Capitulo 5
Duas semanas.
Foram precisas duas semanas para Tereza perceber que sobreviver ao fim não significava necessariamente entender o que fazer depois dele.
Ela ainda chorava no banho às vezes. Ainda encarava a tela do celular por tempo demais quando Lara mandava mensagens longas demais. Ainda sentia o peito apertar ao lembrar de versões felizes de um relacionamento que, no final, tinha se tornado mais dor do que abrigo.
Mas também havia outras coisas agora.
Silêncio sem medo. Noites sem vigilância. Manhãs sem a sensação constante de estar emocionalmente pisando em vidro.
E… Alexandra.
Alexandra tinha virado rotina de um jeito que Tereza não percebeu quando começou.
Bom dia debochado. Memes aleatórios. Áudios inconvenientes. Perguntas sinceras escondidas entre ironias.
Era estranho.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, alguém estava presente sem exigir pedaços dela em troca
Naquela terça-feira, Tereza saiu do trabalho mentalmente exausta.
Lara tinha aparecido mais cedo.
Não fez escândalo. Não chorou. O que, de alguma forma, foi pior.
Só ficou parada perto da recepção, olhando como quem carrega sete anos inteiros no rosto.
— A gente pode conversar?
Tereza respirou fundo.
— Lara…
— Cinco minutos. Sem brigar. Sem manipular. Sem mentir. Eu juro.
E isso… Isso quase a destruiu.
Porque, por um segundo cruel, Lara parecia exatamente a mulher por quem ela se apaixonou. Não a que traiu. Não a que mentiu.
A primeira.
E talvez essa fosse a parte mais covarde do amor: Às vezes ele usa memórias boas para tentar sobreviver dentro de relações que já morreram.
Foram até uma cafeteria próxima.
Lara chorou. Pediu desculpas. Disse que estava fazendo terapia. Que tinha medo. Que se odiava pelo que fez. Que nunca quis perder Tereza.
E, pela primeira vez…
Tereza acreditou.
Acreditou que Lara sofria. Acreditou que talvez o arrependimento agora fosse real.
Mas acreditar nisso não mudou a verdade principal:
Ainda doía.
— Eu não duvido da sua dor, Lara — Tereza disse, com lágrimas queimando os olhos. — Só não posso transformar ela, de novo, em motivo pra ignorar a minha.
Lara chorou em silêncio.
— Então acabou mesmo?
Tereza queria mentir. Queria suavizar. Queria arrancar menos pele daquela despedida.
Mas não podia.
— Acabou.
Lara assentiu devagar, como quem finalmente ouviu algo que já sabia.
— Eu estraguei a melhor coisa que já tive, né?
Tereza sentiu o coração partir de um jeito novo.
Porque, talvez, sim.
Mas algumas verdades já não precisavam ser ditas em voz alta para machucar.
Naquela noite, Tereza chegou em casa emocionalmente drenada.
Jogou a bolsa no sofá, tirou os sapatos e ficou sentada no chão da sala nova — pequena, temporária, ainda sem identidade.
O celular vibrou.
Alexandra: Você sumiu. Isso geralmente significa crise, sono ou reconciliação duvidosa.
Tereza riu cansada.
Tereza: Crise.
A resposta veio imediata.
Alexandra: Sei que dói, quer falar sobre?
Tereza: Conversei com ex.
Silêncio.
Tereza quase conseguia imaginar Alexandra fechando os olhos e respirando fundo do outro lado.
Então:
Alexandra: Ah, o clássico esporte radical.
Tereza riu. De verdade.
Tereza: Você é insuportável.
Alexandra: E você claramente toma decisões emocionalmente perigosas.
Tereza: Foi só uma conversa.
Alexandra: Toda tragédia começa assim.
Tereza deitou no chão, encarando o teto.
Tereza: Ela parece arrependida.
Dessa vez, Alexandra demorou mais.
E quando respondeu… havia menos deboche.
Alexandra: Eu não duvido. Mas arrependimento e reparo são coisas diferentes. E, principalmente… arrependimento não apaga o que você precisou virar pra sobreviver.
Tereza ficou imóvel.
Porque aquilo… Aquilo ninguém tinha dito daquele jeito.
Nem amigas antigas. Nem sua própria consciência.
Tereza: Você sempre sabe o que dizer?
Alexandra: Não. Mas eu sei reconhecer quando alguém tá quase trocando paz por familiaridade.
Tereza sentiu os olhos encherem.
Não por romance. Não por carência.
Mas porque havia cuidado ali. Cuidado real.
Na madrugada, depois de horas conversando, o assunto finalmente ficou leve de novo.
Alexandra: Posso fazer uma observação delicada?
Tereza: Tenho medo da sua delicadeza.
Alexandra: Você é emocionalmente intensa demais pra alguém que claramente fingia estar bem.
Tereza: Isso foi um ataque?
Alexandra: Foi uma análise gratuita. Sou praticamente terapeuta.
Tereza: Formada onde?
Alexandra: Universidade Federal das Mulheres que Já Viram Merda Demais.
Tereza gargalhou alto, cobrindo a boca sozinha no apartamento vazio.
E, pela primeira vez… O vazio não pareceu tão cruel.
Os dias passaram, e algo estava mudando.
Não de forma explosiva. Nem óbvia.
Tereza começou a esperar pelas mensagens. Pelos áudios. Pelas interrupções inconvenientes. Pela forma como Alexandra conseguia ser ácida e acolhedora ao mesmo tempo.
E isso começou a assustá-la.
Porque Alexandra surgiu no caos. No luto. Na reconstrução.
E Tereza sabia que corações recém-partidos podem confundir salvação com sentimento.
Então, numa quinta-feira qualquer, resolveu perguntar:
Tereza: Posso te fazer uma pergunta séria?
Alexandra: Credo. Pode.
Tereza: Por que você ficou?
A resposta demorou mais do que o normal.
Minutos.
O bastante para Tereza se arrepender.
Até que chegou:
Alexandra: Porque, mesmo bêbada, triste e claramente problemática… você parecia alguém que precisava que alguém ficasse. E porque… eu quis.
Tereza releu. Uma. Duas. Cinco vezes.
Seu coração fez algo perigoso.
Algo pequeno.
Mas inegável.
Porque, depois de Lara… Depois de tudo…
Talvez o mais assustador não fosse se machucar de novo.
Talvez fosse perceber que, aos poucos…
Ela estava começando a sentir vontade de não afastar alguém.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: