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A Promessa do Vale por Lady Texiana

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Palavras: 1401
Acessos: 146   |  Postado em: 18/07/2026

Prólogo - Ecos do Futuro

 

O vento do final de tarde que soprava pelo Vale do Loup na primavera de 1980 carregava o mesmo cheiro de terra molhada e capim que seus antepassados haviam registrado em diários amarelados, mas a música de fundo da planície havia mudado. O som distante dos cascos de mulas e do estalo de eixos de madeira fora substituído pelo zumbido grave e intermitente de um motor a diesel de um trator John Deere que operava nas pastagens do sul, e, de vez em quando, pelo ruído surdo dos pneus de alguma picape Ford cruzando a rodovia asfaltada que agora cortava os limites leste da propriedade.

Ainda assim, dentro daquela cozinha de fazenda, o tempo parecia possuir uma espessura diferente, uma densidade que resistia à modernidade dos eletrodomésticos, da fórmica azul escuro sob o fundo branco dos armários e ao chiado do rádio de pilha que transmitia as notícias da inflação crescente do governo Carter, com a economia estadunidense agravada fortemente pela crise do petróleo de 1979, enfrentava um momento difícil, entremeados pelos mais recentes sucessos musicais do meio oeste.

De pé diante da janela de vidro duplo, que emoldurava a vastidão das colinas ondulares do Nebraska, estava Jane Catherine Brown, cujo nome era em homenagem à batedora lendária que dera origem à dinastia daquela terra. Aos trinta e dois anos, ela carregava a herança daquela linhagem que se misturara ao chão do vale ao longo de mais de um século. Tinha exatamente um metro e sessenta e cinco de altura, uma estatura que lhe permitia mover-se com agilidade entre os currais e os escritórios. Seus cabelos castanhos, espessos e cortados na altura dos ombros para facilitar o trabalho diário sob o sol, emolduravam um rosto de maxilar firme, onde se destacavam olhos de um castanho claro e translúcido que, sob a luz direta da tarde, ganhavam matizes quase verdes, diziam que herdados da professora de Boston que um dia desafiara as cercas da costa leste, embora soubesse que a linhagem era afetiva, não de sangue.

Jane segurava uma caneca de louça com café preto, deixando que o vapor aquecesse seu rosto enquanto observava a sombra das nuvens se estender pelas pastagens. Ela vestia uma camisa de brim azul-escuro com as mangas dobradas até os antebraços e calças jeans desbotadas pelo uso e pelas lavagens sucessivas. Seus dedos, embora limpos, traziam a marca típica de quem passava os dias manejando cercas de arame farpado, aplicando vacinas no gado e revisando os livros de contabilidade que pareciam queimar suas noites insones.

Devagar, ela desviou o olhar da imensidão externa e o fixou no pequeno altar de memórias que ocupava o canto da parede de madeira de carvalho da cozinha. Ali, protegido por uma moldura de nogueira escura esculpida à mão, repousava um retrato em tom de sépia, tirado em algum momento nos últimos anos da década de 1870 por um fotógrafo itinerante com sua câmera de fole, que passara pela estação ferroviária da pequena cidade.

A imagem era um documento de resistência. À esquerda, sentada em uma cadeira de espaldar alto com uma dignidade que o tempo não conseguira apagar, estava Judith Brown. Ela vestia um vestido de lã escura com gola alta, os cabelos castanhos presos em uma trança intricada sobre o ombro, os olhos fitando a lente com a altivez de quem encontrara a sua verdadeira vocação nas planícies. De pé ao seu lado, com uma postura ereta e o peso do corpo distribuído entre os dois pés, estava Jane Catherine, a Kitty.

A lendária batedora, descrita nos livros de história como heroína e que na imagem usava suas tradicionais calças de couro, uma camisa de flanela grossa e, cruzando diagonalmente o quadril, um cinturão de couro cru afivelado onde se alojavam os cabos de marfim de dois revólveres Colt .45-as mesmas armas que haviam garantido a paz e o sustento daquela família em tempos onde a lei era medida pelo alcance do chumbo. Sentada aos pés das duas mulheres, sobre um tapete de pele de bisão, estava uma criança de uns 10 anos de idade, uma menina de cabelos claros e vestido estampado que olhava compenetrada e solene para a câmera, segurando uma boneca de pano. Era Ruth, a garotinha adotada em um beco escuro de um Saloon, a bisavó de Jane, a escolha de vida que garantira que o rancho do Vale do Loup permanecesse vivo por gerações.

