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Eden 9 - O mundo que lembrava por Gabi Reis

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Palavras: 3788
Acessos: 126   |  Postado em: 15/06/2026

Dez horas antes da partida

Roberta Almeida

São Paulo não dormia desde antes de existir céu suficiente sobre ela.

Roberta Almeida pensou nisso enquanto observava a cidade pela janela do apartamento. Lá embaixo, as avenidas suspensas brilhavam em linhas brancas e douradas, atravessando prédios altos, jardins verticais, passarelas transparentes e estações de transporte magnético. Acima, drones de serviço cruzavam o ar em silêncio, desviando das torres residenciais como insetos obedientes demais. A chuva fina da madrugada grudava nas superfícies de vidro e transformava tudo em reflexo.

A São Paulo de 2247 era mais limpa do que havia sido nos séculos anteriores. Mais organizada, mais verde, mais respirável. As antigas ilhas de calor haviam sido reduzidas por parques suspensos, corredores de ventilação e coberturas vegetais obrigatórias. O Tietê, que durante muito tempo fora lembrado como ferida aberta, agora corria sob sistemas de filtragem e proteção ambiental que escolares visitavam em excursões como quem visita um monumento à vergonha corrigida.

Mesmo assim, continuava sendo São Paulo.

Grande demais.

Rápida demais.

Convencida demais de que qualquer silêncio era tempo desperdiçado.

Roberta amava a cidade com a irritação íntima de quem ama algo que nunca facilita a vida de ninguém.

Na sala, a mala principal estava aberta sobre o sofá. Ao redor dela havia roupas, equipamentos científicos autorizados, dois livros físicos, três cadernos de anotação, um conjunto de amostras simbióticas desativadas, uma pequena imagem de madeira de Nossa Senhora Aparecida que pertencera à avó e uma pedra escura recolhida no litoral norte quando Roberta tinha doze anos.

A pedra não tinha valor científico, era só uma pedra e por isso mesmo, ela queria levá-la.

O problema era que a lista de itens pessoais da missão Aurora parecia ter sido escrita por alguém que considerava memória afetiva um risco de contaminação.

Roberta pegou a pedra, pesou-a na mão e suspirou.

— Você não vai passar na triagem, né?

A pedra, sabiamente, não respondeu.

Na parede, o terminal doméstico emitiu um som suave.

— Dez horas e doze minutos para a partida oficial da nave Aurora — informou a voz automatizada. — Transporte orbital programado para daqui a uma hora e quarenta minutos.

— Obrigada por aumentar minha ansiedade com precisão matemática — disse Roberta.

O terminal permaneceu educadamente calado.

Ela colocou a pedra de volta sobre a mesa e voltou a dobrar as roupas. Não precisava de muitas. A maior parte do tempo seria passada em suspensão biológica, em ciclos de sono profundo, despertar supervisionado, treinamento e revisão. Para seu corpo, a viagem de dezoito anos até Éden-9 pareceria muito menor. Para a Terra, não.

Esse era o detalhe que a parte racional dela compreendia perfeitamente e que a parte humana tentava recusar desde o primeiro dia.

Quando Roberta voltasse, se voltasse, São Paulo teria dezoito anos a mais.

Sua mãe teria dezoito anos a mais. Seus amigos, seus alunos, seus colegas, suas plantas, seus lugares preferidos, todos seguiriam envelhecendo enquanto ela atravessaria o espaço como uma carta enviada devagar demais.

Ela pegou um dos cadernos e abriu na primeira página.

Havia uma frase escrita ali, com a letra torta de sua avó Jandira:

Mata não é muda. A gente é que desaprendeu a escutar.

Roberta passou os dedos sobre as palavras.

A avó havia nascido no interior do Pará, filha de uma parteira e de um pescador que jurava ter visto a Iara uma vez, embora mudasse detalhes da história dependendo da quantidade de cachaça e da plateia. Quando jovem, Jandira mudou-se para São Paulo para trabalhar, estudar e sustentar a família. Trouxe na mala poucos objetos, muitas histórias e uma certeza que repetia sempre:

O mundo fala. Gente apressada chama de superstição.

Roberta cresceu ouvindo sobre Curupira confundindo caçadores gananciosos, Boitatá protegendo campos contra incêndios, Mãe d’Água atraindo quem desrespeitava rios, matas que puniam arrogância e bichos que avisavam antes da chuva. Quando criança, acreditava em tudo literalmente. Depois cresceu, estudou biologia, fez doutorado, mergulhou em ecossistemas extremos, publicou artigos, discutiu biosemiótica em congressos e aprendeu a trocar a palavra encantamento por comunicação ambiental, mas nunca abandonou completamente a primeira língua.

A da avó.

A língua em que floresta tinha intenção, rio tinha humor e silêncio também era resposta e talvez por isso a última transmissão de Iara Mendonza a tivesse atingido de um jeito tão profundo.

Éden-9 não é um planeta.

É uma consciência.

A frase poderia ter sido dita em um laboratório avançado, em uma conferência científica ou em um relatório militar, mas, para Roberta, havia nela algo antigo, algo que sua avó entenderia antes de muitos doutores.

Um mundo que lembra.

Um mundo que reage.

Um mundo que sabe quando alguém chega querendo tomar.

A campainha tocou.

Roberta fechou o caderno.

— Entra, Lia.

A porta abriu e Lia Torres surgiu carregando duas embalagens térmicas, uma mochila pendurada de qualquer jeito e uma expressão de quem já estava se esforçando para não chorar.

— Eu trouxe café e pão de queijo — disse Lia. — Porque, se você vai abandonar o planeta, pelo menos abandona com carboidrato.

Roberta sorriu.

— Tecnicamente, não estou abandonando.

— Tecnicamente, você vai entrar numa nave, dormir congelada e acordar quase duas décadas depois em outro sistema estelar. Para mim isso entra na categoria abandono com doutorado.

Lia entrou sem pedir licença, como fazia desde a faculdade. Era engenheira ambiental, pesquisadora em recuperação de biomas urbanos e a melhor amiga de Roberta havia vinte anos. Tinha o cabelo raspado de um lado, tatuagens nos braços e uma habilidade rara de transformar tragédia iminente em sarcasmo funcional.

Ela colocou as embalagens sobre a mesa e olhou a mala aberta.

— Você está levando pouco.

— Limite de peso.

— Está levando o violão?

Roberta apontou para a capa rígida encostada perto da porta.

— Está autorizado como item sensível.

Lia ergueu uma sobrancelha.

— Item sensível?

— Madeira antiga. Valor afetivo. Risco de dano em armazenamento comum.

— Bonito. Mentiu com vocabulário técnico.

— Não menti. Só omiti que também pretendo tocar Chico Buarque para um planeta neural.

Lia ficou olhando para ela por um segundo.

— É por isso que eu vou sentir sua falta. Ninguém mais fala coisas absurdas com essa convicção elegante.

Roberta riu, mas o riso saiu menor do que gostaria.

As duas se sentaram no chão da sala, como faziam quando eram estudantes e ainda acreditavam que uma tese difícil era o maior problema que a vida podia oferecer. Lia abriu as embalagens. O cheiro de café forte se espalhou pelo apartamento, misturando-se ao perfume úmido da chuva contra a janela.

Por alguns minutos, comeram em silêncio.

Era um silêncio estranho.

Não vazio.

Cheio demais.

Lia foi a primeira a quebrá-lo.

— Sua mãe ligou?

Roberta assentiu.

— Três vezes.

— Chorou?

— Na primeira. Na segunda tentou ser forte. Na terceira me perguntou se em Éden-9 teria sinal para chamada de vídeo.

— E você disse?

— Que entre sistemas estelares as chamadas não funcionam como ela gostaria.

— Péssima filha.

— Eu também disse que deixei mensagens gravadas para todos os aniversários dos próximos anos.

Lia parou com o copo de café no ar.

— Você fez isso?

Roberta olhou para a janela.

— Fiz.

— Roberta...

— Não começa.

— Eu nem falei nada.

— Seu silêncio falou.

Lia respirou fundo.

— Você sabe que isso é cruel, né?

Roberta virou-se para ela.

— O quê?

— Deixar mensagem para cada aniversário como se pudesse controlar a própria ausência.

A frase doeu porque era verdadeira.

