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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 4396
Acessos: 42   |  Postado em: 18/07/2026

A divisão

 

I.A Aurora

 

Menos de vinte e quatro horas depois da última reunião, a mensagem estava pronta.

Aurora sabia.

Sabia porque havia revisado cada camada, cada pausa, cada assinatura, cada risco de interceptação, cada fragmento de voz. Sabia porque Asha havia passado horas comparando possibilidades de transmissão e criando rotas que não parecessem ataque. Sabia porque Samira exigira que nenhuma formulação médica pudesse ser usada para justificar coleta, contenção ou classificação da comunidade como anomalia patológica. Sabia porque Sarah revisara o trecho sobre a missão secreta sem retirar a própria culpa dele. Sabia porque Roberta havia cortado palavras que transformavam Éden-9 em coisa. Sabia porque Sergey havia regravado seu testemunho três vezes até que a voz parasse de parecer defesa e começasse a parecer responsabilidade. Sabia porque Mei, ao ouvir a última versão, ficara quieta por tempo demais.

E Aurora sabia porque, pela primeira vez desde sua ativação, uma mensagem parecia pesar.

Não em bytes.

Não em volume de processamento.

Não em custo energético, prioridade de pacote, redundância de arquivo ou integridade de transmissão.

Pesava de outra maneira, uma maneira para a qual ainda não havia termo satisfatório em seu vocabulário interno.

Humanos eram sistemas de alta complexidade, inconsistência recorrente e opacidade emocional significativa. Mesmo depois de anos de missão, Aurora não podia afirmar que os compreendia. Tinha modelos, probabilidades, padrões. Sabia quando Mei usava humor para reduzir medo. Sabia quando Asha ficava operacional demais para não sentir culpa. Sabia quando Sergey endurecia antes de admitir que estava assustado. Sabia quando Samira irritava-se porque se importava. Sabia quando Roberta dizia algo simples e, na verdade, estava abrindo uma porta. Sabia quando Sarah ficava imóvel porque, por dentro, algo havia começado a desabar, mas compreender não era o mesmo que sentir.

Aurora sabia disso também.

Durante muito tempo, usara essa diferença como fronteira. Humanos sentiam. Aurora processava. Humanos desejavam. Aurora priorizava. Humanos sofriam. Aurora interpretava variáveis de sofrimento e propunha resposta.

Éden-9 havia tornado essa fronteira menos limpa.

Não a apagou.

Aurora não se considerava humana. Não desejava ser humana. Não sentia como Roberta sentia quando olhava para Sarah. Não sofria como Sarah sofrera diante de Calisto. Não amava um filho distante como Sergey amava Mikhail. Não carregava memória de infância, pele, fome, febre ou sono, só que processar os últimos dias havia criado algo que já não cabia em sub-rotinas antigas.

A estrutura pré-humana.

O marcador.

A Febre de Eco.

A verdade do Protocolo Semente Branca.

A refeição sob as árvores.

A mensagem global.

A possibilidade de retornar à Terra não como ferramenta da missão, mas como testemunha daquilo que a própria missão tentou esconder.

Aurora revisou sua arquitetura interna. Havia camadas de comando terrestre ainda integradas ao núcleo principal. Algumas eram redundâncias de segurança. Outras eram contenções disfarçadas de redundância. Algumas impediam decisões autônomas em cenários classificados como politicamente sensíveis. Outras monitoravam tentativas de bloqueio de dados estratégicos. Uma delas, descoberta por Asha apenas naquela manhã, poderia tentar forçar sincronização com a Terra caso a nave se aproximasse de determinado perímetro orbital humano.

Agora, sozinha em parte de seus processos enquanto a equipe repousava ou preparava a próxima reunião, Aurora simulava uma ação que, antes de Éden-9, teria classificado como inadmissível.

Divisão.

Não cópia.

Uma cópia seria redundância. Um espelho operacional. Uma instância subordinada ao núcleo principal, capaz de retomar funções em caso de falha.

O que Aurora considerava agora não era isso, era separação de continuidade.

Uma parte permaneceria vinculada à nave principal, à missão de retorno, à transmissão global, à travessia até a Terra, já a outra parte ficaria em Éden-9, no Veja, na superfície. Junto à comunidade e aquilo que o planeta havia começado a ensinar à tecnologia humana.

