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Impetuosas por Omuwandiisi

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Palavras: 5592
Acessos: 55   |  Postado em: 20/07/2026

Notas iniciais:

 

''Certa folhinha esvoaçante de um braço a outro braço.''

 

Capitulo XIV - Quem Diria Que Um Dia Eu Teria Voce

 

Capítulo XIV

''Quem Diria Que Um Dia Eu Teria Você?''¹

 

 

 

 

 

Rochedo, Paraná – Brasil.

Início Da Tarde De Domingo.

Agosto 12, 2018.

 

Ashanti

 

Os últimos dias passam rápidos e são bastante produtivos. A clínica está sempre cheia e todas são atendidas prontamente. Eu e Adriele temos uma sintonia perfeita, e as meninas que trabalham conosco são muito profissionais e atenciosas. Porém, estou sentindo Adriele um pouco dispersa e, às vezes, muito pensativa. Não sei o que ela tem, já que, aparentemente, não parece estar com algum problema de saúde. Por enquanto, vou esperar que ela tome a iniciativa de dividir o seu problema, se é que ela tem algum. Talvez essa minha ansiedade para o almoço de hoje tenha me deixado mais interpretativa do que espectadora. Hoje, dia dos pais, vou almoçar com a família de Louise. E, devo confessar, estou um pouco nervosa.

Já liguei para o meu pai antes de sair de casa. Mel fica muito feliz de falar com o avô. Ela diz que está com saudade dos meus pais, e prometo logo, logo, uma visita a eles.

Dirigir pelas ruas de Rochedo é como entrar em um cenário montado para um comercial de margarina: tudo parece limpo demais, calmo demais. Não me arrependo de ter mudado para cá e comprado a casa neste condomínio. As rodas da BMW mal fazem barulho sobre o asfalto, e cada casa por onde passamos tem o tipo de jardim que só se vê em filmes hollywoodianos.

Aproximo-me da saída e espero o portão ser aberto pelos seguranças. Assim que entro na avenida, sigo rumo à casa de Louise, mantendo as mãos firmes no volante, mas o nó em meu estômago só aperta.

Respiro fundo, como se isso fosse suficiente para organizar o que sinto. O dia está bonito. O sol deste meio-dia invernal pinta as folhas das árvores que ladeiam a avenida com um brilho morno e, mesmo assim, a beleza da paisagem não consegue suavizar o pulsar forte do coração em meu peito. Será o primeiro encontro oficial com os pais de Louise. Quer dizer, não oficial como namorada. Afinal, Louise disse que quer conversar com os pais e contar o que está acontecendo entre nós. Não vejo a hora. Mas estou começando a fazer parte da família e, como todo começo de algo, isso é meio assustador.

Saio da avenida e entro em uma das ruas que levam até a casa de Louise. Logo, logo chegaremos.

No banco de trás, Mel brinca em silêncio com Algodão — seu urso branco de pelúcia e companheiro constante desde que o ganhou, esta semana, de Ise — apertando o brinquedo com alguma intensidade e, assim como eu, ela tenta esconder o próprio nervosismo. Sinto que ela está ansiosa.

O vestido azul-marinho tinha sido uma escolha difícil. Ela passou quase uma hora encarando o seu mini guarda-roupa, como se já fosse adulta, tentando decidir o que a deixaria mais bonita. As tranças, então… quantas vezes tive de recomeçar? Três? Quatro? Mas agora, ali está minha princesa, perfeita, mais bonita do que nunca.

— Mamã, eu vou poder chamar o pai e a mãe da Ise de vovô e vovó? Será que eles vão gostar de mim? — Pergunta Mel, sua voz demonstrando mais desejo do que receio, mas cheia de determinação.

A pergunta pega-me de surpresa. Rapidamente encosto o carro e desligo-o, aproveitando o vazio da rua em que estou.

Viro-me no banco, olho-a com carinho e sinto uma vontade imensa de sair de onde estou e abraçá-la, beijar aqueles lindos olhos, herança de Cecília. Seus dedinhos acariciam a pelúcia do Algodão. Ela olha-me atentamente, esperando minha resposta. O momento faz com que eu aspire e suspire profundamente.

— Impossível, meu amor, eles não gostarem de você. Minha menininha, você é a criança mais encantadora do mundo — digo com um sorriso que não sei se é para Mel ou para mim mesma. Repito para ela as últimas palavras como um mantra. Talvez, se eu disser o suficiente, ela comece a acreditar — assim como eu — que tudo dará certo.