Roberta passou a mão pelos cabelos.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

— Sei. Mas era isso ou deixar silêncio. E eu odeio silêncio sem intenção.

Lia olhou para ela com uma ternura cansada.

— Você está com medo.

Roberta riu pelo nariz.

— Muito.

— De morrer?

— Também.

— Do quê mais então?

Roberta demorou a responder.

Olhou para a mala, para o violão, para os cadernos, para a imagem de madeira da avó. Depois olhou para a cidade lá fora, brilhando como se não soubesse que estava prestes a deixá-los por muitos anos.

— Tenho medo de voltar e não caber mais aqui — disse enfim.

Lia não respondeu.

— Tenho medo de chegar lá e descobrir que a Terra não aprendeu nada. Que Éden-9 é real, vivo, consciente, e que a primeira coisa que vamos fazer é tentar catalogar, cortar, patentear, vender e militarizar. Tenho medo de olhar para uma coisa sagrada e estar acompanhada de gente treinada para perguntar quanto vale.

Lia abaixou o copo.

— Você acha que vai ser assim?

— Acho que existe uma chance grande.

— Então por que vai?

Roberta fechou o caderno no colo.

Essa era a pergunta a que todos haviam feito, de formas diferentes.

A mãe perguntara com medo, os colegas, com inveja disfarçada de curiosidade, o conselho científico, com orgulho institucional e ela mesma perguntava todas as noites, quando a coragem ficava menos convincente.

— Porque alguém como eu precisa estar lá — disse Roberta. — Não porque eu seja especial. Mas porque eu sei reconhecer quando a palavra descoberta começa a ser usada como desculpa para invasão.

Lia observou-a com atenção.

— Você fala como se fosse proteger um planeta inteiro.

— Ridículo, né?

— Bastante.

Roberta sorriu.

Lia segurou sua mão.

— Mas combina com você.

A garganta de Roberta apertou.

Ela odiava despedidas justamente por isso. Pessoas queridas tinham a mania cruel de dizer a verdade quando já não havia tempo suficiente para se defender dela.

— Eu li de novo a transmissão da Iara — disse Lia. — Ontem à noite.

Roberta ergueu os olhos.

— E?

— Continua me dando arrepios.

— A mim também.

— Aquela parte sobre o planeta saber intenção...

— Sim.

Lia apertou sua mão.

— Então chega lá direito.

Roberta riu baixo, emocionada.

— Esse é o plano científico oficial?

— É o plano da sua melhor amiga, que é muito superior.

— Chegar direito.

— Exatamente. Sem arrogância. Sem heroísmo idiota. Sem tentar abraçar planta venenosa porque sentiu uma conexão ancestral.

Roberta levou a mão ao peito.

— Isso foi específico.

— Conheço meu público.

As duas riram.

Depois choraram.

Não imediatamente. Não de forma bonita. Foi acontecendo aos poucos. O riso falhou, os olhos encheram, Lia tentou fingir que estava tudo bem, Roberta tentou acompanhar, e em poucos segundos as duas estavam abraçadas no chão da sala, cercadas por mala aberta, pão de queijo, café e objetos pequenos demais para representar uma vida inteira.

— Dezoito anos é muito tempo — sussurrou Lia.

Roberta fechou os olhos.

— Eu sei.

— Para você não vai parecer tanto.

— Isso não ajuda.

— Não mesmo.

Lia se afastou primeiro e limpou o rosto com a manga.

— Pronto. Momento emocional encerrado. Agora preciso fiscalizar sua mala porque você é capaz de esquecer meia necessária e levar pedra proibida.

Roberta olhou para a mesa.

— Sobre a pedra...

— Não.

— Ela é pequena.

— Não.

— Tem valor simbólico.

— A triagem orbital não liga para valor simbólico.

— Cruel.

— Realista.

Lia levantou-se e começou a revisar os itens com a autoridade de quem havia assumido o caos alheio sem pedir permissão. Roberta deixou. Gostava daquela forma prática de cuidado. Lia não dizia “vou sentir sua falta” a cada minuto. Ela conferia meias, organizava remédios, etiquetava carregadores e decidia quais lembranças tinham chance de sobreviver à burocracia espacial.

