Capitulo 2 - O Valor da Terra
A lufada de vento que varreu o pátio poeirento do Vale do Loup trazia o calor típico do final da primavera e início do verão, um prenúncio nítido de uma estação que prometia ser seca e quente, misturado ao aroma de feno antigo, poeira e esterco que Jane Catherine Brown conhecia desde o dia em que dera seus primeiros passos. Ela fechou a pesada porta de madeira da casa principal atrás de si. O rangido das dobradiças de ferro, que seu pai prometera lubrificar tantas vezes antes de partir, ecoou no silêncio do alpendre. Jane ajustou o chapéu de feltro surrado na cabeça, puxando a aba para baixo para proteger os olhos da claridade do final de tarde.
Ela parou por um instante no topo dos degraus de madeira tratada, respirando o ar abafado que subia da planície. A casa parecia grande e silenciosa demais agora. Quase vazia. Desde que seu pai falecera, a propriedade inteira adquirira uma espécie de espera estática, como se cada tábua, cerca e colina estivesse esperando para ver se Jane seria capaz de manter tudo de pé ou se sucumbiria sob o peso do legado familiar. Agora, cada centavo, cada cabeça de gado Hereford e cada palmo de terra dependiam exclusivamente de suas mãos ásperas de trabalho.
A passos firmes, suas botas de couro batiam contra a terra batida e seca enquanto ela cruzava o pátio central. O sol de Nebraska não tinha piedade, mesmo àquela hora do dia; o solo sob seus pés exibia pequenas rachaduras que clamavam pela chuva que o horizonte teimava em esconder. Jane caminhou em direção ao celeiro principal, uma estrutura monumental de madeira escura e telhado de zinco que dominava o centro operacional do rancho. A transição da luz dourada do final de tarde para a penumbra do enorme galpão ofereceu um alívio imediato para seus olhos e para a pele exposta ao calor acumulado do dia. O interior do celeiro cheirava a alfafa seca, couro curtido e o calor animal reconfortante dos cavalos alojados nas baias do fundo.
Lá dentro, ela encontrou Hank. O velho capataz estava encostado na divisória de madeira de uma das baias intermediárias, limpando meticulosamente uma sela de montaria com sabão de sela e um pedaço de feltro desgastado. Hank era uma instituição no Vale do Loup. Ele trabalhava com a família Brown desde a época em que o pai de Jane, ainda um rapazinho obstinado e cheio de sonhos grandiosos, tentava reerguer o rancho após anos difíceis. Os sulcos profundos no rosto de Hank, esculpidos por décadas de sol a pino e invernos implacáveis, pareciam ainda mais severos do que o habitual sob a luz difusa que entrava pelas frestas das tábuas. Ele mal ergueu os olhos quando Jane se aproximou, continuando o movimento circular e ritmado de sua mão calejada sobre o couro. Para Jane, que aprendera a ler o velho capataz antes mesmo de aprender a ler os relatórios de mercado de compra e venda de gado, aquele silêncio obstinado era o primeiro sinal de uma tempestade iminente.
- Tarde, Hank - cumprimentou Jane, aproximando-se sem pressa e ao apoiar os cotovelos na baia de madeira ao lado, observando o trabalho dele. - A bezerrada do pasto sul já foi vacinada? Os meninos conseguiram terminar antes do sol esquentar demais hoje?
Hank parou o movimento por um breve segundo, apenas o suficiente para cuspir de lado na palha seca do chão, antes de retomar o polimento com a mesma lentidão calculada.
- Tarde, Jane - a voz dele saiu grossa, arrastada pelo fumo de corda que ele mastigava quase constantemente. - Os garotos terminaram o serviço hoje bem cedo, sim. O gado está limpo e seguro no pasto de transição. Mas vou te dizer uma coisa... não é com o calendário de vacinação que ando perdendo o meu sono ultimamente, menina.
Jane franziu a testa, endireitando a postura e cruzando os braços sobre o peito. Ela conhecia aquele tom de voz. Era o tom que Hank usava quando o inverno estava para chegar mais cedo ou quando o preço da arroba do gado ameaçava despencar demais.
- O que houve, Hank? - perguntou ela, mantendo a voz calma, embora um sinal de alerta já tivesse começado a piscar em sua mente. - Algum problema com a bomba de captação do poço do setor oeste? Ou as cercas da divisa norte voltaram a ceder e nosso gado andou se espalhando de novo?