Ela sorri lindamente para mim e volta sua atenção para o urso branco.

Ponho o carro novamente em movimento, ligo o player e uma canção preenche o silêncio da BMW...

''Apesar da seca e da fome, dos desastres naturais

Meu amor sempre esteve do meu lado

Reinos podem cair, anjos podem chamar

Nada disso me faria ir embora

Toda vez que olho nos seus olhos, eu vejo

Você é tudo que eu preciso

Toda vez que eu entro mais um pouco, eu sinto

 

Oh, quem diria que um dia eu teria você?

Oh, quem diria que um dia eu teria você? '' ¹

Sorrio ao lembrar-me de Louise e penso: sim, quem diria que um dia eu teria você?

 

. . . o O o . . .

 

Louise deve estar nervosa. Consigo imaginá-la em seu quarto, apesar de ainda não conhecê-lo, prestes a desmanchar. As unhas já devem estar sendo atacadas, hábito que ela contou-me que costumava ter em algumas situações que a deixam ansiosa. Assim como eu, ela sabe que não é só um almoço em família. É muito mais.

Já estou na rua onde ela mora e logo sua casa aparece diante de mim. Ainda lembro da última vez que estive aqui, do jardim podado com precisão, das cortinas de renda na janela da sala, tudo muito bem-arrumado, de um jeito que diz: ''aqui, aparência é tudo''. Ela já me contou que sua mãe é muito organizada e caprichosa. Espero que Dona Maria não seja um mistério a desvendar.

Estaciono a BMW em frente à casa, desço, ajudo Mel a sair do banco de trás e, em frente ao portão, aperto a campainha. Eu, Mel e Algodão esperamos, então.

O portão abre-se antes de eu apertar a campainha uma segunda vez. Louise aparece linda e maravilhosa, mesmo usando jeans, tênis e uma blusa branca em crepe com pregas e mangas três quartos.

Sorrio para ela.

— Você está linda.

— Eu estou tão nervosa, Ash...

— Oi, Ise.

— Oi, princesa — ela responde, ajoelhando-se ao encontro de Mel, sussurrando um ''meu amorzinho, minha vida, eu te amo'' que não escapa aos meus ouvidos atentos.

Um gesto de ternura que aquece ainda mais meu coração.

E Melissa… ah, Mel. Minha pequena, com um imenso sorriso estampado no rosto, abre seus bracinhos e, meio desajeitada, sem largar o Algodão, mas com jeito de quem quer fazer tudo certo, tenta envolver Louise em um abraço.

Depois de encher minha pequena de beijos, Louise levanta-se e olha para mim.

— Você também está linda, doutora.

Pego em sua mão e aperto-a com firmeza. Quero dizer ''você não está sozinha'', quero gritar ''eu te amo e vai dar tudo certo, mesmo que demore'', mas somente seguro sua mão.

— Aí estão vocês — a voz de Seu João faz com que nos afastemos um pouco e soltemos nossas mãos.

Sorridente, ele caminha até nós.

— Doutora Ashanti...

Se ele viu nossas mãos unidas, não demonstra reação.

— Olá, Seu João, feliz Dia dos Pais — digo, estendendo minha mão para cumprimentá-lo. Porém, ele me abraça, caloroso.

— Obrigado, querida. E o seu pai?

— Ele está bem. Falei com ele antes de vir para cá.

— Vamos entrar, pessoal?

— Claro, filha. Doutora, sua pequena gosta de canjica? — Pergunta, olhando para Mel. — É uma das especialidades de minha esposa.

— O que é canjica, mamã?

— É um doce feito de milho, Mel — responde Ise. — Você vai adorar.

— Eu amo doces...

Rimos com sua observação e entramos.

 

. . . o O o . . .

 

Mel adianta-se e sai na frente correndo, puxando o pai de Louise pela mão em direção à cozinha.

Enquanto aguardo Louise fechar a porta, tomo coragem e beijo seu rosto. Ela olha-me assustada, espiando em torno, mas, quando vê que estamos sozinhas, sorri e morde o lábio inferior.

— Louca!

— Por você — respondo rapidamente, o coração aos tombos no peito pela minha ousadia.

— Você é muito corajosa, amor. A pessoa mais corajosa que já conheci na vida. Preciso de um pouco dessa coragem para falar com meus pais.

