Algum ''desculpe'' num grande aperto de gente? Uma voz de que ''é engano'' ao telefone? Mas sei o que respondem: ''Não, não se lembram.''
Capitulo VI - Coisas Que So O Coracao Pode Entender
Capítulo VI
Coisas Que Só O Coração Pode Entender ¹
Rochedo, Paraná - Brasil.
Mansão Da Família Fischer Müller.
Meio Da Noite De Segunda-Feira.
Agosto 06, 2018.
Ashanti
Saio do jardim, distanciando-me de Louise, atordoada. Não esperava a reação que ela teve, afastando-se de mim quando tentei me aproximar somente para ficar mais perto dela, sem intenção nenhuma, a não ser ampará-la, pois parecia que ela não estava bem. Pelo menos agora sei em que terreno estou pisando. Enganei-me com seus olhares. Pareciam dizer alguma coisa, mas eu não soube interpretar.
Caminho voltando para a mansão, olhando para nada e com meu copo vazio na mão.
Entro no salão. A banda toca agora sertanejo que eu não aprecio muito, então nem presto atenção no que cantam. As pessoas já falam um pouco mais alto, devido à bebida, e o som alto, com certeza. Perdi-me de Adriele, não consigo encontrá-la. Contornando a pista onde algumas pessoas dançam, decido-me pelo bar para mais uma bebida, apesar de estar de carro. Quero ir embora, mas não sem antes dar um beijo de boa noite em Dri. Chego no bar, sento-me e peço ao barman outra dose de uísque.
— Boa noite, senhorita — ouço uma voz forte, marcante, junto a um perfume amadeirado, sofisticado. Viro-me para encará-lo. É um belo homem, para quem gosta, que não é o meu caso, é claro. Mas não tem como não admirá-lo: alto, mais de 1,80, porte atlético, barba semiaparada por fazer, cabelos alinhados. Lembra-me algum ator de cinema, mas não sei qual.
— Boa noite, senhorito — ambos sorrimos.
— Posso sentar-me?
— Há mais lugares vazios — digo arqueando minha sobrancelha.
— Todos frios. Este é o mais quente.
— Senhorita, sua bebida — avisa o garçom, quebrando o clima entre nós. Pego minha bebida e ele aproveita para pedir a dele também.
— E então, posso...
— Fique à vontade — respondo sem encará-lo, olhando para o ambiente para tentar localizar Adriele. No entanto, acabo encontrando aqueles olhos verdes que estão tirando-me do sério: Louise. Ela encara-me por segundos, mas acaba entrando no meio das pessoas que dançam e perco-a de vista.
— Salud! — Ouço-o a brindar.
— Salud! — Respondo e olho para ele, curiosa. Não parece brasileiro.
— Perdoe-me minha falta de educação: sou Amin Fayed, deputado federal — apresenta-se, esticando sua mão para me cumprimentar. Era o que me faltava: um político.
— Ashanti López Lima, pediatra e ginecologista — retribuo o gesto e ele beija minha mão. Ele tem lábios suaves.
— Encantado.
Ele solta minha mão e dá um longo gole em seu uísque. Viro-me para a sala ampla da mansão, que virou um salão de dança, buscando, mesmo sem querer, a dona dos belos olhos verdes que estava me fazendo perder minha serenidade.
— Procurando alguém, doutora?
— Por que lhe parece que eu estou procurando alguém? — Volto a encará-lo, questionando-o.
— E não está?
— Na verdade, sim. Não consigo enxergar onde está Adriele, minha amiga. Quero me despedir dela. Essa festa não é para mim.
— A Dra. Klein?
— Sim. Conhece-a?
— De vista. Trocamos um olá, talvez. Nada mais que isso — comenta o deputado. Pode ser impressão minha, mas ele pareceu incomodado.
— Poxa, Fayed! Estou te procurando um tempão.
Viramo-nos em direção à voz — a propósito, esganiçada — e nos deparamos com uma loira alta e magra — bem espichada, na verdade —, com pescoço comprido, quase sem seios e com braços e pernas longilíneas. O corpo combina perfeitamente com a voz. Ela veste um longo vermelhíssimo que combina com o batom mais vermelho ainda. Chega já agarrando o braço do deputado e me olhando de cima a baixo.
