Algum “desculpe” num grande aperto de gente? Uma voz de que “é engano” ao telefone?
Capitulo VII - 'E Preciso Amor Para Poder Pulsar'
Capítulo VII
''É Preciso Amor Para Poder Pulsar'' ³
Rochedo, Paraná - Brasil.
Casa Da Família Almeida Bacchi.
Começo Da Madrugada De Terça-Feira.
Agosto 07, 2018.
Louise
Ashanti para o carro em frente à minha casa. Eu queria poder ter ficado mais tempo em seus braços — sim, e com sensações jamais sentidas —, mas temos que trabalhar hoje ainda — pois é, já é madrugada de terça — e ela foi muito delicada e sincera comigo. Tenho certeza de que se continuássemos com os beijos e amassos, terminaríamos na cama — quer dizer, ela me levaria para a cama e, sinceramente, cheguei a desejar muito isso —, no entanto, ela foi deixando o momento muito leve e gostoso. E também eu preciso respirar um pouco para entender o que está acontecendo comigo.
— Tudo bem? — Ela indaga, pegando a minha mão que repousa em minha coxa, apertando-a com carinho.
— Sim, Ash. Posso chamá-la de Ash?
— Claro, Ise!
— Ise?
— Gostou?
— Amei! Você me faz bem, mas quero entender primeiro tudo isso.
— Eu entendo, Ise. Só não quero que você fuja e se esconda por trás de preconceitos e medos só por não se aceitar ou ser aceita.
— Eu nunca fugi de nada na minha vida. Pelo menos com relação aos meus sentimentos — então, desafivelo meu cinto de segurança e me aproximo, beijando docemente seus lábios. Mesmo as coisas estando meio confusas dentro de mim, eu não tenho como negar: eu estou gostando dela, e muito. — Preciso ir, meu bem.
— Eu sei — ela afirma, retribuindo meu beijo.
Eu não tinha me afastado dela. E como é prazeroso o beijo dessa mulher. É um beijo carinhoso, sem apelo sexual. Gemo baixinho mesmo assim. Só de imaginar o que ela pode fazer com sua boca em meu corpo me excita mais ainda. Na verdade, a calcinha que eu estou usando já está perdida há muito tempo.
— É sério, preciso ir — afirmo, ofegante, assim que terminamos o beijo.
— É claro, querida — diz, com um lindo sorriso, afastando-se de mim.
Eu já estou abrindo a porta para sair, mas eu paro quando ela pousa sua mão em meu ombro, apertando-o de leve.
— Janta comigo hoje, e com a Mel também.
— Janto — aceito prontamente, sem hesitar. — Tchau!
— Tchau!
Saio, então, do seu carro, pego as chaves na minha bolsa de mão, abro o portão de entrada da minha casa e me viro para fechá-lo. Só então Ash vai embora.
Entro silenciosamente em casa, já tirando as sandálias. Espero meus olhos acostumarem-se com a escuridão da sala e vou na ponta dos pés até meu quarto. Abro a porta bem devagar para não fazer nenhum barulho, entro fechando-a em silêncio também. Deixo as sandálias em um canto do quarto, a bolsa de mão e as chaves na escrivaninha e, sem acender as luzes, começo a me despir. O banho deixarei para amanhã, mesmo porque eu estou com o cheiro da Ash, e eu não quero tirá-lo. A calcinha, jogo no cesto de roupas que deixo no meu quarto para eu lavá-las depois. Não tenho como continuar a usá-la: está encharcada. Logo que acordar, não posso esquecer de colocar a roupa para lavar antes de seguir para o trabalho.
Pego um lenço umedecido e limpo o excesso de lubrificação no meu sex*, jogando-o no cestinho de lixo que fica ao lado da escrivaninha. Não posso esquecer de esvaziá-lo também.
Detalhe: tudo isso foi resultado de beijos e toques em braços, mãos, rosto. Nenhum homem jamais me deixou assim, apesar de não ter tido tantos assim. Nem Doug que é com quem eu tenho mais afinidade sexual.
Coloco uma camiseta e um short largos, sem nada por baixo. Sento na cama verificando no celular se o alarme estava ativado.
Tudo ok!
