Doze horas antes da partida
Sarah Solano
A sala de comando da Base Orbital Internacional não tinha janelas.
Sarah Solano sempre achou aquilo irônico. A humanidade havia aprendido a atravessar oceanos, sobreviver a guerras, curar doenças que antes pareciam sentenças e construir cidades suspensas sobre a Terra. Mesmo assim, quando chegou ao espaço, continuou escondendo o vazio atrás de paredes.
Talvez fosse medo, respeito ou talvez fosse apenas a velha mania humana de controlar até aquilo que não podia dominar.
Ela estava sentada diante de uma mesa escura, lisa e fria, observando o próprio reflexo distorcido na superfície polida. O uniforme azul-grafite da Frota Unificada estava impecável. Os cabelos loiro-escuros, presos em um coque baixo. A expressão, neutra. Sarah havia aprendido cedo que o rosto de uma comandante não podia denunciar tudo o que acontecia por dentro.
Do outro lado da mesa, o almirante Jonas Keller analisava um arquivo holográfico em silêncio. Tinha cabelos grisalhos cortados rente, pele escura e olhos tranquilos demais para alguém que estava prestes a enviar uma tripulação para dezoito anos de distância.
Sarah esperou alguns segundos antes de falar.
— O senhor não me chamou aqui para reler a autorização de lançamento.
Keller ergueu os olhos.
— Continua direta.
— Faltam doze horas para o embarque. Direta é uma necessidade operacional senhor.
—Tudo bem, só quero que saiba, que vou falar como seu amigo agora, não como almirante.
—Ok, pode falar.
Ele tocou a superfície da mesa. Entre os dois, surgiu a projeção de Éden-9.
O planeta girava devagar, envolto por tons de azul profundo, verde escuro e violeta. Duas luas pequenas orbitavam ao redor dele. Mesmo reduzido a uma imagem científica, havia algo incômodo naquela esfera. Sarah não saberia explicar. Talvez fosse a última transmissão de Iara Mendonza ecoando em sua memória. Talvez fosse a ideia absurda de que aquele planeta, mesmo a anos-luz de distância, parecia menos observado do que observador.
— Você revisou o dossiê da missão? — disse Keller.
— Revisei.
— O dossiê aprovado para a tripulação.
Sarah ficou imóvel.
— Existe outro.
Não era uma pergunta.
Keller deslizou um novo arquivo sobre a mesa. O selo do Conselho de Soberania Humana surgiu em vermelho discreto.
— Existe um anexo estratégico. Restrito ao comando da missão.
Sarah olhou para o selo. Protocolos restritos raramente nasciam de boas intenções puras.
— Quem mais conhece?
— Na Aurora, apenas você.
— Minha equipe médica?
— Não.
— A astrobióloga?
— Não.
— A IA da nave?
Keller demorou meio segundo a mais.
— Aurora terá acesso parcial apenas em contingência.
Sarah respirou devagar.
— Gosto cada vez menos dessa conversa.
— Eu ficaria preocupado se gostasse.
Ele abriu o arquivo.
— Oficialmente, a missão permanece a mesma: investigar a perda de contato com a Colônia Aurora Prime, confirmar a existência de sobreviventes, avaliar riscos biológicos e diplomáticos, estabelecer comunicação e determinar as condições reais de Éden-9.
— E extraoficialmente?
Keller sustentou seu olhar.
— Recuperar amostras estratégicas da biosfera neural, caso sua existência seja confirmada. Mapear capacidade de armazenamento de memória biológica. Avaliar aplicações médicas, cognitivas e defensivas. E impedir que qualquer inteligência planetária, humana adaptada ou consciência derivada exerça influência sobre sistemas terrestres sem autorização.
Sarah permaneceu em silêncio. A frase era limpa. Técnica. Fria. Por isso mesmo, perigosa.
— A última transmissão estava fragmentada — disse ela. — Trinta e dois anos de especulação não transformam hipótese em ameaça.
— Não estamos tratando como ameaça. Estamos tratando como possibilidade.