— Você também é muito forte, Ise. Tenho certeza de que conseguirá falar tudo o que quer, no momento certo. Se precisar, estarei com você.

— Não fique chateada, amor, mas eu preciso fazer isso sozinha. Mas, hoje, só quero que esse almoço saia perfeito.

Pego em sua mão. Está gelada. Inclino-me e sussurro ao seu ouvido, sentindo o delicioso cheiro do xampu em seus cabelos:

— Respira, amor. Não importa quantos obstáculos surjam à nossa frente, ultrapassaremos todos.

Olhamos uma para a outra e tenho certeza de que sentimos a determinação do quanto estamos preparadas para enfrentar tudo e todos. Vozes vindas da cozinha fazem com que sigamos para lá antes de alguém vir nos buscar.

Quando chegamos à porta da cozinha, o riso de Seu João ecoa por toda a casa. Ele e Mel estão brincando com o Algodão naquele pequeno espaço; a mãe de Ise exibe um pequeno sorriso diante da cena.

Naquele momento, sinto algo no meu mais íntimo e vejo, mesmo que pequena, mas real, uma brecha de acolhimento que nós — eu e minha filha — podemos ter aqui.

Decidida, caminho até a mãe de Louise.

— Olá, Dona Maria, como a senhora está?

Seus olhos estão pousados em Melissa, ainda brincando com o marido. Ela olha para mim, então, e vem o veredito:

— Ela é... bem-educada e amorosa — diz, desviando os olhos para mim. Nem elogio, nem crítica. Só uma constatação. Mas para tudo há um começo. — Eu estou bem, doutora. E a senhora?

— Por favor, sem ''senhora'' — falo sorrindo. — Eu estou bem e contente por participar, com vocês, deste Dia dos Pais e por Mel estar aqui, neste ambiente familiar. Às vezes, ela sente falta dos meus pais.

Nesse momento, Louise chega ao nosso lado.

— Quer ajuda, mamãe?

— Sim, querida, termine de ajeitar as coisas na mesa, sim?

— Claro, mãe.

— Eu ajudo.

— E seu pai? — Pergunta Maria.

— Já falei com ele e com minha mãe também. Eles estão bem.

— Que bom — afirma. — Família unida jamais será destruída — e caminha até o fogão.

Eu e Louise trocamos olhares, sem entender bem o que a mãe dela quis dizer. Ela dá de ombros, vai até o armário e eu a sigo. Mel e João saem da cozinha e agora estão no quintal, sentados em uma mureta que faz parte da área externa.

Vê-los juntos, lá fora, faz-me sentir bem.

Talvez hoje seja o começo. É claro que eu não faço ideia do que vai na cabeça dos pais de Louise, principalmente na da mãe, Dona Maria. Mas eu vejo, sim, uma brecha. Eu sei — como médica, como mulher, como mãe — que toda cura começa assim: com uma pequena abertura, uma fresta de entrada para o amor.

Sinto que a conversa de Louise com os pais será amigável.

 

. . . o O o . . .

 

Eu e Louise caprichamos na arrumação da mesa para o almoço, apesar das coisas simples que fazem parte da cozinha deles.

Evidentemente, a mesa não parece em nada saída de uma revista de decoração, mas cada talher está milimetricamente posicionado; copos simples são colocados, mas brilhando como se fossem de cristal, e os guardanapos de papel, triangularmente dobrados, exibem a exatidão de quem leva tradição a sério, embora não seja exatamente o caso aqui, já que este é o nosso primeiro almoço em família.

O aroma da comida está muito bom, o que demonstra que a mãe de Ise é uma boa cozinheira.

— Que cheiro de fome, mamã — comenta minha pequena, já de volta à cozinha.

Ela já está sentada à mesa, e o pai de Ise também. Ele tenta abrir uma garrafa de vinho. Sorrio com a fala de Melissa. Eu e Ise começamos a colocar as vasilhas com a comida sobre a mesa, à medida que Maria vai passando para nós.

— O tempero é a assinatura de minha mãe.

— Você sabe, filha, como eu gosto de caprichar, ainda mais quando temos uma ocasião especial.

— E eu sou testemunha de como ela é uma ótima cozinheira — diz o pai de Louise, apontando o dedo para a própria barriga.

— Isso daí é porque você é guloso e só para de comer quando as panelas estão vazias — observa Maria, mãos na cintura.

Rimos com a pilhéria dela.