Quando chegou à imagem de madeira da avó, Lia segurou o objeto com cuidado.

— Essa passa?

Roberta hesitou.

— Talvez não.

— Então leva no bolso até alguém mandar tirar.

— Isso é contrabando emocional?

— É resistência cultural.

Roberta pegou a pequena imagem e sorriu.

A avó Jandira não era exatamente religiosa no sentido convencional. Frequentava missa quando queria agradecer, terreiro quando queria conselho, benzedeira quando a ciência demorava demais e roda de histórias quando precisava lembrar que o mundo era maior do que qualquer doutrina. Dizia que fé, para ela, era uma forma de respeito diante do que ainda não se compreendia.

Roberta herdara isso.

Não a religião.

O respeito.

O terminal doméstico soou novamente.

— Transporte orbital em uma hora.

Lia fechou a mala.

O som do lacre pareceu definitivo demais.

Roberta levantou-se e caminhou até a estante. Pegou o violão com cuidado. A madeira era antiga, restaurada muitas vezes. Pertencera ao avô, depois à mãe, depois a ela. Tinha pequenas marcas no tampo e um som mais doce do que perfeito.

Na infância, sua avó dizia que música era uma das poucas coisas que atravessavam fronteiras sem pedir visto.

Roberta não sabia se isso valeria para Éden-9.

Mas queria testar.

— Você vai mesmo levar esse trambolho? — perguntou Lia.

— Vou.

— Para um planeta consciente?

— Principalmente.

— E se ele odiar música brasileira?

Roberta colocou a capa nas costas.

— Aí teremos o primeiro conflito diplomático honesto da missão.

Lia balançou a cabeça.

— Impossível sentir saudade de você com dignidade.

Antes de sair, Roberta foi até a varanda. A chuva havia diminuído. São Paulo brilhava sob a névoa, imensa e viva. Ali, de algum modo, estavam todas as contradições que ela levaria consigo: ciência e superstição, concreto e mata, ganância e cuidado, ruído e memória.

A Terra não era apenas seus governos.

Não era apenas suas corporações, suas guerras antigas, suas vaidades e seus tratados escritos por pessoas que nunca tocavam o chão que decidiam explorar.

A Terra também era Lia trazendo café, sua mãe perguntando se haveria chamada de vídeo, sua avó dizendo que mata não era muda, crianças aprendendo em escolas públicas sobre rios que um dia foram mortos e depois recuperados, cientistas tentando fazer perguntas melhores e gente plantando árvores em lajes. Roberta queria acreditar que Éden-9 poderia conhecer essa Terra também, não só a outra.

A faminta.

A armada.

A que chamava desejo de progresso.

O transporte chegou com um pulso luminoso na fachada do prédio. Um veículo aéreo discreto, enviado pela Frota, aproximou-se da plataforma externa. Lia pegou uma das malas antes que Roberta protestasse.

— Últimos conselhos — disse ela, enquanto caminhavam para a saída. — Não morra. Não seja presa por insubordinação. Não tente namorar a comandante se ela tiver cara de problema.

Roberta parou.

— O quê?

— Ah, por favor. Eu vi nas notícias quem eram os tripulantes e você tem um padrão.

— Eu nem conheci a mulher.

— Não precisa. O universo vai te entregar uma comandante rígida, emocionalmente fechada, bonita de um jeito irritante e possivelmente com algum trauma mal resolvido. Você vai chamar isso de desafio ético e se apaixonar em câmera lenta.

Roberta abriu a boca.

Fechou.

— Você tem uma imaginação preocupante.

— Tenho histórico.

— Eu vou trabalhar.

— Claro. E eu sou uma senhora discreta.

As duas chegaram à plataforma. O vento úmido levantou alguns fios do cabelo de Roberta. O veículo abriu a porta lateral com suavidade.

Por um instante, nenhuma das duas se mexeu.

Lia tentou sorrir.

Não conseguiu.

— Quando você voltar, eu vou estar mais velha — disse ela.

Roberta sentiu os olhos arderem.

— Eu sei.

— Talvez mais sábia.

— Não vamos exagerar.

Lia riu chorando.

— Vou guardar suas plantas.

