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Palavras: 4018
Acessos: 207   |  Postado em: 20/04/2026

Notas iniciais:

 

Gostaria de lhes perguntar se não se lembram: ''Talvez nas portas giratórias, um dia, face a face? ''

 

Capitulo V - O Sol, Ve Se Nao Esquece E Me Ilumina

 

Capítulo V

Ô Sol, Vê Se Não Esquece E Me Ilumina²

 

 

 

 

Rochedo, Paraná - Brasil.

Casa Da Família Almeida Bacchi.

Começo Da Noite De Segunda-Feira.

Agosto 06, 2018.

 

Louise

 

Somente agora consegui me acalmar um pouco depois do quase papelão que eu fiz na clínica da doutora e sair atabalhoadamente correndo de lá. Não sei onde vou enfiar a minha cara quando encontrá-la novamente, sabendo que ela deve ter me visto saindo correndo, que nem uma louca, fugindo dela. De jeito nenhum, estou me entendendo: se eu fiz de tudo para chegar até ela, por que fugi?

Não sei quanto tempo estou aqui, deitada na minha cama, olhando para o teto, sem nada enxergar. Mamãe já veio aqui duas vezes me chamar para jantar. Falando em jantar, Doug mandou um recado perguntando a que horas eu quero que ele venha me pegar. Ainda tem mais essa. Não respondi ainda.

Pego meu celular que também está em cima da minha cama, onde o deixei de qualquer jeito após ler a mensagem de Doug. Olho as horas: 6:23. Resolvo responder, mas confirmando que eu vou... Ou não? Apesar de ter dito a ele que iria. Posso inventar uma dor de cabeça... TPM... Não, não, não... Vou sair um pouco e arejar minha mente, mesmo sabendo que estarei no meio de muitas cobras e seus amigos peçonhentos.

Levanto-me da cama e vou até meu guarda-roupa, abrindo-o e olhando para os vestidos. Não tenho muitos, então a escolha será rápida. Curto? Colado? Longo? Na dúvida, pego um dos meus pretinhos básicos — acredito que toda mulher tem mais de para não errar — e escolho um tubinho com barra de renda, um pouco acima dos joelhos, valorizando minhas pernas, pernas que o Doug diz que são bonitas. Eu também acho. Abro a gaveta das lingeries e pego um sutiã e calcinha pretos, bem sensual. Afinal, não sei como vai terminar minha noite. Em todo caso, estarei preparada. Deixo todas as peças em cima da cama. Primeiro o banho.

Pego uma toalha limpa e sigo para o banheiro. Depois vou para a cozinha, tomar um suco e, quem sabe, beliscar alguma coisa.

 

. . . o O o . . .

 

— Que cheiro bom — chego à cozinha com o meu corpo enrolado na toalha, sem nada por baixo. Papai, é claro, revira os olhos, mas não diz nada; meu irmão, com a cara de bosta de sempre, não ficou calado.

— Sinceramente, não sei como o pai e a mãe deixam você andar assim A minha filha nunca vai se portar dessa maneira.

Ignoro sua fala, solenemente.

— Filho, não vejo nada demais. É a sua irmã.

— Deixa, mamãe. Tem suco de laranja? — Pergunto para ela que está de costas para nós, pegando uma panela no fogão.

— Tem, filha! Na geladeira — responde ela, vindo para a mesa com a panela nas mãos. Vou levantando, mas meu pai levanta-se primeiro. Meu irmão continua o que estava fazendo: comendo e me fuzilando com os olhos.

— Não precisa, pai — digo, mas ele já estava abrindo a geladeira. Pega uma jarra cheia de suco e traz até à mesa. Minha mãe, após deixar a panela na mesa, vai até o armário pegar os copos. Meu pai voltou a sentar e minha mãe senta agora também, depois de colocar um copo na frente de cada um.

— Você faz uma prece, João?

Meus pais são religiosos. Eram mais, mas como eu e meu irmão fomo-nos afastando aos poucos, eles também minguaram a frequência às missas — nós somos católicos — mas ainda respeitam a semana santa — nem barba meu pai faz — e outros eventos católicos. Então, nós quatro inclinamos nossas cabeças e nos damos às mãos. Esse é um dos poucos momentos em que meu irmão ainda participa conosco.

— ''Abençoai, Senhor, a mesa deste lar e na mesa do céu reserva-nos um lugar.''

Meu pai encerra a prece fazendo o sinal da cruz e nós o acompanhamos. Pego a jarra e coloco o suco de laranja no copo de cada um, inclusive no do meu irmão. Mamãe tinha feito o básico: arroz branco, feijão, bife acebolado, salada e fritas. Ela gosta de caprichar aos finais de semana ou quando recebemos visitas — incluindo aí parentes e o pároco do nosso bairro. Até o bispo já veio aqui em casa — o que ultimamente está rareando. Peguei só o bife e nada mais, sem cebolas.

Vai que rola beijo.

— Vai comer só isso, filha?

— Só, pai. Vou a um jantar daqui a pouco.

— Por isso você está, assim, tão magra.

— Não estou magra, mamãe, estou no peso certo.

— Vai sair com o advogadozinho? — Olho para o meu irmão, que mostra um sorriso canalha no rosto, e me pergunto onde foi que nós o perdemos.

— Ainda bem que ele é advogadozinho e não um marginalzinho.

— Olha aqui, sua... — sibila meu irmão, que já estava quase em pé, punhos fechados.

— Maciel... Sente-se! — Fala meu pai em um tom duro, mas baixo. Meu pai nunca precisou gritar ou falar alto conosco para o obedecermos. Porém, ultimamente, meu irmão o enfrentava.

— Qui é, pai! Você sempre a defende...

— Não estou defendendo ninguém.

— Ela me chamou de MARGINAL...

— Baixe a voz, filho — meu pai estava em pé agora também. Ele é bem mais alto que meu irmão. Os dois se entreolham. Maciel puxou à minha mãe, e é bonito como ela. Fico triste por estarmos perdendo nosso caçula. Mamãe já tem lágrimas nos olhos. Ele vira as costas para nós e sai pisando duro da cozinha.

— Filho, você não vai terminar seu jantar? — Diz minha mãe chorosa.

— Perdi a fome — ele grita do corredor que leva até aos quartos. Após alguns minutos ouvimos a porta da sala ser batida forte. Ele saiu mais uma vez para a rua. Com certeza, sem horário para chegar. Ficamos os três em silêncio. Só era ouvido o bater dos talheres nos pratos e a nossa mastigação.

Constrangedor.

— Sinto muito, mamãe — digo para ela, pegando em sua mão e apertando-a com carinho. — Eu não queria falar...

— Mas falou, filha. Falou... — ela me olha triste e eu me sinto mal por isso. — Falou de novo — ela solta da minha mão e volta a comer. Olho para meu pai e vejo também tristeza em seu olhar. Não é a primeira vez que chamo meu irmão de marginal. Meu irmão tem passagem pela polícia: hora errada e lugar errado, segundo ele. Ele ficou alguns dias preso para averiguações. No final não deu em nada. Mas marcou a nossa família, principalmente meus pais. Eu queria levantar também, mas eu não posso. Eles ficariam mais magoados.

— Em que restaurante você vai, filha? — Essa é a Dona Maria, minha mãe. Como sempre querendo mostrar mais força do que tem.

— Não é restaurante — respondo para ela, pegando em sua mão novamente. — É um jantar dos grã-finos da cidade. Mais políticos, sebosos... — nós três rimos. — Eu não queria ir, mas Doug não quer ficar sozinho com aquelas cobras, então...

— Você deve ir, filha. Primeiro, por que o Douglas não é uma pessoa tão ruim, mesmo que você não goste dele do jeito que ele gosta de você... E depois, você precisa sair, divertir-se. Você é jovem, bonita, inteligente...

— Então, papai, eu não queria ir porque não quero que Doug tenha falsas esperanças, além de não gostar de ninguém da família dele...

— Ah, mas você ainda vai se acertar com ele, não vai, filha? Quem sabe, até casar.

Não sei se foi uma boa ideia pegar esse bife. Hoje, o jantar, por enquanto, está indigesto. Papai já me entendeu faz tempo, mas mamãe...

