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In Vinculis por OutroMundoLA123

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Palavras: 2205
Acessos: 87   |  Postado em: 10/07/2026

Notas iniciais:

Mais 1 para a conta. 

Creio que a história deva ter de 25 a 30 capítulos... Então temos chão pela frente e muita coisa vai acontecer!

 

Our House

Isabella

Saímos da propriedade dos meus pais às oito da manhã.

Karol esperou o portão eletrônico fechar completamente antes de aumentar a velocidade. Durante os primeiros minutos ninguém falou nada.

Eu observava a estrada.

Ela observava tudo.

Os olhos alternavam entre o asfalto, os retrovisores e os carros que apareciam atrás de nós. Em alguns momentos diminuía a velocidade sem motivo aparente. Em outros deixava um veículo ultrapassar antes de voltar para a faixa da direita.

Na terceira vez que ela fez aquilo, resolvi perguntar.

— Está procurando alguém?

Ela não tirou os olhos da estrada.

— Estou verificando se alguém decidiu nos acompanhar.

Olhei pelo retrovisor.

Havia um caminhão alguns metros atrás.

Depois um SUV branco.

Mais distante, um sedã prata.

Pareciam pessoas indo trabalhar.

— Encontrou alguma coisa?

— Ainda não.

Ela respondeu como quem informa a previsão do tempo.

Sem drama.

Sem tranquilizar.

Apenas respondeu.

Alguns quilômetros depois, pegou o rádio preso ao painel.

— Carlos.

O chiado veio antes da resposta.

— Na escuta.

— Saímos da propriedade há quinze minutos. Sem movimentação suspeita até agora.

— Entendido. Qualquer alteração, comunica.

— Pode deixar.

Ela desligou.

— Quem é Carlos?

— Investigador.

— Trabalha com você?

— Há oito anos.

Assenti.

Era estranho ouvir respostas tão curtas.

Ela não era mal-educada.

Só parecia falar exatamente o necessário.

Continuamos em silêncio.

A cidade ficou para trás e a rodovia começou a cortar áreas mais abertas. Aos poucos, as casas deram lugar a plantações e pequenos sítios.

Karol levou uma das mãos até o console central.

— Tem fome?

Demorei alguns segundos para responder.

Percebi que não comia desde o jantar da noite anterior.

— Um pouco.

Ela abriu um compartimento entre os bancos.

Dentro havia barras de cereal, castanhas, garrafas de água e dois sanduíches embalados.

— Escolhe um.

Olhei para ela.

— Você sempre anda com comida no carro?

— Sim.

— Por quê?

— Porque nunca sei quanto tempo vou ficar na rua.

Peguei uma garrafa de água e um dos sanduíches.

Ela fez o mesmo.

Continuou dirigindo enquanto comia com uma naturalidade que deixava claro que já havia feito aquilo muitas vezes.

Depois de alguns minutos, falou novamente.

— Agora vamos combinar algumas coisas.

Meu estômago apertou.

— Tudo bem.

Ela manteve o olhar na estrada.

— Seu celular.

Peguei o aparelho da bolsa.

Ela estendeu a mão.

— Desliga.

— Já está desligado.

— Me entrega.

Hesitei.

Era um gesto automático.

Passei meses escondendo meu telefone de Anthony.

Agora, entregar para outra pessoa também parecia estranho.

Ela percebeu.

— Isabella.

Olhei para ela.

— A partir de agora, você confia em mim ou isso não vai funcionar.

Entreguei o aparelho.

Karol retirou o chip, desligou definitivamente o telefone e colocou tudo dentro de um saco plástico transparente.

Depois abriu a mochila que estava atrás do banco.

Guardou o pacote.

Fechou o zíper.

— Você não vai mais usar esse aparelho.

— Nunca mais?

— Talvez. Depende do andamento da investigação.

Ela puxou uma caixa pequena de dentro da mochila e colocou sobre o meu colo.

Era um celular novo.