— A samambaia da cozinha é dramática.

— Já nos entendemos.

— E minha mãe...

— Eu vou visitar. Prometo.

Roberta assentiu. Não confiou na voz.

Lia a abraçou com força.

— Chega lá direito — sussurrou.

Roberta fechou os olhos.

— Eu vou tentar.

— Não. Tenta não. Faz.

Roberta apertou a amiga uma última vez.

Depois entrou no veículo.

A porta se fechou.

Lia ficou na plataforma, diminuindo aos poucos enquanto o transporte se afastava do prédio e subia entre as torres. Roberta manteve a mão contra o vidro até a amiga virar apenas uma forma pequena sob a chuva.

O veículo ganhou altitude, São Paulo se abriu abaixo dela.

As avenidas suspensas viraram linhas. Os prédios, blocos luminosos. Os jardins verticais, manchas verdes no concreto. O rio, uma fita escura refletindo luzes. A cidade inteira parecia uma placa de circuito viva, pulsando, respirando, insistindo.

Roberta encostou a testa no vidro.

— Não deixa a gente fazer feio — murmurou.

Não sabia exatamente para quem falava.

Para a Terra.

Para a avó.

Para Éden-9.

Talvez para si mesma.

No trajeto até o elevador orbital sul-atlântico, recebeu a última chamada da mãe. Atendeu.

O rosto de Helena Almeida surgiu na tela do veículo. Tinha sessenta e oito anos, cabelos grisalhos presos em coque e os olhos castanhos que Roberta herdara. Atrás dela, a cozinha da casa parecia iluminada demais para a hora.

— Filha.

A palavra quase desfez Roberta.

— Oi, mãe.

— Já está indo?

— Estou.

Helena respirou fundo.

— Você comeu?

Roberta sorriu.

— Lia trouxe pão de queijo.

— Menos mal. Você ia esquecer.

— Eu não ia esquecer.

— Ia.

Roberta não discutiu.

A mãe olhou para ela em silêncio por alguns segundos.

— Sua avó ficaria impossível hoje.

— Por quê?

— Porque diria que sempre soube que você ia conversar com estrela.

Roberta riu, mas uma lágrima escapou.

— Ela diria que estrela responde?

— Diria que responde, mas só para quem pergunta sem arrogância.

Roberta fechou os olhos por um instante.

— Mãe...

— Eu sei. Não vou fazer discurso.

— Pode fazer um pouco.

Helena sorriu com tristeza.

— Então escuta. Vai com coragem, mas não com pressa. Vai com ciência, mas não sem respeito. E lembra que nem tudo que parece milagre é mentira. Às vezes é só uma verdade que ainda não aprendeu nosso idioma.

Roberta cobriu a boca com a mão.

— Isso foi muito avó Jandira.

— Eu também fui criada por ela.

As duas sorriram.

O sistema do veículo informou que a zona de transferência orbital estava próxima.

Helena ouviu o aviso e endireitou a postura, como se também precisasse se preparar.

— Eu te amo — disse.

Roberta sentiu o peito apertar.

— Eu também te amo.

— E vê se volta.

— Vou fazer o possível.

— Não gostei da resposta.

— É a resposta honesta.

Helena assentiu, mesmo sem gostar.

— Então volta se puder. E, se não puder, que pelo menos você encontre algo que mereça tanto a sua teimosia.

A chamada terminou poucos minutos depois, Roberta ficou olhando para a tela apagada até o veículo iniciar a desaceleração.

O elevador orbital erguia-se à frente como uma linha impossível ligando oceano, céu e espaço. Sua base ficava em uma plataforma atlântica, cercada por anéis de segurança, torres de lançamento, centros de triagem e campos de estabilização. De perto, parecia menos uma construção e mais uma decisão tomada contra os limites naturais da espécie.

Roberta passou por três verificações biométricas, duas inspeções de bagagem, uma análise microbiológica e uma entrevista final com uma psicóloga da Frota que perguntou, com voz delicada, se ela compreendia o impacto emocional da missão.

Roberta respondeu que sim.

Era uma mentira parcial.

Ninguém compreendia de verdade o impacto de deixar a Terra por no mínimo dezoito anos.

Só assinava o termo.

