Capitulo 10 ecos do passado
Helena acordou melhor naquela manhã.
Ainda cansada. Ainda frágil em muitos aspectos.
Mas melhor.
A consulta com a psicóloga no dia anterior havia mexido mais com ela do que imaginava.
Falar sobre Gustavo ainda doía.
A traição. O abandono. O roubo. A sensação humilhante de ter sido descartada justamente quando mais precisava de apoio.
Em determinado momento da sessão, acabou chorando ao admitir que não sabia mais quem era depois de tudo aquilo.
A psicóloga apenas respondeu com calma:
“Isso é mais comum do que você imagina.”
E estranhamente, ouvir aquilo ajudou.
Não apagava a dor. Mas diminuía um pouco a solidão dela.
Helena sabia que Eleanor viajaria para São Paulo naquele fim de semana por questões empresariais.
Ficaria sozinha na casa ao menos até parte do sábado.
E sinceramente, não se incomodava com isso.
Aprendera a conviver com a própria companhia fazia tempo demais.
O que ela não imaginava… era encontrar Laura ali.
Laura segurava o vaso de hortênsias com mais nervosismo do que gostaria de admitir.
A ideia inicial era simples: subiria até o quarto, entregaria as flores, diria algo gentil, e provavelmente iria embora logo depois.
Nada complicado.
Então ouviu passos vindo da escada.
Levantou os olhos.
E encontrou Helena descendo lentamente.
Os cabelos curtos ainda um pouco bagunçados do descanso. Uma blusa leve de mangas longas. O rosto mais descansado do que nos últimos dias.
E aquele olhar calmo que sempre parecia enxergar mais do que demonstrava.
Laura esqueceu completamente o que pretendia dizer.
Helena também parou no meio da escada ao vê-la.
Os olhos imediatamente desceram para o vaso de hortênsias nas mãos dela.
Depois voltaram lentamente para seu rosto.
E um sorriso pequeno surgiu.
Tímido. Bonito.
— Oi…
Laura sentiu o coração tropeçar de forma completamente absurda.
— Oi.
O silêncio seguinte não foi desconfortável.
Foi… delicado.
Como se ambas estivessem aprendendo lentamente a ocupar o mesmo espaço.
Laura ergueu discretamente o vaso.
— Eu trouxe isso pra você.
Helena desceu os últimos degraus devagar.
Os olhos permaneciam presos nas flores.
— Hortênsias…
A voz saiu quase emocionada.
— Minha avó cultivava muitas delas quando eu era criança.
Laura sorriu sem perceber.
— Então eu acertei.
Helena finalmente chegou diante dela.
Perto demais.
Laura sentiu novamente aquele perfume suave que sempre parecia permanecer na pele dela.
Algo limpo. Aconchegante. Perigosamente memorável.
Helena tocou delicadamente algumas pétalas.
— São lindas.
Então ergueu os olhos para Laura.
— Obrigada.
E havia tanta sinceridade naquele olhar que Laura precisou desviar os próprios olhos por um instante.
Porque algo dentro dela começava a despertar lentamente.
Algo silencioso. Cuidadoso. E profundamente errado para alguém que ainda acreditava pertencer inteiramente à memória de outra mulher.
Mas Helena não sabia disso.
Tudo que percebeu naquele instante foi: Laura parecia menos triste quando estava perto dela.
Laura ajudou Helena a descer as escadas devagar.
A mão firme apoiada discretamente em sua cintura enquanto a advogada ainda recuperava parte da força após a última sessão de quimioterapia.
Helena percebeu aquilo.
O cuidado natural. Sem alarde. Sem tratá-la como incapaz.
Quando chegaram à cozinha, o cheiro de café recém-passado preenchia o ambiente.
Laura puxou uma cadeira para ela antes de começar a organizar a mesa de forma automática.
Pães. Frutas. Café. As hortênsias agora repousavam perto da janela em um vaso de vidro improvisado.
Helena observou tudo em silêncio.
Aquela casa parecia mais viva quando Laura estava nela.
Conversaram sobre amenidades durante algum tempo.
Sobre um documentário que Helena assistira na noite anterior. Sobre as cafeterias. Sobre Teobaldo perseguindo Astholfo pela casa de Laura como se fossem inimigos históricos.
E Helena percebeu algo curioso: Laura ria bonito.
Não era frequente. Mas quando acontecia, parecia iluminar completamente seu rosto.
Foi então que o celular de Laura tocou sobre a mesa.
O sorriso dela desapareceu quase imediatamente ao olhar a tela.
Helena percebeu.
Laura hesitou alguns segundos antes de atender.
— Oi, Antônia.
A voz imediatamente ficou mais contida.
Mais cautelosa.
Helena desviou os olhos discretamente para lhe dar privacidade, mas ainda assim percebeu a tensão silenciosa ocupando o ambiente.
A ligação não demorou muito.
Quando desligou, Laura permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada do celular.
Distante.
Helena apoiou cuidadosamente a xícara sobre a mesa.
— Está tudo bem?
Laura soltou o ar devagar.
— Era a irmã de natalia
Helena franziu levemente a testa tentando localizar o nome.
— Antônia o nome dela .
Aquilo imediatamente fez Helena compreender o peso daquela ligação.lembrava vagamente do nome por conta de eleanor , uma longa história da amiga querida
Laura desviou os olhos para a janela.
— Ela quer me ver.
Havia desconforto evidente na voz.
Talvez medo também.
Helena permaneceu em silêncio, esperando que ela continuasse.
E Laura continuou.
Como se de algum modo fosse mais fácil falar perto dela.
— Eu ainda não consigo ficar muito perto da irma da Natália.
A voz saiu baixa.
Sincera.
— Parece que… toda vez que eu a vejo , o acidente volta inteiro pra minha cabeça.
Helena sentiu o peito apertar discretamente.
Laura passou os dedos pela própria xícara antes de continuar:
— E a Antônia nunca gostou muito de mim.
Helena ergueu os olhos devagar.
— Não?
Laura soltou uma pequena risada sem humor.
— Ela achava que eu afastava a Natália da família. Que nós duas vivíamos num mundo muito nosso.
Por um instante, o olhar dela pareceu se perder em alguma lembrança distante.
— Depois que a Natália morreu… acho que ficou ainda pior.
O silêncio tomou a cozinha.
Mas não era pesado.
Era íntimo.
Helena percebeu algo importante naquele momento: Laura estava permitindo que ela entrasse em partes da sua dor que provavelmente poucas pessoas conheciam.
E aquilo a tocou profundamente.
— Talvez ela só sinta falta dela também — Helena disse com cuidado.
Laura permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então assentiu de leve.
— Talvez.
Helena não tentou aconselhar. Não tentou resolver.
Apenas permaneceu ali.
Escutando.
E Laura percebeu que começava a associar aquela mulher a uma sensação que não experimentava havia muito tempo:
segurança emocional.
Fim do capítulo
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