— Dona Maria, nós já conversamos sobre esse assunto e eu achei que a senhora tinha entendido tudo.

Chamar mamãe de Dona Maria a deixa possessa. Mas quero que ela saiba que esse assunto já está encerrado há muito tempo. Prá mim já deu.

— Filha, eu só penso no seu bem...

— E casar com quem ela não gosta é ficar bem, sentir-se bem? — Esse é o meu pai. Lúcido como sempre.

— Então, você quer que nossa filha fique para titia?

— E daí? E se ela ficar? Nós não temos nada a ver com isso... A vida é dela.

Todos já tínhamos acabado nossas refeições. Mamãe, enquanto falava, já estava em pé recolhendo pratos e talheres. Levantei para ajudar. Papai também.

— Nunca disse que não vou me casar, mamãe, mas com Douglas, com certeza não.

— Ele é um bom moço... — minha mãe diz meneando a cabeça, insatisfeita.

— Isso não basta, mãe — afirmo, chegando até a pia para ajudá-la nas coisas. Papai sempre enxuga e guarda o que lavamos. Raramente fugimos dessa rotina.

— Deixa, filha — mamãe diz olhando para mim sem deixar de lavar os pratos. — Vai se trocar para ficar linda e bonita — e me beija a bochecha.

— É verdade, Ise, vai lá. Nós cuidamos de tudo por aqui — confirma meu pai, me empurrando de levinho para que eu me afaste do que eu estou fazendo. — Anda, vai logo — continua ele me empurrando para fora da cozinha.

— Ok, vocês venceram.

Deixo os dois na cozinha e caminho em direção aos quartos para terminar de me arrumar. Tenho tempo ainda.

Antes de ir para o meu quarto, paro em frente a um púlpito de madeira em que está a Bíblia que mamãe sempre deixa aberta em uma página que ela escolhe, diariamente. Leio um versículo da página de hoje:

''Peçam, e será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta será aberta.'' ¹

— Batam, e a porta será aberta — sussurro para mim mesma.

 

. . . o O o . . .

 

Olho-me no espelho e gosto do que vejo. Nunca fui muito fã de maquiagem. A natureza me brindou com um bonito rosto, não que ele seja perfeito. Até algumas ruguinhas já consigo notar, mas não estou nem aí. A maquiagem é simples. Capricho um pouco mais nos olhos para destacar o quanto verde eles são. Olho mais uma vez para o espelho da minha penteadeira — tipo camarim. Até luzes têm em torno do espelho — e vejo que realmente meu rosto está em harmonia com meus cabelos levemente ondulados e um pouco abaixo dos ombros.

Levanto-me da banqueta e sigo até meu guarda-roupa que tem um espelho na porta. Paro em frente a ele e dou uma olhada no meu visual: não sei se serei a mais bem vestida, mas que eu vou causar, ah, isso eu vou. O toque do celular me tira dos meus devaneios. Olho no visor. É Douglas. Atendo rapidamente.

— Boa noite, Doug. Antes que você pergunte, já estou pronta.

— Por isso que eu já estou aqui em frente à sua casa. É só sair. Beijos.

— Já estou indo. Beijos.

Pego minha bolsa de mão, guardando o celular dentro dela, as chaves da casa e um batom para qualquer eventualidade. Olho-me mais uma vez em frente ao espelho, vou até a penteadeira e borrifo mais um pouco de perfume e saio do quarto para uma noite, quem sabe, agradável.

Passo pela sala e meus pais estão assistindo a uma telenovela, Segundo Sol. Sei o nome porque, volta e meia, eles estão discutindo alguma cena da novela, mas eu não faço ideia do que fala o enredo. Vou até eles e dou um beijo em cada um, desejando boa noite.

— Tem horário para voltar, Ise?

— Não, papai! Mas não dormirei fora — meu pai assentiu sem tirar os olhos da TV.

— Você está maravilhosa, filha — diz mamãe. Agora, meu pai me olha também.

— Juízo, filha!

— Não sou mais criança, pai. Obrigada, mamãe. Tchau prá vocês.