— Possibilidades não costumam vir acompanhadas de ordens secretas.
Keller tocou novamente a mesa. O arquivo mudou de página.
Sarah leu apenas o título.
Protocolo Semente Branca.
Sentiu o estômago contrair.
— Diga — pediu ela.
Keller retirou a mão da projeção.
— Em caso de ameaça existencial confirmada à Terra, às colônias humanas, às consciências sintéticas reconhecidas ou à integridade cognitiva da tripulação, o comando da Aurora está autorizado a ativar contenção orbital.
Sarah ergueu os olhos.
— Contenção orbital é uma expressão elegante para bombardeio esterilizante.
— É uma medida final.
— Medidas finais costumam ser escritas por pessoas que não estarão lá para acioná-las.
Keller não desviou o olhar.
— Por isso você está no comando.
A frase a atingiu com uma precisão desagradável.
Sarah sabia o que ele queria dizer. Sabia antes mesmo que ele usasse o nome que sempre ficava entre os dois, mesmo quando ninguém o pronunciava.
Calisto.
A estação de mineração onde ela precisou selar um setor inteiro para salvar o restante da tripulação. Vinte e sete pessoas sobreviveram. Oito morreram.
Nos relatórios, sua decisão foi considerada correta.
Nas noites ruins de insônia, isso não significava nada.
— Não use Calisto para justificar Éden-9 — disse ela.
— Eu não estou justificando. Estou dizendo que você sabe decidir quando não existe saída limpa.
Sarah se levantou e caminhou até a parede lateral. A tela exibia a Terra abaixo da estação. A América do Sul aparecia parcialmente coberta por nuvens. As redes urbanas brilhavam em pontos controlados, menores do que nos séculos anteriores. O planeta de 2247 parecia mais curado visto de longe.
A fome extrema havia sido praticamente erradicada. A pobreza absoluta, reduzida. Energia limpa abastecia a maioria das regiões. A medicina genética prolongara vidas. A educação global era um direito consolidado em quase todos os territórios.
Mas a humanidade apenas mudara a forma de disputar poder.
Antes, brigava por terra, petróleo, água e comida. Agora, brigava por dados, patentes, rotas, biotecnologia e conhecimento.
E se Éden-9 realmente guardasse memórias, curasse organismos e aprendesse com intenções humanas, seria o território mais cobiçado da história.
— A tripulação tem direito de saber — disse Sarah.
— A tripulação tem direito de não carregar informações que possam comprometer a estabilidade psicológica antes da chegada.
Ela virou o rosto para ele.
— Isso é mentira embalado em um uniforme bonito.
Keller suspirou.
— É contenção de risco Sarah.
— Não, é mentira.
Dessa vez, ele não respondeu.
Sarah voltou para a mesa.
— Por que incluir Roberta Almeida?
Keller pareceu esperar a pergunta.
— Porque ela é uma das poucas especialistas capazes de entender Éden-9 sem reduzi-lo imediatamente a recurso.
— Ela tem histórico de contestar protocolos militares.
— Sim.
— E o Conselho colocou uma astrobióloga anti-extrativista em uma missão com protocolo secreto de extração?
— O Conselho queria competência. Eu aprovei porque queria contrapeso.
Sarah estreitou os olhos.
— O senhor quer que eu comande ou que eu seja impedida?
— Quero que você escute antes de decidir.
A resposta ficou entre eles.
Sarah odiou o quanto ela fazia sentido.
Keller encerrou a projeção. O anexo estratégico foi transferido para o implante de comando dela com uma vibração discreta atrás da orelha direita. A partir daquele momento, o Protocolo Semente Branca fazia parte da missão. E parte dela.
Na porta, antes que Sarah saísse, Keller falou:
— Lembre-se de uma coisa. A Terra não é apenas os homens que assinaram esse protocolo.
Ela olhou por cima do ombro.
— O senhor espera que isso me conforte?
— Espero que complique.
Sarah deixou a sala sem responder.
