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Impetuosas por Omuwandiisi

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Palavras: 3603
Acessos: 235   |  Postado em: 09/04/2026

Notas iniciais:

 

E que diriam as ruas, as escadas, os corredores onde se podem há muito ter cruzado?

 

Capitulo IV - E Sempre Amor, Mesmo Que Alguem Esqueca O Que Passou

 

Capítulo IV

''É Sempre Amor, Mesmo Que Alguém Esqueça O Que Passou''

 

 

 

 

 

 

Rochedo, Paraná - Brasil.

Clínica Mater.

Final Da Tarde De Segunda-Feira.

Agosto 06, 2018.

 

Ashanti

 

Estou em pé na soleira da porta de entrada da clínica, olho para fora, acompanho um Fusca amarelo se afastar rapidamente, logo após uma mulher entrar nele. Tenho quase certeza de que era Louise, a nova professora da Mel.

O que será que ela está fazendo aqui?

Viro-me e retorno ao interior da clínica, caminho até o balcão da recepção. Talvez Pietra possa me ajudar na minha dúvida.

— Pietra.

— Pois não, Dra. Ashanti.

— Alguém me procurou querendo falar comigo?

— Não... — então ela para o que está fazendo, tentando lembrar-se. — Quer dizer... Há alguns minutos, uma moça loira queria marcar uma consulta para hoje... E eu disse que era impossível e, do nada, ela sumiu.

— Disse o nome?

— Não... Eu...

— E você não perguntou? — Percebo que estou sendo ríspida, um pouco chata, e minha voz já demonstra isso.

— Desculpa, Dr. Ashanti...

— Tenho mais alguma consulta? — Interrompo-a, mas resolvo mudar o tom, afinal ela deve ter outras coisas importantes para fazer.

— Não. A última de hoje foi a Sra. Joana — ela diz, olhando a tela do monitor à sua frente.

— Então, eu poderia atender mais uma pessoa, não poderia? — Estou impaciente, ainda mais tendo quase a certeza de que era Louise. Pietra não sabe o que dizer; seus olhos se arregalam.

— Da próxima vez, tendo a possibilidade, independentemente de quem for, pode marcar a consulta — digo, sorrindo e tentando esconder minha frustração, amenizando a situação. Ela parece voltar a respirar. — Volte ao trabalho e obrigada — ela assente e volta sua atenção para a tela do computador.

Saio dali com minha mente viajando. A clínica já está mais vazia. Quando cheguei hoje no meio da manhã, tinha mais pessoas. Entro em meu consultório, vou até a minha poltrona giratória, sento-me e a giro, ficando de frente para um belo jardim de inverno que enfeita uma grande janela envidraçada da minha sala. Observo meu diáfano reflexo no vidro à minha frente. Sinto que estou à beira de algo novo, apesar de Cecília ainda habitar o fundo de minha mente.

Sorrio ao me lembrar do ocorrido na escola hoje de manhã, do meu encontro com Louise...

 

Tempo Pretérito...

 

Usei o final de semana para arrumar a nossa casa, minha e da Melissa. Quer dizer, ela já estava toda arrumada: a Dri contratou, para mim, uma empresa especializada em mobiliar e montar casas e apartamentos. Então, minha nova casa estava pronta para morar. Acertei um ou outro detalhe mais pessoal. Optei por uma casa, apesar de Adriele ter me mandado várias fotos de apartamentos. Decidi pela casa porque, além de ficar próxima da clínica — e estar localizada em um condomínio fechado e com seguranças —, tem um belo quintal para a Mel crescer brincando nele e fica mais fácil de ter um animal de estimação com quintal do que em um apartamento. Afinal, a Mel quer um cachorro.

Com o dinheiro que tinha e a venda do meu carro — um Jaguar XE 2020, presente da Ceci em um dos seus raros momentos de lucidez — comprei este sobrado — segundo a Dri, por uma pechincha — e o carro que estou usando agora, ganhei dos meus pais: um BMW 116iA 1.6 Turbo, vermelho. Usado, ok?

E a clínica? Os pais de Adriele, que são empresários e fazendeiros, deram de presente para ela, do jeito que ela queria. Mesmo eu não entrando com dinheiro na clínica, Adrieli propôs-me sociedade, afinal meu nome era bem conhecido e ela achava que poderia atrair laboratórios e até mesmos pacientes que precisassem da minha especialidade.

A viagem de São Paulo até Curitiba foi tranquila. O voo durou pouco mais de uma hora. Chegamos ao Aeroporto Internacional de Curitiba, em São José dos Pinhais, depois das 10 horas da manhã de sábado. A despedida de meus pais em Congonhas foi uma choradeira só. Nós quatro choramos, até o durão do meu pai. A Dri já nos esperava no aeroporto de Curitiba. A Mel achou tudo uma festa. De São José dos Pinhais até Rochedo, foram quase uma hora e meia e almoçamos no caminho.

Eu e a Mel passamos o resto do sábado fazendo nada. No domingo, não foi diferente. Almoçamos na casa da Dri e, ao voltarmos para casa, ficamos assistindo desenho até a Mel dormir de um lado e eu do outro. Acordamos na sala, com o sol invadindo nossa casa. Tomamos um banho para acabarmos de acordar e um café reforçado. Tinha combinado com a Dri que hoje de manhã iria conhecer a escola em que a Mel irá estudar.

Nesse momento, estamos esperando a coordenadora da escola ReCriar, a escola em que a Mel vai estudar, trazer a professora dela para nós a conhecermos. Antônia, era o nome dela, já tinha saído há uns bons minutos. A minha vida — sim, a Mel é a minha vida, minha luz... acho que eu já disse isso, não é? — está comportadamente sentada à minha esquerda, sorrindo para mim e eu para ela, quando ouvimos passos se aproximando da sala e a porta se abrir. Automaticamente nós duas nos viramos no momento em que a Coordenadora entra na sala, acompanhada de uma linda mulher, que para no meio da sala, nos olhando meio perdida: longos cabelos loiros ondulados, olhos verdes e grandes, lábios convidativos, vermelhos e uma pinta do lado esquerdo, um pouco acima do lábio superior. Muito linda. Sinto um leve aumento na minha frequência cardíaca.

— Professora Louise, essa é sua nova aluna, Melissa, e a sua mãe, Dra. Ashanti — ouço a voz da coordenadora nos apresentando a ela. Como ela continua parada e calada, levanto-me para cumprimentá-la, esticando a minha mão direita em sua direção. Percebo que ela me observa, me analisa, tentando entender o que está acontecendo naquele momento. Eu continuo esperando seu cumprimento.

— Você já foi mais educada, professora — ouço a voz da Coordenadora. Só então ela percebe minha mão estendida.

— Desculpe-me — ela então pega em minha mão, apertando-a com firmeza, porém sem força. Sua mão está fria... Aparentemente está nervosa. — Acabei de sair da sala de aula e, como hoje é o retorno depois das férias, eles estão a mil por hora.

— Eu entendo — ela me olha, analisando minha fala. — A minha pequena vive 24 horas a mil. — Olho para a Mel e ela segue meu olhar. Minha princesa ainda está com aquele lindo sorriso. Volto a olhar para ela e então percebo que nossas mãos ainda estão unidas. — Mel, diz ''oi'' para a professora Louise — então soltamos as nossas mãos e, por estranho que pareça, percebo o quanto aquele toque estava me fazendo bem. Inexplicavelmente bem. Fico observando a sua interação com a Mel e uma sensação gostosa se faz presente no meu âmago.

— Oi, Mel! — Ela disse para Melissa, ajoelhando-se na sua frente e pegando em sua mãozinha. — Serei sua professora — completou, ainda segurando a mão da minha filha.

— Eu sei. Você é muito bonita — Mel nem terminou sua fala e eu percebi as bochechas de Louise ficarem vermelhas.

— Obrigada, Mel. Posso te chamar assim? — Minha filha diz que sim com a cabeça. Louise parece encantada com a Mel.

— Mas a mamãe é mais bonita que você — não acredito no que estou ouvindo. Às vezes, minha filha exagera na sua sinceridade. A professora ficou mais ruborizada, se é que isso era possível.

— Mel, o que é isso? — Tentei contornar a situação, repreendendo-a.

— Tudo bem, adoro a sinceridade das crianças — ela respondeu com bom humor, olhando nos meus olhos. Tenho que admitir, ela era encantadora. — E ela tem razão, a mãe dela é muito bonita mesmo — bom, agora quem ficou sem jeito fui eu. Com certeza, minha pele negra disfarça a quentura que estou sentindo em minhas faces.

— Então é isso, professora Louise. Pode voltar para o seu descanso enquanto termino de atender a doutora e sua filha — ouço a coordenadora falando de novo. É então que percebi que Louise ainda estava ajoelhada. Ela levantou-se rapidamente, percebendo a situação inusitada em que estava. Porém, perdeu um pouco o equilíbrio e eu a segurei, evitando que ela caísse. Olhamo-nos, profundamente. Então, ela se despediu, deixando a sala rapidamente. Voltei a sentar-me para concluir o que ainda restava para concluir a matrícula da Mel na escola.

