reação.

Eu tinha passado meses fazendo isso.

Até ali.

Até aquela noite.

Um barulho veio do lado de fora do quarto.

Eu nem sabia o que era.

Talvez um móvel.

Talvez Karol andando pela casa.

Mas meu corpo reagiu imediatamente.

Eu fiquei imóvel.

A respiração travou.

Por alguns segundos eu estava novamente esperando descobrir qual versão de Anthony encontraria quando a porta abrisse.

Foi nesse momento que ouvi uma batida.

— Isabella?

A voz de Karol.

Eu tentei responder.

Não consegui.

Minha garganta estava fechada.

Ela esperou alguns segundos.

— Isabella, sou eu.

Outra tentativa.

Nada.

A porta abriu devagar.

Karol entrou e imediatamente percebeu.

Eu não precisava explicar.

Meu rosto, minha respiração e a forma como eu estava sentada no chão já diziam tudo.

Ela não veio correndo.

Não tentou me levantar.

Não perguntou o que aconteceu.

Apenas fechou a porta e se aproximou devagar.

— Olha para mim.

Eu tentei.

As lágrimas continuavam caindo.

— Eu não consigo respirar.

Minha voz saiu falha.

Karol se agachou na minha frente.

— Você consegue. Está difícil, mas você consegue.

Eu balancei a cabeça.

Porque naquele momento parecia impossível.

— Isabella, presta atenção em mim.

Eu tentei focar nela.

— Você está aqui.

Eu continuei chorando.

— Você está na casa segura.

Minha respiração ainda estava acelerada.

— Anthony não está aqui.

A frase atingiu alguma coisa dentro de mim.

Porque era exatamente isso que minha cabeça precisava ouvir.

Não como uma frase bonita.

Como uma informação.

Um fato.

Ele não estava ali.

Karol continuou comigo até minha respiração começar a diminuir.

Não foi rápido.

Não foi simples.

Mas aos poucos meu corpo começou a entender o que minha mente já sabia.

Quando finalmente consegui respirar melhor, fiquei alguns segundos olhando para o chão.

A vergonha veio imediatamente.

— Desculpa.

Karol franziu a testa.

— Pelo quê?

Eu limpei o rosto.

— Eu não queria que você visse isso.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Isabella, você passou por uma situação em que precisou fingir que estava bem o tempo todo.

Eu olhei para ela.

— Aqui você não precisa fazer isso.

Baixei o olhar.

Porque aquela era provavelmente a parte mais difícil.

Eu não sabia como existir sem fingir.



Quando amanheceu, eu finalmente consegui sair do quarto.

Eu tinha passado o restante da madrugada deitada, olhando para o teto e tentando entender como era possível sentir tanto medo mesmo sabendo que estava longe dele. A parte racional da minha mente repetia que eu estava segura, que Anthony não sabia onde eu estava, que aquela casa tinha sido preparada justamente para impedir que ele me encontrasse.

Mas meu corpo ainda parecia preso em outro lugar.

Eu ainda acordava esperando uma mensagem.

Ainda esperava ouvir passos no corredor.

Ainda sentia aquela necessidade absurda de calcular minhas palavras antes de falar.

Era como se uma parte de mim ainda estivesse tentando descobrir qual comportamento evitar para não provocar uma reação ruim.

Quando entrei na cozinha, encontrei Karol sentada à mesa com uma caneca de café nas mãos e alguns documentos espalhados ao lado. Ela levantou os olhos quando me viu, mas não fez aquela expressão de preocupação exagerada que eu já tinha visto em outras pessoas.

Ela apenas me observou por alguns segundos.

Como se estivesse tentando entender como eu estava antes de decidir o que dizer.

— Dormiu alguma coisa?

A pergunta parecia simples.

Mas eu sabia que ela já tinha a resposta.

Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso da noite refletido em cada parte do meu corpo.

— Pouco.

Karol assentiu.

Não perguntou mais.

Não perguntou o que tinha acontecido, nem por que eu não a chamei, nem tentou me fazer falar antes que eu estivesse pronta.

Ela apenas pegou outra caneca e colocou café para mim.

Sentei em frente a ela e fiquei alguns segundos olhando para a bebida.

Era estranho como pequenas coisas tinham começado a parecer diferentes.

Antes, quando alguém fazia algo por mim, eu quase sempre tentava entender o motivo.

O que aquela pessoa esperava em troca.