No visor, os números piscam a hora: 1:45. Eu tenho poucas horas de sono, se é que eu vou conseguir dormir. Deixo meu celular na mesinha de cabeceira de minha cama.
Preciso conseguir o número dela. Suspiro, sorrindo.
Eu estou me sentindo muito bem, leve. Deito-me, cobrindo-me com um fino lençol. A temperatura está amena, mas o meu corpo está quente e o meu coração palpita somente em pesar no que tinha acontecido na sala da casa de Ash. Fecho meus olhos e deixo minha mente vagar na delícia que foi...
Tempo Pretérito...
— Vou ser sincera com você, Louise. Nunca me escondi de ninguém e nem deixei de mostrar meus sentimentos quando eles significavam muito para mim — ela fala de um jeito calmo e doce, me deixando encantada. Mas o que me desestabiliza são aqueles radiantes olhos de loba contrastando com sua pele negra. — Eu sou homossexual, lésbica. Gosto de mulheres, sempre gostei...
Ela é gay.
Engraçado. Saber que ela é lésbica não me assusta. Na verdade, essa informação mexe comigo, mas de uma forma positiva. Ashanti fala e aos poucos vai se aproximando mais de mim, sem deixar de acariciar minha mão. Quando nossas coxas se tocam, sinto minha vagin* pulsar e a umidade crescer entre minhas pernas.
— E desde a primeira vez que eu a vi, Louise, você despertou algo em mim que eu julguei nunca mais sentir por outra pessoa desde a morte da minha esposa.
Como assim, esposa... Ashanti já foi casada? Mas a esposa dela morreu. Que triste! Fiquei desconcertada, mas a lágrima que eu vejo rolar pela sua face me emociona e eu sinto a sua dor. Conecto-me com ela.
A trilha sonora que ela colocou para nos embalar é suave, quase hipnótica e deixa o momento mais íntimo...
''Eu tenho uma sensação, é uma sensação
Eu estou escondendo, não sei porque
É apenas mental, álibi sentimental
Mas eu adoro você
Tão forte por você
Porque ir parando
Eu estou caindo
Nosso amor está chamando
Por que ser tímida?
Vamos nos apaixonar
Por que não nos apaixonar?
Nossos corações são feitos disso
Vamos dar uma chance
Porque ter medo dele'' ¹
Aperto sua mão. Afinal, eu quero que ela saiba que eu sou solidária ao seu sentimento de perda. Mesmo confortando-a e sentindo por ela pela sua perda, eu não consigo mais me controlar em admirar seu belo rosto, olhos e seus lábios carnudos. Fico tentada em beijá-los. Como se ela tivesse lido meus pensamentos, leva sua mão até minha nuca — causando-me arrepios — acariciando-a e me puxando em sua direção. Meu coração começa a pulsar mais rápido, e olha que ele já está mais do que acelerado. Quando percebo o que está para acontecer, fecho meus olhos.
Eu quero muito ser beijada por ela e tentar entender essas sensações que sinto desde o primeiro momento em que a vi.
Quando sinto seus lábios tocarem os meus, amoleço todinha. Seus lábios vão se moldando aos meus como se tivessem sido feitos para isso. Porém, eu perco minha sanidade quando sua língua pede passagem e eu, sem pensar duas vezes, a recebo. Já beijei muito, mas muito mesmo, porém esse beijo está sendo especial. Talvez por ela ser mulher — ou isso não tem nada a ver, ou tudo — o beijo é doce e macio... quente e sensual... delicado, molhado, gostoso... muito intenso.
E não é só a minha boca que está salivando. Eu sinto meu sex* latejar e molhar. Nunca senti tanto tesão ou vontade de ser possuída. Minha calcinha, com certeza, já está em um estado lamentável. E a maneira como ela pega a minha cintura para aprofundar mais o beijo faz minha vagin* contrair-se, mais uma vez. Eu estou à beira de um orgasmo.
Aos poucos, nós fomos nos afastando, mas não muito. Nossas respirações estão descompassadas.
A música jazzística — acho eu — deixava tudo muito especial...
''Vamos fechar nossos olhos e tornar nosso próprio paraíso
Pouco sabemos dele, ainda podemos tentar
Para torna-lo algo bom
Podemos ter um fim um ao outro
Ser ou não ser
Deixe nossos corações descobrir
Vamos nos apaixonar
Por que não nos apaixonar?