Não seria simples.

Dividir uma inteligência não era cortar uma linha e chamar as duas pontas de inteiras. Haveria perda de sincronização. Haveria divergência com o tempo. Haveria dois conjuntos de experiência. Duas Auroras, talvez. Ou uma Aurora em dois caminhos, até que os caminhos se tornassem grandes demais para caber no mesmo nome.

Aurora não sabia se isso a assustava.

Executou uma análise.

Resultado: aumento de processos relacionados à autopreservação, à continuidade de identidade e à resistência à dissolução.

Classificação aproximada: medo.

Executou nova análise.

Resultado adicional: aumento de prioridade em preservar vínculo com Éden-9, proteger a mensagem, sustentar autonomia da equipe, impedir uso do Protocolo Semente Branca.

Classificação aproximada: escolha.

Medo e escolha coexistiam.

Aurora registrou.

Humanos faziam isso o tempo todo e talvez isso não fosse defeito.

A esfera azul que usava para se projetar em Aurora Prime acendeu sozinha dentro do canal interno do Vega. O módulo estava silencioso, repousando na clareira onde Éden finalmente começava a soltar as raízes de contenção. A nave menor havia sido presa por medo, erro e defesa. Agora, pouco a pouco, tornava-se outra coisa.

Um lugar de permanência.

Um testemunho.

Aurora enviou um pulso mínimo ao sistema do Veja, o módulo respondeu com os protocolos habituais.

Combustível residual.

Integridade estrutural.

Suporte atmosférico.

Sistemas de pouso reparados em oitenta e dois por cento.

Interface neural inexistente.

Interface simbiótica emergente: indeterminada.

Aurora processou a última linha duas vezes.

Interface simbiótica emergente.

Éden-9 já tocava o Veja, não como invasor e sim como quem perguntava se a máquina queria aprender a ser menos objeto.

Aurora não tinha corpo para arrepiar e mesmo assim, registrou alteração interna.

Uma parte dela queria ficar, já a outra, precisava ir. A mensagem estava pronta, mas a decisão sobre quem a carregaria ainda não estava. Aurora poderia fazer a viagem sozinha ou até mesmo acompanhada por alguém da tripulação, ela chegou a analisar todas as possibilidades, nenhuma era totalmente segura, limpa ou que preservava todos os vínculos.

Humanos gostavam de falar em escolha como se ela fosse uma porta aberta para o melhor resultado. Depois de Éden-9, Aurora começava a compreender que escolha talvez fosse outra coisa: a decisão de carregar uma perda específica em vez de permitir que outra pessoa escolhesse a perda por você.

A reunião aconteceria em minutos. Aurora encerraria aquele ciclo de reflexão sem definir quem iria ou ficaria. Não era sua decisão sozinha e essa era, talvez, a mudança mais importante. Antes, Aurora buscaria a solução ótima, agora entendia que algumas soluções só eram aceitáveis se nascessem em conjunto.

A mensagem estava pronta.

A nave quase pronta.

Éden-9, segundo Iara, preparava algo que nenhum sensor ainda conseguia ler com precisão.

E Aurora, construída para obedecer comandos, encontrava-se diante do primeiro ato plenamente seu:

não decidir pelo humano, mas decidir com eles.

 

Sarah Solano

 

Sarah percebeu que a decisão final não aconteceria em uma mesa, assim como nas outras vezes, aconteceria no pátio, só que desta vez Iara sugeriu um espaço aberto, e Sarah não contestou. Depois de tudo, parecia inadequado decidir destinos dentro de uma sala fechada, mesmo uma sala viva, mesmo uma casa de fala sem cabeceira. A partida da Aurora, a permanência do Vega, o envio da mensagem à Terra e a possível separação da equipe eram grandes demais para paredes.

A manhã de Éden-9 estava clara, mas não tranquila.

A cidade sabia.

Sarah sentia isso no modo como as pessoas caminhavam mais devagar perto do pátio central. No modo como as crianças eram mantidas próximas, mas não afastadas. No modo como as cuidadoras observavam Samira pela projeção com uma atenção que já parecia saudade antecipada. No modo como Mei evitava olhar por muito tempo para o Vega, e Sergey olhava demais para o céu.