— Quem é você? — É petulante também.
— Você poderia ser mais educada, Chris. Essa é a Dra. Ashanti.
— Por que você está falando com ela? Ela deu em cima de você?
— Como é que é, garota? Você está sendo ridícula — afirmo.
Tento controlar minha raiva, mas eu já estou chateada e, como já tomei dois copos de uísques, perco o rebol*do.
— Primeiro, o seu deputado não faz o meu tipo — digo e levanto-me, ficando frente a frente com ela. Ela é pouca coisa maior que eu. Fayed levanta-se também. — Segundo, homens não me atraem de maneira alguma... E nem mulheres como você.
Nisso, Fayed arqueia a sobrancelha, dando um sorrisinho de canto. Acho que ele entendeu o que eu quero dizer, mas a garota está com cara de paspalha.
— O que você quer dizer com isso, doutorazinha? — Não me contenho, dou mais um passo em sua direção e ela solta o braço do deputado que agora está praticamente entre nós duas.
— O que é que está acontecendo aqui? — Uma voz forte e alta se faz ouvir. Era o que me faltava. Mal chego à cidade e já estou me metendo em confusão. Logo eu que sou da paz. Nós três nos viramos para o dono da voz, mas eu pouco reparo nele porque do lado dele, de braços dados, está ela, Louise.
Perdemo-nos entre nossos olhares.
— O que você está aprontando, minha irmã? — Ele insiste. Só então eu olho para ele. Ele não pode ser irmão dessa garça. Ele é muito mais bonito do que ela. E parece ser bem-educado. Então, meu estômago embrulha só de pensar que ele e Louise possam ter alguma coisa.
— Não está acontecendo nada, Douglas. Você sabe como sua irmã é mimada e, às vezes, destemperada — diz Fayed chateado. Já estamos chamando a atenção de algumas pessoas que estão mais próximas de nós.
— Eu sou o quê? — Esganiça mais a voz ainda, a petulante.
— Tudo bem por aqui, gente? — Pronto. Isso já está se tornando um pequeno espetáculo. É Dri quem chega agora, abraçando minha cintura. Gesto que não passa despercebido por Louise... E tenho a impressão de que ela não gosta do que está vendo. Ela então puxa o braço do irmão da garça, apoiando-se nele, e eu, por meu lado, abraço também a cintura de Adriele, aproximando mais os nossos corpos. Ficamos em um impasse.
Ninguém fala mais nada.
Nesse momento, a banda, que estava tocando na festa, começa a dedilhar as primeiras notas de Wave, de Tom Jobim. Como amo essa música, resolvo mudar de tática e mostrar para Louise que eu não tinha ficado ressentida com o que tinha acontecido há alguns minutos no jardim.
— Dança comigo, Louise? — Com a cara mais deslavada do mundo, chamo-a para dançar... E, soltando-me de Dri caminho em sua direção, esticando minha mão. Para minha surpresa, e acho que de todos, ela aceita minha mão colocando a outra em meu ombro. Com a minha mão livre, envolvo a sua cintura e começamos a dançar ali mesmo. Sem perder tempo, Douglas chega perto de Adriele, convidando-a também, e eles vão para o centro da sala. A garça sobra para Fayed, que é praticamente arrastado por ela.
Ele não tem como fugir.
A garota da banda, que também toca o violão, começa então a cantar...
''Vou te contar, os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho''
Eu e Louise somos praticamente da mesma altura, então, mesmo que quiséssemos, não tem como uma não se perder no olhar da outra. Nenhuma das duas baixam o olhar. Parece que ambas querem ler, através dos olhos, o que vai à mente de cada uma. E, pelas deusas, como ela tem lindos olhos verdes...
Mas eu já disse isso, não disse?
Para mim, é impossível não me perder naquele mar esmeraldino.
— Você me surpreende — afirmo, puxando o seu corpo mais para perto do meu. Não quero falar alto para que ela possa me entender, apesar de a música não estar muito alta.
Ali é uma conversa só nossa.
— Por quê? — Questiona ela, diminuindo mais ainda a distância entre nós. O que me faz entender que ela também pensa como eu. Mais uma aproximação e nossos corpos estariam colados.