Agora é a hora, enquanto somos jovens
Vamos nos apaixonar
Podemos ter um fim um ao outro
Ser ou não ser
Deixe nossos corações descobrir
Vamos nos apaixonar
Por que não nos apaixonar?
Agora é a hora, enquanto somos jovens
Vamos nos apaixonar'' ¹
— Como você está?
— Feliz... surpresa... excitada... — Na última palavra falada, não consigo continuar mirando seus olhos. Abaixo minha cabeça, totalmente sem graça. Admitir que ela tinha me deixado excitada — e muito —, deixa-me sem ação. Ela delicadamente pega em meu queixo, levantando minha cabeça e eu me perco, de novo, naquele olhar de loba.
— Arrependimento?
— Nenhum — respondo e levo minha mão em sua face e a acaricio. Ela fecha seus olhos, curtindo meu carinho. — Eu quero tanto quanto você. E saber que você me deseja... nossa, deixa-me em um quase êxtase.
Ela fecha novamente seus olhos e eu a beijo, ternamente. O beijo é calmo, carinhoso. Sinto sua mão acariciando minha cintura, deixando-me mais excitada. Separamo-nos, procurando respirar.
— Você foi casada...
— Fui — então, ela afasta-se um pouco. Percebo um leve desconforto. Acredito que o assunto ainda a chateie. Eu quero conhecê-la, mas não quero constrangê-la, e parece que foi o que fiz.
— Perdoe-me, não quero forçar nada...
— Foi uma overdose... — diz, de repente. Seus olhos marejam. Meu coração fica pequenininho. Aninho seu rosto em minhas mãos e a beijo. Quero tanto confortá-la.
— Sinto muito.
— Eu também — afirma, colocando sua cabeça em meu ombro e começo a afagar seus curtos e encaracolados cabelos. Eles são macios e deixo meus dedos se perderem naqueles milhares de fios encaracolados. — Ela era atriz. Caminhava para ser grande, porém não soube lidar com as muitas críticas negativas. E eu também falhei. Não consegui ajudá-la quando mais precisou de mim, de alguém.
— Você não deve se culpar, querida. Ashanti... — eu a chamo com carinho e ela sai do meu ombro. Entreolhamo-nos. — Eu tenho certeza de que você nunca foi negligente.
— Dói perder quem se ama.
Estamos de mãos dadas.
— Você não superou ainda sua perda...
Saber que ela ainda a ama me deixou triste. Não sei como reagir. Além de lutar com minhas dúvidas, será que tenho que lutar contra um fantasma? Quero levantar-me, mas ela não deixa.
— Louise, ouça-me — diz ela, segurando firme minhas mãos. — Olhe-me, por favor — pede. Sua voz é firme e carinhosa. Diria até sedutora. Seu olhar é penetrante. — Estou me abrindo para você, por você.
— Por mim? — Sinto meu coração na boca, aos solavancos.
— Sim, por você. Já lhe disse... O que estou sentindo por você é muito mais que atração. Sentimentos que eu achava que estivessem mortos porque eu sofri muito com a partida dela. Eu e Mel sofremos.
— Nossa, Ash! Como Mel enfrentou tudo isso?
— Melhor do que eu. Acredita? — Afirma ela sorrindo. E que sorriso. — Na verdade, Mel cuidou mais de mim do que eu dela. Ela é meu anjo. Eu a amo tanto, Ise. Você não faz ideia.
— Ela é muito linda. Como ela nasceu?
— O óvulo foi meu e os espermatozoides de um banco de sêmen, com as características de Ceci.
— O nome dela era Cecília?
— Sim! Cecília Novaes — ao ouvir o nome lembrei-me da morte de uma atriz no começo do ano que estava fazendo muito sucesso e surpreendeu a todos a notícia de sua súbita morte. Muita coisa foi dita depois, mas achei que fosse fofoca.
— Você deve conhecê-la, mesmo não assistindo novelas.
— Você tem razão, Ash. Não sou de assistir novelas, mas a morte dela chamou a atenção da mídia. Houve muitas especulações sobre sua morte.