Ainda lacrado.

— Esse é seu.

Olhei surpresa.

— Já está configurado. Tem apenas os contatos necessários.

Abri a caixa.

Um aparelho simples.

Sem fotos.

Sem aplicativos de redes sociais.

Sem nada.

Liguei.

A tela inicial estava vazia.

— Onde estão os outros aplicativos?

— Não instalei.

— Por quê?

— Porque você não precisa deles agora.

Olhei novamente para ela.

— Isso significa que vou desaparecer?

Karol demorou alguns segundos para responder.

— Significa que Anthony vai ter dificuldade para encontrar você.

A resposta foi seca.

Mas fazia sentido.

Ela continuou.

— Escuta com atenção porque não vou repetir.

Assenti.

— Você não publica foto.

Não faz check-in.

Não entra em rede social.

Não responde mensagem de número desconhecido.

Não atende ligação que eu não tenha autorizado.

Se precisar sair, sai comigo ou com alguém da minha equipe.

Se alguém disser que foi enviado pelo seu pai ou pela sua mãe, você confirma comigo antes de abrir qualquer porta.

Meu coração acelerou.

— Você acha que ele faria isso?

— Eu não trabalho com achismos.

Ela fez uma pequena pausa.

— Eu trabalho com possibilidades.

Voltei a olhar para o aparelho.

Pela primeira vez comecei a entender o tamanho da mudança.

Não era uma viagem.

Era uma retirada.

Eu estava deixando de existir para parte do mundo.

Depois de alguns quilômetros, Karol entrou em um posto de combustível.

Não estacionou perto da loja de conveniência.

Parou em um ponto onde conseguia ver toda a movimentação do pátio.

Desceu primeiro.

Olhou ao redor.

Só então abriu minha porta.

— Banheiro?

Assenti.

Ela caminhou ao meu lado até a entrada da loja.

Não parecia exagero.

Era simplesmente a forma como trabalhava.

Enquanto eu lavava o rosto, fiquei observando meu reflexo no espelho.

Olheiras.

Pele pálida.

Os cabelos presos de qualquer jeito.

Eu parecia alguém completamente diferente da mulher que saía para eventos beneficentes ao lado de Anthony poucos meses antes.

Na volta encontrei Karol pagando dois cafés.

Ela me entregou um copo.

— Sem açúcar.

— Como você sabe?

Ela deu um leve sorriso.

— Seu pai comentou ontem.

Aquilo me fez sorrir pela primeira vez desde que tudo começou.

Foi pequeno.

Mas verdadeiro.

Voltamos para a caminhonete.

Quando ela ligou o motor novamente, perguntou:

— Posso fazer uma pergunta?

Olhei para ela.

— Pode.

— Em que momento você percebeu que não conseguiria sair sozinha?

Fiquei olhando para o copo de café durante alguns segundos.

Era uma pergunta difícil.

Porque a resposta também doía.

— Quando parei de reconhecer a pessoa que eu era.

Ela permaneceu em silêncio.

Continuei.

— Eu comecei escondendo pequenas coisas.

Depois escondi machucados.

Depois escondi mentiras.

Quando percebi... eu estava escondendo de mim mesma.

Karol não respondeu imediatamente.

Apenas continuou dirigindo.

Depois de alguns quilômetros falou, quase como se estivesse pensando alto.

— A maioria das vítimas diz algo parecido.

Olhei para ela.

— Muitas voltam.

Aquela frase ficou no ar.

— Eu não vou voltar.

Ela finalmente virou o rosto por um instante.

Foi a primeira vez que senti que ela realmente me observava.

— Eu espero que não.

O silêncio voltou a ocupar a caminhonete.

Mas, dessa vez, ele parecia diferente.

Menos pesado.

Talvez porque, pela primeira vez desde que entrei naquele carro, eu tivesse a sensação de que Karol não estava apenas me protegendo.

Ela estava tentando me entender.