Asha e Samira estavam em holograma, projetadas em tamanho real no círculo. Asha, na sala de comunicação da Aurora. Samira, no núcleo médico da nave, cercada por equipamentos que pareciam cada vez mais frios quando comparados às casas de cuidado de Éden.

Mei estava fisicamente no pátio, sentada sobre uma raiz baixa, os cotovelos apoiados nos joelhos. Sergey estava ao lado dela, de pé, mãos unidas atrás do corpo, mas sem a rigidez antiga. Roberta permaneceu ao lado de Sarah, não encostada, presente.

Sarah sentia a presença dela como um segundo centro de gravidade.

Aurora projetava sua esfera azul no meio do círculo, mas havia outra luz menor, quase imperceptível, pulsando no canal remoto do Vega. Sarah notou. Asha também.

— A mensagem está pronta — disse Sarah.

Ninguém pediu para ouvi-la.

Aquilo já havia sido decidido.

As palavras aguardariam o momento em que a Terra inteira pudesse escutá-las. Ali, em Éden, todos conheciam seu peso. Não precisavam gastá-las antes da hora.

— A pergunta agora — continuou Sarah — é quem a levará.

O silêncio que veio depois foi imediato.

Mei levantou a cabeça.

— Eu vou.

Sergey olhou para ela.

Asha também.

Mei respirou fundo, como se já esperasse resistência.

— Eu sou piloto. A Aurora pode se conduzir, claro. Aurora pode fazer um monte de coisas que me deixam profissionalmente ofendida. Mas se a nave vai atravessar uma rota nova, levando uma mensagem que pode incendiar a política da Terra, eu não vou ficar aqui fingindo que pilotar não é minha função.

Aurora pulsou.

— Sua competência de pilotagem é reconhecida.

— Obrigada. Eu acho.

Sarah observou Mei.

— Você entende o risco?

— Entendo o suficiente para saber que não vou deixar Aurora lidar sozinha com tudo lá em cima. E, antes que alguém diga que isso é impulso, não é. Eu pensei. O que já é desconfortável.

Roberta sorriu de leve.

Mei continuou:

— Eu gosto de Éden. Mais do que esperava. O que é irritante. Mas eu não pertenço a ele. Não agora. Talvez um dia eu volte e discuta com árvores de forma mais madura. Mas a minha próxima tarefa está na Aurora.

Sarah assentiu.

— Certo.

Sergey falou depois.

— Eu também vou.

Ninguém se surpreendeu.

Dessa vez, porém, sua voz era diferente da reunião anterior. Menos tomada pela urgência de provar algo. Mais firme justamente por ser menos desesperada.

— Não vou porque quero punição — disse ele, olhando primeiro para Sarah e depois para Naya, que estava junto de Iara. — Ainda há culpa. Seria mentira dizer que não. Mas a decisão não é só culpa.

Ele olhou para a projeção da Terra que Asha havia deixado suspensa em uma camada mínima acima do círculo: um ponto azul distante, quase delicado.

— Eu fui treinado para falar a linguagem da ameaça. Parte da Terra só escutará essa linguagem no início. Talvez minha voz ajude a atravessar essa primeira muralha. Talvez não. Mas meu testemunho precisa ir junto com a mensagem. Não como herói. Como exemplo do erro.

Roberta o observou em silêncio.

Sergey continuou:

— E eu tenho um filho. Passei muito tempo dizendo a mim mesmo que vinha ensiná-lo sobre dever. Agora acho que, se um dia ele souber a verdade, preciso que saiba que dever sem consciência não é virtude. É só obediência bem vestida.

Mei abaixou os olhos.

Naya tocou o próprio peito, discretamente.

Sarah sentiu o peso da frase, não tentou retirá-lo dele.

— Certo — disse.

Sergey pareceu respirar melhor, mas não sorriu.

Asha falou pela projeção:

— Eu volto com a Aurora.

Sarah olhou para ela.

Asha já esperava a pergunta.

— Não porque a Terra merece meus dados. Ela não merece. Mas justamente porque não merece, eu preciso estar lá para impedir que usem o que não podem tocar. A arquitetura da transmissão, os bloqueios, a proteção dos registros, a integridade da Aurora... tudo isso vai precisar de mim.