O corredor da Base Orbital estava cheio. Técnicos, oficiais, cientistas e diplomatas circulavam entre telas de contagem regressiva, drones de carga e comunicados institucionais. Algumas pessoas endireitavam a postura ao vê-la passar. Outras olhavam duas vezes.
Sarah sabia o que viam.
A capitã da Aurora. A comandante da missão mais importante em trinta anos.
A sobrevivente de Calisto, a mulher que havia salvado vinte e sete pessoas e condenado oito. O heroísmo dependia muito da distância entre quem contava a história e quem morria dentro dela.
Ela seguiu até o elevador gravitacional. Ao entrar, a porta se fechou e a parede interna revelou a vista real da Terra. Por alguns segundos, não havia tela, filtro ou simulação. Apenas o planeta suspenso na escuridão.
Sarah observou a curvatura azul.
Em doze horas, deixaria tudo aquilo.
Em dezoito anos, talvez poderia começar a viagem de volta.
Para ela, por causa da suspensão biológica, a viagem pareceria muito menor. Meses subjetivos, talvez. Ciclos de sono, despertar, treinamento e revisão. Para a Terra, quase duas décadas inteiras.
Sua irmã estaria mais velha. Seus pais talvez não estivessem mais vivos. O mundo teria seguido adiante.
A porta do elevador se abriu no anel residencial temporário. Sarah caminhou até sua suíte, liberou a entrada por reconhecimento facial e parou ao ver uma pequena caixa de madeira sobre a cama.
Não deveria estar ali.
Aproximou-se com cautela. A tampa tinha uma constelação gravada. Órion. Dentro havia um relógio analógico antigo, de pulseira escura e mostrador preto. Ela o reconheceu no mesmo instante.
Pertencera ao pai.
Ele usava aquele relógio mesmo depois que implantes temporais tornaram objetos assim inúteis. Dizia que algumas coisas precisavam pesar no corpo para lembrar que o tempo não era apenas número.
Ao lado do relógio havia um cartão.
Para quando você fingir que não precisa de nada que veio de casa.
A letra era de Emma, sua irmã.
Sarah sentou-se na beira da cama e abriu a mensagem gravada no terminal privado. A imagem de Emma surgiu em uma varanda ensolarada, com plantas demais ao fundo e uma xícara entre as mãos.
— Oi, Sarah. Eu sei que você odeia mensagens dramáticas, então vou tentar não ser insuportável.
Sarah ficou imóvel.
— A mãe queria gravar comigo, mas chorou antes de começar. O pai escreveu um discurso sobre coragem histórica e responsabilidade moral, depois desistiu porque percebeu que você provavelmente corrigiria os dados dele mentalmente.
Sarah sorriu de leve.
— Eles estão orgulhosos. Eu também. Mesmo achando um absurdo você atravessar dezoito anos de espaço congelada dentro de uma nave porque aparentemente terapia convencional não era longe o suficiente.
Dessa vez, Sarah quase riu.
Emma ficou séria.
— Eu preciso dizer uma coisa. Você não é só aquilo que aconteceu em Calisto.
O sorriso desapareceu.
— Eu sei que você acha que aprendeu a conviver com isso porque consegue falar sobre o assunto sem alterar a voz. Mas isso não é cura. Isso é desempenho. Éden-9 não é Calisto. A Aurora não é aquela estação. Sua tripulação não são fantasmas esperando que você pague uma dívida.
Sarah respirou fundo.
— Volte diferente, se precisar — continuou Emma. — Volte mais velha, mais chata, com sotaque de nave ou casada com alguma cientista maluca. Eu vou reclamar, mas vou aceitar.
Sarah olhou para o terminal.
— Emma...
Como se pudesse ouvi-la, a irmã apontou para a câmera.
— E não faça essa cara. Você sempre gostou das complicadas. A família sabe.
Sarah riu baixo.
A gravação terminou com Emma pedindo que ela usasse o relógio. Não pela hora. Mas para lembrar que, quando tudo ficasse grande demais, o tempo ainda podia caber no pulso.
Sarah prendeu o relógio no braço esquerdo, era pesado, muito antigo e principalmente, humano.