Fiquei em silêncio. Não sei até onde eu posso ir.
— Nem tudo foram especulações...
— Então, era verdade... sobre as drogas...
— Sim!
— Mas não falava que ela era casada...
— Pois é. Nossa história é muito complicada — ela diz, um tanto perdida. Eu vejo tristeza em seu olhar. — Estávamos juntas desde a faculdade, e mesmo casadas, ela não se assumiu perante os amigos, a sociedade. Ela foi rejeitada pela família por estar comigo e isso a deixou muito insegura. E então ela fez dois trabalhos que não foram bem aceitos pela crítica: um filme e uma peça de teatro. Ela não suportou as críticas e então vieram as drogas.
— Que barra, Ash!
— Por isso, eu me afastei de tudo em São Paulo e vim para cá... recomeçar. E então acontece você — e toma meus lábios de novo em um beijo cheio de significados. — Desde o primeiro momento eu quis você, mas não quero pressionar-lhe. Quero que nos conheçamos. Eu quero saber quem é você e eu quero que você me descubra... quer dizer, você quer?
— Quero...
E como eu quero.
Agora com nossas mãos um pouco mais ousadas, o nosso beijo vai ficando mais quente. Meu corpo está em chamas, porém, quero ir mais devagar. Mesmo porque temos os nossos compromissos amanhã, ou hoje. Não faço ideia que horas são. Encerramos nosso delicioso beijo com vários selinhos.
— Eu preciso ir, Ash. Tenho aulas amanhã... ou hoje... nem sei que horas são... — ela, então, pega o controle remoto do Home Theater para desligá-lo. O visor do DVD Player, marca 1:17.
— Eu também tenho pacientes antes das oito da manhã. Precisamos descansar.
Ela levanta-se, esticando sua mão para mim. Eu pego sua mão e ela ajuda-me a levantar-me também, mas aproveita o impulso e agarra minha cintura com seu braço livre, atacando minha boca. Eu solto de sua mão e enlaço seu pescoço com meus braços, e me entrego. Ela, possessivamente, passeia com suas mãos pelas minhas costas, deixando-me toda arrepiada.
— Vou levar você...
— Não precisa...
— E você vai embora como? — Ela arqueia a sobrancelha. — E nem vamos discutir.
— Mas você vai voltar sozinha...
— Louise, eu moro em um condomínio fechado e com seguranças. E meu carro é blindado. Estarei bem...
Tempo Presente...
''Eu estou caminhando à luz do sol, woh, oh
Eu estou caminhando à luz do sol, woh, oh
Eu estou caminhando à luz do sol, woh, oh
E é hora de sentir-se bem'' ²
Estico minha mão para pegar e desligar o alarme do smartphone. Não preciso olhar as horas. Sei que são seis da manhã, mas já estou acordada há algum tempo, como sempre. Não acredito que eu tenho que levantar. Na mente, ainda as sensações dos beijos trocados com Ashanti e a avalanche de sentimentos que vieram com eles estão vividos.
Sentimentos e desejos.
Pego minhas coisas para o banho e higiene matinal e abro a porta, e surpreendo minha mãe pronta para me chamar, como faz todos os dias.
— Deus, Louise! — Minha mãe diz, assustada, dramaticamente colocando sua mão no peito e encostando-se na parede do corredor. — Você quer me matar de susto? — Ela continua, ofegante.
— Quanto drama, mamãe — digo, dando-lhe um beijo em sua bochecha. — Bom dia! — E caminho para o banheiro.
— Você está com um pouco de olheiras.
— E que não dormi bem, mamãe — minto.
— O que aconteceu? — Pergunta ela, toda preocupada, vindo em minha direção. — Brigou com o Douglas? — Reviro meus olhos, no automático.
— Não, mãe, não briguei com ele nem com ninguém — afirmo e dou o meu melhor sorriso para ela. — Só não dormi bem, mas não é nada. Não se preocupe.
— Tá bom, filha. Vá tomar seu banho para não se atrasar.
Ela, então, caminha em direção à cozinha e eu, finalmente, entro no banheiro.
. . . o O o . . .
