Capitulo 10
Ninguém percebe exatamente quando uma despedida começa.
Ela não chega no último "eu te amo".
Nem na última ligação.
Muito menos na última mensagem.
Ela começa nas pequenas ausências.
Quando um "bom dia" vira "bom dia, desculpa a correria".
Quando uma ligação de duas horas termina em quinze minutos.
Quando uma resposta demora porque, no fundo, responder significa continuar alimentando algo que já assusta.
Foi assim com elas.
No início, Alexandra não quis acreditar.
Tereza sempre teve dias difíceis.
Sempre existiam semanas mais pesadas no trabalho, noites mal dormidas, crises silenciosas que apareciam sem pedir licença.
Mas havia uma diferença.
Antes, mesmo cansada, Tereza sempre voltava.
Agora...
Ela ia embora um pouquinho todos os dias.
Naquela quinta-feira, já passava da uma da manhã quando Alexandra abriu a conversa.
Escreveu.
Apagou.
Escreveu outra vez.
Respirou fundo antes de enviar.
Alexandra:
"Você tá fazendo de novo."
Tereza ficou olhando para a tela durante vários minutos.
Ela sabia.
Sabia exatamente do que Alexandra estava falando.
Mesmo assim respondeu.
Tereza:
"Fazendo o quê?"
A resposta veio quase imediatamente.
Alexandra:
"Tentando fazer essa despedida parecer lógica, pra eu não poder ficar brava com você."
Tereza fechou os olhos.
A garganta apertou.
Porque Alexandra sempre enxergava o que ela passava dias tentando esconder de si mesma.
Sem pensar muito, apertou o botão de ligação.
Alexandra atendeu no segundo toque.
— Oi...
— Oi...
As duas ficaram alguns segundos em silêncio.
Nenhuma sabia por onde começar.
— Você tá fugindo de mim? Alexandra perguntou baixinho.
Tereza demorou a responder.
— Não.
A resposta saiu automática.
As duas sabiam que não era inteira.
— Então do que você tá fugindo?
Tereza respirou fundo.
— De mim.
Alexandra permaneceu em silêncio.
— Eu gosto de você... Tereza disse quase num sussurro. Muito mais do que eu planejei gostar.
Do outro lado da linha, Alexandra fechou os olhos.
Era a primeira vez que ouvia aquilo.
E, estranhamente...
Também parecia a última.
— Eu sei.
— Não... você não sabe.
— Sei, Té.
Porque eu gosto de você também.
Mais silêncio.
A respiração das duas era tudo o que existia.
— Você lembra quando me perguntou se eu tinha medo de me apaixonar?
— Lembro.
— Eu menti.
Alexandra sorriu triste.
— Eu também.
Tereza deixou uma lágrima escapar.
— A Lara me fez acreditar que amar alguém é só esperar a próxima dor.
Alexandra não respondeu.
Não porque não tivesse o que dizer.
Mas porque nenhuma palavra consertaria sete anos de feridas.
— E você? perguntou depois de algum tempo.
— Você apareceu quando eu já não acreditava mais em ninguém.
Você foi leve...
E justamente por isso eu entrei em pânico.
Porque, pela primeira vez em muito tempo...
Eu tive medo de perder alguém antes mesmo de ter essa pessoa.
Alexandra respirou fundo.
Os olhos já estavam completamente marejados.
— Você sabe que ir embora não impede a dor, né?
— Sei.
— Só muda quem vai sentir primeiro.
Tereza levou a mão ao rosto.
— Desculpa.
Alexandra sorriu entre lágrimas.
— Eu acho que essa é a única coisa que eu nunca quis ouvir de você.
Silêncio.
Longo.
Doloroso.
Até que Alexandra perguntou:
— Se eu insistir...
Você fica?
Tereza fechou os olhos.
Naquele instante, tudo o que ela queria era responder "sim".
Mas conhecia a própria bagunça.
Sabia que, dali a alguns meses, o medo voltaria.