— Capitã Solano — disse uma voz pelo terminal da suíte. — Seu próximo compromisso é a inspeção final do hangar em vinte e três minutos.
Sarah olhou para o teto.
— Aurora, eu pedi modo silencioso.
A voz da IA era calma demais.
— A instrução permitia exceções de agenda operacional.
— Naturalmente.
— Deseja revisar os relatórios de embarque?
— Não.
— Deseja revisar os perfis psicológicos da tripulação?
— Não.
— Deseja que eu registre a mensagem de Emma Solano como suporte emocional privado?
Sarah olhou para o relógio.
— Não.
— Deseja excluí-la?
— Também não.
Houve uma pausa breve.
— Entendido.
Sarah levantou-se, trocou o uniforme de reunião pelo de inspeção e deixou a suíte. A rotina ajudava. Conferir horários, validar relatórios, revisar riscos. Era assim que ela colocava cada emoção em uma prateleira segura, ainda que algumas insistissem em cair.
No hangar externo, a Aurora parecia maior do que em qualquer projeção.
A nave estava presa ao eixo da estação por braços mecânicos e cabos grossos. Sua fuselagem prateada refletia a luz do Sol. Os módulos de criogenia ficavam no anel central. Os laboratórios, no eixo inferior. Os motores de fusão ocupavam a parte traseira. As velas magnéticas estavam recolhidas, dobradas como asas adormecidas.
A Aurora era linda.
Sarah não gostava disso.
Máquinas feitas para levar pessoas ao desconhecido não deveriam parecer promessas.
Perto da plataforma principal, Mei Wang discutia com um técnico.
— Se o estabilizador responde com atraso na simulação, vai responder com atraso quando estivermos tentando não bater em uma montanha alienígena — dizia ela.
Mei era pequena, de cabelo preto na altura do queixo e expressão de quem considerava a incompetência uma ofensa pessoal.
Sarah se aproximou.
— Problema?
Mei virou-se.
— Capitã. O estabilizador lateral do módulo de descida três apresentou atraso. A equipe considera aceitável. Eu considero uma tentativa de homicídio com vocabulário técnico.
Sarah olhou para o técnico.
— Revisem.
— Mas o cronograma...
— Revisem.
O rapaz assentiu e saiu.
Mei sorriu.
— Gosto de você.
— Isso não é necessário para a missão.
— Melhor ainda.
Sarah continuou a inspeção.
No setor de engenharia, Sergey Ivanov estava com metade do corpo dentro de um painel aberto. Era grande, grisalho, de barba curta e mãos de quem parecia capaz de consertar uma nave ou derrubar uma parede usando a mesma paciência.
— Status? — perguntou Sarah.
Ele saiu do painel, batendo o ombro na lateral.
— Motores principais aprovados. Criogenia aprovada. Sistemas de contenção aprovados. O regulador térmico está irritante, mas vai obedecer.
Mei, que havia seguido Sarah pelo corredor, comentou:
— Máquinas não obedecem. Funcionam ou falham.
Sergey apontou uma ferramenta para ela.
— Pilotos chamam qualquer coisa que não entendem de falha.
Sarah interrompeu antes que a discussão crescesse.
— Quero relatório final em duas horas.
— Terá em uma — disse Sergey.
— Duas é suficiente.
— Eu sei, mas gosto de parecer impressionante.
Sarah seguiu para o interior da Aurora. O cheiro da nave era novo: metal, antisséptico, polímero e ozônio. Ainda não havia ali o odor humano das missões longas, de café reciclado, roupas reaproveitadas e medo escondido em silêncio.
No setor médico, encontrou Samira Al-Nasr revisando amostras em uma bancada. Ela era alta, de pele escura, olhar atento e uma elegância sóbria. O lenço cinza-azulado preso ao redor dos cabelos combinava com o uniforme sem parecer parte dele.
— Capitã — disse Samira, sem se virar. — Seus níveis de tensão estão elevados.
Sarah olhou para o sensor no teto.
— Aurora?
A IA respondeu rápido.