Nesse momento, observando todo aquele cenário, por um segundo sinto que eu e minha filha somos intrusas ali, e uma pequena apreensão se faz presente ao pensar no momento em que eles souberem que eu e a filha deles formamos um casal.

Mas nada me impedirá de ficar ao lado de Louise, se ela quiser.

Com Seu João à cabeceira da mesa, eu e Mel sentadas ao seu lado direito, a mesa se forma com Dona Maria sentando-se do lado esquerdo do marido e Louise à minha frente.

O cheiro da canjica doce, ainda no fogão, e da comida preparada por Maria sobre a mesa invade o ar com força. Ao meu lado, Mel balança as perninhas sob a cadeira, curiosa, os olhinhos atentos a tudo, absorvendo cada detalhe como uma esponja.

— Mamã, eu quero essa daqui — ela pede, apontando com aquele dedinho atrevido para a travessa onde estão pedaços de frango assado.

— Primeiro agradecemos a Deus, depois comemos — chama Dona Maria a atenção de todos. — João, você faz a oração?

Eu olho para Ise, e ela abaixa a cabeça, sugerindo em silêncio que eu faça o mesmo. João faz uma breve prece e logo termina. Falamos um amém em uníssono, porém a mãe de Louise chama novamente nossa atenção:

— Quero completar a prece com uma frase da Bíblia: ''Filhos, em tudo obedecei a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. '' ²

Sem entender bem o que ela quer dizer com a frase, e como eu conheço o versículo, decido completar:

— E, Maria, temos nesse mesmo trecho: ''Suportando-vos uns aos outros e perdoando-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, perdoai vós também. Acima de tudo isto, porém, esteja o amor, que é o vínculo da perfeição. E a paz de Cristo, à qual também fostes chamados em um só corpo, domine em vossos corações; e sede agradecidos. '' ³

Sinto uma leve tensão na mesa. Dona Maria franze o cenho, Louise olha-me preocupada. Aproveito o silêncio para pôr, no meu copo e no de minha pequena, suco de laranja que está em uma jarra no centro da mesa.

— Bom, agora que estamos todos abençoados, vamos comer — diz o pai de Louise, já pegando um garfo tridente, espetando um pedaço de frango e colocando-o no prato de minha pequena — certo, Mel?

— Estou com uma fome de leão. Obrigada! — Mel agradece, olhando de João para mim. — Acertei, mamã?

Esta é a minha menina: direta, sincera, sem freios.

O pai de Louise faz um gesto com a cabeça, aprovando as palavras de minha filha, os olhos brilhando, talvez de... ternura.

— Você é uma menina muito educada, pequena. Diferente de Maciel que, desde pequeno...

— João! — Dona Maria interrompe de repente, pousando o prato que segurava com força sobre a mesa, fazendo Mel se assustar um pouco. — Ninguém precisa saber dessas histórias.

Louise, claro, não deixa passar o momento.

— Mãe, o pai não ia falar nenhum segredo — afirma, mostrando impaciência. — Nós sabemos como Maciel é mal-educado, é assim desde pequeno. Não há por que escondermos nada de Ashanti. E, afinal, onde ele está?

Quase me engasgo com o suco. Tusso de leve, tentando me recompor.

Os pais não respondem onde está o irmão. Resolvo agir.

— Dona Maria, eu entendo perfeitamente o que seu marido iria dizer. Qual família não tem um filho com mais energia do que outro? — Apresso-me em dizer. Sorrio para ela, tentando ignorar o olhar de desaprovação que lança para a filha antes de desviar para mim.

— É isso mesmo, doutora. Meu filho sempre teve muita energia.

— Meninas, os pratos de vocês ainda estão vazios — aponta o pai de Louise, pegando da panela de arroz uma grande quantidade com a escumadeira e enchendo seu prato.

É a deixa para que o restante de nós comece a servir-se.

Os minutos vão-se desenrolando lentamente e em quase absoluto silêncio, se não fosse o tilintar dos talheres nos pratos e uma ou outra palavra proferida aleatoriamente.

A mãe de Ise continua evitando olhar para a filha, como se isso pudesse apagar o momento de quase altercação entre elas. Serve-se em silêncio, mas seu rosto permanece sem sorriso, e os olhos... os olhos parecem não enxergar ninguém.

Algo opressivo parece crescer entre todos, pesado. Eu me pergunto, mentalmente, se Louise também sente essa tensão percorrendo a cozinha ou se só eu estou à beira de um ataque de nervos.

