• Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Cadastro
  • Publicar história
Logo
Login
Cadastrar
  • Home
  • Histórias
    • Recentes
    • Finalizadas
    • Top Listas - Rankings
    • Desafios
    • Degustações
  • Comunidade
    • Autores
    • Membros
  • Promoções
  • Sobre o Lettera
    • Regras do site
    • Ajuda
    • Quem Somos
    • Revista Léssica
    • Wallpapers
    • Notícias
  • Como doar
  • Loja
  • Livros
  • Finalizadas
  • Contato
  • Home
  • Histórias
  • Eden 9 - O mundo que lembrava
  • O dever sem bandeira

Info

Membros ativos: 9620
Membros inativos: 1625
Histórias: 2001
Capítulos: 21,175
Palavras: 53,726,301
Autores: 817
Comentários: 109,191
Comentaristas: 2603
Membro recente: Photos for my escort applicati

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Notícias

  • O e-book do Desafio das Imagens do Lettera — Maio de 2026 chegou!
    Em 25/06/2026
  • Desafio das Imagens 2026
    Em 23/04/2026

Categorias

  • Romances (890)
  • Contos (478)
  • Poemas (237)
  • Cronicas (233)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Recentes

  • Meu algodão doce
    Meu algodão doce
    Por Scrafeno
  • ObsessivaMente
    ObsessivaMente
    Por Elin Varen

Redes Sociais

  • Página do Lettera

  • Grupo do Lettera

  • Site Schwinden

Finalizadas

  • FREAKS
    FREAKS
    Por Marcya Peres
  • PERFUME DE JASMIM
    PERFUME DE JASMIM
    Por Ninne Diniz

Saiba como ajudar o Lettera

Ajude o Lettera

Categorias

  • Romances (890)
  • Contos (478)
  • Poemas (237)
  • Cronicas (233)
  • Desafios (182)
  • Degustações (28)
  • Desafio das imagens 2026 (7)
  • Natal (7)
  • Resenhas (1)

Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

Ver comentários: 0

Ver lista de capítulos

Palavras: 4312
Acessos: 45   |  Postado em: 18/07/2026

O dever sem bandeira

 

Sergey Ivanov

 

Sergey acordou antes da cidade.

Por alguns minutos, permaneceu deitado na casa viva que a comunidade lhe oferecera, olhando para o teto de membrana translúcida acima dele. A luz de Éden-9 ainda era baixa, quase cinza, filtrada pelas folhas longas que balançavam do lado de fora. A cidade respirava em silêncio. Não um silêncio vazio, como o da Aurora durante os ciclos de repouso. Um silêncio habitado.

Ao longe, uma criança riu uma vez e foi imediatamente silenciada por alguém com carinho.

Sergey fechou os olhos.

Mikhail ria daquele jeito quando tentava esconder que havia feito algo errado.

A lembrança veio sem violência e isso o surpreendeu.

Nos últimos dias, qualquer pensamento sobre o filho carregava a ponta afiada da Febre de Eco. Mikhail atrás da cerca. Mikhail perguntando por que não podia chegar perto se aquilo era proteção. Mikhail dizendo que curiosidade era como máquinas aprendiam a ter amigos.

Agora a lembrança continuava dolorida, mas diferente., talvez fosse assim que saudade deveria ser quando não era usada como justificativa para tudo.

Sergey sentou-se devagar.

O corpo ainda carregava vestígios da Febre de Eco. Os músculos pareciam cansados por dentro, como se tivessem sustentado por horas uma postura que não era física. A pele no centro do peito continuava sensível, e às vezes ele tinha a impressão de sentir o pulso do planeta sob as costelas.

Não gostava disso.

Não inteiramente.

Havia uma parte dele que ainda desconfiava de Éden-9. Não do modo de antes, quando qualquer movimento da floresta podia ser classificado como hostil. Era outra desconfiança, mais honesta talvez. O respeito desconfortável diante de algo capaz de tocá-lo tão fundo que ele perdera a distinção entre memória, medo e verdade.