— Eu não informei.
Samira finalmente olhou para Sarah.
— Está no seu rosto.
Sarah decidiu que aquela médica poderia se tornar irritante.
— Status da tripulação?
— Aprovada. Mei dormiu pouco. Sergey está escondendo uma inflamação no ombro. Asha está em hiperatividade cognitiva, o que nela parece ser estado natural. Roberta Almeida ainda não embarcou.
Sarah registrou o último nome com mais atenção do que gostaria.
— Alguma pendência?
— Uma preocupação.
Samira abriu na tela os protocolos de contato com Éden-9.
— As diretrizes são contraditórias. O protocolo científico exige mínima interferência. O médico exige coleta de amostras. O diplomático pressupõe interlocução. O militar pressupõe ameaça.
Sarah observou os arquivos.
— Haverá hierarquia quando chegarmos.
— Pela cadeia de comando?
— Pela situação.
Samira a encarou.
— Situações costumam ser interpretadas por quem tem poder sobre elas.
Sarah sustentou o olhar.
— Está preocupada que tratemos Éden-9 como inimigo?
— Estou preocupada que a Terra tenha enviado uma missão científica para um planeta que talvez pense, mas tenha preparado a tripulação para agir como se pensamento só merecesse respeito quando se parece conosco.
A frase permaneceu na sala por alguns segundos.
— Boa preocupação — disse Sarah.
— Péssima resposta — disse Samira.
Sarah quase sorriu.
No eixo de navegação, Asha Patel estava cercada por projeções estelares. As rotas da Aurora se cruzavam em linhas luminosas, atravessando o Sistema Solar e seguindo para o ponto distante onde Éden-9 aguardava. Asha tinha cabelos longos presos em trança e olhos escuros concentrados nos mapas como se eles fossem uma língua antiga.
— Capitã — disse ela. — Estou finalizando a quarta camada de redundância comunicacional.
— Quarta?
— A terceira era suficiente. A quarta me deixa menos irritada com o conceito de silêncio interestelar.
Sarah observou a rota.
— Dezoito anos.
— Uma linha bonita demais para uma distância tão indecente — disse Asha.
— Isso é otimismo indiano?
— Não. É trauma matemático.
Sarah olhou para ela.
Asha sorriu de leve.
— Minha mãe era professora em Mumbai. Dizia que todo problema complexo tem duas armadilhas: achar que não tem solução ou achar que só tem uma. Vim para a Aurora porque Éden-9 talvez seja o primeiro problema que a humanidade não consiga dividir em partes menores.
Sarah gostou da frase.
— Posso perguntar algo? — disse Asha.
— Pode.
— A última transmissão de Iara Mendonza. A senhora acredita que ainda exista alguém vivo lá?
A resposta protocolar seria simples: não há dados suficientes, já a resposta honesta era outra.
Sarah não sabia se queria encontrar sobreviventes. Pessoas vivas significariam direitos, conflitos, mudanças biológicas possíveis, crianças nascidas em outro mundo, lealdades divididas. Ausência de sobreviventes seria mais simples.
E muito pior.
— Acredito que encontraremos respostas — disse Sarah.
Asha fez uma careta.
— Muito diplomática.
— Treinamento.
Antes que Sarah saísse, Asha chamou:
— Capitã. Há algo na última transmissão.
Sarah parou.
Asha isolou um trecho de áudio. A voz quebrada de Iara surgiu entre ruídos.
Éden-9 não é um planeta.
É uma consciência.
E ela...
Asha pausou.
— Sempre transcreveram essa parte como “e ela”. Mas existe uma camada por baixo do ruído. Não parece interferência.
Ela isolou uma frequência.
No início, Sarah ouviu apenas estática. Depois, algo mais.
Uma voz. Ou muitas vozes formando uma só.
Baixa.
Distante.
Quase feminina.
Quase vegetal.
Quase impossível.
Sarah sentiu a pele dos braços arrepiar sob o uniforme.
— O que diz? — perguntou.
Asha baixou o tom.