E não queria transformar Alexandra em mais uma vítima dele.
Respirou fundo.
— Não.
Alexandra chorou baixinho.
Sem soluços.
Sem desespero.
Só deixou algumas lágrimas caírem.
— Tá bom.
Foi só isso.
"Tudo bem."
Nenhuma implorou.
Nenhuma prometeu amizade.
Nenhuma disse "até logo".
Porque as duas entenderam, no mesmo instante, que algumas despedidas ficam mais honestas quando não tentam parecer menos doloridas do que realmente são.
Quando a ligação terminou...
Nenhuma voltou a mandar mensagem.
O tempo fez o que sempre faz.
Continuou passando.
Alexandra mudou de emprego.
Tereza continuou trabalhando demais.
As madrugadas voltaram a ser silenciosas.
Os memes deixaram de ser compartilhados.
As notificações desapareceram.
Mas algumas lembranças nunca aprenderam a ir embora.
Toda vez que via uma capivara.
Toda vez que passava por uma livraria.
Toda vez que encontrava alguma coisa engraçada e, por um segundo, pensava:
"A Alexandra ia rir disso."
Nunca mandava.
Porque havia sido ela quem escolheu o silêncio.
Quase um ano depois...
Numa noite qualquer, Tereza estava deitada no sofá, distraída, quando o celular vibrou.
Era uma notificação do grupo.
Aquele mesmo grupo onde tudo tinha começado.
Por curiosidade, abriu.
As mensagens corriam rápido.
Figurinhas.
Piadas.
Discussões completamente sem sentido.
Nada tinha mudado.
Enquanto rolava a conversa, um nome apareceu.
Alexandra está online.
Tereza parou.
Ficou olhando para a tela.
Não havia mensagem dela.
Só o pequeno aviso de que estava ali.
Em algum lugar.
Lendo as mesmas conversas.
Respirando o mesmo silêncio.
Por um instante, seus dedos pararam sobre o teclado.
"Oi."
Cinco letras.
Tão simples.
Tão impossíveis.
Ela sorriu de canto.
Apagou o que nem chegou a escrever.
Bloqueou a tela do celular.
Lá fora, a vida seguia exatamente como sempre seguiu.
E talvez essa fosse a parte mais difícil de aceitar.
O mundo nunca para porque duas pessoas deixam de se encontrar.
Mas algumas histórias continuam existindo, silenciosamente, dentro de quem as viveu.
Naquela noite, pela primeira vez desde que tudo acabou, Tereza entendeu que nunca deixou Alexandra para trás.
Apenas aprendeu a caminhar carregando a ausência dela.
E, em algum outro lugar, sem que nenhuma das duas soubesse...
Alexandra também estava online.
Leu a mensagem de um desconhecido.
Respondeu outra.
Sorriu de uma figurinha.
Viu o nome de Tereza na lista de participantes.
E seguiu.
Porque algumas pessoas deixam de fazer parte da nossa rotina.
Mas nunca deixam completamente de ser um lugar onde, um dia, a gente se sentiu em casa.
Fim do capítulo
Nem toda história de amor termina porque o amor acaba.
Às vezes, ela termina porque o medo chega primeiro.
Escrever Tereza e Alexandra foi entender que existem feridas que continuam doendo muito tempo depois de fechadas. Pessoas machucadas nem sempre fogem porque sentem pouco, muitas vezes, fogem justamente porque sentiram demais.
Esta nunca foi uma história sobre encontrar o amor perfeito. Foi sobre descobrir como o passado pode atravessar o presente e influenciar escolhas que precisam ser carregadas pelo resto da vida.
Talvez você tenha se identificado com Tereza. Talvez com Alexandra. Ou talvez tenha sido as duas em momentos diferentes.
Se esta história deixar alguma coisa com você, espero que seja apenas uma pergunta:
Quantas histórias deixamos de viver porque tivemos medo de repetir as que nos machucaram?
Obrigada por caminhar com elas até aqui.
Com carinho,
Ellen.
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