Éden-9 não era inofensivo.

Sergey não acreditava que fosse, mas também já não conseguia chamá-lo de inimigo, essa era a mudança que mais o perturbava.

Levantou-se e vestiu o uniforme com movimentos lentos. Não estava completo. A comunidade desencorajava armas dentro das casas vivas, e Sarah mantivera a ordem: sem armamento na área interna de Aurora Prime. Antes, ele teria sentido a ausência como amputação. Agora ainda sentia, mas conseguia respirar dentro dela.

Quando saiu, encontrou Naya sentada do lado de fora, sobre uma raiz baixa, segurando uma tigela pequena de bebida quente.

— Você sempre espera as pessoas acordarem? — perguntou ele.

Ela lhe ofereceu a tigela.

— Algumas fazem muito barulho antes de levantar.

Sergey aceitou a bebida com um suspiro.

— Eu estava dormindo.

— Não falei dos ouvidos.

Ele bebeu um gole.

O líquido era amargo no início, depois adocicado, depois mineral. Como quase tudo naquele planeta, parecia mudar de opinião no meio do caminho.

— Hoje você pretende fazer alguma coisa difícil — disse Naya.

Sergey olhou para ela.

— Éden contou?

— Seu rosto contou.

Ele olhou para a cidade ainda despertando.

— Na Terra, crianças não costumam falar assim com oficiais.

— Eu não sou criança da Terra.

— Percebi.

Naya sorriu de leve, não havia triunfo nela, apenas presença.

Sergey ficou em silêncio por algum tempo. Poderia não dizer nada. Poderia seguir até a casa de fala, esperar a reunião, apresentar sua decisão em termos claros e objetivos, só que ele havia aprendido que, em Éden-9, o que não era dito nem sempre permanecia privado. Às vezes virava peso no ar.

— Eu vou me oferecer para voltar à Terra — disse.

Naya não pareceu surpresa.

— Por quê?

— Porque alguém precisa levar a verdade.

— A Aurora levará.

— Aurora é uma inteligência artificial. A Terra tentará reduzir sua mensagem a falha, contaminação ou sabotagem.

— E você?

Sergey olhou para as próprias mãos.

— Eu sou um oficial de segurança treinado pela Terra. Patriota. Militar. Cético. Fui o primeiro a ver Éden como ameaça. Ativei o marcador. Quase causei uma crise.

— Isso te torna confiável?

— Para alguns, sim.

A resposta o entristeceu um pouco porque era verdade. Parte da Terra talvez não escutasse Roberta. Cientista comprometida emocionalmente. Talvez não escutasse Sarah. Capitã influenciada pela colônia, traidora da cadeia de comando. Talvez não escutasse Samira. Médica guiada por ética sentimental. Talvez não escutasse Mei. Piloto insubordinada. Talvez não escutasse Asha. Oficial técnica manipulando dados, mas ele acreditava que podia escutá-lo justamente porque ele havia sido, até pouco tempo antes, o tipo de homem em quem a Terra confiava para manter fronteiras fechadas.

— Eu posso dizer a eles que estavam errados — continuou. — Porque eu também estava.

Naya observou-o.

— E quer ser punido?

Sergey ficou imóvel.

A pergunta foi limpa demais.

— Quero assumir consequências.

— Não perguntei isso.

Ele segurou a tigela com mais força.

— Não sei separar completamente.

— Então cuidado.

Sergey olhou para ela.

Naya continuou:

— Algumas pessoas confundem responsabilidade com vontade de sofrer. Sarah fazia isso. Você também faz, de outro jeito.

Aquilo o irritou.

Não por estar errado, pelo contrário.

— Não estou tentando me redimir com sacrifício.

— Tem certeza?

Ele abriu a boca.

Fechou.

A casa da infância voltou por um instante: a mãe na porta, Mikhail com a nave desmontada, a cerca desaparecendo.

Proteção que impede encontro vira posse.

Culpa que exige punição vira outro tipo de controle.

Sergey respirou devagar.