— No jardim, você se afastou de mim quando tentei ficar mais próxima de você.
Ela fica me encarando, talvez buscando uma desculpa esfarrapada... ou não. Ouvimos agora a segunda parte da música cantada pela vocalista da banda, com uma bonita voz. Gal Costa aprovaria com certeza.
''O resto é mar, e tudo que eu não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho''
Nesse momento, ela dá um lindo sorriso, antes de responder...
— Eu estou tentando entender algumas coisas, Ashanti.
— Coisas?
— Eu não sei como nomear, então são coisas...
— Por que não vamos para um lugar mais calmo para conversarmos. Quem sabe eu posso ajudá-la.
Ela inclina graciosamente a cabeça para a esquerda, levanta levemente as sobrancelhas, arqueando-as e abrindo bem seus olhos... Na boca, quase um 'o' perfeito, demonstrando surpresa.
— Então, você acha que se eu ficar sozinha com você, terei minhas dúvidas respondidas e eu saberei dar nomes a essas coisas? — Não consigo deixar de formar um sorriso — apesar de travesso — com a sua afirmação. — E você me levaria para onde? Até onde eu sei, você mudou-se recentemente para cá. Não conhece nada da nossa cidade.
— Tem a minha casa...
— Ah, sim! A sua casa, é claro — diz ela com um sorriso mais descarado do que irônico, aproximando-se mais de mim. Não há mais espaço entre nossos corpos. — Então, lá, em sua casa, você acha que eu ficarei mais à vontade?
— Mais receptiva — digo quase em seu ouvido. Nossas faces estão quase se tocando também. — Acredito que você compreenderia melhor os seus sentimentos, ficaria menos confusa — afirmo e volto a olhar em seus olhos. Percebo que seu corpo fica um pouco tenso e ela se afasta um pouco.
A banda executa a música de Tom Jobim em perfeita harmonia...
''Da primeira vez, era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei, da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver''
A banda toca agora a parte instrumental da música.
Como se tivéssemos feito um acordo comum, ficamos em silêncio ouvindo e dançando no ritmo da canção. Cada uma perdida em seus pensamentos. Já não nos encaramos tanto agora. Nossos olhares agora perdem-se pelo ambiente, a procura de nada. Ao longe, percebo que somos observadas pelo irmão da garça, o tal de Douglas, que parece ser mais do que amigo de Louise. Não dou bola para ele. Volto a encará-la. Ou melhor, voltamos a nos enxergar.
— E então?
— E então, eu gostaria muito de conversar com você em um lugar onde pudéssemos ficar mais à vontade, sem nos preocupar com ouvidos ou olhares inconvenientes. Como na sua casa, por exemplo — ela dá um sorriso tímido, um pouco envergonhada, talvez por aceitar conversar em minha casa, como eu sugeri.
Nossos corpos se aproximam de novo; estamos conectadas, sendo embaladas pelas palavras finais da canção de Gal e Jobim.
''Da primeira vez, era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei, da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver
Vem nos envolver,
Vem nos envolver'' ¹
Os quatro que nos acompanhavam já estão novamente no bar, tanto assim que posso observar o amigo dela e Fayed, mais a garça e a Dri, olhando-nos a dançar. A canção então termina e começamos a nos afastar do centro da sala, em direção ao bar onde estão os outros.
— Meninas, eu e Fayed vamos abandonar vocês um pouco. Vamos até o escritório do meu pai para aquela reunião chata de sempre com os membros do partido — diz o amigo dela como se desculpando com o inconveniente.
— Chata e demorada — completa Fayed.
— Sério Doug? Não vou te esperar, você sabe disso — diz Louise firme. Eu observo tudo calada, mas já antecipando o que eu vou fazer.
— Eu sei. Por isso vou pedir para o motorista do meu pai te levar.
— Não precisa, Doug. A Dra. Ashanti me leva.
Sério? Ela me antecipou? Uau! Não posso deixar de sorrir internamente de satisfação vendo o tal de 'Doug' boquiaberto, surpreso.
— Ah, tudo bem então! — Ele está todo sem jeito, surpreso com a situação olhando para Fayed.
