Capitulo 4
Tereza não voltou naquela noite.
Pilotou sem destino por quase uma hora, deixando a cidade borrar diante dos olhos cheios, até estacionar em frente a uma pousada simples na entrada da praia — dessas discretas, com fachada cansada e nenhuma pergunta desnecessária.
Era tudo que ela precisava.
Nenhuma pergunta.
Subiu para o quarto com uma mochila nas costas, o peito em ruínas e a sensação quase absurda de que, depois de sete anos, ela não fazia ideia de como se existia sozinha.
Assim que fechou a porta, o silêncio veio.
Pesado. Cruel. Definitivo.
Não havia Lara no banheiro. Não havia televisão ligada. Não havia tensão no ar.
Só ela.
E isso, por algum motivo, doeu mais.
Sentou na cama e chorou como não chorava havia anos. Não só pela traição. Não só pelo fim.
Mas por tudo.
Pela mulher que insistiu. Pela mulher que perdoou. Pela mulher que diminuiu a própria dor para manter uma relação viva.
Chorou até a respiração falhar. Até a cabeça doer. Até o corpo cansar.
E quando finalmente conseguiu olhar para o celular outra vez… havia três mensagens de Lara. Nove ligações perdidas. Dois áudios.
E uma mensagem de Alexandra.
Alexandra: Preciso saber se você tá presa num drama de novela… ou se ainda tá funcional.
Tereza riu em meio ao caos emocional, o que pareceu quase ofensivo diante da própria tragédia.
Tereza: Defina funcional.
A resposta veio imediata.
Alexandra: Consegue formar frases ou só encarar o teto dramaticamente?
Tereza secou o rosto, respirando fundo.
Tereza: Hoje o teto tá ganhando.
Alexandra: Justo. Mas, se começar a cogitar voltar por carência, eu preciso me manifestar contra.
Tereza soltou uma risada verdadeira dessa vez.
Pequena. Frágil. Mas real.
Tereza: Anotado.
Demorou alguns segundos.
Então:
Alexandra: Posso ser invasiva?
Tereza arqueou a sobrancelha, mesmo sozinha.
Tereza: Acho que você já é.
Alexandra: Ponto justo. Mas… você tá segura?
E foi isso.
Não “o que aconteceu?” Não “me conta tudo.” Não curiosidade disfarçada.
Só segurança.
Tereza olhou para aquela mensagem por tempo demais.
Porque, depois de um dia inteiro sendo emocionalmente dilacerada… alguém perguntando se ela estava segura parecia quase íntimo demais.
Tereza: Tô. Só… destruída.
A resposta veio logo:
Alexandra: Destruída passa. Voltar pra quem te destrói mais, não.
Tereza fechou os olhos.
Talvez fosse o cansaço. Talvez a dor. Talvez a carência brutal de quem tinha acabado de perder uma vida inteira.
Mas aquelas palavras pousaram fundo.
Na manhã seguinte, acordou desnorteada.
Por alguns segundos, não lembrava onde estava.
Então lembrou.
E a lembrança foi como engolir vidro.
Celular: 14 chamadas perdidas de Lara.
Mensagens:
“Por favor, vamos conversar.” “Cadê você.” “Me atende.” “Eu te amo.” “Não faz isso assim.”
Tereza encarou tudo sem responder.
Porque “assim” tinha sido do jeito que Lara fez tantas vezes. Brutal. Sem aviso. Sem consideração.
Dessa vez, o fim só tinha finalmente alcançado o que já vinha morrendo fazia tempo.
Ignorou.
Ao invés disso, abriu outra conversa.
Alexandra: Bom dia. Sobreviveu à noite ou preciso acionar reforços?
Tereza sorriu, ainda quebrada… mas sorriu.
Tereza: Sobrevivi. Infelizmente e com aparência de quem perdeu a guarda dos filhos.
Alexandra: Excelente. Humor preservado. Caso clínico promissor.
Tereza: Você é ridícula.
Alexandra: E você claramente gosta, porque continua respondendo.
Tereza ficou olhando para a tela.
O pior é que…
Talvez gostasse mesmo.
Não de um jeito perigoso. Não ainda.
Mas Alexandra tinha aquele tipo raro de presença que não invadia… Só ficava.
E, para alguém recém-saída de um amor que feriu tanto, isso já era imenso.
Nos dias seguintes, Lara continuou tentando.
Flores. Mensagens. Pedidos. Choro. Promessas recicladas.
Tereza quase cedeu duas vezes.
Na primeira, porque sete anos não desaparecem em 48 horas.
Na segunda… porque solidão pode ser cruel quando confunde saudade com abstinência emocional.
Mas, nas duas, Alexandra apareceu.
Como se tivesse radar para desastre iminente.
Tereza: Talvez eu devesse só conversar…
Alexandra: Ei
Tereza: O quê?
Alexandra: Se a casa pegou fogo sete vezes, talvez não seja o tapete.
Tereza arregalou os olhos… e depois riu tanto que precisou sentar.
Tereza: Você não tem um pingo de delicadeza.
Alexandra: Tenho sim. Tô delicadamente impedindo você de fazer merd*.
E assim, entre ruínas, ligações ignoradas e mensagens cada vez mais constantes…
Uma amizade cresceu ali.
Estranha. Ácida. Leve demais para o momento. Mas real.
Alexandra não tentava ocupar espaço. Não pressionava. Não flertava quando a dor sangrava mais alto.
Ela só estava ali.
Com piadas impróprias. Comentários afiados. E uma habilidade irritante de fazer Tereza rir quando tudo parecia desabar.
Talvez por isso assustasse tanto.
Porque depois de Lara… Depois de tanta mentira… Depois de tanto desgaste…
Tereza não esperava que algo novo pudesse surgir justamente quando ela estava reaprendendo a ficar sozinha.
E talvez esse fosse o começo mais perigoso de todos:
Quando alguém entra na sua vida não porque você estava procurando…
Mas porque, sem perceber, começou a fazer sentido ficar.
Fim do capítulo
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