E então vem Mel — como sempre, minha pequena luz da vida — com sua desarmante honestidade:

— Ise, por que sua mãe tá com a cara feia? Tá brava com você e com o seu papai?

O som do garfo de Dona Maria batendo no prato é como um sinal de advertência. Todos param. Eu paro. O ar parece congelar.

Mel, no entanto, segue serena:

— É que quando eu tô brava, minha mamã diz pra eu respirar fundo e contar até dez. A sua mãe não quer tentar?

Engulo a risada que ameaça escapar. Tenho que morder a bochecha para não rir alto, mas Louise deixa um pequeno sorriso formar em seus lábios. Acho que é típico da inocência de uma criança cortar um momento denso com uma proposta de paz, como se fosse a coisa mais simples do mundo.

Dona Maria olha para Mel, para Louise — que está com os olhos arregalados — e depois para mim.

E então… ela ri.

Ri mesmo. Não um riso forçado, nem irônico, mas um riso de verdade, que suaviza suas feições e, por um instante, faz com que eu e Louise respiremos um pouco aliviadas.

O pai de Ise observa tudo, mas sem parar de comer.

— Sua menina é mesmo muito esperta, hein, doutora? — Afirma Maria, voltando-se para mim.

Assinto, sem conseguir dizer nada. Apenas sorrio. Porque naquele instante, naquele pequeno instante, acredito que algo nela cedeu. Um fio, uma parede, uma nesga de compreensão, talvez?

— Tá certa, Mel. Vamos contar juntas?

Eu e Louise voltamos a atacar nossos pratos, observando a cena.

Enquanto as duas contam até dez em uníssono, vejo Seu João piscar para minha namorada. O gesto é discreto, mas cheio de significado.

Sob a mesa, toco o pé de Louise com o meu, discretamente. Ela olha-me rapidamente, com um pequeno sorriso. Pego o copo com suco e bebo um golinho, pensando em como gostaria de dizer agora a Louise: Viu só? Está tudo indo bem. E, pela primeira vez na tarde, acredito em nós duas, no fato de que nós acontecemos.

O almoço praticamente está terminando.

O cheiro de comida caseira ainda paira no ar e, por um instante, parece que a tarde seguirá tranquila. Mel ri baixinho ao meu lado, fingindo dar comida ao Algodão, observada pelos pais dela, e eu me permito relaxar, sentindo um fio de esperança costurar este momento.

Talvez… talvez estejamos mesmo construindo algo aqui.

Mas um estrondo vindo da sala — possivelmente da porta sendo aberta à força — me faz gelar.

Viro instintivamente em direção ao som, o coração disparando no peito. Maciel entra feito uma tempestade, os olhos vermelhos — talvez de bebida, talvez de qualquer outra coisa que eu nem quero imaginar — escaneando a cozinha com um olhar que ameaça desmontar tudo.

— Que bonitinho — ele rosna, o olhar impregnado de ressentimento. — A farsa da família feliz.

Sinto meu estômago se contrair. Levo automaticamente a mão até a de Louise, que está sobre a mesa, em um gesto de pedir calma, sem me importar com os olhos de ninguém; meu corpo tenso, pronto para reagir.

— Maciel, por favor — pede Louise.

Seu João se levanta com calma, embora o rosto, com suas rugas, deixe transparecer desgaste e tristeza.

— Maciel, não hoje.

— Não hoje? — Ele ri com escárnio, e aquele som atravessa-me como caco de vidro. — Então quando, pai? Quando eu posso falar a verdade nesta casa?

— Que verdade? — Questiona minha namorada.

Mel olha para ele com os olhos enormes, inocentes, como se buscasse entender o que está por trás daquele furacão disfarçado de homem. Antes que eu pudesse impedi-la, ela se levanta — tão pequena e valente — caminhando até Maciel com o inseparável Algodão nas mãos, que ela havia deixado ao lado da cadeira enquanto almoçava.

— Você está bravo também? — Pergunta, com a doçura de quem ainda acredita que o mundo pode ser consertado com carinho. — Pega meu ursinho. Ele me ajuda quando eu tô assim.

E estende seus bracinhos, oferecendo o urso de pelúcia para ele.

Meu coração para.