— Ainda não sei. Mas tenho certeza de uma coisa: o ruído não veio depois da transmissão.
Sarah olhou para ela.
— Veio antes.
As duas ficaram em silêncio.
— Não compartilhe essa análise por enquanto — disse Sarah.
— Ordem de comando?
— Sim.
Asha não gostou, mas assentiu.
— Sim, capitã.
Sarah deixou o setor com a sensação de que as doze horas haviam encolhido.
Ao voltar para o corredor principal, observou uma cápsula de criogenia sendo testada. A tampa transparente fechou sobre um manequim biométrico. Luzes azuis percorreram o interior. O sistema reduziu temperatura, metabolismo, consumo de oxigênio e atividade neural simulada.
Tudo perfeito e controlado, como se o desconhecido respeitasse planejamento.
— Capitã Solano?
Um oficial de embarque aproximou-se.
— A delegação científica chegou ao anel de transferência. Doutora Roberta Almeida está entre eles.
Por algum motivo, Sarah lembrou da mensagem de Emma.
“Casada com alguma cientista maluca.”
Afastou o pensamento imediatamente.
— Faça a triagem padrão.
— Sim, capitã.
Sarah foi até o acesso principal.
Os cientistas entravam em pequenos grupos, acompanhados por oficiais de biossegurança. Alguns pareciam emocionados. Outros, assustados. Todos carregavam a expressão de pessoas inteligentes o bastante para saber que inteligência não impedia ninguém de morrer.
Então ela viu Roberta Almeida.
A astrobióloga atravessou a escotilha com uma mala escura, uma mochila científica e uma capa rígida presa às costas. Provavelmente o violão autorizado como item sensível.
Tinha cabelos longos e escuros, olhos castanhos expressivos e uma presença difícil de ignorar. Usava o uniforme civil da missão como se tivesse aceitado a roupa, mas não a autoridade simbólica dela. Ao entrar, não olhou primeiro para Sarah. Olhou para a nave, para os cabos, para as paredes internas da Aurora.
E sorriu.
Como se cumprimentasse uma criatura viva.
Sarah soube naquele instante que aquela mulher seria um problema.
Roberta finalmente se aproximou e estendeu a mão.
— Capitã Solano?
O sotaque brasileiro era perceptível, mas o inglês fluía com naturalidade.
Sarah apertou sua mão.
— Doutora Almeida. Bem-vinda à Aurora.
— Obrigada. Ela é ainda mais bonita de perto.
Sarah soltou a mão.
— A nave?
Roberta olhou ao redor.
— Também.
Sarah não soube se aquilo era uma brincadeira e Roberta pareceu perceber.
— Desculpa. Humor de embarque. Piora quando estou nervosa.
— Está nervosa?
— Muito.
A honestidade foi tão direta que Sarah levou um segundo para responder.
— Não aparece.
— Em você também não.
As duas se olharam por um instante.
— Li seus relatórios — disse Sarah.
— Meus pêsames.
— São impressionantes.
— Então retiro os pêsames.
— Também li suas contestações aos protocolos militares de coleta em ecossistemas sensíveis.
— Essas são minhas melhores obras.
Sarah inclinou a cabeça.
— Espero que compreenda que esta missão exigirá respeito à cadeia de comando.
— Compreendo.
— Ótimo.
— Respeito não significa silêncio automático.
Mei, passando ao fundo, reduziu o passo descaradamente.
Sarah ignorou.
— Desde que também não signifique insubordinação automática.
Roberta pensou por um instante.
— Justo. Mas podemos combinar antes o que será considerado insubordinação? Só para eu não cometer alguma por acidente.
Mei tossiu uma risada.
Sarah olhou para ela. A piloto saiu fingindo urgência.
Roberta sorriu.
— Eu prometi a mim mesma que não discutiria nada nos primeiros dez minutos.
Sarah consultou o relógio.
— Durou menos de dois.
— Éden-9 mexe com meu autocontrole.
O nome do planeta mudou o clima da conversa.
— Por que veio? — perguntou Sarah.