— Vamos, vocês dois, antes que papai tenha um chilique — diz a garça apressando os dois, já se afastando deles. Não fico surpresa com sua atitude. Ela tem cara de quem gosta de politicagem, desta 'patotinha'. Os dois se despedem de nós três com beijinhos e boas noites e se afastam também.
— Ash, eu também preciso ir. Tenho um parto agendado para amanhã cedo — pontua Adriele. Essa é minha amiga, provavelmente desconfiando da minha interação com Louise.
— Vai precisar de mim?
— Não! A minha equipe já está pronta — diz ela, vindo até mim, beijando minha face e sussurrando: 'quero saber tudo depois' antes de se afastar. — Tchau, Louise — despede-se ela da professora, beijando sua face e se afastando de nós para se despedir de outras pessoas.
— Olha, eu não tenho mais ninguém para dar tchau, então estou pronta.
— Então vamos porque eu também não tenho — afirmo.
Assim, saímos à francesa para termos a nossa conversa particular.
. . . o O o . . .
Acho graça quando Louise vê o meu carro achando-o lindo, e diz que eu tenho um puta de um carrão — palavras dela — e me conta que tem um Fusca 1500, 72, amarelo-ovo chamado Cucarachita, mas que o chama de Cuca mesmo.
A nossa viagem até minha casa é suave.
Como ao entrar na minha BMW eu faço uma observação para Louise de como o céu noturno de agosto está limpo e bonito com estrelas brilhantes e uma Lua quarto minguante — acho que é essa a fase da Lua, apesar de não ser expert em astronomia —, começamos a falar bobagens — já que não somos entendidas no assunto — sobre as influências dos astros nas nossas vidas.
Louise diz que ouviu dizer que essa fase da Lua é importante para se desapegar de algo que se está nos atrapalhando, finalizar relacionamentos ruis e por aí foi, e rimos das nossas informações nada confiáveis.
Depois de guardar o carro na garagem, faço questão de abrir a porta da BMW para ela, estendo minha mão para ajudá-la a sair e dou passagem para ela entrar, primeiro, em minha casa ao abrir a porta de entrada. Em todos esses momentos, ela dá um lindo sorriso, deixando-me mais encantada ainda. Quando entramos, ela observa com satisfação — pelo menos seu olhar demonstra isso — a decoração da minha sala de estar pintada com tons off White contrastando com detalhes cinza e preto dos móveis, sofás, pufes e vasos.
Na parede, em frente ao sofá principal, uma cópia do Le Chahut, obra pontilhista do pintor francês Georges Seurat.
— Você gostaria de beber algo? — Pergunto a ela enquanto caminho para o bar da sala pensando em como começar a nossa conversa.
Sei que bebemos na festa, mas acho que temos fôlego ainda.
Em minha cabeça está claro que algo está acontecendo entre nós, e eu nunca fujo dos meus sentimentos, só que eu estou sentindo algo que somente senti por Cecília. Algo que eu achei que não sentiria por mais nenhuma outra pessoa. Eu estou me apaixonando novamente e por alguém que aparentemente é heterossexual.
— Um vinho tinto, por favor.
— Pode ser um australiano?
— Ashanti, eu não sei diferenciar um vinho bom de um ruim nacional, imagine o de outro país — diz sorrindo. — Confio em sua escolha.
Pego a garrafa que eu escolhi, abrindo-a e a deixando 'descansar' enquanto pego duas taças. Deixo as duas taças sobre o balcão, ao lado da garrafa, indo até o home theater em busca do controle remoto para ligá-lo: sei que deixei um CD com regravações de canções standards do jazz que coloquei para ouvir assim que cheguei de viagem e acertei tudo na nova casa. Ligo o home theater acionando o CD player e o som maravilhoso de uma guitarra acústica, com uma voz feminina quase melancólica cantando 'Time After Time', de Chet Baker, ecoa pela sala...