— Mamãe, eu gostei dela.

— Que bom, filha.

— Ela é uma ótima professora. A doutora não vai se arrepender de deixar sua filha aos nossos cuidados.

— Fico feliz em saber que ela estará bem cuidada — conclui olhando para Mel que, como sempre atenta, acompanhava nossa conversa. — Bom, Antônia, preciso ir. Já tenho pacientes me esperando.

— Claro, doutora. Estaremos sempre aqui para qualquer eventualidade — ela levantou-se e eu a acompanhei. Dei minha mão para Mel para sairmos dali.

Despedimo-nos dela e saímos da sala. Nesse momento, meu celular tocou. Era Adriele.

— Ash, você já está vindo?

— Estou saindo agora da escola. Algum problema?

— Preciso de você. Um parto urgente. Você me acompanha?

Nossa clínica é quase um mini-hospital: temos sala de cirurgia para urgências e até UTI. Para uma emergência, as nossas instalações vão funcionar muito bem, segundo Adriele.

— Chego aí em poucos minutos! Tchau!

— Tchau, querida!

Encerrei a ligação e guardei meu celular. A Mel observava atentamente a sua nova escola enquanto caminhávamos para achar a saída da escola.

Estava no intervalo e o pátio estava cheio, com os alunos brincando, correndo de lá para cá. Ao longe, vi Louise conversando com um rapaz. Ela tinha um belo corpo. Dava para perceber mesmo com toda aquela roupa. Achei que iria demorar mais para sentir alguma coisa por alguém. Enganei-me. Já estava "crushando" a professora da minha filha. À medida que me aproximava dela, percebi que ela estava meio aérea. Então, ela virou-se rapidamente para afastar-se do rapaz e a nossa trombada foi inevitável.

Para evitar que ela caísse, segurei-a pela cintura e uma quentura gostosa se instalou no meio de minhas pernas ao sentir nossos corpos se encaixando. Nesse momento, segurava as duas: Melissa pela mão, ela pela cintura. Ela pareceu ter amolecido em meu abraço. Aos poucos fui soltando-a, mesmo não querendo. Gostei do perfume dela. Erva-doce? Meu coração estava acelerado.

— Desculpe-me, Louise! Recebi uma ligação meio urgente da clínica e estava muito apressada. Não deu tempo de frear — disse-lhe, mostrando meu melhor sorriso. — Machuquei você?

— Não, não machucou e fui eu a atrapalhada As... Ash... — ela estava toda sem jeito. Esse jeitinho dela a deixava toda fofa. Não estava conseguindo falar meu nome.

— Ashanti...

— As-han-ti... — ela, então, repetiu quase silabicamente, talvez para memorizar meu nome. Acabei achando graça do seu jeito e sorri para ela. — Eu é que peço desculpa — ela concluiu.

— Então, tá! Dá tchau para a Louise, filha — disse para Mel.

— Tchau, professora Louise — falou minha filha acenando para Louise com sua mãozinha livre; a outra estava agarrada à minha. Fomos surpreendidas por Louise, que se ajoelhou para beijar o rosto de Mel, e fiquei mais surpresa ainda com minha pequena soltando-se da minha mão para abraçar Louise. Emocionei-me com a cena. Senti meus olhos úmidos e pareceu que os de Louise também estavam.

— Bom, doutora, vou deixar você ir socorrer seus pacientes — ela falou ao levantar-se. Estávamos sorrindo.

— E eu vou deixá-la com os seus anjinhos.

Virei-me em direção à saída da escola e caminho para lá, com Mel segurando a minha mão. O portão foi aberto por um segurança — item que inclusive me fez escolher essa escola — e ao ultrapassá-lo, virei-me, torcendo para minha crush estivesse parada esperando-me passar pelo portão... E não é que ela está lá, parada, observando-me? Mesmo à distância, nossos olhares se conectaram. O portão se fechou e eu escutei a estridente sirene marcando o fim do intervalo.

Meu carro estava do outro lado da avenida. Atravessamos a avenida usando a faixa de pedestre que ficava em frente ao portão da escola. Destravei o carro, abri a porta de trás para Mel acomodar-se em seu assento de elevação. Fechei a porta traseira e entrei na BMW; coloquei o cinto de segurança e parti para minha casa para deixar Mel com a Dona Benê. Contratei-a por indicação da Dri. Na verdade, Benedita, a Dona Benê, vai ser mais do que babá da Mel. Ela vai ajudar-me a gerenciar minha casa: compras, contas, limpeza; enfim, cuidar de quase tudo... E é claro cuidar da Mel também.

 

Tempo Presente...

 

Lembrar-me dos acontecimentos de hoje de manhã, que envolveram conhecer Louise, deixa-me nostálgica. Faz-me lembrar de Cecília e querer saber mais sobre Louise. Será que a Dri a conhece? A Adriele deve estar em sua última consulta. Como decido esperá-la, e sem ter o que fazer, resolvo escutar um pouco de música. Pego meu celular e começo a procurar alguma canção ou playlist para ouvir. Acho o que quero ouvir. Aperto o botão do player do celular e fecho meus olhos...

''Ela vai mudar

Vai gostar de coisas que ele nunca imaginou

Vai ficar feliz de ver que ele também mudou

Pelo jeito não descarta uma nova paixão

Mas espera que ele ligue a qualquer hora

 

Para conversar

E perguntar se é tarde pra ligar

Dizer que pensou nela

Que estava com saudade

Mesmo sem ter esquecido que...''

Sinto saudades da Ceci. Não sinto tristeza, sinto saudades... Saudades de acordar e de não tê-la ao meu lado, de não sentir seus lábios me desejando um bom dia. Saudades de suas mensagens de voz, mandadas em momentos em que eu necessitava ouvi-las... Lembranças de seus abraços noturnos quando eu chegava cansada do hospital e ela me confortava, preparando-me para o novo dia que surgiria...

''É sempre amor, mesmo que acabe

Com ele e aonde quer que esteja

É sempre amor, mesmo que mude

É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou''

Sobrevivi até aqui, sobreviverei a partir daqui. Tenho muitas boas lembranças, apesar do final trágico. Não deixarei que o seu final trágico destrua minha autoestima; luto por mim, pelos meus pais e por Melissa, minha filha que é âncora, meu Forte. Nunca me queixo ou lamento-me pelas idas ao inferno para resgatar Cecília... Apesar de as escolhas terem sido sempre dela, eu sempre busquei tirá-la daquela escuridão em que ela se enfiav*...

''Ele vai mudar

Escolher um jeito novo de dizer "alô"

Vai ter medo de que um dia ela vá mudar

Que aprenda a esquecer sua velha paixão

Mas evita ir até o telefone

 

Para conversar

Pois é muito tarde pra ligar

Tem pensado nela

Estava com saudade

Mesmo sem ter esquecido que...''

Esperança... Louise seria uma possibilidade de futuro, do meu bem supremo? Mas quem é Louise e por que ela não me sai do pensamento? Esse sentimento da possibilidade conflitante e incerta de conhecê-la e fazê-la aproximar-se de mim está fazendo surgir aquele velho sentimento que julguei ter perdido lá atrás... Amor? Paixão? Desejo? Acho que é isso o que eu quero: a possibilidade de eu penetrar naquela imensidão verde do seu olhar, sem racionalidade nenhuma, e me jogar, mergulhar e me afogar... E quando estiver bem lá, no fundo, enxergar sua mão esticada em minha direção para me resgatar...

''É sempre amor, mesmo que acabe

Com ele aonde quer que esteja

É sempre amor, mesmo que mude

É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou''

Levanto-me da cadeira e aproximo-me mais do vidro que separa a minha sala do jardim de inverno. Há flores plantadas ali, além de arbustos de jardim. Perco-me novamente em pensamentos. Quero voltar a me sentir plenamente satisfeita, quero o meu bem-estar de volta. Quero poder esquecer um pouco as agruras pelas quais passei, mas não quero me cobrar e não quero substituir ninguém e nem apagar o passado. Às vezes, pergunto-me se, em algum momento, Cecília me culpou pelas atitudes tomadas por ela. Posso estar sendo insensível, mas não me sinto culpada por nada...

''Para conversar

Nunca é muito tarde pra ligar

Ele pensa nela

Ela tem saudade

Mesmo sem ter esquecido que

 

É sempre amor, mesmo que acabe

Com ela aonde quer que esteja

É sempre amor, mesmo que mude

É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que é amor''

Estava perdida em meus pensamentos e só notei que não estava mais sozinha quando senti os braços da Dri me envolverem na cintura, apertando-me contra seu corpo, colocando seu queixo em meu ombro.

— Em que está pensando?

— Por quê?

— Porque entrei em sua sala, chamei você algumas vezes e você não respondeu. Achei até que estava concentrada escutando a música... E falando em música, quem estava cantando?

— Bidê Ou Balde — ela ri do nome. Acabo rindo também. — É uma banda de rock gaúcha — complemento.

— Não conheço essa banda. A música te afetou? — A voz dela no pé do ouvido está me arrepiando. Meu corpo está muito sensível.