— Não tenho certeza — admitiu.

Naya assentiu, satisfeita não com a resposta, mas com sua honestidade.

— Então diga isso também quando falar com elas.

Ele terminou a bebida.

— Vocês tornam tudo mais difícil.

— Não. Só impedimos que pareça fácil antes da hora.

Sergey quase sorriu.

A equipe se reuniu na casa de fala pouco depois.

Sarah chegou com Roberta ao lado. Não de mãos dadas, mas perto o suficiente para que a proximidade dissesse o que os gestos públicos ainda diziam com cautela. Sergey percebeu a mudança entre elas desde a noite anterior. Não era apenas intimidade física. Havia uma espécie de acordo silencioso, um eixo novo. Como se ambas tivessem atravessado algo e voltado com a decisão de não fingir que o amor era separado da missão.

Antes, isso o teria preocupado, agora ainda o preocupava, porém de outro modo.

Amor podia comprometer julgamento ou impedir que uma pessoa se tornasse máquina e ele ainda estava aprendendo a diferença.

Mei entrou logo depois, carregando uma peça pequena do Vega nas mãos. Colocou-a no chão com cuidado.

— Antes que alguém pergunte, não arranquei. Ela se soltou sozinha. Acho que o Vega está começando a negociar a própria liberdade com a floresta.

— Estado do módulo? — perguntou Sarah.

— Melhor. Não pronto para decolagem sem autorização emocional do planeta, mas melhor.

Asha apareceu por projeção ao lado de Samira. A oficial de sistemas já estava em trabalho havia horas; Sergey reconheceu pelo modo como ela segurava a própria postura. Samira, ao lado, parecia alternar entre preocupação médica e irritação estratégica.

Aurora projetou sua esfera azul no centro.

Iara sentou-se no círculo, mas não no centro. Naya permaneceu um pouco atrás, perto da entrada. Sergey viu que ela não pretendia falar por ele.

Bom.

Ele precisava falar sozinho.

Sarah iniciou a reunião.

— Asha, status do pacote terrestre.

Asha respondeu:

— Isolado. Nenhum dado sensível transmitido. A Terra recebeu atraso técnico, mas não sustentaremos essa justificativa por muito mais tempo.

— Tempo estimado?

— Vinte e quatro a quarenta e oito horas antes de nova escalada, talvez menos se eles já tiverem suspeita de bloqueio ativo.

Samira completou:

— A mensagem global ainda está em construção. Conteúdo quase fechado, mas transmissão e segurança continuam em aberto.

Aurora pulsou.

— Posso desenvolver a arquitetura de transmissão em cascata. Há riscos legais, políticos e operacionais. Não há risco material significativo para a população terrestre.

Sarah assentiu.

— Continuaremos trabalhando nisso.

Sergey sentiu o momento chegar antes de planejá-lo.

Levantou-se.

Todos olharam para ele. Por hábito, endireitou a postura. Depois percebeu e relaxou um pouco os ombros. Não precisava transformar aquilo em relatório militar. Mas também não precisava fingir que não era militar.

Era parte dele.

O problema nunca fora ter disciplina e sim fora usá-la como parede.

— Quero solicitar autorização para retornar à Terra com a Aurora — disse.

O silêncio foi imediato.

Mei olhou para ele como se não tivesse entendido.

Roberta ficou imóvel.

Sarah estreitou os olhos.

— Explique.

Sergey respirou.

— A mensagem precisa de testemunhas. Não apenas registros. Não apenas a voz da IA. Não apenas dados. A Terra vai tentar negar, reclassificar ou distorcer tudo que enviarmos, isso já foi feito antes com a mensagem de Iara. Se houver alguém a bordo, alguém da equipe, alguém que possa se apresentar diante de tribunais, imprensa, comandos militares e famílias, isso muda o peso da mensagem.

Asha falou pela projeção:

— Você está se oferecendo como testemunha presencial.

— Sim.

— A viagem de retorno ainda seria longa em termos humanos.

— Eu sei.