Qual seria a cobrança depois.

Com Karol não parecia existir nada escondido.

Ela apenas fazia.

— Você sempre faz isso? — perguntei.

Ela levantou os olhos.

— Isso o quê?

Segurei a caneca entre as mãos.

— Cuida das pessoas dessa forma.

Karol ficou alguns segundos em silêncio antes de responder.

— Eu tento garantir que elas tenham o básico quando chegam aqui.

Olhei ao redor.

A casa.

A comida.

O telefone.

As roupas.

Tudo aquilo que eu não tinha pedido, mas que estava preparado antes mesmo de eu saber que precisaria.

— Você sabia que eu não ia conseguir dormir?

Ela negou com a cabeça.

— Não.

A resposta me surpreendeu.

— Então como sabia que eu precisava de alguma coisa?

Karol apoiou a caneca na mesa.

— Eu não sabia.

Fez uma pausa.

— Eu só sabia que, depois de tudo que aconteceu, era uma possibilidade.

Aquilo era diferente de Anthony.

Ele sempre tinha uma resposta pronta para tudo.

Sempre dizia que sabia o que eu sentia, o que eu pensava e o que eu precisava.

Karol não.

Ela não fingia saber.

Ela apenas estava presente.

Fiquei alguns segundos em silêncio antes de falar.

— Eu achei que sair de lá fosse fazer tudo parar.

Minha voz saiu mais baixa do que eu esperava.

Karol continuou me olhando.

— Eu achei que quando eu estivesse longe dele eu finalmente conseguiria respirar normalmente.

Parei por alguns segundos.

— Mas ontem eu estava em uma casa segura e ainda assim parecia que eu estava presa.

Karol não desviou o olhar.

— Porque seu corpo ainda não entendeu que acabou.

Engoli em seco.

Eu queria acreditar nisso.

Mas uma parte de mim ainda tinha dificuldade de aceitar que realmente tinha acabado.

— Eu sinto que deixei alguma coisa para trás.

Karol esperou.

— Não a casa.

Balancei a cabeça.

— Nem o relacionamento.

Olhei para minhas mãos.

— Eu sinto falta de quem eu era antes de tudo isso.

A frase saiu antes que eu pudesse impedir.

E, depois de falar, percebi o quanto aquilo era verdade.

Eu não sentia falta de Anthony.

Não sentia falta das discussões, do medo ou da sensação constante de estar fazendo algo errado.

Eu sentia falta da facilidade que eu tinha antes.

De tomar decisões pequenas sem precisar pensar em como alguém reagiria.

De falar sem revisar cada palavra depois.

De entrar em um lugar sem procurar primeiro pela expressão de outra pessoa.

Karol permaneceu em silêncio.

E aquele silêncio não me incomodou.

Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém estava me ouvindo sem tentar corrigir o que eu sentia.

— Ele fez você acreditar que precisava dele?

A pergunta me pegou desprevenida.

Fiquei olhando para ela.

— Sim.

A resposta veio rápida demais.

Respirei fundo.

— O pior é que, no começo, parecia o contrário.

Karol esperou.

— Ele parecia ser a pessoa que me ajudaria. A pessoa que cuidaria de mim quando eu estivesse mal.

Baixei os olhos.

— Eu não percebi quando isso mudou.

Minha voz falhou um pouco.

— Em algum momento, eu parei de sentir que ele estava comigo e comecei a sentir que eu precisava me comportar de uma determinada forma para manter tudo bem.

Karol ficou alguns segundos em silêncio.

— Isso acontece aos poucos.

Eu levantei os olhos.

Ela continuou:

— Por isso é difícil perceber enquanto está acontecendo.

Não havia julgamento na voz dela.

Nem pena.

Apenas uma constatação.

Fiquei olhando para a janela da cozinha.

A paisagem era completamente diferente de tudo que eu conhecia.

Eu ainda não sabia o que faria depois dali.

Não sabia quanto tempo levaria para deixar de sentir medo de coisas que já tinham passado.

Não sabia como seria reconstruir uma vida depois de tanto tempo vivendo em função de outra pessoa.

Mas, pela primeira vez, eu estava em um lugar onde ninguém estava tentando decidir isso por mim.

E talvez fosse esse o primeiro passo.

Não para voltar a ser quem eu era antes.

Mas para descobrir o que ainda existia de mim depois de tudo.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Música: Vanesa Martín— A La Niña que Fui


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