Saio de casa e já vejo Douglas encostado no seu carro do outro lado do portão de minha casa. Ele está muito charmoso em um terno slim casando com o tipo de corpo dele: não muito encorpado, mais ou menos atlético; sua altura é pouca coisa a mais do que eu.

Ele, cavalheirescamente, abre o portão para me dar passagem. Assim que ele fecha o portão, sou surpreendida com um agarre na cintura e um beijo nos lábios. Correspondo por alguns segundos e me afasto dele, dando um passo atrás, obrigando-o a soltar minha cintura.

— O senhor foi rápido...

— Estava com saudades e você está, como posso dizer... — então ele se afasta um pouco e me olha de cima a baixo. — Espetacularmente, maravilhosa.

— Vamos logo. Quanto mais cedo chegar, mais cedo saímos.

— É o que você pensa, senhorita... A noite vai ser longa — e me olha, safadamente.

— Duvido, pois não espere muito da minha parte — ele fica sem graça com a minha resposta. Então ele abre a porta do passageiro para eu entrar — um Mercedes-Benz classe A, verde — e depois ele entra também e partimos rumo ao tal jantar.

 

Rochedo, Paraná - Brasil.

Mansão Da Família Fischer Müller.

Meio Da Noite De Segunda-Feira.

Agosto 06, 2018.

 

Durante o caminho, ele me disse que vai ser na casa dos pais dele, que, a propósito, é uma bela de uma mansão, com direito a piscina, quadra de tênis e outros mimos. Falamos pouco pelo caminho porque não demoramos muito para chegar. Conversamos só trivialidades. Ao entrar na rua da sua casa, já pude perceber o quanto de dinheiro tinha ali acumulado pela quantidade de carros importados parados na rua. Ele manobrou seu carro e entrou na garagem de sua casa, onde tinham mais três luxuosos carros parados. Deve ser um para cada membro da família.

Ele desligou o carro, desceu e eu o esperei abrir a porta para eu sair também, no que ele me ajudou oferecendo sua mão para facilitar minha saída. Depois, ele ligou o alarme do carro e seguimos de braços dados para a entrada da mansão, que começava com uma pequena escadaria revestida de mármore, com certeza. De onde estávamos podíamos ouvir uma música sendo tocada, mas não era dance.

Ao entrarmos em sua casa, já vimos algumas pessoas dançando e ao longe avistamos seus pais que estavam conversando calorosamente com um grupinho de pessoas e, assim que nos viram, os dois caminharam até nós. A casa está cheia, ou melhor, abarrotada. É muito grande o salão de recepção da casa. A música agora era mais audível. Tinha uma bandinha ao fundo do salão da casa tocando...

''Ô sol vê se não esquece e me ilumina

Preciso de você aqui

Ô sol vê se enriquece a minha melanina

Só você me faz sorrir

 

E quando você vem

Tudo fica bem mais tranquilo

Ô tranquilo

Que assim seja, amém

O seu brilho é o meu abrigo, meu abrigo''

— Se você me deixar sozinha, é um homem morto, além de ser a última vez que você me convence a participar de um troço desse — digo para ele sem olhá-lo e com um belo sorriso — falso —no rosto, enquanto os pais dele aproximavam-se.

— Fique calma, minha linda. Estou com você.

— Filho querido, meu amor. Fiquei preocupada. Você demorou tanto — diz sua mãe, dando-lhe um abraço caloroso, ignorando-me completamente. — Quase mandei os seguranças atrás de você. Afinal, onde você estava é meio perigoso — ela conclui a fala, soltando Doug do seu abraço e me encarando.

— Não tão perigoso quanto alguns ambientes — respondo sarcasticamente.

— O que quer dizer com isso, Srta. Bacchi? — Esse é o pai, o prefeito, manifestando-se.

— Ok, gente! Nós chegamos, estamos bem e vamos curtir a festa, certo? — Diz Doug nos afastando deles dois.

— Você não alivia, não é Louise?

— E por que deveria? — Ele balança a cabeça negativamente e continuamos a circular pelo salão da casa, cumprimentando um e outro, enquanto nos dirigimos para o bar. Em dado momento, alguém o chama e ele vai atender a pessoa, mas eu continuo caminhando em busca de uma bebida, e embriagar-me um pouco, para tentar passar o maior tempo possível com ele aqui.