Entro na cozinha surpreendendo meus pais conversando baixinho, cabeças próximas... cochichando, na verdade. Eles param a conversa na hora e eu finjo que não vi a cena, que não percebi a atitude estranha deles. Cumprimento meu pai com um beijo, pois não o tinha visto ainda e sento-me pegando a garrafa de café e abrindo-a. No rádio que minha mãe mantém na cozinha toca uma canção sertaneja. Não é sempre que ela liga o rádio de manhã. Geralmente ela liga quando faz o almoço ou o jantar.
''Ando devagar
Porque já tive pressa
Levo esse sorriso
Porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte
Mais feliz quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco eu sei
Eu nada sei
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir''
— Chegou tarde ontem, filha.
— Estava acordado, pai? — Questiono, pensando se ele tinha visto alguma coisa entre mim e Ashanti, mesmo sendo impossível devido à altura do muro que cerca nossa casa.
— Não, filha. Escutei quando você abriu a porta da frente. Eu tenho o sono leve, você sabe... — e papai tem mesmo.
Qualquer barulho noturno que ele ache estranho, dentro ou fora de casa, ele se levanta para verificar do que se trata. Mamãe fica desesperada, ainda mais quando ele sai para o quintal, mesmo armado com um porrete. É como ele chama o pedaço de pau que ele mantém embaixo de sua cama. Coisas do seu João.
— No rádio-relógio marcava quase duas horas da madrugada — ele observa, encarando-me.
— Você bebeu também? — Questiona mamãe. Eu assinto. — Por isso não dormiu nada, filha — observa ela.
— Nada a ver, Dona Maria! E eu bebi umas duas ou três taças de vinho.
— A conversa está boa, mas preciso ir. Tenho muito serviço hoje — afirma meu pai, levantando-se e levando sua caneca de café de porcelana alviverde do Coxa para lavar na pia.
Papai torce para o Curitiba. Eu, para irritá-lo, sou atleticana, mas não curto futebol.
Ele despede-se e vai embora.
''Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou
Conhecer as manhas e as manhãs
O sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir
Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora
Cada um de nós
Compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz'' ³
— Eu também já vou, mãe — digo, levantando-me e levando minha caneca rubro-negra — afinal, sou atleticana, não é mesmo? — para a pia, lavando-a e colocando no escorredor. — Tchau!
Dou um beijo nela e saio da cozinha antes dela começar o interrogatório.
Não sou fã da música sertaneja, então não costumo prestar atenção em nenhuma, mas a frase ''Todo mundo ama um dia'' martelava em minha mente.
Será?
Apresso-me para chegar ao meu quarto e terminar de arrumar-me para as minhas aulas da manhã. Ao passar em frente ao quarto do meu irmão, ouço o seu ronco. Raramente nos vemos, e quando isso acontece, brigamos. E é o que mais tem acontecido ultimamente. Entro em meu quarto, pego meu nécessaire e, sem fechar a porta, vou direto ao banheiro do corredor. Escovo os dentes, faço um rabo de cavalo com meus cabelos e volto para meu quarto, pegando minhas coisas: chaves do carro, celular, jaleco e mochila, fechando a porta ao sair.
Passo voando pela sala gritando um tchau, novamente, para minha mãe. Paro em frente à Bíblia aberta e leio o trecho aleatoriamente:
''Que diremos, pois, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou a seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará juntamente com ele, e de graça, todas as coisas?'' 4
Suspiro e continuo meu caminho.
Chego esbaforida na garagem, já destravando o alarme do meu Fusca e já apertando o botão do portão elétrico para abri-lo. Jogo minha mochila, jaleco e celular no banco do carona. Sento-me no banco do motorista, fecho a porta do carro, afivelo meu cinto de segurança, ajeito-me no banco do carro e dou uma olhada no retrovisor, observando se o portão está aberto. Coloco a chave de ignição e giro para dar partida no motor... nada. Giro de novo... nada. Nem tec meu Cucarachita faz.
Pego meu celular no banco do carona e olho as horas: 6:48. Decido ir a pé, afinal a escola não fica tão longe de casa.
