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Onde o medo fez morada! por ellen souza

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Palavras: 979
Acessos: 206   |  Postado em: 29/05/2026

Capitulo 3

Os dias seguintes passaram num equilíbrio estranho entre rotina quebrada e notificações constantes.

Por fora, tudo parecia igual.

Tereza acordava cedo. Ia trabalhar. Voltava para casa. Dividia espaço com Lara. Respondia o necessário. Evitava o inevitável.

Por dentro…

Era como viver sobre vidro fino.

Porque, apesar das mensagens engraçadas de Alexandra, dos áudios debochados no meio da tarde e daquela sensação quase esquecida de leveza, a vida real continuava esperando por ela todos os dias, do lado de dentro daquela casa.

E Lara parecia estar tentando.

Tentando puxar assunto. Tentando ser mais gentil. Tentando agir como quem finalmente entendia que estava perdendo.

Mas Tereza já tinha aprendido, da pior forma, que esforço e mudança nem sempre eram a mesma coisa.

 

Numa quinta-feira à noite, Lara estava no banho quando o celular vibrou sobre a cama.

Tereza nem olhou de imediato.

Não porque confiasse. Mas porque estava cansada demais para viver como investigadora de uma relação que já deveria ser parceria.

A tela acendeu outra vez.

Depois de novo.

E então uma prévia apareceu.

— Saudade de ontem… queria repetir sem pressa.

Tereza congelou.

O quarto pareceu pequeno demais. Quente demais. Silencioso demais.

Seu coração não acelerou como da primeira vez.

Não houve desespero. Nem negação.

Só um vazio brutal.

Como se alguma parte dela, lá no fundo, já soubesse.

Com movimentos lentos, talvez lentos demais para alguém que já viveu aquilo antes, pegou o celular.

Senha.

A mesma.

Porque Lara nunca mudou. Nem a senha. Nem o padrão.

E talvez essa fosse a parte mais cruel: A audácia confortável de quem acredita que o perdão virou mobília.

Quando abriu, não precisou procurar muito.

Mensagens apagadas parcialmente. Contato sem foto. Nome feminino salvo como se fosse irrelevante.

Mas não era.

Nunca era.

Áudios. Fotos. Encontros. Mentiras encaixadas entre horários de trabalho e desculpas banais.

 

— Ela desconfia? Hoje não dá, tô em casa.

 

— Ontem foi perfeito.

 

Tereza leu tudo em silêncio.

Sem chorar. Sem tremer.

E isso assustou mais do que qualquer surto.

Porque, daquela vez…

…algo dentro dela não quebrou.

Só acabou.

 

Quando Lara saiu do banheiro, enxugando o cabelo, encontrou Tereza sentada na ponta da cama.

Calma demais.

E imediatamente soube.

— Té…

A voz falhou.

Tereza ergueu o celular.

— Quem é?

Lara empalideceu.

— Eu posso explicar…

Tereza riu.

Não alto. Não histérico.

Pior.

Desacreditado.

— Essa frase devia vir impressa nas suas certidões.

— Não faz isso…

— Isso o quê, Lara? — A voz de Tereza finalmente tremeu, não de fraqueza… de excesso. — Não faz o quê? Descobrir? Porque fazer… você fez.

— Não foi—

— Não mente. Não agora. Não hoje.

O silêncio explodiu entre as duas.

Lara começou a chorar primeiro.

Como quase sempre.

Mas, pela primeira vez, Tereza não sentiu vontade de consolar.

— Eu tentei… Lara disse entre lágrimas. 

— Eu juro que tentei.

— E eu cansei. — A resposta veio tão rápida quanto dolorosa. 

— Eu cansei de tentar por nós duas.

— Té, por favor…

— Não.

A palavra saiu firme. Baixa. Definitiva.

Tereza se levantou devagar, sentindo o próprio corpo pesado como se cada ano daquela relação estivesse grudado em sua pele.

— Eu sobrevivi à primeira achando que amor bastava. À segunda achando que podia reconstruir. Às outras porque fui idiota o suficiente pra acreditar no seu arrependimento.

Lara chorava mais.

Mas Tereza precisava continuar. Precisava, ou quebraria.

— Só que eu não posso passar a vida inteira tentando ser suficiente pra alguém que sempre quer mais do que tem.

— Eu te amo…

Dessa vez, quem chorou foi Tereza.

Porque talvez aquela fosse a pior verdade.

— Eu sei. — Sua voz falhou. — Mas o seu amor sempre me feriu mais do que me protegeu.

Lara caiu num silêncio devastador.

E Tereza odiou o quanto ainda doía.

Porque terminar não apagava sete anos. Não apagava planos. Não apagava memórias boas escondidas entre tantas ruins.

Só significava que, às vezes… amar alguém não justifica permanecer.

— Acabou, Lara.

Duas palavras.

Sete anos enterrados dentro delas.

 

Naquela noite, Tereza saiu de casa com uma mochila, o rosto molhado e o peito em carne viva.

Não sabia exatamente para onde estava indo.

Só sabia que não podia ficar.

Parou a moto numa rua qualquer, respirando como se até o ar tivesse ficado difícil.

E, como se o universo tivesse um senso de humor cruel, seu celular vibrou.

Alexandra: Preciso de atualização urgente: você sumiu o dia todo. Foi sequestro, surto ou reconciliação com a sofrência?

 

Tereza encarou a tela e, pela primeira vez desde que saiu de casa…

…riu chorando.

Porque, honestamente, aquilo era tão a cara de Alexandra que chegava a ser irritante.

Com os dedos trêmulos, respondeu:

Tereza: Talvez um pouco de surto.

 

A resposta veio na mesma hora.

 

Alexandra: Nível ‘cortei a franja’ ou nível 'preciso esconder um corpo’?

 

Tereza soltou uma risada sufocada no meio das lágrimas.

 

Tereza: Terminei um relacionamento de sete anos.

 

Dessa vez, Alexandra demorou.

E pela primeira vez… não por falta de resposta certa.

Mas porque até o ácido, quando encontra dor real, sabe a hora de mudar.

Então veio:

Alexandra: Ok… definitivamente é mais grave que franja.

 

Tereza fechou os olhos, rindo apesar de tudo.

E então outra mensagem:

 

Alexandra: Onde você tá?

 

Tereza hesitou.

Tereza: Na rua. Sem querer voltar pra casa.

 

A resposta veio firme, imediata e absurdamente simples:

 

Alexandra: Então não volta agora. Chora tudo, xinga tudo, respira… mas não volta só porque tá doendo. Às vezes doer é exatamente o que impede a gente de continuar quebrando.

Tereza leu uma vez. Depois outra.

E, em meio ao pior fim da sua vida até ali…

Sentiu nascer alguma coisa pequena. Estranha. Gentil.

Eram presença.

E, às vezes, quando tudo desmorona…

Presença já é um começo.

Fim do capítulo


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