''E toda vez que você sai

O mundo se distrai

Quem ficar, ficou

Quem foi vai vai

 

Toda vez que você sai

O mundo se distrai

Quem ficar, ficou

Quem foi vai vai vai

Quem foi vai vai vai

Quem foi''

Chego até o bar que, apesar da quantidade de pessoas, está relativamente vazio e me sento em uma banqueta. Logo sou atendida por um barman e peço logo um uísque, duplo e com uma pedra somente de gelo. Não vou dirigir mesmo. Enquanto aguardo o barman me servir, viro-me para o salão para observar melhor as pessoas que ali estão. Porém, sinto alguém chegar às minhas costas e sentar ao meu lado. Reconheço na hora o aroma e sinto meu corpo reagir. Meu coração palpita mais forte.

— É um prazer encontrá-la aqui, professora — ouço Ashanti dizer. Agora meu coração não palpita mais, galopa. Viro-me lentamente em direção à voz e encaro aqueles lindos olhos âmbar. Estou à beira de uma taquicardia. — Você está deslumbrante, Louise.

Fiquei sem palavras. Ashanti estava linda. Ela vestia um tubinho branco, que realçava sua pele negra, com os braços à mostra. Uma pequena abertura na frente do seu vestido mostrava parte dos seus seios. Outra abertura, essa na parte lateral do vestido, mostrava também um belo par de coxas — e que coxas — pois estava sentada e com as pernas cruzadas.

— Sua bebida, senhorita.

Peguei o copo e tomei um longo gole do uísque que desceu queimando meu esôfago. Só então consegui falar.

— Que surpresa, doutora. Não esperava encontrá-la por aqui — tomei mais um gole. Precisava de coragem. — Deslumbrante está você.

Ela sorri, mostrando todos os seus dentes perfeitos e lindo.

Ela é toda perfeita!

— A senhorita também quer uma bebida? — Pergunta o barman para Ashanti.

— O mesmo que ela está bebendo, por favor — ela indica para o barman, voltando a me encarar. — Poderíamos procurar um outro lugar para conversarmos mais à vontade?

Não acredito no que estou ouvindo. Ela quer ficar sozinha comigo?

A bebida dela chega e ela agradece ao barman com um sinal de cabeça.

— Cheers!

— Cheers! — Brindo com ela. Continuamos a nos encarar. Minhas pernas estão moles.

Como eu saio daqui?

— E, então... — ela pausa, respira. — Eu não conheço a casa, mas juntas podemos encontrar um lugar mais agradável, não acha?

— Eu também não conheço muito bem o lugar, mas acho que tem um jardim muito bonito depois da piscina.

— Então, vamos? — Diz ela, levantando-se.

Sem pensar, levanto-me também, e começamos a caminhar em direção à saída do salão da casa, indo para a piscina que eu já conhecia o caminho e logo depois ao jardim.

''Ô sol vê se não esquece e me ilumina

Preciso de você aqui

Ô sol vê se enriquece a minha melanina

Só você me faz sorrir

 

E quanto você vem

Tudo fica bem mais tranquilo

Ô tranquilo

Que assim seja, amém

O seu brilho é o meu abrigo, meu abrigo''

Depois de andarmos por alguns minutos, passando por algumas pessoas que também estavam por ali perambulando, encontramos um banco que ficava em frente a um jardim com várias flores. Sentamos lado a lado e, como o banco não era muito largo, ficamos bem próximas. Podíamos sentir o calor dos nossos corpos... E os perfumes também. Estávamos com os nossos copos de uísque e bebericávamos. O céu estava lindo e límpido. Como o jardim era meio escuro, era possível enxergar a beleza das estrelas brilhando. A Lua também estava ali nos acompanhando, cheia e brilhante.

— O seu namorado não vai se importar? — Ela pergunta, mas olhando para o céu.

— Ele não é meu namorado! — Afirmo. Então ela vira-se e nos olhamos. Ela segura o copo entre as mãos, rodando-o. — Somos amigos, especiais, mas amigos — ela balança a cabeça afirmativamente.

Mesmo baixinha, podíamos ouvir a música daqui.