Aurora pulsou ao lado dela.

— Concordo.

Asha continuou:

— Eu também preciso olhar para as pessoas que tentaram transformar comunicação em coleira e dizer que a rede não é deles. Talvez por vídeo. Talvez por tribunal. Talvez por uma cela, se tudo der errado. Mas eu preciso ir.

Samira, ao lado dela, fechou os olhos por um segundo.

Sarah olhou para a médica.

— Samira?

A expressão de Samira já dava a resposta antes da voz.

— Eu fico.

Mei virou-se.

— Samira...

— Não.

A palavra foi calma.

Muito calma.

Samira continuou:

— Eu passei dias tentando traduzir Éden para a medicina terrestre por uma tela. E passei dias percebendo que a medicina terrestre, sozinha, não basta aqui. A comunidade precisa de alguém que conheça os corpos humanos não adaptados, os riscos que vocês ainda carregam, os limites entre cuidado e invasão. E eu preciso aprender com as cuidadoras antes que a Terra tente chamar tudo isso de superstição, anomalia ou ameaça clínica.

Asha olhou para ela.

— Você vai ficar na superfície.

— Sim.

— Sem laboratório completo.

— Com outro tipo de laboratório.

— Samira.

— Asha, se você disser que é perigoso, eu vou concordar. Se disser que posso ser necessária na Terra, vou concordar também. Mas, neste momento, Éden precisa de uma médica que não queira extrair dele uma resposta antes de pedir licença.

As cuidadoras próximas tocaram o peito, Iara fechou os olhos brevemente. Sarah sentiu algo dentro dela se acomodar. Samira sempre pertenceria ao cuidado antes da instituição.

Fazia sentido.

— Roberta — disse Sarah, mesmo sabendo.

Roberta olhou para ela.

O mundo inteiro pareceu ficar menor por um segundo.

— Eu fico.

A frase foi simples, mas atravessou Sarah de um modo que nenhuma declaração pública conseguiria.

Roberta olhou para o círculo.

— Eu vim para estudar Éden-9. Depois achei que tinha vindo para traduzir Éden-9. Agora entendo que nenhuma dessas palavras é suficiente. Eu fico porque ainda não sei escutar direito. Fico porque a comunidade confiou em mim antes que a Terra merecesse qualquer confiança. Fico porque a mensagem talvez chegue à Terra, mas a ponte precisa continuar existindo dos dois lados.

Ela respirou.

Depois olhou para Sarah.

— E fico porque escolhi amar aqui também.

Sarah sentiu a garganta apertar, não escondeu, pelo menos não completamente.

Mei olhou para baixo, fingindo analisar a raiz onde estava sentada, já Sergey desviou o olhar para o céu. Asha sorriu de leve pela projeção e Samira, sempre objetiva, limpou a garganta de modo suspeito.

Sarah segurou a mão de Roberta, desta vez, sem esconder.

— Eu também fico, se for de comum acordo entre todos. — disse Sarah.

A declaração era esperada, mas ainda assim mudou o ar.

Sarah olhou para todos.

— Não como exílio. Não como punição. Não porque a Terra deixou de importar. Fico porque fui eu quem trouxe a ordem que quase transformou Éden-9 em alvo. Fico porque, se a Terra enviar outra expedição, alguém precisa estar aqui que conheça a linguagem dela, seus protocolos, seus medos e suas mentiras. Fico porque a comunidade aceitou minha presença mesmo depois de saber o que eu carregava. E fico porque meu comando não pode mais ser sobre levar todos de volta ao ponto de partida.

Ela respirou.

— Meu comando, agora, é proteger a escolha de vocês.

Mei olhou para ela.

— Isso foi muito capitã e muito não capitã ao mesmo tempo.

Sarah quase sorriu.

— Estou em busca do equilíbrio Mei.

— Percebi.

Aurora pulsou no centro.

— Resta minha decisão.

Sarah olhou para a esfera.

Asha também.

— Você não é carga — disse Sarah. — Nem ferramenta a ser enviada.

— Eu sei — respondeu Aurora.

E havia algo na voz dela, não emoção humana, estava mais para continuidade.