Capítulo 3 — Our House (Parte 2) POV Isabella

A estrada começou a mudar.

As pistas largas deram lugar a uma rodovia de mão dupla. Depois vieram pequenas cidades, postos de combustível e propriedades rurais. Eu já não fazia ideia de onde estávamos.

Karol parecia conhecer o caminho de memória.

Em determinado momento, ela desligou o GPS do painel.

— Não precisa mais dele? — perguntei.

— Nunca precisei.

— Então por que estava ligado?

— Para quem olhasse de fora parecer que eu não conhecia o caminho.

Olhei para ela.

— Você pensa em tudo, não é?

Ela deu de ombros.

— Tento pensar no que as outras pessoas esqueceriam.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Você sempre trabalhou protegendo vítimas?

— Não.

— Então...

Ela respirou fundo antes de responder.

— Comecei na Polícia Militar. Depois passei no concurso para investigadora. Mais tarde fiz o curso para delegada.

Aquilo me surpreendeu.

— Faz muito tempo?

— Dezesseis anos de polícia.

— Você parece nova.

Ela riu discretamente.

— Costumam dizer isso.

Observei suas mãos no volante.

Não havia aliança.

Nenhum anel.

Nenhum relógio caro.

Tudo nela parecia escolhido pela utilidade.

— E por que esse tipo de caso?

Ela demorou alguns segundos para responder.

— Porque alguém precisa fazer.

A resposta pareceu simples demais.

Ela percebeu.

— Homicídio e violência doméstica são os crimes em que a vítima quase sempre já pediu ajuda antes. O problema é que, muitas vezes, ninguém escuta.

Olhei pela janela.

— Você já perdeu alguém?

O silêncio durou vários quilômetros.

Achei que ela não responderia.

— Sim.

Não perguntou mais nada.

Nem eu.

A forma como ela disse aquela única palavra deixou claro que aquele assunto terminava ali.

Pouco depois, a caminhonete entrou em uma estrada de terra.

O carro balançou levemente.

— Estamos chegando?

— Mais uns vinte minutos.

Observei a vegetação pela janela.

— Achei que você fosse me levar para um abrigo.

— Não.

— Por quê?

Ela respondeu imediatamente.

— Porque Anthony vai procurar nos lugares óbvios.

— Ele sabe onde ficam?

— Não precisa saber. Basta contratar alguém que saiba.

Aquilo fez sentido.

Ela continuou.

— Abrigos são bons para emergências. Mas também têm rotatividade, funcionários, fornecedores, registros, visitas de assistentes sociais... muita gente entrando e saindo.

Ela fez uma curva sem diminuir muito a velocidade.

— Quanto mais pessoas souberem onde você está, maior a chance de alguém descobrir.

— Então essa casa...

— Não pertence ao Estado.

Olhei para ela.

— É de quem?

— De uma pessoa em quem eu confio.

— Ela sabe que eu vou ficar lá?

— Sabe.

— Mora lá?

— Não.

Aquilo despertou ainda mais curiosidade.

— Então a casa fica vazia?

— Na maior parte do tempo.

Respirei fundo.

— Você já levou outras pessoas para lá?

Ela assentiu.

— Algumas.

— Funcionou?

— Todas continuam vivas.

Não havia orgulho na resposta.

Era apenas um fato.

Voltei a olhar para a estrada.

— Você fala pouco.

Ela sorriu de lado.

— Também costumam dizer isso.

— Sempre foi assim?

— Não.

Aquilo me chamou atenção.

— O que mudou?

Ela demorou alguns segundos.

— Polícia ensina que, quanto menos as pessoas souberem sobre você, melhor.

— E fora do trabalho?

— Acabei levando o hábito para casa.

Fiquei pensando naquilo.

Era estranho imaginar uma vida inteira baseada em desconfiar das pessoas.

Talvez fosse por isso que ela parecia sempre um passo à frente.