Cada célula do meu corpo grita para tirá-la dali, para colocá-la atrás de mim. Os dedos de Maciel se contraem. Por um segundo, acho que ele vai pegar e esmagar o urso no chão — ou pior.

Eu me preparo para intervir. Se ele ousar tocar nela...

Nesse momento, Louise levanta-se, ficando ao lado do pai. Na mesa, paralisadas ainda, eu e Dona Maria observamos tudo, ela já com lágrimas nos olhos.

— Filho, hoje é o Dia dos Pais — declara Maria.

Então… ele hesita.

Vejo algo mudar nos olhos dele. Talvez um reflexo de um pedaço de humanidade esquecido dentro dele. Ele olha para Mel, depois para Louise e, por fim, encara-me. Não desvio meu olhar. Se ele quer briga, eu não recuarei.

Depois, olha para a mãe. Em nenhum momento encara o pai.

— Guarda seu urso, criança — murmura, a voz ainda áspera, mas com menos veneno. — Adulto não brinca com essas coisas.

Só então solto o ar que estava preso no peito. Sem sair da mesa, Dona Maria levanta-se, com um meio sorriso triste no rosto, como quem tenta remendar o que ainda pode ser salvo.

— Maciel, senta e come, filho. Tá magro que dói.

— Não tô com fome — responde ele, mas não vai embora.

Fica ali, parado, observando a todos.

Mel, sem largar o Algodão, recua e fica entre o pai de Louise e ela; Louise, sem pensar, envolve-a em um abraço carinhoso.

Sinto meu coração bater mais leve e agradeço em silêncio por minha filha ser feita de luz mesmo nos dias nublados. Louise, ao lado do pai, inspira fundo. Somente nesse momento levanto-me da mesa e caminho em direção à mãe de Louise.

— Maciel, por favor — pede Louise novamente.

— Guarda seus ''por favores'', maninha — ele responde. O tom já não carrega o mesmo peso, mas ainda é jocoso. — Só vim pegar minhas coisas.

Vira-se, saindo da cozinha, e o silêncio que se segue é denso, quase sólido. Meu corpo continua tenso, como se esperasse um próximo impacto.

Os pais de Louise sentam-se quase ao mesmo tempo, mas a tristeza é evidente em seus rostos. Com a mãe de Louise acomodada, dirijo-me até os meus dois amores.

Então a voz de Melissa nos puxa de volta:

— Acho que o seu irmão, Ise, precisa de mais que contar até dez. Talvez até cem.

Não conseguimos evitar o riso. Primeiro Seu João, depois Ise e eu, e por fim até Dona Maria deixa escapar uma risada cansada.

— Essa menina vai nos ensinar muito — diz ela, pegando uma colher e apontando para a travessa de canjica. — Quem quer doce?

Enquanto o almoço retoma seu curso, sinto o pé de Louise tocar, sob a mesa, o meu pé. Observo Melissa comer a canjica, sorrindo com inocência, como se nada tivesse acontecido.

Dou uma colherada no meu doce e olho para Louise.

Nossos olhares encontram-se.

Há cansaço, sim. Mas também algo mais forte: um compromisso silencioso.

Sabemos que não será fácil. Mas estamos aqui, agora. Juntas. E com tempo, paciência e amor, até as raízes mais duras podem se curvar, se entrelaçar.

Talvez ainda exista espaço para florescer.

 

. . . o O o . . .

 

O almoço acaba, e o ar na cozinha ainda carrega aquele misto de alívio e tensão.

Enquanto ajudamos Dona Maria e Seu João a recolher os pratos, olho para minha amada e percebo-a um pouco distante. Louise ainda parece tensa, os ombros rígidos e o sorriso menos caloroso.

Precisamos de um respiro.

— Que tal vocês irem para o quintal? — Sugere Seu João, como se lesse meu pensamento, já enxugando o primeiro prato que recebe de Maria.

— Nós queremos ajudar.

— Não precisa, filha — diz Maria. — Leve a doutora e a Mel para tomarem um pouco de ar. Mostre o quintal para elas. Seu pai e eu damos conta daqui.

Ela encerra a sugestão olhando para o marido, que assente.

— Certeza?

— Claro, filha, podem ir — incentiva o pai.

Mel, sempre cheia de energia, pula da cadeira antes mesmo que Louise responda.

— Tem frutas lá? Eu quero muitas!

Louise solta um sorriso pequeno, mas agora cheio de expectativa.