— A letra me fez pensar e me perdi em alguns devaneios...

— Pensando em Cecília?

— Também... — ela solta um longo suspiro: a Dri nunca foi muito fã da Ceci.

— Vamos sair hoje à noite?

— Dri...

— Não é o que você está pensando.

Livro-me do seu abraço, encostando-me na parede de vidro que separa minha sala do jardim de inverno. Ela recua, apoia-se na minha mesa cruzando seus braços. Bem no comecinho da universidade, ficamos algumas vezes. A Dri é bissexual. Quando percebemos para onde aquilo iria parar, resolvemos ser apenas amigas, o que foi uma decisão importante para nós duas: a amizade provou ser infinitamente melhor que o sex*. Mas ainda acho que ela sempre quis mais do que amizade.

— Então, no que é que você está pensando?

— Estou pensando em levar você para jantar comigo hoje à noite... Não é bem um jantar... E nem é só comigo... É mais um evento da ''sociedade'' local — faz aspas quando fala sociedade.

— Eu não sei...

— Não usa a Mel como desculpa, porque agora você tem a Benê... E nem inventa que está cansada porque estamos juntas nisso — e faz um gesto com a mão para dizer que ''juntas nisso'' é o tempo que estamos ali na clínica. — E, além disso, você pode encontrar alguém, de repente.

Será que ela conhece Louise?

— A professora da Mel chama-se Louise — falo em um impulso. — Você a conhece?

— Como ela é?

— Loira, olhos verdes. Mais ou menos a minha altura...

— Linda, metade da cidade tem mulher com esse perfil.

— Você é morena e tem olhos castanhos... E sobrenome alemão — nós sorrimos.

— Não, não conheço... Não de nome — continuamos a nos encarar. — Vamos?

— Só se eu for com o meu carro e se eu não gostar, saio à francesa.

— Fechado.

— Então, vamos — ela sai da minha mesa e eu pego minha bolsa, celular e as chaves do carro. As coisas dela estão em cima da poltrona que fica em frente à minha mesa. Ela pega tudo também e me segue. Apago as luzes da minha sala ao sair, fechando a porta do consultório.

Nós deixamos nossas salas e a clínica para as meninas trancarem à chave e ligarem o alarme — Mara, a secretária da Dri e Pietra, a minha secretária — apesar de nós termos as chaves e os códigos também.

Despedimo-nos das meninas antes de sair da clínica. Entramos e saímos por uma entrada nos fundos, evitando assim tumultuar o hall de entrada quando chegamos. Despedimo-nos com beijos e cada uma vai para o seu carro. Eles estão lado a lado: a minha BMW, vermelha, à minha esquerda e à minha direita, o Porsche 911 Carrera S dela, azul, que ela me contou ter comprado esse ano — eu disse que a família dela tem dinheiro, não disse?

Ela sai primeiro e eu logo atrás. Despeço-me dos seguranças do estacionamento — a clínica toda tem segurança dia e noite — e partimos para nossas casas. Vamos ver o que a noite reserva. Ligo o som do carro e, coincidência ou não, começa a tocar a mesma música que eu ouvia em minha sala...

''Ela vai mudar

Vai gostar de coisas que ele nunca imaginou

Vai ficar feliz de ver que ele também mudou

Pelo jeito não descarta uma nova paixão

Mas espera que ele ligue a qualquer hora

 

Para conversar

E perguntar se é tarde pra ligar

Dizer que pensou nela

Que estava com saudade

Mesmo sem ter esquecido que...

 

É sempre amor, mesmo que acabe

Com ele e aonde quer que esteja

É sempre amor, mesmo que mude

É sempre amor, mesmo que alguém esqueça o que passou'' ¹

_________________________________________________________________________

¹ Mesmo Que Mude - Bidê Ou Balde - 4:05

Written-By – Carlos De Mascarenhas Carneiro/Rodrigo Pilla.

Single By Bidê Ou Balde From The Single ''Tudo Funcionando Direito'' - 2014.

Letra De Mesmo Que Mude © Published By Warner/Chappell, Licensed From Unidade De Finas Artes Ltda.

Link Discogs:

https://www.discogs.com/release/15828670-Bid%C3%AA-Ou-Balde-Tudo-Funcionando-Direito

Link Wikipedia:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Eles_S%C3%A3o_Assim._E_Assim_Por_Diante

Link YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=-ax9owTDtyI

 

Fim do capítulo

Notas finais:

 

''Nil sapientiae odiosius acumine nimio.''

Sêneca

 

FOR NOW, THAT'S IT!

Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.

 


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