DESCULPE ME PELA DEMORA
— Pequenas permanências e Hortênsias
Helena recusou de imediato.
— Eu não consigo comer nada depois da quimio.
A voz saiu cansada.
Laura arqueou levemente a sobrancelha enquanto voltava da pequena lanchonete do hospital segurando uma vitamina de frutas.
— Ainda assim você precisa colocar alguma coisa no estômago.
Helena soltou uma pequena risada sem jeito.
— Você sempre é mandona assim?
Laura finalmente sorriu de verdade.
Discreto. Bonito. Quase raro.
— Segundo minha irmã? Sim.
Ela estendeu a vitamina novamente.
— Só um pouco.
Helena observou a insistência silenciosa daquela mulher por alguns segundos antes de aceitar.
Tomou um gole pequeno.
Depois outro.
E percebeu que fazia muito tempo que alguém não cuidava dela daquela forma: sem exageros, sem dramatização, sem tratá-la como incapaz.
Laura apenas parecia… presente.
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Pouco depois, o médico apareceu na porta do consultório chamando pelo nome de Helena.
Ela imediatamente segurou os braços da cadeira tentando levantar sozinha.
Laura se inclinou na direção dela quase automaticamente.
— Calma.
A voz saiu baixa. Gentil.
— Você ainda está frágil. Vamos entrar.
Sem perceber muito bem por quê, Helena permitiu que Laura a ajudasse novamente.
O consultório era iluminado demais para o gosto dela.
O oncologista, doutor Cortez, os recebeu com um sorriso tranquilo enquanto analisava alguns exames no computador.
E então algo mudou na expressão dele.
Um sorriso genuinamente satisfeito.
— Isso aqui é uma ótima notícia.
Helena imediatamente ficou tensa.
Laura percebeu.
Instintivamente, aproximou discretamente a cadeira um pouco mais da dela.
— As marcações sanguíneas diminuíram bastante — o médico explicou enquanto mostrava os exames. — E o tumor está estabilizado.
Helena piscou devagar.
Como se tivesse dificuldade de acreditar.
— Isso… é bom?
O médico sorriu.
— Isso é excelente.
Pela primeira vez em muito tempo, Helena sentiu o ar entrar nos pulmões sem tanto peso.
— O tratamento está respondendo. Então vamos manter as doses atuais da quimioterapia e iniciar também a terapia hormonal.
Ele começou a explicar calmamente os próximos passos enquanto Helena escutava em silêncio.
Laura observava tudo discretamente.
O modo como Helena parecia tentar permanecer forte mesmo exausta. Como suas mãos tremiam levemente às vezes. Como ela parecia desacostumada a receber boas notícias.
Então o médico apoiou os exames sobre a mesa e falou num tom mais cuidadoso:
— Mas existe outra parte do tratamento que também é importante, Helena.
Ela ergueu os olhos.
— Você vai precisar de acompanhamento psicológico.
Helena desviou o olhar imediatamente.
Laura percebeu o desconforto dela no mesmo instante.
— O impacto emocional do câncer é muito grande — o médico continuou. — Ainda mais considerando tudo que você enfrentou recentemente.
Helena apenas assentiu de leve.
Como alguém cansada demais para discutir consigo mesma naquele momento.
Então doutor Cortez finalmente olhou para Laura.
— E quem é nossa acompanhante hoje?
Antes que Laura respondesse, Helena falou:
— Laura é irmã da Eleanor… minha amiga.
O médico assentiu sorrindo.
— Bom. Então você claramente está cercada de pessoas que se importam com você.
A frase ficou suspensa no consultório por alguns segundos.
E algo nela atingiu as duas mulheres de maneiras diferentes.
Porque Helena percebeu que já não estava completamente sozinha.
E Laura percebeu, talvez pela primeira vez… que queria continuar sendo uma dessas pessoas.
Cinco dias se passaram.
Laura continuava indo à casa da irmã quase diariamente.
Às vezes para discutir assuntos das cafeterias. Às vezes para jantar com as sobrinhas. Às vezes apenas porque o silêncio da própria casa ainda parecia grande demais.
Mas nesses últimos dias havia visto Helena muito pouco.
A rotina da quimioterapia a deixava mais recolhida. Mais cansada. Mais silenciosa.
E Laura percebeu algo estranho dentro de si: sentia falta dela.
Naquela manhã, depois de passar quase vinte minutos observando flores em uma pequena floricultura da Urca, acabou escolhendo um vaso de hortênsias.
Azuis e brancas.
Delicadas. Bonitas sem esforço.
De algum modo, lembraram Helena.
Agora atravessava a cozinha da casa da irmã segurando o vaso cuidadosamente entre os braços.
Eulália organizava algumas frutas sobre a bancada quando Laura entrou.
Sem pensar muito, aproximou-se por trás da governanta e a abraçou pela cintura antes de beijar seus cabelos grisalhos.
— Oi, Lalá… bom dia, meu docinho.
Eulália soltou uma risada surpresa.
— Meu Deus, menina. Que felicidade é essa?
Laura sorriu de canto.
E talvez realmente estivesse estranhamente feliz naquela manhã.
Uma felicidade leve. Quase esquecida.
— A Leo já saiu?
— Já sim.
Eulália virou-se para encará-la melhor.
— As meninas também foram passar o fim de semana na casa do pai.
Laura assentiu distraidamente enquanto ajeitava o vaso sobre a bancada.
Foi então que Eulália estreitou os olhos de maneira divertida.
— Vejo que alguém acordou diferente hoje.
Laura soltou uma pequena risada.
— Impressão sua.
— Hum.
Eulália claramente não acreditou.
Então pegou a bolsa sobre a cadeira.
— Eu também estou saindo. Vou ver minha netinha.
Laura arqueou levemente a sobrancelha.
— E a Helena?
— No quarto, descansando um pouco.
A governanta lançou um olhar quase cúmplice antes de continuar:
— Então você fará companhia pra dona Helena até a menina Eleanor voltar.
Laura abriu a boca para responder alguma coisa.
Mas Eulália já caminhava em direção à porta com um sorriso discreto de quem observava mais do que comentava.
E Laura ficou parada na cozinha por alguns segundos.
Com o vaso de hortênsias diante dela. O coração inexplicavelmente acelerado. E a estranha sensação de que estava prestes a entrar em um território emocional perigoso demais para alguém que jurava ainda pertencer ao passado.
Fim do capítulo
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