''Repetidas vezes
Digo a mim mesma que sou
Tão sortuda por te amar
Tanta sorte por ser
Quem você corre para ver
À noite, quando o dia acaba
Eu só sei o que eu sei
O passar dos anos vai mostrar
Você manteve meu amor tão jovem, tão novo
E vez após vez
Você vai me ouvir dizer que eu sou
Tão sortuda por estar amando você
Eu só sei o que eu sei
O passar dos anos vai mostrar
Você manteve meu amor tão jovem, tão novo
E vez após vez
Você vai me ouvir dizer que eu sou
Tão sortuda por estar amando você'' ²
O som está baixinho, afinal Mel está dormindo. Louise, sentada confortavelmente, observa tudo meio divertida, mas atenta.
Volto para o bar para pegar o vinho e as taças, indo me sentar ao lado de Louise. Deposito as duas taças sobre a mesa e coloco o vinho, sem enchê-las. Pego uma taça para mim e sirvo a outra para Louise.
— Salud!
— Salud!
Tomamos um gole cada uma. Assim que ela sente o gosto da bebida, assente com a cabeça, aprovando-a. Realmente é um bom vinho e ela sete isso.
— Nossa! É muito bom! — Ela sorve mais um gole, fitando-me profundamente. — E a música, perfeita. É jazz?
— Chet Baker...
— Desculpa. Não conheço. Sou meio capiau... — ela diz baixando seu olhar.
Meu Deus, como eu quero beijá-la!
— Não, não é — digo e aproximo-me mais dela, tocando em seu queixo e erguendo seu rosto, fitando-a com ardor. — Você é linda, muito mais que linda... charmosa... inteligente...
— Doutora, que susto — a voz de Benê assusta Louise, mas eu já a tinha visto chegar na sala... Louise recua, ouvindo a voz de Benê. — Ouvi música. Não sabia que tinha chegado.
— Tudo bem, Benê — tranquilizo-a. Aproveito para apresentar as duas. — Benê, essa é Louise... Louise, essa é Benê — ato contínuo, Louise levanta-se e vai até a mulher que olhava-a com atenção. As duas se cumprimentam. — Prazer, professora.
— Como sabe que sou professora?
— A Dra. Ashanti falou-me da escola e da senhora... E Mel me disse que a sua nova professora era muito bonita e chamava-se Louise.
Apesar da penumbra da sala, posso notar uma Louise ruborizada.
— Ah, nada de senhora, por favor. Só Louise —Benê sorri, assentindo.
— Mel deu trabalho? — Pergunto tentando ajudar Louise na interação.
— Dormiu e está dormindo como um anjinho — Benê responde sorrindo. — Bom, vou deixá-las à vontade. Boa noite para vocês — complementa e se afasta indo em direção aos quartos que ficavam no segundo andar.
— Benedita trabalha para mim como uma governanta, apesar de eu já gostar dela mais do que alguém que vai ajudar-me a gerencia tudo por aqui
— Ela parece ser muito simpática.
— E Ela é. Adriele indicou-me e estamos nos dando muito bem. Mel gosta muito dela.
Volto a encarar Louise. Ela está, parece-me, inibida, mantendo aquele pequeno afastamento, olhando para a taça. Eu preciso fazer alguma coisa. Resolvo deixar de rodeios e ser honesta com ela. Deposito minha taça, já vazia, em cima da mesinha e delicadamente pego sua mão direita, aninhando-a entre as minhas, enquanto acaricio seu dorso com os meus polegares. Ela não rejeita e ainda dá um sorriso, mesmo que pequeno. Parece encabulada, mas já é alguma coisa.
Uma linda versão de ''The Look Of Love'', de Burt Bacharach, ecoa, agora, em uma suave voz feminina...
Perfeita!
''A aparência do amor
Está em seus olhos
Uma aparência que seu sorriso
Não pode disfarçar
A aparência do amor
Está dizendo muito mais do que
Estas palavras jamais poderiam dizer
E quando meu coração estava ferido
Bem, isso me tira o fôlego'' ³
— Vou ser sincera com você, Louise. Nunca me escondi de ninguém e nem deixei de mostrar meus sentimentos quando eles significavam muito para mim — eu falo mirando aqueles lindos verdes olhos e seus convidativos lábios. — Eu sou homossexual, lésbica. Gosto de mulheres, sempre gostei — à medida que eu acaricio sua mão, mais próxima eu me movia para perto de seu corpo. As nossas coxas estão praticamente unidas. Eu posso sentir o calor que seu corpo emana. — E desde a primeira vez que eu a vi, Louise, você despertou algo em mim que eu julguei nunca mais sentir por outra mulher desde a morte da minha esposa — confesso e deixo uma lágrima rolar pela minha face.