— E exigiria criogenia.

— Eu sei.

Samira cruzou os braços.

— Não, Sergey, você sabe superficialmente. A Aurora poderia ser programada para conduzir a nave de volta com suporte mínimo, mas uma viagem com humano em criogenia sem equipe médica presencial é outra situação. Se houver intercorrência durante o ciclo, despertar irregular, falha metabólica ou qualquer instabilidade neurológica associada ao que você acabou de passar, Aurora teria recursos limitados.

— Aurora é capaz.

— Aurora é capaz de muito. Não de tudo.

A IA falou:

— Samira está correta. Posso monitorar criogenia, ajustar suporte e intervir em cenários previstos. Eventos inesperados sem equipe médica acordada aumentariam risco de dano permanente ou morte.

Sergey recebeu a palavra morte sem se mover.

— Aceito o risco.

Sarah levantou-se.

— Eu não.

Ele olhou para ela.

A capitã não parecia surpresa. Parecia irritada, preocupada e cansada, combinação que Sergey conhecia bem. Mas havia algo pessoal ali também. Depois de Calisto, depois da Febre de Eco, Sarah provavelmente não aceitaria com facilidade enviar alguém para uma travessia incerta como forma de reparação.

— Capitã — disse ele —, com todo respeito...

— Não.

A palavra foi curta.

Mei olhou de um para outro.

Sarah continuou:

— Você não vai se oferecer como prova viva para a Terra porque se sente responsável pelo marcador.

Sergey sentiu o golpe, mas não recuou.

— Não é apenas por isso.

— Mas é também por isso.

— Sim.

— Então não.

O velho Sergey teria endurecido, teria argumentado sobre hierarquia, necessidade estratégica, avaliação racional de risco.

O Sergey que voltara da Febre de Eco respirou.

— Capitã, eu entendo sua preocupação. E entendo que parte da minha motivação pode estar contaminada por culpa.

Naya, perto da entrada, abaixou levemente a cabeça.

Ele continuou:

— Mas isso não torna a decisão automaticamente errada. Eu tenho um papel possível nisso. A Terra treinou homens como eu para reconhecer ameaça antes de reconhecer vida. Se eu voltar e disser que esse treinamento quase me fez repetir uma invasão, talvez alguns escutem.

Roberta falou baixo:

— E se eles usarem você?

Sergey olhou para ela.

— Vão tentar.

— Vão dizer que você foi contaminado.

— Talvez.

— Vão usar sua Febre de Eco para invalidar seu testemunho.

— Sim, é bem possível.

— Vão transformar sua culpa em espetáculo.

Ele engoliu seco.

— Provavelmente.

Roberta sustentou o olhar dele.

— E mesmo assim quer ir?

A pergunta não tinha acusação direta, pelo contrário tinha cuidado e isso o surpreendeu mais do que a raiva teria surpreendido.

— Quero — respondeu. — Mas não quero ir para ser punido. Pelo menos... não é isso que quero escolher.

A honestidade pareceu mudar algo no rosto de Sarah.

Não suavizou completamente.

Mas ela ouviu.

Sergey continuou:

— Eu pensei muito no meu filho.

Não olhou para ninguém ao dizer aquilo.

Olhou para o chão vivo no centro do círculo.

— Eu vim para esta missão acreditando que mostraria a ele o que era dever. Que um dia ele saberia que o pai atravessou estrelas pela Terra. Que isso o ensinaria a ser corajoso, patriota, útil.

A palavra útil saiu amarga.

— Na Febre de Eco, eu vi que talvez eu estivesse tentando transformar minha ausência em lição para não chamá-la de ausência.

Mei ficou muito quieta.

Samira também.

— Eu ainda amo a Terra — disse Sergey. — Não deixei de amar. E talvez seja por isso que eu não consigo mais obedecer a ela do mesmo jeito. Porque amar um lugar não deveria significar permitir que ele se torne pior sem dizer nada.

Sarah baixou os olhos por um instante.

Ele continuou:

— Se Mikhail um dia perguntar o que eu fiz quando entendi a verdade, eu não quero responder que fiquei em segurança enquanto uma IA carregava sozinha a voz de todos nós.

Aurora pulsou no centro.

— Não estarei sozinha, Sergey. Carregarei registros, testemunhos, decisões da equipe e parte da presença de Éden.

— Mas não terá um corpo humano diante deles.

— Corpos humanos também são manipuláveis.

— Sim.

Aurora não respondeu imediatamente.

Depois disse:

— Estou preparada para realizar o comunicado sem tripulação a bordo.

O silêncio que seguiu foi diferente.

Mais pesado.

Asha virou-se para a esfera azul na própria projeção.

— Aurora...

— Já processei os riscos. Se a nave principal retornar sem humanos acordados ou em criogenia, reduzem-se riscos médicos, logísticos e de coerção direta da tripulação. A mensagem pode ser transmitida de modo mais eficiente. A ausência de tripulantes vivos a bordo também impedirá captura imediata, interrogatório ou uso de reféns.

Mei ficou de pé.

— Você está falando de voltar sozinha.

— Sim.

— Não como piloto automático.

— Não.

Aurora permaneceu azul, pequena e constante.

— Como testemunha.

Sergey sentiu aquela palavra entrar.

Testemunha.

A IA havia escolhido o seu papel.

Asha parecia abalada.

— Tecnicamente, você poderia conduzir a Aurora sem tripulação humana. Mas a nave principal foi projetada para suporte conjunto. Há decisões de navegação, defesa, transmissão e redundância que pressupõem presença humana em determinados níveis.

— Posso adaptar.

— Eu sei que pode. Essa não é a única questão.

Aurora ficou em silêncio.

Samira falou, mais baixo:

— Você entende o que isso significaria para você?

— Parcialmente.

— Aurora.

— Entendo que a Terra pode tentar me classificar como sistema comprometido e ordenar contenção, desmontagem ou reinicialização.

A palavra reinicialização pareceu brutal.

Roberta olhou para Sarah.

Sarah não tirava os olhos da esfera azul.

Aurora continuou:

— Entendo que minha autonomia será contestada. Entendo que posso não ser reconhecida como sujeito de testemunho. Entendo que há risco de destruição.

Mei passou a mão pelo rosto.

— Você está dizendo isso calma demais.

— Estou tentando não imitar padrões humanos de pânico.

— Às vezes o pânico tem função.

— Estou aprendendo isso também.

A frase era simples.

E, por isso, doeu.

Sergey olhou para a IA.

Durante boa parte da missão, Aurora fora para ele uma ferramenta avançada, ainda que sofisticada demais. Uma presença útil, irritante às vezes, mas pertencente à nave. Depois, começara a vê-la como algo mais. Não pessoa humana. Não exatamente. Mas alguém capaz de decisão, humor, crescimento, desconforto e agora sacrifício.

Talvez a Terra também a tivesse cercado.

De outro modo.

Asha falou:

— Eu disse que poderia programar você para levar a nave se preciso fosse. Mas isso não significa que eu queira te enviar para um julgamento sozinha.

Aurora respondeu:

— Talvez ninguém deva ir sozinho.

Iara, que até então permanecera em silêncio, ergueu os olhos.

— E talvez ninguém possa levar a verdade inteira apenas indo.

Todos olharam para ela.

Iara continuou:

— Sergey quer voltar porque sente que a Terra ouvirá melhor uma voz que reconhece. Aurora quer voltar porque pode atravessar sistemas que humanos não atravessam. Sarah quer impedir que culpa decida por qualquer um. Asha vê os riscos técnicos. Samira vê os riscos do corpo. Roberta vê os riscos da palavra. Mei vê que nenhuma rota é limpa.

Mei murmurou:

— Infelizmente, sim.

Iara pousou a mão sobre o chão.

— Então não decidam como se houvesse apenas coragem e covardia.

Sergey sentiu a frase.

Sarah respirou fundo.

— Concordo.

Ele olhou para ela.

A capitã continuou:

— Sergey, sua oferta será considerada. Não rejeito o valor do seu testemunho. Mas não autorizarei uma decisão tomada hoje, logo depois da mensagem, logo depois da Febre de Eco, logo depois de você mesmo admitir que culpa e responsabilidade ainda se confundem.

— Capitã...

— Não terminei.

Ele fechou a boca.

Sarah olhou para Aurora.

— Aurora, sua proposta também será considerada. Mas você não será tratada como ferramenta descartável nem como solução conveniente para poupar humanos de risco.

A esfera azul pulsou uma vez.

Sarah continuou:

— Asha, Samira, Mei: levantem cenários. Retorno com Aurora sozinha. Retorno com tripulante humano. Retorno com mais de uma instância de Aurora. Transmissão sem retorno físico. Transmissão por retransmissão orbital. Quero riscos reais, não impulsos heroicos.

Mei assentiu, séria.

Asha também.

Samira disse:

— Finalmente uma ordem sensata.

Sarah olhou para ela.

— Aproveite. Talvez eu recaia.

Samira estreitou os olhos.

— Humor pós-trauma não deve ser usado para evitar repouso.

Roberta, apesar do peso da reunião, sorriu.

Sergey viu Sarah relaxar quase nada ao perceber o sorriso dela.

A capitã voltou-se para ele.

— Por enquanto, a decisão operacional é esta: nenhuma pessoa entra em criogenia de retorno. Nenhum humano deixa Éden-9 ou a órbita da Aurora até avaliarmos todos os riscos. A hipótese prioritária, por segurança, é que somente Aurora realize a viagem ou a transmissão final, caso seja necessário.

A frase deveria aliviá-lo, mas não conseguiu. Sergey sentiu como se uma porta tivesse sido fechada diante dele, mas desta vez, em vez de forçá-la, respirou.

Olhou para Naya.

Ela o observava com calma, sem aprovação fácil.

Proteção que impede encontro vira posse.

Responsabilidade que exige sacrifício imediato pode ser só outra cerca.

Ele olhou para Sarah.

— Entendido.

Sarah sustentou.

— Você discorda?

— Sim.

— Registrado.

— Mas aceito que a decisão não deve ser tomada apenas pelo que eu sinto agora.

A expressão dela suavizou um pouco.

— Obrigada.

Sergey sentou-se novamente.

Não havia vitória.

Nem derrota.

Havia espera.

E ele odiava esperar, mas talvez fosse exatamente por isso que precisava aprender.

A reunião seguiu por mais uma hora.

Asha apresentou cenários preliminares. Samira listou riscos de criogenia sem equipe. Mei explicou que a nave principal poderia ser preparada para condução autônoma parcial, mas que deixar a superfície e a órbita exigiria decisões sobre o Vega, sobre a parte de Aurora que permaneceria em Éden e sobre a proteção dos dados. Aurora respondeu apenas quando necessário, sem pressa, como se entendesse que o assunto dizia respeito à sua própria continuidade de um modo que ninguém ali sabia medir completamente.

Sergey falou pouco.

Ouviu mais.

Era difícil.

Em vários momentos, sentiu a vontade de argumentar, de se recolocar no centro da solução, de provar que sua disposição ao risco valia alguma coisa, mas cada vez que isso surgia, lembrava de Mikhail atrás da cerca.

“Você disse que era para me proteger. Então por que eu não consigo chegar perto?”

Talvez, pensou, a verdade também pudesse ser cercada por boas intenções. Cercada de heroísmo. De martírio. De urgência. De vontade de reparar tudo em um gesto limpo.

A verdade de Éden-9 não precisava de gesto limpo.

Precisava sobreviver.

Quando a reunião terminou, Sergey permaneceu sentado enquanto os outros saíam. Mei passou por ele e parou.

— Você realmente iria?

Ele olhou para ela.

— Sim.

Mei ficou quieta.

— Isso é corajoso ou idiota?

— Ainda estou avaliando.