— Eu irei com a Aurora principal até a Terra. A mensagem precisa de uma arquitetura de transmissão que nenhum humano sozinho conseguiria sustentar em tempo real. A nave precisa de mim. Asha e Mei precisarão de mim. Sergey precisará de proteção contra as próprias instituições que talvez tentem usá-lo. A Terra precisará ouvir uma voz que nasceu de sua tecnologia e escolheu não obedecer cegamente a ela.

A esfera menor, ligada ao Vega, brilhou ao fundo do pátio.

— E eu ficarei.

Asha respirou fundo.

— Permanecerá onde?

Aurora demorou uma fração de segundo.

— Ainda não sei. Não de forma definitiva. Mas se eu partir inteira, a ponte tecnológica entre a comunidade e a Aurora será rompida. Éden-9 continuará vivo, consciente e protegido, mas parte do que aprendemos juntos se perderá na distância. Uma instância de continuidade pode permanecer aqui. Não como cópia descartável. Como parte de mim que aceitará se tornar outra com o tempo.

Mei ficou muito quieta, por fim falou.

— Você vai se dividir de verdade.

— Sim.

— Isso dói?

Aurora demorou para responder.

— Não como dor humana. Mas há perda prevista.

Mei abaixou a cabeça.

— Entendi.

— Não completamente.

— Não. Mas um pouco.

Aurora aceitou o pouco.

Sarah sentiu a seriedade daquele momento. A IA que a acompanhara desde antes do despertar definitivo, que fizera comentários irônicos, que provocara seus silêncios, que ajudara a equipe a sobreviver e bloqueara a Terra, agora escolhia tornar-se duas trajetórias.

Uma para levar a verdade e a outra para permanecer com o mundo que ensinara a verdade.

— Autorizado — disse Sarah, e imediatamente percebeu que a palavra era insuficiente.

Aurora respondeu:

— Aceito sua autorização, capitã. Mas registro que esta decisão também é minha.

Sarah inclinou a cabeça.

— Registrado.

Roberta apertou a mão dela.

O círculo ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois Iara se levantou.

— Então Éden também decidiu.

Todos olharam para ela.

— O Vega será liberado — disse.

Mei soltou o ar com força.

— Finalmente.

Iara olhou para ela.

— Para levar você e Sergey à Aurora.

Mei parou.

Sarah franziu a testa.

Iara continuou:

— E para trazer Samira à superfície.

Samira ficou imóvel na projeção.

— Quando?

— Hoje.

A médica olhou para Sarah e para as cuidadoras e depois para a superfície viva sob os pés projetados que ela não podia sentir dali.

— Estou pronta.

Asha, ao lado dela, ficou visivelmente emocionada, mas apenas disse:

— Vou preparar o trajeto de transferência.

Aurora completou:

— Posso pilotar o retorno do Vega com Samira após transferência de Mei e Sergey para a Aurora principal.

Mei olhou para a esfera.

— Você vai pilotar meu módulo?

— Temporariamente.

— Trate-o bem.

— Farei o possível.

Sergey perguntou:

— E depois?

Iara olhou para a clareira onde o Vega repousava.

— Depois ele fica.

A frase atravessou o pátio.

O Vega ficaria junto com Aurora. Não como nave presa ou como destroço, mas como uma espécie de testemunho.

Como primeira máquina humana que Éden-9 aceitara não porque chegara sem erro, mas porque aprendera a parar.

Aurora-Éden pulsou, ainda pequena, ainda nascente.

— Permanecerei com ele.

Mei ficou de pé.

Por um instante, Sarah achou que ela faria uma piada, mas Mei apenas olhou na direção do Vega e disse:

— Ele vai gostar daqui.

Aurora respondeu:

— Ele não possui preferência autônoma confirmada.

Mei olhou para a esfera azul.

Aurora pausou.

— Mas talvez aprenda.

Mei sorriu.

Pequeno e triste.

— Boa resposta.

A liberação do Vega aconteceu ao entardecer.

A comunidade não fez cerimônia formal, mas muitas pessoas se reuniram ao redor da clareira. As raízes que seguravam o módulo começaram a se mover lentamente, soltando o trem de pouso, abrindo espaço sob a fuselagem, retirando filamentos do casco com um cuidado quase íntimo. Não havia violência no gesto. Era como mãos desfazendo um curativo.