Jane estendeu os dedos calejados e tocou levemente o vidro que cobria o retrato, parando sobre a figura de Kitty. Cento e dez anos haviam se passado desde que aquelas duas mulheres haviam decidido criar raízes na terra gelada. O rancho prosperara, expandira-se, sobrevivera à Grande Depressão, a duas guerras mundiais e às secas devastadoras do Dust Bowl que haviam transformado também o Nebraska em um deserto de poeira nos anos de 1930.

Olhou para a criança. Aquela Ruth crescera, tornara-se uma criadora respeitada, tivera seus próprios filhos e passara adiante o segredo daquela terra: a lealdade ao chão e às suas próprias naturezas.

No entanto, o ano de 1980 trouxera um tipo diferente de tempestade para o vale, uma que não podia ser combatida com o disparo certeiro de um Colt ou com o isolamento de uma cabana de pinheiro durante a nevasca.

Jane virou o corpo e olhou para o balcão de fórmica ao lado da pia. Sobre a superfície limpa, iluminada pela claridade pálida que entrava pela janela, repousava uma carta aberta, o papel timbrado exibindo o logotipo em azul-escuro do Banco do Meio Oeste. As letras datilografadas com fita preta eram frias e definitivas. Tratava-se de uma notificação de hipoteca vencida, um aviso de execução de dívida decorrente de três anos consecutivos de juros altos, custos elevados com o maquinário moderno e a queda acentuada no preço do gado de corte no mercado nacional. O banco estava cobrando o preço do progresso, e o prazo para o pagamento da última parcela de renovação do crédito terminaria em menos de trinta dias. Se os dólares não fossem depositados na agência da cidade, a terra, aqueles dois cento de acres mais os trezentos acres comprados ao longo das décadas de expansão do rancho, que Kitty e Judith haviam defendido e construído com tanto afinco seria levada a leilão público.

A ironia da situação não escapava a Jane. Seus antepassados haviam derramado sangue para manter o governo e os especuladores longe daquelas pastagens; o dinheiro obtido como batedora do exército da União salvara o rancho inicial e depois, as economias e a administração rigorosa, o haviam salvo outras vezes das hipotecas. Agora, mais de um século depois, o sistema financeiro novamente usava canetas e contratos assinados para sufocar a nova administração do rancho.

Ela deu um longo gole no café, sentindo o amargor do grão queimar sua língua. Jane era a única herdeira daquela estrutura. Sua mãe havia falecido quando ainda era um bebê de colo e seu pai falecera dois anos antes, deixando-a sozinha no comando das terras, e a responsabilidade de honrar o nome inscrito na caixa de correio da porteira principal pesava sobre seus ombros como o pesado casaco de bisão que ainda guardavam no baú do sótão.

- Elas não desistiram quando a neve cobriu as janelas - Jane sussurrou para o silêncio da cozinha, os olhos castanhos claros voltados novamente para o retrato na parede. - E eu não vou entregar este vale para um bando de engravatados de Omaha sem lutar até o último palmo de terra.

Ela caminhou até o balcão, pegou a carta da hipoteca e a dobrou com movimentos precisos, guardando-a no bolso traseiro de sua calça jeans. Em seguida, pegou o chaveiro da picape que estava sobre a mesa de jantar e caminhou em direção à porta dos fundos.

Ao abrir a porta de madeira, o vento da primavera bateu direto em seu rosto, agitando seus cabelos castanhos e trazendo o som distante do gado pastando nas colinas. Jane Catherine ajustou os olhos à claridade do fim de tarde, pisou firme no chão de terra e caminhou em direção aos currais. A história do Vale do Loup não havia terminado em 1870; ela estava apenas recomeçando, cento e dez anos depois, e o sangue da batedora e da professora ainda corria forte naquelas terras e nas veias daquela mulher que agora se preparava para enfrentar a modernidade e os desafios com a mesma coragem rústica de suas origens.

 

Fim do capítulo


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