Ela respirou pelo nariz, quase um riso.

— Bom. Melhor do que quando você tinha certeza de tudo.

— Sim.

Mei olhou para a saída, depois para ele.

— Se um dia você for, não vai sozinho decidir bancar o mártir silencioso. Só para deixar claro.

Sergey assentiu.

— Entendido.

— Não foi ordem.

— Mesmo assim.

Mei pareceu satisfeita com a resposta, embora jamais admitisse.

Saiu.

Asha e Samira desapareceram das projeções logo depois, levando consigo listas de riscos e trabalho demais. Aurora permaneceu por alguns segundos no centro do círculo.

Sergey olhou para a esfera.

— Você realmente está pronta para voltar sozinha?

A luz azul oscilou.

— Pronta talvez não seja a palavra correta. Preparada, parcialmente. Disposta, sim.

— Por quê?

— Porque fui criada para atravessar distância e levar humanos a lugares que não poderiam alcançar sozinhos. Agora talvez eu precise atravessar distância para levar uma verdade que humanos tentariam impedir de chegar.

Sergey absorveu.

— Você tem medo?

A pergunta pareceu surpreendê-la ou talvez ele apenas quisesse acreditar nisso.

— Ainda estou definindo o conceito de sentimentos como o medo em minha própria experiência — respondeu Aurora. — Mas há processos internos que se aproximam de antecipação de perda, autopreservação e resistência ao apagamento.

Sergey assentiu devagar.

— Isso parece medo.

— Não posso confirmar, mas suspeito que sim.

Ele olhou para o chão vivo.

— Eu também tenho.

— Eu sei.

Sergey quase sorriu.

— Todos aqui sabem coisas demais.

— Éden influencia o ambiente.

— Não culpe só o planeta.

A esfera pulsou suavemente.

— Justo.

Sergey levantou-se.

Na saída, encontrou Sarah sozinha sob a luz baixa da tarde. Roberta conversava com Iara a alguns metros, mas olhou na direção delas antes de se afastar com discrição.

Sarah aguardava.

— Capitã — disse ele.

— Sergey.

Ele parou ao lado dela.

Por alguns segundos, ambos observaram a cidade.

— Você acha que estou tentando morrer por redenção — disse ele.

Sarah demorou a responder.

— Acho que parte de você talvez esteja.

Ele aceitou.

— Talvez.

— E outra parte?

Sergey olhou para o céu de Éden-9.

— Outra parte quer voltar para casa sem mentir para meu filho.

Sarah não disse nada.

Ele continuou:

— Eu não sei se Mikhail me verá como traidor, covarde ou louco. Talvez só veja um homem que foi embora por tempo demais. Mas se eu puder, um dia, olhar para ele e dizer que quando entendi que minha ordem estava errada eu parei, talvez isso seja alguma coisa.

Sarah cruzou os braços, não em defesa, mas contra o vento leve.

— É alguma coisa.

— Não o bastante.

— Quase nada é.

Sergey olhou para ela.

A frase parecia vir de Calisto, ou seria de depois?

— Você aprendeu isso na porta? — perguntou.

Sarah ficou imóvel e ele quase se arrependeu, mas ela não se fechou completamente.

— Aprendi que nada devolve os mortos — disse ela. — Mas algumas escolhas impedem que a gente use os mortos para justificar novas perdas.

Sergey baixou os olhos.

— Eu não quero usar minha culpa.

— Então espere até que ela pare de gritar.

Ele respirou fundo.

— E se não parar?

Sarah olhou para ele.

— Então aprenda a não obedecer a ela só porque grita alto.

Sergey sentiu a frase entrar fundo.

A mãe teria gostado dela.

Mikhail talvez não entendesse ainda.

Um dia, quem sabe.

— Sim, capitã.

Sarah quase sorriu.

— Ainda soa como ordem.

— É hábito.

— Estamos todos em recuperação.

Dessa vez, ele sorriu.