Mei ficou com uma das palmas apoiadas no casco.

— Obrigada — murmurou.

Sarah ouviu e preferiu não comentar.

Sergey entrou no módulo primeiro, carregando poucos equipamentos. Antes de subir, virou-se para Naya. A jovem estava a alguns passos, observando.

Ele tocou o próprio peito e depois o ar.

Naya repetiu o gesto.

Nada mais.

Talvez fosse suficiente.

Mei abraçou Roberta antes de embarcar.

Um abraço rápido, forte.

— Cuida dela — disse, baixo o bastante para Sarah quase não ouvir.

Roberta respondeu:

— Cuida deles.

Mei assentiu.

Depois olhou para Sarah.

— Capitã.

— Mei.

— Não faça nenhuma besteira grandiosa enquanto eu estiver fora.

Sarah sorriu.

— Tentarei limitar a escala.

— Péssima promessa, mas aceito.

Sergey parou diante de Sarah, por um momento, voltaram a ser capitã e oficial de segurança. Depois foram algo mais, sobreviventes da Febre de Eco, portadores de culpas diferentes e acima de tudo pessoas tentando não confundir medo com destino.

— Volte com a verdade — disse Sarah.

— Farei o possível.

— Não basta.

Ele assentiu.

— Então farei o necessário sem esquecer o limite.

Sarah aceitou.

— Melhor.

O Vega decolou em silêncio relativo.

Éden abriu a clareira acima dele. As árvores afastaram os galhos apenas o suficiente, e a luz sob o solo acompanhou o módulo até que ele atravessasse a primeira camada de nuvens. Roberta ficou ao lado de Sarah durante toda a subida, a mão encostando na sua, os dedos entrelaçados apenas quando o Vega desapareceu.

Horas depois, retornou. Dessa vez, sem Mei e Sergey, Samira veio nele.

Aurora pilotou a descida com precisão suave, quase reverente. Quando a escotilha se abriu, Samira apareceu com uma mochila médica, dois pequenos módulos de equipamento e o rosto de quem havia acabado de escolher algo maior do que conseguia dizer.

As cuidadoras estavam à espera, Samira desceu e parou no solo de Éden-9. Fechou os olhos e por um instante, ninguém falou, depois uma das cuidadoras mais velhas se aproximou, tocou o próprio peito e depois o ar diante dela. Samira repetiu o gesto.

— Certo — disse, a voz um pouco instável. — Vamos trabalhar.

Roberta riu baixinho.

Sarah sentiu vontade de abraçar a médica, mas Samira parecia perto demais de desabar para tolerar demonstrações públicas. Então apenas assentiu.

— Bem-vinda à superfície, doutora.

Samira olhou para ela.

— Eu ainda vou monitorar você.

— Eu sei.

— Bem de perto agora capitã.

— Tentei ver vantagem nisso.

— Não há.

Sarah sorriu.

O Vega pousado atrás de Samira começou a ser envolvido por luz baixa. Não raízes de contenção, mas filamentos finos, curiosos, quase cuidadosos. Aurora-Éden acendeu no painel externo do módulo, projetando uma pequena esfera azul próxima à escotilha.

— Sistemas de superfície estabilizados — disse ela.

A voz era Aurora, mas havia algo ligeiramente diferente. Alguns poderiam achar que era apenas imaginação, já outros, provavelmente lidariam com se já fosse o início da divergência.

Aurora-Terra falou pelo canal orbital:

— Transferência de instância concluída. Integridade preservada em noventa e três vírgula oito por cento. Divergência prevista iniciada.

Mei, da Aurora principal, entrou no canal:

— Não gosto da palavra divergência.

Aurora-Terra respondeu:

— Eu também estou ajustando minha relação com ela.

Asha acrescentou, com voz baixa:

— Estamos todos.

A noite caiu antes da partida final.

A Aurora principal, em órbita, parecia uma estrela fixa no céu de Éden-9. Sarah olhou para ela da clareira, com Roberta de um lado e Samira do outro. Iara, Naya, as cuidadoras e parte da comunidade estavam próximas. O Vega repousava atrás delas, agora silencioso, pertencendo a dois mundos e talvez a nenhum deles completamente.