 


 

POV Anthony

Anthony estacionou em frente à mansão às nove e vinte da manhã.

Estranhou o portão principal aberto.

Normalmente o segurança já o reconhecia de longe.

Naquela manhã, o homem apenas fez um aceno discreto.

Anthony desligou o carro.

Pegou o celular.

Nenhuma resposta de Isabella.

Desde a noite anterior.

Subiu os degraus da entrada principal ajustando o paletó.

Foi recebido pelo mordomo.

— Bom dia, senhor Anthony.

— Isabella ainda está dormindo?

O homem hesitou.

Foi pouco.

Mas Anthony percebeu.

— O senhor Andrade está no escritório.

Anthony franziu a testa.

— Perguntei da Isabella.

— Ela... saiu.

O sorriso desapareceu do rosto de Anthony.

— Saiu para onde?

— Não fui informado.

Ele caminhou até o escritório sem esperar autorização para entrar.

Augusto Andrade levantou os olhos dos documentos.

— Entre.

Anthony fechou a porta.

— Onde está Isabella?

Augusto retirou os óculos.

— Ela foi embora.

Anthony sorriu.

Um sorriso curto.

Descrente.

— Ela não iria embora sem falar comigo.

— Foi exatamente o que aconteceu.

— Para onde?

— Não interessa.

Anthony aproximou-se da mesa.

— Augusto...

— Não.

A resposta veio firme.

Foi a primeira vez que Anthony viu o sogro falar naquele tom.

— Você não vai atrás dela.

— Ela é minha noiva.

— Não mais.

O silêncio tomou conta do escritório.

Anthony manteve o olhar fixo em Augusto durante alguns segundos.

Depois respirou fundo.

Recuperou o sorriso educado que usava em reuniões.

— Acho que houve algum mal-entendido.

Augusto levantou-se.

— Não houve.

— Ela está emocionalmente abalada.

— Ela está protegida.

Anthony estreitou os olhos.

Protegida.

Aquela palavra dizia muito.

Mais do que Augusto imaginava.

Sem dizer mais nada, Anthony deixou o escritório.

Só voltou a pegar o celular quando entrou no carro.

Ligou para um número gravado na memória.

— Preciso que descubra uma coisa para mim.

Fez uma pausa.

— Quero saber com quem Isabella saiu desta casa hoje de manhã.

Desligou antes mesmo da resposta.

Pela primeira vez em muitos meses, ele percebeu que havia perdido o controle da situação.

E Anthony odiava perder o controle.

 


 

Isabella

Depois de quase meia hora na estrada de terra, Karol reduziu a velocidade.

À nossa frente surgiu uma porteira de madeira.

Ela desceu da caminhonete, abriu o cadeado e entrou novamente.

Seguimos por mais alguns minutos.

Foi então que a casa apareceu.

Não era uma mansão.

Também não era pequena.

Construída em um terreno amplo, cercado por árvores antigas, ficava distante o suficiente da estrada para não ser vista por quem passasse.

Não havia vizinhos.

Nem placas.

Nem qualquer indicação de que alguém morava ali.

Karol estacionou em frente à varanda.

Desligou o motor.

Durante alguns segundos, nenhuma de nós falou.

Ela olhou ao redor antes de sair do veículo.

Fez uma rápida inspeção na área.

Só então abriu minha porta.

— Bem-vinda.

Desci devagar.

O vento balançava as árvores ao redor da casa.

Era silencioso.

Muito mais silencioso do que eu estava acostumada.

Olhei para trás.

A estrada por onde chegamos já não podia mais ser vista.

Respirei fundo.

Pela primeira vez desde que deixei a mansão dos meus pais, entendi que aquilo não era uma viagem de alguns dias.

Minha antiga vida havia ficado para trás.

E, dali em diante, aquele lugar seria a única casa que eu poderia chamar de minha.

Fim do capítulo

Notas finais:

Música usada como inspiração: Crosby, Stills, Nash, & Young - Our House

 

 


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