''E toda vez que você sai

O mundo se distrai

Quem ficar, ficou

Quem foi vai vai vai

 

E toda vez que você sai

O mundo se distrai

Quem ficar, ficou

Quem foi vai vai vai

Quem foi vai vai vai

Quem foi vai vai vai''

— E o que é que significa esse especial? — Ela pergunta ainda olhando em meus olhos, dando ênfase à palavra especial. Ele tem uns olhos muito lindos.

Diferentes.

— Você é inteligente, doutora, o suficiente para saber o que isso significa. Não preciso desenhar — falo um pouco ríspida, sem saber o porquê, bebendo do meu uísque, já meio aguado. O gelo já tinha derretido. Ela então volta a olhar para o céu. Fica em silêncio por alguns segundos. Acho que eu fui ríspida demais.

Será que devo desculpar-me?

Mas não é o que eu faço.

— E a Mel, gostou da escola? — Pergunto, quebrando o silêncio entre nós. Então ela dá um lindo sorriso antes de responder.

— Ela adorou conhecer a escola e amou a professora. Ela está encantada com você — novamente meu coração começou a bater mais forte que um bumbo de escola de samba.

— Eu também gostei muito dela.

— Na verdade, nós gostamos muito de você.

— Nós? — Indago sem entender.

— Sim, nós, ela e a mãe dela — já não era nem mais um bumbo que batia em meu peito... Era a escola de samba toda. Eu estava até com zumbido no ouvido e provavelmente toda ruborizada, branca do jeito que eu sou.

''Ô sol vem aquece a minha alma

E mantém a minha calma

Não esquece que eu existo

E me faz ficar tranquilo

 

Vem aquece a minha alma

E mantém a minha calma

Não esquece que eu existo

E me faz ficar tranquilo''

— Você é uma bela mulher, Louise.

Isso foi um flerte?

Sem saber o que fazer, ou responder, eu me levanto do banco tão rápido que quase perco o equilíbrio. A bebida já estava fazendo efeito, acho. Ashanti levanta-se também, preocupada.

— Aconteceu alguma coisa? Você está bem? — E tenta se aproximar de mim, mas eu recuo. — Tudo bem, Louise. Desculpe-me se eu a assustei.

Então ela se vira e começa a se afastar de mim. E eu faço o quê? Absolutamente nada. Fico plantada, inerte, estática como se tivesse criado raízes. Ela continua se afastando e eu, covardemente, sequer consigo pronunciar uma palavra. Eu queria tanto falar com ela, explicar-me, mas não saio do lugar.

Não sei o que está acontecendo comigo.

Cheguei a ir atrás dela, em sua clínica, para conversar com ela e agora que eu tinha a chance, não consegui. Um bolo imenso forma-se na minha garganta, afinal eu não sei o que está acontecendo comigo.

Por que eu quero tanto ficar perto dela e depois não consigo?

Preciso entender o que está acontecendo comigo.

''E toda vez que você sai

O mundo se distrai

Quem ficar, ficou

Quem foi vai vai vai

Toda vez que você sai

O mundo se distrai

Quem ficar, ficou

Quem foi vai vai vai

 

Quem foi vai vai vai

Quem foi vai vai vai'' ²

Sem saber o que pensar, o que fazer, saio do jardim e ando em direção à mansão, cruzando com outras pessoas perdidas por ali. Quem sabe eu ainda consiga coragem para falar com ela novamente e me desculpar.

 

_________________________________________________________________________

¹ Mateus 7:7

 

² O Sol - Vitor Kley - 3:29

Compositor: Vitor Barbiero Kley.

Single By Vitor Kley From The Album ''Adrenalizou'' - 2019.

Letra De O Sol © Universal Music Publishing Group.

Link Discogs:

https://www.discogs.com/release/13252277-Vitor-Kley-Adrenalizou

Link Wikipedia:

https://pt.wikipedia.org/wiki/O_Sol_(can%C3%A7%C3%A3o)

Link YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=YVJijQIualA

 

Fim do capítulo

Notas finais:

 

''Nil sapientiae odiosius acumine nimio.''

Sêneca

 

FOR NOW, THAT'S IT!

Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.

 


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