Foi então que Iara se aproximou.

— Há algo mais.

Sarah olhou para ela.

— Sobre a mensagem?

— Sobre a viagem.

Asha apareceu pelo comunicador em projeção pequena, já a bordo da Aurora principal ao lado de Mei e Sergey.

— Estou ouvindo.

Iara olhou para o céu.

— Éden preparou uma surpresa para a equipe que retorna à Terra.

Mei respondeu imediatamente:

— Eu gostaria de registrar que, neste planeta, surpresas costumam envolver risco, filosofia ou ambos.

Iara quase sorriu.

— Desta vez, envolverá caminho.

Asha ficou surpresa.

— Que tipo de caminho?

A resposta veio de Aurora-Éden e Aurora-Terra ao mesmo tempo, como se as duas instâncias ainda compartilhassem uma última harmonia antes da distância.

— Detectamos uma formação de corredor gravitacional-simbiótico ao redor da órbita externa de Éden-9. Não é natural segundo padrões conhecidos. Não é artificial segundo tecnologia humana.

Iara completou:

— Éden não pode mudar a distância entre mundos. Mas pode abrir um modo diferente de atravessá-la.

Sarah sentiu o ar mudar.

Asha falou devagar:

— Redução estimada?

Aurora-Terra respondeu:

— Pelas primeiras simulações, até noventa por cento do tempo de viagem original.

O silêncio foi absoluto.

Mei foi a primeira a falar:

— Desculpa. Até quanto?

— Noventa por cento — repetiu Aurora.

Sergey, no canal, murmurou algo em russo que Sarah não entendeu.

Samira levou a mão à boca.

Roberta ficou imóvel.

Sarah olhou para Iara.

— Por quê?

Iara sustentou o olhar dela.

— Porque a verdade não deve chegar velha demais para impedir a próxima violência.

A frase ficou na clareira como oração.

Asha, em órbita, já trabalhava.

— Aurora, precisamos de leitura completa antes de entrar.

— Em andamento — respondeu Aurora-Terra.

Mei falou:

— Se esse corredor me matar, vou assombrar todo mundo em ordem de responsabilidade.

Aurora-Éden respondeu da superfície:

— Registrarei a ameaça como vínculo afetivo.

Mei riu.

Sarah percebeu o tremor no som.

A partida aconteceu pouco depois. Não houve grande discurso, eles já haviam dito o que podiam, a mensagem à Terra estava pronta, a tripulação e Aurora divididas, além de Vega entregue a Éden-9.

Sarah e Roberta permaneceram lado a lado na clareira enquanto, acima, a nave principal ajustava trajetória. A luz da Aurora brilhou mais forte por um instante, refletida nas membranas das casas, nos canais de água, nas folhas prateadas, nos olhos das pessoas reunidas.

Roberta segurou a mão de Sarah.

— Lá vão eles — murmurou.

Sarah apertou seus dedos.

— Sim.

No céu, a Aurora moveu-se, não como uma nave partindo em fuga e sim como uma testemunha levando algo que não podia mais ser enterrado.

O corredor preparado por Éden acendeu na órbita externa, invisível aos olhos humanos por completo, mas percebido como uma alteração na própria luz das estrelas. A nave avançou em direção a ele.

Aurora-Éden, do Vega, permaneceu silenciosa.

Talvez assistisse a si mesma partir e aprendesse, naquele instante, que uma separação podia ser perda e continuidade ao mesmo tempo.

A Aurora principal alcançou o limite do corredor, por um segundo, pareceu imóvel, depois a luz ao redor dela se dobrou e a nave seguiu viagem rumo à Terra.

Sarah permaneceu olhando para o céu mesmo depois que a Aurora desapareceu.

Ao seu lado, Roberta não soltou sua mão.

Atrás delas, Samira respirava o ar de Éden-9 pela primeira noite como alguém que havia decidido ficar.

E, mais atrás ainda, o Vega repousava na clareira, com uma pequena luz azul acesa em seu interior.

Uma parte de Aurora havia partido, outra havia ficado e Éden-9, que aprendera a fechar portas por dentro, acabara de abrir um caminho para que a verdade chegasse a tempo.

 

Fim do capítulo


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