Roberta ajustou a mochila no ombro.
— Porque a última transmissão de Iara Mendonza é a coisa mais assustadora e bonita que eu já vi.
Sarah permaneceu em silêncio.
— Passei metade da vida estudando organismos que a humanidade subestimou porque não constroem prédios, não assinam tratados e não falam nossa língua. Fungos que tomam decisões coletivas. Árvores que comunicam estresse. Bactérias que lembram. Ecossistemas que se reorganizam como se tivessem prudência. Aí aparece Éden-9, e a primeira pergunta de muita gente é: o que podemos tirar de lá?
Sarah observou o rosto dela.
— E qual deveria ser a primeira pergunta?
Roberta olhou para a nave. Depois para Sarah.
— Como devemos nos apresentar?
A resposta surpreendeu Sarah.
— Isso parece diplomacia.
— Não. É biologia. Na Terra, quando você entra em uma floresta, seu corpo se apresenta antes da sua boca. Cheiro, temperatura, respiração, microbioma, pressão no solo. O ambiente percebe. Você nunca chega invisível. Só chega ignorante.
Sarah não respondeu.
Roberta baixou a voz.
— Se Éden-9 sente intenção, então antes de qualquer palavra nós já estaremos falando.
A frase ficou entre elas.
Aurora interveio pelos alto-falantes.
— Doutora Roberta Almeida, sua bagagem científica foi autorizada. O violão requer armazenamento especial no compartimento de objetos sensíveis.
Roberta olhou para o teto.
— Obrigada, Aurora.
— Disponha.
Sarah olhou para o sensor.
— Com ela você é prestativa.
— A doutora Almeida agradeceu minha intervenção — respondeu a IA.
Roberta ergueu as sobrancelhas.
— Vocês duas já estão brigando?
— Não — disse Sarah.
— Estamos ajustando padrões de interação — disse Aurora.
Roberta sorriu.
— Entendi. Brigando.
Sarah decidiu encerrar aquilo antes que a própria nave escolhesse lados.
— Doutora, o oficial de embarque vai acompanhá-la ao módulo científico. Reunião geral em três horas.
— Estarei lá.
Roberta começou a se afastar, mas parou.
— Capitã.
Sarah olhou para ela.
— Sim?
— Eu sei que tenho fama de questionar. Mas não vim para dificultar seu trabalho.
— Então por que veio?
Roberta demorou um instante e quando respondeu, não havia humor.
— Porque, se Éden-9 for mesmo uma consciência, talvez a humanidade esteja prestes a encontrar a primeira forma de vida capaz de lembrar de nós por inteiro. E eu queria muito que, dessa vez, merecêssemos ser lembrados de um jeito menos vergonhoso.
Sarah não encontrou resposta imediata.
Roberta assentiu e seguiu com o oficial pelo corredor. A capa do violão balançava em suas costas como um detalhe impossível naquela nave imensa, tecnológica e militarmente supervisionada.
Sarah ficou observando por tempo demais.
Aurora permaneceu em silêncio por sete segundos antes de falar.
— Capitã.
— O que foi?
— Seu padrão cardíaco apresentou alteração.
— Aurora.
— Não comentarei.
— Acabou de comentar.
— Foi uma transição infeliz.
Sarah olhou para o teto.
— Ajuste isso antes que eu desligue seus módulos sociais.
— Ajustarei.
As luzes do hangar mudaram lentamente de branco para azul. A primeira chamada oficial ecoou pela Base Orbital Internacional.
— Tripulação da Aurora, iniciar fase final de embarque.
Sarah endireitou a postura.
A nave pareceu vibrar sob seus pés. Ou talvez fosse apenas o corpo dela, reconhecendo tarde demais o tamanho daquilo que estava prestes a acontecer.
No pulso, o relógio do pai seguia marcando segundos pequenos demais para uma missão tão grande.
Do lado de fora da estação, a Terra girava em silêncio.
Linda.
Imperfeita.
Faminta de futuro.
E, a dezoito anos de distância, Éden-9 aguardava.
Fim do capítulo
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