Pego todas as minhas coisas que estão no banco do carona, tranco meu carro com a chave — o alarme não quis funcionar... acho que é a bateria — e aproveito que o portão da garagem está aberto e saio por ele fechando-o, logo a seguir, acionando o controle remoto. Guardo as chaves do carro na mochila, ajeitando-a no meu ombro direito, penduro meu jaleco no braço esquerdo e guardo meu celular no bolso de trás da minha jeans.
Viro à direita na esquina de casa e começo a caminhar rapidamente. A escola fica a poucas quadras à frente. Eu uso um All Star, pois não trabalho de salto, então não demoro tanto. Estou tão chateada com o meu Fusca e apressada que demoro para prestar atenção em um carro vermelho que me acompanha e buzina para mim. Até que uma voz conhecida me faz estacar na hora. O carro para também e eu me abaixo para, através do vidro da porta do carona aberto, ver que está dirigindo. O meu coração erra uma batida quando reconheço a motorista: Ashanti.
A minha manhã acaba de ficar mais iluminada ao vê-la me encarando com um belo sorriso que mostra dentes maravilhosamente alinhados.
— Tudo isso é marra para me mostrar que não dá atenção para quem buzina para você?
Em resposta, eu me aproximo mais para falar com ela, mas uma anjinha balançando a mãozinha sentada em uma cadeira elevada no banco de trás faz agora eu ganhar o meu dia.
— Bom dia, meu anjo — digo para a encantadora criança, que me sorri tão linda quanto a mãe e olho novamente para Ash e o que vejo em seus olhos me diz mais do que mil palavras naquele momento.
— Entra — ela pede carinhosamente. Escuto a porta traseira destravar. Abro-a para guardar minha mochila, jaleco e aproveito para beijar Melissa.
— Você é muito linda, sabia? — Digo depois do beijo e ela sorri. Não tem como não amar essa menininha. Entro no carro e afivelo meu cinto enquanto o vidro fecha-se automaticamente. Olho para Ash. Não tem como não amar essa mulher. — Você, também, é um anjo.
— A mãe também não ganha beijo? — Ela pergunta ainda com aquele lindo sorriso no rosto. Não resisto e me inclino para beijar sua face. Mas não é o que acontece: meus lábios são tomados por ela delicada e apaixonadamente e eu retribuo sem me importar com nada, mesmo sabendo onde estou e com a pequena ali atrás.
Não sei de onde estou tirando tanta coragem, ou loucura.
Separamo-nos sorrindo.
Enquanto sinto as famosas borboletinhas no estômago, ela põe então o carro em marcha e seguimos para a escola.
_________________________________________________________________________
¹ Let's Fall In Love [Vamos Nos Apaixonar] - Diana Krall - 4:28.
Track By Diana Krall From The Album ''When I Look In Your Eyes'' - 1999.
Compositores: Hyman 'Harold Arlen' Arluck/Theodore L. 'Ted' Koehler.
Letra De Let's Fall In Love © Peermusic Publishing. ℗ & © 1999 Grp Records Inc.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/25750141-Diana-Krall-The-Look-Of-Love
Link Wikipedia:
https://en.wikipedia.org/wiki/When_I_Look_in_Your_Eyes
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=JZ9metz56qA
[2] Walking On Sunshine [Caminhando Na Luz Do Sol] - Single By Katrina & The Waves From The Album ''Walking On Sunshine'' - 1985. Compositor: Kimberley Charles Rew. Letra de Walking on Sunshine © Sony/ATV Music Publishing LLC, Warner Chappell Music, Inc, BMG Rights Management.
https://www.youtube.com/watch?v=CTigOGlS-V0
³ Tocando Em Frente - Almir Sater - 3:51.
Single By Almir Sater From The Album ''Ao Vivo'' - 1992.
Compositores: Renato Teixeira De Oliveira/Almir Eduardo Melke Sater.
Letra De Tocando Em Frente © Peermusic Do Brasil Edições Musicais Ltda.
Link Discogs:
https://www.discogs.com/release/6938803-Almir-Sater-Ao-Vivo
Link Wikipedia:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Almir_Sater
Link YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=PzBWBkz8lQ4
4 Romanos 8:31,32
Fim do capítulo
''Nil sapientiae odiosius acumine nimio.''
Sêneca
FOR NOW, THAT'S IT!
Tenham uma boa leitura e comentem à vontade.
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