Então ela aperta minhas mãos como se quisesse me dar conforto e eu percebo que agora ela também olha para meus lábios. Continuo com a minha mão direita segurando a sua e com a mão livre a levo até sua nuca, acariciando-a e a trazendo para mais perto de mim. Podemos sentir nossas respirações, já descompassadas. Percebo sua entrega e vejo que ela quer tanto quanto eu. E ela fecha seus olhos.
Sinto-me mais corajosa.
Então, com meus lábios, toco os seus, suavemente. Com meus olhos fechados sinto a sensação maravilhosa de tocar os seus lábios. Mas meu corpo se incendeia quando peço, com minha língua, permissão para entrar em sua boca e ela a entreabre permitindo a minha invasão, provando da sua língua quente e gostosa. Abafo seus gemidos soltando sua mão e pegando em sua cintura quase fundindo nossos corpos. Sinto minha vagin* se contrair e uma dorzinha gostosa lá embaixo.
Agora, é Diana Krall que brinda o nosso momento com mais uma linda canção...
''Eu tenho uma sensação, é uma sensação
Eu estou escondendo, não sei porque
É apenas mental, álibi sentimental
Mas eu adoro você
Tão forte por você
Porque ir parando
Eu estou caindo
Nosso amor está chamando
Por que ser tímida?
Vamos nos apaixonar
Por que não nos apaixonar?
Nossos corações são feitos disso
Vamos dar uma chance
Porque ter medo dele'' 4
_________________________________________________________________________
¹ Wave - Gal Costa - 3:19.
Track By Gal Costa From The Album ''Gal Costa Canta Tom Jobim Ao Vivo'' - 1999.
Compositor: Antônio Carlos Brasileiro De Almeida 'Tom" Jobim.
Letra De Wave © BMG Rights Management, Corcovado Music Corporation, Peermusic Publishing, Sony/ATV Music Publishing LLC, Tratore.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/5221237-Gal-Costa-Gal-Costa-Canta-Tom-Jobim-Ao-Vivo
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Gal_Costa#Discography
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=UwqoGvsUVuI
² Time After Time [Vez Após Vez] - Susie Arioli Featuring Jordan Officer - 3:22.
Track By Susie Arioli Featuring Jordan Officer From The Album ''All The Way'' - 2012.
Compositores: Samuel 'Sammy Cahn' Cohen/Julius Kerwin 'Jule Styne' Stein.
Letra De Time After Time © BMG Rights Management, Kobalt Music Publishing Ltd., Spirit Music Group, The Music Goes Round.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/21308044-Susie-Arioli-Featuring-Jordan-Officer-All-The-Way
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Susie_Arioli
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=QT9J9P4D_5s
³ The Look Of Love [A Aparência Do Amor] - Shelby Lynne - 3:20.
Track By Shelby Lynne From The Album ''Just A Little Loving'' - 2008.
Compositores: Burt Freeman Bacharach/Harold Lane 'Hal' David.
Letra De The Look Of Love © Colgems-Emi Music Inc.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/1222974-Shelby-Lynne-Just-A-Little-Lovin
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/Just_a_Little_Lovin%27
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=Ye6Vw6_aR18
4 Let's Fall In Love [Vamos Nos Apaixonar] - Diana Krall - 4:28.
Track By Diana Krall From The Album ''When I Look In Your Eyes'' - 1999.
Compositores: Hyman 'Harold Arlen' Arluck/Theodore L. 'Ted' Koehler.
Letra De Let's Fall In Love © Peermusic Publishing. ℗ & © 1999 Grp Records Inc.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/25750141-Diana-Krall-The-Look-Of-Love
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/When_I_Look_in_Your_Eyes
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=JZ9metz56qA
Fim do capítulo
''Nil sapientiae odiosius acumine nimio.''
Sêneca
FOR NOW, THAT'S IT!
Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.
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