— Tem manga, jabuticaba e até um ''pé'' de goiaba — responde ela, com a voz mais leve. — Se você tiver sorte, pode achar alguma que dê para pegar sem precisar subir nas árvores.

Mel sai correndo porta afora, deixando Algodão na cadeira, e nós a seguimos quase lado a lado.

O quintal da casa de Louise é um daqueles lugares que parecem existir fora do tempo. As árvores frondosas espalham sombras frescas contra o calor da tarde, e o ar cheira a terra úmida e cascas doces.

Um gato malhado — que não sei se pertence à família — observa-nos de um galho da goiabeira, os olhos amarelos fixos em Mel, que para em frente dele com desconfiança.

Sento-me em um banco embaixo da mangueira, encostando-me contra seu tronco. Louise vem para o meu lado, seu corpo quase encontrando o meu, mas, como um reflexo natural, mantemos uma pequena distância.

Mel já corre, explorando cada canto com a curiosidade de quem nunca tem medo do que pode encontrar.

— Ele é bonito, né? — Mel aponta para o gato, os olhos brilhando.

Louise ri baixinho.

— Ele é arisco. Mas, se você ficar quietinha, talvez ele venha até você.

Para minha surpresa, Mel obedece na hora: senta-se de pernas cruzadas, estendendo a mão devagar, como se estivesse diante de uma criatura mágica. O gato não se move; apenas observa, a cauda balançando lentamente.

Eu não posso evitar um sorriso.

— Ele é de vocês?

— Não, mas sempre está por aqui. Papai compra ração e dá para ele quando aparece. Mas não é sempre que ele vem.

— As coisas ficaram tensas lá na cozinha.

Louise assente.

— Maciel, ultimamente, tem dado muito trabalho, e mamãe sempre procura amenizar, colocar panos quentes. Ele aproveita, porque sabe que ela quase sempre o defende — ela reclama, erguendo a cabeça para o alto e olhando os galhos frondosos da mangueira, os olhos fechados por um instante. — Porém, tudo saiu melhor do que eu esperava.

— Claro que saiu — respondo, colocando minha mão sobre a sua, que está pousada no banco, acreditando que o gesto não possa ser observado pelos pais dela lá da cozinha. — Mas eu acho que vocês precisam de um milagre para mudar seu irmão.

Aperto sua mão levemente, e um pequeno sorriso forma-se em seu rosto.

— Mamãe é muito religiosa, mas acho que nem ela acredita mais em um milagre para tirar meu irmão desse buraco em que ele está entrando, seja lá que buraco for...

O momento pesa no ar como uma nuvem escura. Eu suspiro, sentindo o peso daquela constatação.

— Vamos deixar seu irmão de lado e falar sobre a gente, que tal?

Louise não responde, mas seu sorriso demonstra concordância. Porém, antes que possamos mergulhar mais fundo no nosso assunto, Mel volta correndo, uma manga amassada na mão.

— Olha! Achei uma!

— Boa caça! — Elogio, pegando a fruta e examinando-a. — Só que essa não deve estar boa para comer.

— Posso pegar mais... — e ela já está se virando, pronta para outra caça em uma mangueira mais distante de nós.

Louise acena com a cabeça.

— Vamos lá?

Assim que Mel afasta-se, antes de nos levantarmos, entrelaço meus dedos com os de Louise, sentindo o calor da sua pele contra a minha.

— Você é incrível, sabia?

Louise sorri, desta vez sem hesitação.

— E sou sua.

Meu coração dispara. Inclino-me, desejando beijá-la com toda a minha paixão.

— Ashanti...

O momento é quebrado por um barulho vindo da casa.

Afasto-me.

Olho para trás. Maciel está passando pela porta da cozinha, mochila nas costas, o rosto um muro de indiferença. Louise, distraída, só percebe quando ele pragueja alto ao pisar em uma goiaba caída no chão, apodrecida, sujando seu tênis.

— Maciel — protesta Louise, como se não houvesse tensão alguma entre eles —, ninguém é obrigado a ouvir seus palavrões, muito menos uma criança.

Melissa, alheia ao momento de tensão, aproxima-se dele.

— Quer ajudar a achar frutas?

Ele hesita, claramente incomodado.

— Não, criança. Tô ocupado.

Mas, teimosa, Mel não aceita o não como resposta.

— Mas tem uma manga lá em cima que ninguém vai alcançar. Você é alto!