- Quem me dera se fosse só madeira podre ou cano entupido - Hank respondeu, finalmente interrompendo o trabalho. Ele jogou o pano de feltro sobre o pomo da sela e apoiou os braços cruzados na divisória, olhando diretamente para Jane com seus olhos cinzentos e cansados. - É sobre a partilha, Jane. Sobre aquela velha herança e a maldita divisão que seu pai e seu tio Tom fizeram lá atrás, quando o seu avô se foi. Eu estive pensando... e, para ser sincero, andei ouvindo umas conversas bem desagradáveis na cidade ontem, quando fui ao armazém buscar o sal mineral e algumas ferraduras novas.
Jane sentiu um nó familiar e incômodo apertar o estômago. A menção ao tio Tom e à divisão das terras era sempre um assunto espinhoso, uma cicatriz nunca totalmente curada na história da família.
- O que tem a partilha, Hank? Isso foi resolvido há anos. Cada um ficou com a sua parte e seguimos em frente.
- Resolvido no papel, talvez - Hank rebateu, a amargura evidente em seu tom de voz. - Mas você sabe tão bem quanto eu que as confusões de família, os ressentimentos e a amargura não se importam com papel timbrado de cartório. Aqueles acres extras que o seu tio Tom exigiu na divisão... aquela faixa de terra que sobe a encosta e margeia todo o limite norte. Jane, aquela terra é o coração pulsante do Vale do Loup. É ali que fica a nascente principal e o acesso total ao riacho que desce para abastecer todas as nossas pastagens no verão. Sem aquela água correndo livre pelos nossos canais, o nosso gado morre de sede antes mesmo de o primeiro floco de neve de dezembro cair no chão.
- Eu sei perfeitamente o que tem naqueles poucos acres, Hank - Jane respondeu, tentando manter a racionalidade que sua formação e atual situação exigia, embora a preocupação estivesse batendo forte contra seu peito. - Mas o acordo foi feito dentro da lei. Meu pai ficou com a sede do rancho, com as melhores instalações e com a maior parte das pastagens planas para o pastoreio de verão. O tio Tom ficou com a encosta e a faixa da água porque era a parte dele por direito. Meu pai aceitou porque... bem, porque eles não conseguiam ficar na mesma sala por cinco minutos sem puxar uma arma um para o outro. Foi o preço da paz.
- Um preço alto demais. E um acordo estúpido feito por dois homens teimosos que se odiavam mais do que respeitavam a própria terra - Hank retrucou, sem meias palavras, expressando a frustração de quem testemunhara a disputa de perto. - Seu pai sempre foi um otimista incorrigível quando se tratava do irmão. Ele sempre achou que o Thomas nunca teria coragem de vender aquela faixa de terra para alguém de fora. Ele dizia: "Hank, o Tom pode ser um bastardo orgulhoso, mas ele sabe que o rancho precisa daquela água. Cedo ou tarde, quando ele precisar de dinheiro ou se cansar de brincar de homem da cidade, aquela terra volta para nós". Mas o Tom nunca deu a mínima para este vale, Jane. Nunca.
Hank fez uma pausa, retirando o chapéu para coçar a cabeça calva antes de recolocá-lo com um suspiro pesado.
- Ele cortou relações com seu pai há mais de vinte anos, mudou-se para a Costa Oeste e nunca mais olhou para trás. Você sabe disso melhor do que ninguém. Não adianta tentar ligar, implorar por ajuda ou mandar carta registrada. Aquele homem morreu para esta família muito antes de se mudar para Seattle. Nós estamos sozinhos nessa.
Jane desviou o olhar para as vigas de madeira do teto do celeiro. Ela se lembrava vagamente do tio Tom de sua infância - um homem de gestos bruscos, que usava ternos sob medida e exalava um desprezo indisfarçável pela poeira e pelo cheiro de gado que sustentavam a família. Quando a divisão foi feita, Tom vendeu sua parte de tudo o que pôde e manteve os poucos acres da encosta apenas como uma forma de manter o irmão mais novo sob constante pressão. Era pura pirraça familiar, uma disputa de egos que agora, décadas depois, ameaçava cobrar um preço alto demais de Jane.
- O que exatamente você ouviu na cidade ontem, Hank? - Jane perguntou, dando um passo à frente, a voz agora mais baixa e densa. - Vá direto ao ponto. Quem estava conversando e sobre o quê no armazém?
Hank inclinou-se um pouco mais na direção dela, reduzindo o tom de voz como se as próprias ferramentas penduradas nas paredes pudessem trair o segredo.