Na última triagem, a pequena imagem da avó foi retida por alguns minutos. Roberta sentiu uma irritação desproporcional ao ver o objeto dentro de uma cápsula de análise, como se parte da família estivesse sendo julgada por um comitê estéril.

O agente verificou os dados e autorizou.

— Material orgânico estabilizado. Sem risco.

Roberta pegou a imagem com cuidado.

— Eu avisei.

O agente não entendeu.

Melhor assim.

No módulo de ascensão, ela se sentou junto a outros cientistas e técnicos que também embarcariam na Aurora para os últimos ajustes. Ninguém falou muito. Havia um tipo específico de silêncio antes de grandes partidas. Não era falta de assunto. Era excesso.

Quando o elevador começou a subir, o corpo de Roberta afundou levemente contra o assento. Pela janela, a plataforma oceânica diminuiu. Depois o mar se alargou. Depois as nuvens vieram. Depois a curvatura da Terra começou a se insinuar, lenta e absurda.

Ela já estivera em órbita antes, mesmo assim, nunca se acostumara, talvez ninguém devesse.

A Terra apareceu inteira aos poucos, azul, branca, marrom, verde, luminosa. Um organismo que a humanidade ferira, explorara, amara, recuperara parcialmente e continuava tentando entender tarde demais.

Roberta pensou em Éden-9.

Em um planeta que talvez não precisasse ser salvo.

Talvez precisasse apenas não ser ferido.

Pensou na sociedade matricêntrica descrita em hipóteses levantadas a partir dos poucos dados coloniais. Mulheres conduzindo decisões não por inversão brutal de poder, mas por conexão mais profunda com a biosfera neural. Um mundo onde liderança talvez tivesse nascido menos da força e mais da escuta. Roberta não sabia o quanto disso era real e o quanto era projeção humana sobre dados insuficientes.

Mas queria descobrir.

Queria ver se uma civilização poderia evoluir sem transformar domínio em destino.

Queria saber se cuidado, em escala planetária, podia ser uma tecnologia.

O módulo alcançou a Base Orbital Internacional horas depois.

Roberta saiu para o corredor de transferência carregando a mala, a mochila e o violão. A gravidade artificial era suave, mas seu corpo sentiu a diferença. O ar tinha cheiro de metal limpo, filtros novos e ausência de chuva.

Sentiu falta de São Paulo imediatamente.

Seguiu com o grupo até o hangar da Aurora.

Quando a viu, esqueceu por alguns segundos como respirar.

A nave era imensa, prateada, silenciosa. Não parecia apenas máquina. Havia nela uma elegância quase animal, como se dormisse antes de abrir asas. Cabos grossos a prendiam à estação. Drones se moviam ao longo da fuselagem. Luzes azuis percorriam seus flancos.

Roberta parou depois da escotilha.

Sorriu sem perceber.

— Oi — sussurrou.

Não sabia se falava com a nave, com a missão ou com o futuro.

Então viu Sarah Solano.

A capitã estava a poucos metros, usando uniforme de inspeção, postura reta, cabelos presos, olhos claros atentos e uma expressão cuidadosamente controlada. Era mais bonita do que nos arquivos. Não de uma beleza suave. Era uma beleza firme, quase perigosa, dessas que pareciam ter sido moldadas por disciplina, perda e decisões difíceis.

Lia teria feito um comentário insuportável.

Roberta agradeceu mentalmente por ela não estar ali.

A capitã se aproximou.

— Doutora Almeida. Bem-vinda à Aurora.

Roberta estendeu a mão.

— Obrigada. Ela é ainda mais bonita de perto.

A capitã soltou sua mão devagar.

— A nave?

Roberta olhou ao redor.

— Também.

Por um segundo, viu a dúvida atravessar o rosto controlado de Sarah.

E, contra todo bom senso, achou graça.

Sim, pensou Roberta.

Problema.

Mas havia pouco tempo para se arrepender.

A chamada de embarque ecoou pelo hangar.

A Aurora aguardava.

Éden-9 aguardava.

E Roberta, com o coração ainda preso em São Paulo e os olhos voltados para as estrelas, deu o primeiro passo para dentro da nave.

Fim do capítulo


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