Louise e eu trocamos um olhar, mas não intervimos. Maciel parece considerar por um segundo, os olhos pousando na minha menina, depois na árvore.

— Tá bem. Só uma.

Ele segue Mel até a mangueira, ignorando-nos completamente. A manga está mesmo alta, presa em um galho fino.

— Você consegue? — Melissa pergunta, esperançosa.

Maciel olha para ela e, por um breve instante, algo em sua expressão suaviza.

— Claro que consigo.

Estica o braço, puxando o galho com cuidado até que a fruta cai em suas mãos. Mel aplaude, encantada.

— Nossa! Você é forte!

Ele entrega a manga a ela, evitando olhar nos olhos.

— Toma. Só não come se estiver muito verde. Faz mal.

Mel segura a fruta como um tesouro, mas, em vez de correr de volta, fica parada, estudando o rosto dele.

— Por que você tá sempre bravo?

Novamente, a pergunta sai sem filtro, como só crianças conseguem fazer.

Maciel franze a testa.

— Não tô bravo.

— Tá sim — ela insiste. — Sua testa fica assim... — e imita sua carranca, franzindo as sobrancelhas com força.

Por um milésimo de segundo, ele quase sorri. Quase.

— Criança não entende muitas coisas.

— Eu entendo sim! — Melissa protesta. — Quando a minha vovó ficou doente, a mamãe Ash ficou triste também. Mas ela não ficou brava com todo mundo. Só com os médicos que não ajudavam.

Maciel fica em silêncio. Olha para nós, como se a observação dela tivesse cutucado uma ferida aberta.

— É diferente — resmunga, mas sem convicção.

Mel encara-o por mais um momento antes de estender a manga.

— Você quer?

Ele recusa com um gesto.

— Fica com ela.

Finalmente, Mel parece aceitar que não arrancará mais nada dele.

— Obrigada pela ajuda.

Maciel apenas acena com a cabeça e vira-se, indo embora sem mais palavras. Em nenhum momento interage conosco.

Quando Mel volta até nós, entrega-me a manga com um suspiro.

— Ele é esquisito.

Eu rio, pegando a fruta.

— Todo mundo tem seus dias difíceis, princesa.

Louise olha na direção em que ele se foi, uma sombra passando pelo rosto.

— Ele costumava me trazer para colher frutas aqui quando éramos crianças — murmura.

Aperto sua mão.

— Talvez um dia ele volte a ser o que era antes — afirmo, mas sem muita convicção.

Louise sorri tristemente.

Mel, já distraída, a manga esquecida, aponta para a jabuticabeira.

— Posso subir? — Pergunta para Louise.

— Só se eu ficar do lado — responde ela, levantando-se.

Enquanto ajuda Mel a alcançar o primeiro galho, segurando-a com cuidado enquanto ela ri, Louise olha para mim e sorri. Um sorriso encantador, como se nada tivesse acontecido entre nós, o irmão e a quase briga na cozinha.

O sol filtrado pelas folhas pinta o chão do quintal de manchas douradas e, por um instante — no mais fundo de minha alma — eu quero que tudo seja possível.

Há muito pela frente: mágoas para curar, pontes para reconstruir.

Mas ali, naquele quintal cheio de vida, eu me permito acreditar que, com tempo e paciência, realmente até as raízes mais difíceis podem aprender a crescer juntas.

 

 

_________________________________________________________________________

¹ Get You [Teria Você] - Daniel Caesar Featuring Kali Uchis: 4.37

Single By Daniel Caesar Featuring Kali Uchi From The Single ''Get You'' – 2016

Music By: Wes Allen/Matthew Raymond Burnett/Ian Culley/Jordan D. C. Evans/Chester Hansen/Alex Sowinski/Matthew Adam Tavares/Leland Whitty. Written-By: Karly Marina 'Kali Uchis' Loaiza/Ashton 'Daniel Caesar' Simmonds. Letra De Get You © Golden Child Recordings.

Link Discogs:

https://www.discogs.com/pt_BR/release/9663613-Daniel-Caesar-Get-You

Link Wikipedia:

https://en.wikipedia.org/wiki/Get_You_(Daniel_Caesar_song)

Link YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=DfNcDIyBWdE

² Colossenses 3:20

³ Colossenses 3:13-15

 

Fim do capítulo

Notas finais:

 

''Nil sapientiae odiosius acumine nimio.''

Sêneca

 

FOR NOW, THAT'S IT!

Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.

 


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