- O seu tio não quis manter a posse daqueles acres, Jane. Ele finalmente cansou de pagar os impostos daquela terra ou simplesmente achou alguém que pagasse o que ele queria. Ele vendeu tudo. Vendeu cada palmo daqueles acres, sem nos dar uma única palavra de aviso ou direito de preferência por algo que é vital para a sobrevivência deste rancho. E o pior: não foi para nenhum criador aqui do condado. Não foi para os Stuart, nem para o velho Burton.
- Vendeu para quem, Hank? Diga logo.
- Para uma daquelas multinacionais gigantes. Um conglomerado de investimentos imobiliários e agrícolas de Chicago - o capataz revelou, a frustração vibrando em sua voz áspera. - Eles operam sob um nome fantasia qualquer, cheio de siglas, mas todo mundo na cidade sabe o que eles estão fazendo. Eles já adquiriram as fazendas de grãos ao norte do rio. Estão pressionando os pequenos criadores e agricultores locais para venderem suas terras por uma fração do valor real. Eles usam táticas sujas, Jane. Cercam as estradas vicinais de acesso, compram as pequenas cooperativas para tabelar o preço do feno lá embaixo e, agora que têm a água do seu tio, eles têm a faca e o queijo na mão. Eles ainda não bateram no nosso portão com uma proposta oficial de compra, mas é só uma questão de tempo. Quando aqueles engravatados perceberem que controlam a água que corre para o Vale do Loup, vão nos estrangular até não termos outra escolha a não ser entregar o rancho por migalhas.
O silêncio que se instalou no celeiro após as palavras de Hank foi quase físico, quebrado apenas pelo som distante de um cavalo relinchando em uma das baias externas e pelo zumbido persistente das moscas no calor do fim de tarde. Jane sentiu um calafrio percorrer sua espinha, contrastando com a temperatura abafada do ambiente. O Vale do Loup não era apenas um negócio ou um pedaço de chão registrado em seu nome. Era a história de sua família escrita com suor, sangue e lágrimas ao longo de mais de um século. Era o lugar onde seu pai havia trabalhado até o último batimento de seu coração cansado. A ideia de perder aquele refúgio para uma corporação sem rosto, gerida por homens em salas com ar-condicionado que nunca haviam sentido o peso de uma enxada ou o calor de um parto de bezerro na lama, fazia seu sangue ferver com uma mistura de indignação e fúria.
- Eles não vão ficar com este rancho, Hank - Jane disse, cada palavra saindo pausada, os dentes trincados e as mãos fechadas em punhos firmes ao lado do corpo. - Eu não vou deixar que destruam o que meu pai construiu. O que meus antepassados defenderam com suor e sangue.
Hank olhou para ela com uma expressão que misturava orgulho e uma profunda tristeza. Ele a conhecia desde pequena; vira-a correr por aquele pátio com os joelhos ralados e a vira voltar da cidade grande para assumir a administração do rancho, com a firmeza de quem entendia daquele legado.
- Desejo e orgulho não pagam as contas que vencem no final do mês, Jane - o velho capataz disse com uma suavidade paternal que raramente exibia em sua rotina pesada de trabalho. - Para lutar contra tubarões desse tamanho, nós precisamos estar com o terreno firme sob os nossos pés. E você sabe qual é a nossa maior fraqueza no momento. O nosso calcanhar de Aquiles está bem guardado dentro de uma gaveta no banco em Omaha.
Jane desviou o olhar para o chão poeirento, chutando de leve uma pequena pedra com a bota. Hank tocara na ferida mais dolorosa do rancho. A hipoteca. Uma dívida considerável e sufocante que seu pai fora obrigado a contrair anos atrás, quando uma seca severa de dois anos consecutivos dizimou metade do rebanho e os preços do mercado despencaram a níveis históricos, enquanto a forte inflação nos anos de 1970 que acometeu o país, comia a outra metade. Para manter os funcionários e não deixar o rancho falir, ele assinara os papéis do banco, colocando a sede do Vale do Loup como garantia. Desde então, o rancho operava no limite, pagando as parcelas com o suor de cada venda de outono. Se o conglomerado multinacional descobrisse a existência daquela dívida - e eles certamente descobririam, pois tinham advogados cujo único trabalho era farejar vulnerabilidades para especular - eles poderiam facilmente comprar o título da hipoteca junto ao banco. Se fizessem isso, poderiam executar a dívida ou exigir o pagamento integral imediato, forçando Jane a entregar a propriedade sem que ela pudesse dar um único tiro de defesa legal.
Ela olhou para o relógio de pulso de aço, um modelo masculino que pertencera ao seu pai e que ela agora usava como uma espécie de amuleto. O sol começava a sua descida lenta no oeste, pintando o céu de Nebraska com tons avermelhados e dourados.
