Capitulo 6
Tereza não respondeu imediatamente.
Ficou encarando a mensagem como se, em algum lugar entre aquelas palavras simples, existisse uma armadilha.
Porque eu quis.
Seu peito apertou de um jeito estranho. Não dolorido. Não exatamente.
Só… novo.
E novidade, para alguém emocionalmente recém-saída de um incêndio, podia parecer suspeita.
— Tereza: Isso foi perigosamente gentil.
A resposta veio segundos depois.
— Alexandra: Calma. Não espalha. Tenho reputação a manter.
Tereza sorriu sozinha, deitada na cama, com o celular iluminando o rosto num quarto que ainda parecia temporário demais para chamar de seu.
— Tereza: Ah, claro. A grande ameaça emocional do grupo.
— Alexandra: Exato. Sou ácida, misteriosa e ocasionalmente carinhosa contra minha vontade.
— Tereza: Ocasionalmente?
— Alexandra: Não força.
Tereza riu, mas dessa vez não foi só pelo humor.
Foi porque, pela primeira vez em muito tempo, conversar até tarde com alguém não parecia fuga.
Parecia escolha.
Nos dias seguintes, a rotina entre elas ganhou novas camadas.
Não era só piada. Não era só distração.
No meio dos memes idiotas e provocações constantes, surgiam perguntas reais.
Você comeu?
Como foi seu dia? Conseguiu dormir?
Tá triste hoje?
Quer conversar?
E Tereza começou a perceber o perigo silencioso das pequenas coisas.
Porque não era intensidade. Não era promessa. Não era amor desesperado.
Era constância.
E constância, depois de Lara, tinha um peso quase íntimo.
Numa sexta-feira particularmente ruim daquelas em que a saudade aparece disfarçada de memória seletiva,
Lara mandou uma foto antiga.
As duas na praia. Sorrindo.
Felizes ou parecendo. Eu ainda penso na gente desse jeito.
Tereza ficou olhando para a imagem por tempo demais.
Porque amores ruins raramente são ruins o tempo todo. Esse era o problema.
Havia lembranças boas. Momentos lindos. Partes reais.
E, às vezes, isso bastava para confundir ferida com destino.
Seu dedo pairou sobre o teclado.
Quase respondeu.
Quase.
Mas, como se o universo estivesse debochando da previsibilidade emocional dela, outra notificação surgiu.
— Alexandra: Ei guria, posso te fazer uma pergunta?
Tereza piscou.
— Tereza: Meu Deus.
— Alexandra: Se você fosse presa hoje, qual amiga do grupo seria incapaz de sobreviver sem você?
Tereza soltou uma risada tão automática que a tensão quebrou na mesma hora.
Olhou para a foto de Lara. Depois para a conversa.
E, pela primeira vez, escolheu leveza conscientemente.
Bloqueou o número de Lara sem responder.
Então:
— Tereza: Primeiro: que tipo de pergunta é essa?
Segundo: claramente você.
A resposta veio quase instantânea:
— Alexandra: Correto. Você já aceitou que sou seu maior vínculo emocional online?
Tereza arqueou a sobrancelha.
— Tereza: Nossa, que arrogância.
— Alexandra: Não é arrogância se for estatisticamente óbvio.
Tereza ficou alguns segundos olhando para aquilo…
Até perceber.
Alexandra não tinha ideia do que tinha acabado de fazer.
Não sabia da foto, da recaída evitada, do espiral interrompida.
Mas, ainda assim ela tinha acabado de salvá-la de uma fraqueza.
De novo.
Naquela noite, Tereza tomou coragem para uma coisa que vinha evitando havia semanas.
Ligação.
— Se você rir da minha voz, eu desligo — Tereza avisou assim que Alexandra atendeu.
Do outro lado, silêncio.
Então:
— Meu Deus… você existe em áudio contínuo.
Tereza arregalou os olhos.
— Alexandra.
— Tô brincando… relaxa.
Mas havia um sorriso ali. Ela conseguia ouvir.
A voz de Alexandra era doce.
Rouca na medida certa. Debochada. Leve. Daquelas vozes que parecem sorrir antes mesmo da frase terminar e um sotaque gostoso de ouvir.
Conversaram por horas.
Sobre tudo. Sobre nada.
Infância. Traumas. Trabalho. Medos. Relacionamentos ruins. Música ruim. Sonhos esquecidos.
E, pela primeira vez, Tereza contou detalhes.
Não todos. Mas alguns.
Sobre Lara. Sobre as traições. Sobre o desgaste de amar alguém que a fez duvidar da própria lucidez.
Alexandra ficou em silêncio por mais tempo do que o habitual.
E, quando falou, não havia piada.
— Isso muda a forma como você se vê, né?
Tereza franziu a testa.
— Como assim?
— Quando alguém quebra sua confiança muitas vezes… às vezes você para de duvidar só da pessoa. Você começa a duvidar de você.
Do que viu, do que ignorou ou aceitou.
O silêncio de Tereza foi imediato.
Porque… Porque era exatamente isso.
É.
respondeu baixo demais.
— Acho que sim.
Alexandra suspirou.
— Então, só pra deixar registrado… talvez você precise parar de se culpar por ter acreditado e começar a valorizar que conseguiu sair.
Tereza fechou os olhos.
Sentiu o peito apertar. A garganta travar.
— Você sempre fala essas coisas e depois age como se fosse só debochada.
Alexandra riu do outro lado.
— Não estraga minha imagem.
Depois daquela ligação, alguma coisa mudou.
Não de forma escancarada. Mas mudou.
As mensagens continuaram engraçadas. As provocações também.
Só que agora havia pausas diferentes. Silêncios confortáveis. Uma intimidade cuidadosa crescendo onde nenhuma das duas parecia pronta para nomear.
E talvez fosse melhor assim.
Porque Tereza ainda estava se reconstruindo. E Alexandra… Alexandra parecia perigosa justamente porque não pressionava.
Na madrugada, antes de dormir, Tereza recebeu uma última mensagem:
Alexandra: Só pra constar…
— Tereza: Lá vem.
— Alexandra: Tua risada é melhor do que tua cantoria.
Tereza arregalou os olhos.
— Tereza: Você é profundamente irritante.
— Alexandra: E você tá sorrindo.
Tereza odiou perceber…
Que estava mesmo.
Fim do capítulo
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