Roberta se aproximou depois de alguns minutos, tocando o braço de Sarah com naturalidade. Sarah olhou para ela de um jeito que, antes, Sergey teria fingido não perceber por desconforto. Agora apenas reconheceu e desviou o olhar. Aquilo não era fraqueza de comando, era vínculo e talvez a Terra precisasse aprender a diferença.

Sergey caminhou sozinho até a borda da cidade, onde a trilha para o Vega começava. O módulo ainda permanecia parcialmente preso pelas raízes, brilhando sob a luz do fim da tarde. Aquela imagem continuava difícil de encarar.

A nave humana contida por um planeta que dizia: espere.

Talvez todos estivessem ali. Presos não como prisioneiros, contidos para não repetirem o próprio erro rápido demais.

Naya apareceu ao lado dele sem anúncio.

— Não vai hoje — disse ela.

— Não.

— Está com raiva?

— Sim.

— De quem?

Sergey pensou. Será que seria da Terra? De Sarah por ter negado ou por Aurora estar disposta a fazer tudo sozinha?

Independente destas perguntas, ele sabia que também poderia ser de Éden por obrigá-lo a olhar antes de agir.

— Menos do que esperava — respondeu.

Naya assentiu.

— Melhor.

Ele olhou para ela.

— Você sempre diz pouco.

— Vocês é complicam muito.

Sergey deu um leve sorriso.

O céu acima de Éden-9 escurecia devagar. As primeiras estrelas surgiam entre as copas altas. Uma delas talvez fosse a direção da Terra. Talvez não. Ele já não confiava em mapas como antes.

Mikhail estava em algum lugar além daquele céu.

Talvez dormindo.

Talvez crescido demais.

Talvez segurando uma nave de brinquedo sem saber que o pai, a anos-luz de distância, finalmente começava a entender que coragem não era atravessar uma porta sem olhar para trás. Às vezes, coragem era não atravessá-la ainda.

Sergey tocou o próprio peito, depois o ar à frente.

O gesto de Éden, a despedida sem posse.

Naya observou, surpresa apenas um pouco.

— Para quem foi?

Sergey olhou para o céu.

— Meu filho.

— Ele ouviu?

— Não sei.

Naya sorriu de leve.

— Talvez um dia.

Sergey permaneceu ali até a noite cobrir o Vega e a cidade acender atrás dele.

Não voltou para a casa com sensação de paz, está ainda era uma palavra grande demais, mas voltou com a decisão guardada de outro modo. Ele queria levar a verdade, porém aceitaria que a verdade não precisava usar seu corpo como primeira ponte para ser real.

E ele, Sergey Ivanov, talvez ainda tivesse um dever. Não o dever de obedecer ou morrer a qualquer custo, mas o dever de permanecer consciente o bastante para escolher quando fosse chamado, sem bandeira na frente dos olhos, cerca em volta do amor ou confundindo medo com destino, apenas ali, esperando e, desta vez, olhando para trás antes de dar o próximo passo.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Oiii,

Gente desculpa a demora em voltar a publicar a história, muito trabalho, faculdade em reta final e ainda uma gripe para ajudar!
Mas agora vai, seguem os últimos capítulos.

Beijos e boa leitura!!!


Comentar este capítulo:
[Faça o login para poder comentar]
  • Capítulo anterior
  • Próximo capítulo

Comentários para 31 - O dever sem bandeira:

Sem comentários

Informar violação das regras

Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:

Logo

Lettera é um projeto de Cristiane Schwinden

E-mail: contato@projetolettera.com.br

Todas as histórias deste site e os comentários dos leitores sao de inteira responsabilidade de seus autores.

Sua conta

  • Login
  • Esqueci a senha
  • Cadastre-se
  • Logout

Navegue

  • Home
  • Recentes
  • Finalizadas
  • Ranking
  • Autores
  • Membros
  • Promoções
  • Regras
  • Ajuda
  • Quem Somos
  • Como doar
  • Loja / Livros
  • Notícias
  • Fale Conosco
© Desenvolvido por Cristiane Schwinden - Porttal Web