- Eu preciso ir a Omaha, Hank - Jane anunciou, a resolução endurecendo as linhas de seu rosto e dissipando a hesitação de seus olhos. - Vou falar diretamente com o gerente geral do banco. A hipoteca foi feita quando meu pai ainda era vivo, sob termos que nós sempre cumprimos à risca, sem um único dia de atraso. Vou renegociar os prazos atuais, entender a situação como está e tentar encontrar uma forma de quitar uma parte substancial do montante principal. Preciso garantir que o banco não nos venda pelas costas para esses investidores de Chicago. Vou pegar a rodovia agora no início da noite e estar lá na primeira hora da manhã.
Hank assentiu lentamente, um leve brilho de alívio surgindo em seu olhar habitualmente severo.
- Vá com cuidado, menina. Essa gente da cidade usa sapatos caros, mas joga mais sujo do que porco na lama. E leve um casaco... a noite na estrada pode esfriar rápido nesta época do ano, mesmo com o calor do dia.
Jane deu um tapinha afetuoso e firme no ombro calejado do velho capataz, uma despedida silenciosa que carregava mais significado do que qualquer promessa verbal. Ela girou nos calcanhares e caminhou rapidamente para fora do celeiro.
O crepúsculo já começava a estender suas sombras longas sobre o vale. Ela atravessou o pátio até a garagem lateral de zinco e abriu a pesada porta de correr. Lá dentro, estacionada na penumbra protetora, estava a velha picape Ford F-150 azul-escura, ano 1974. O veículo era o preferido do seu pai, com a pintura gasta pelo sol e algumas marcas nas laterais que contavam histórias de trabalhos pesados no campo, mas o motor era mantido impecável sob os cuidados ciumentos de Hank. Jane abriu a porta da cabine, sentindo o cheiro familiar de couro antigo, fumo de corda e poeira que impregnava o estofamento. Ela subiu no banco alto, colocou a chave na ignição e girou-a. O motor V8 rugiu com um som metálico, grave e absolutamente confiável, fazendo toda a estrutura da picape vibrar com energia.
Enquanto esperava o motor aquecer por alguns instantes, Jane olhou para suas próprias mãos apoiadas no volante duro. Elas estavam calejadas nas palmas e tinham pequenas marcas perto das unhas, resultado do trabalho diário com cordas, ferramentas e cercas. Há apenas dois anos, aquelas mesmas mãos eram macias, digitavam em teclados modernos e seguravam canetas caras em um escritório envidraçado no centro financeiro de Chicago, para onde havia se mudado logo após se formar na faculdade de administração.
A transição de sua vida urbana para o isolamento do rancho ainda parecia, em alguns dias, um sonho surreal. Jane Catherine Brown havia sido a primeira de sua família a deixar o Vale do Loup para estudar em uma grande universidade. Ela se formara em Administração de Empresas com especialização em Finanças na Universidade de Nebraska, em Lincoln, e logo em seguida fora contratada por uma promissora firma de investimentos privados em Chicago. Durante oito anos, ela viveu imersa no mundo dinâmico do mercado de capitais, analisando fluxos de caixa, projeções de juros, fusões de empresas e estratégias de captação de recursos. Ela usava ternos sob medida, morava em um apartamento de um quarto com vista para o lago e acreditava que seu destino estava definitivamente traçado longe do cheiro de feno e da poeira de Nebraska.
Mas o destino as vezes tem uma forma brutal de cobrar seus tributos.
Há exatamente dois anos, no meio de uma tarde chuvosa de outono, ela recebera o telefonema de Hank. Seu pai, Robert Brown, sofrera um infarto fulminante enquanto cavalgava para inspecionar as pastagens do sul. Ele morrera precocemente, aos cinquenta e oito anos, deixando para trás um rancho endividado, um rebanho que precisava de cuidados diários e uma jovem filha que era a única herdeira de uma dinastia de suor e terra. Jane não hesitara. No dia seguinte ao funeral, ela assinara sua carta de demissão na firma de investimentos, encaixotara seus pertences e retornara em definitivo para o Vale do Loup. Ela trocara os sapatos de salto pelas botas de montaria e os relatórios impecáveis de finanças das grandes firmas pela contabilidade amadora do escritório do pai, Eddie. Descobrira, no processo, que a administração de um rancho de gado de corte era muito mais complexa e implacável do que qualquer simulação que fizera na faculdade.
Jane engatou a primeira marcha, soltou o freio de mão e manobrou a picape para fora da garagem. A Ford azul deslizou pelo caminho de cascalho do rancho, deixando para trás a sede administrativa e as instalações do celeiro. Ao passar pelo portão principal de madeira, onde a placa entalhada à mão "VALE DO LOUP - FUNDADO EM 1870, FAMÍLIA BROWN" exibia orgulhosamente o nome de sua família, ela sentiu um peso renovado sobre os ombros.
A estrada de terra que ligava o rancho à rodovia estadual era uma longa faixa de poeira amarelada que serpenteava pelas colinas suaves, agora envoltas pela penumbra azulada do anoitecer. Jane acendeu os faróis amarelados da picape, que rasgaram a escuridão crescente da planície. Ela dirigia com precisão, as duas mãos firmes no volante, desviando por instinto dos buracos mais profundos que a erosão abrira no leito da pista. À medida que o veículo ganhava velocidade, ela observava as pastagens que se estendiam até onde a vista alcançava, agora apenas silhuetas escuras contra o horizonte. Viu o gado Hereford abrigado sob a sombra das árvores, alheio à tempestade financeira que ameaçava o seu lar. Aquela terra pertencia a ela. E ela pertencia àquela terra, por mais que tivesse tentado fugir disso durante seus anos de estudante e profissional na cidade grande.
Logo, os pneus de borracha pesada da Ford deixaram a terra batida e alcançaram o asfalto cinzento e liso da rodovia estadual. O ruído do rolamento mudou para um zumbido constante e ritmado. Jane acelerou, permitindo que o motor V8 mostrasse sua força enquanto a picape avançava em direção ao leste, sob o manto negro de uma noite de Nebraska pontilhada de estrelas.
O contraste entre as duas realidades de sua vida começou a se desenhar em sua mente de forma clara e fria. Por um lado, ela sentia o medo visceral de quem conhecia a força destruidora e o apetite insaciável das grandes corporações que operavam no mercado financeiro. Ela mesma já havia ajudado a estruturar operações de aquisição de terras e empresas familiares quando trabalhava em Chicago; sabia perfeitamente que, para aqueles investidores, o Vale do Loup era apenas uma linha de ativos financeiros em um balanço patrimonial, um número a ser otimizado para gerar valor aos acionistas no final do trimestre. Eles não viam a história, não sentiam o valor sentimental e não se importavam com as vidas que dependiam daquela terra.
Por outro lado, sua formação em finanças era agora sua maior arma. Ela não era uma criadora de gado ingênua que poderia ser facilmente intimidada por termos técnicos de contratos ou por ameaças jurídicas veladas. Ela sabia ler as entrelinhas de um contrato de hipoteca, sabia calcular taxas de juros compostos e conhecia os mecanismos legais que os bancos utilizavam para proteger seus próprios ativos. Se os engravatados de Chicago queriam uma guerra de papéis e estratégias financeiras, eles descobririam que a dona do Vale do Loup sabia exatamente como jogar o jogo deles.
A paisagem ao longo da rodovia de asfalto estava completamente submersa na escuridão da noite. Jane corria pela estrada deserta, cruzando pequenos pontos de luz que indicavam algumas casas das fazendas vizinhas. À medida que se aproximava de Omaha, as luzes da rodovia se tornaram mais frequentes, e os silos de grãos monumentais surgiam como sentinelas prateadas sob os refletores de segurança. O tráfego de veículos aumentou substancialmente, com caminhões de carga pesada transportando mercadorias interestaduais e dividindo a estrada noturna com sua velha picape.
O vento que soprava pela janela entreaberta trazia o frescor da noite, mas ainda carregava a promessa seca e quente daquela transição de estação. Jane Catherine Brown apertou o volante com mais força, os faróis da Ford iluminando as placas verdes que indicavam que Omaha estava a poucos quilômetros de distância. Ela passaria o resto da noite em um motel de beira de estrada para garantir que estaria às portas do National Bank of Omaha assim que as portas se abrissem na manhã seguinte.
Ela sabia que a conversa com o gerente de contas não seria fácil e que as respostas que buscava poderiam determinar a sobrevivência de seu lar. Mas o sangue de Kitty e Judith, que haviam enfrentado nevascas implacáveis e a solidão do Velho Oeste para garantir a posse daquela mesma terra mais de um século atrás, corria quente em suas veias. Ela não recuaria diante de gerentes de banco ou de executivos de Chicago. O Vale do Loup resistira ao tempo e às intempéries da história, e Jane faria de tudo para garantir que aquela promessa continuasse viva por muitas gerações.
Fim do capítulo
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